Em 2021, o INSS concedeu 823 benefícios por incapacidade temporária por esgotamento profissional. Em 2025, foram 7.595.
O número aparece numa matéria do Estado de Minas de 24 de setembro, com dados atribuídos ao Ministério da Previdência Social.
A coincidência que confunde
O mesmo texto diz que os afastamentos por burnout subiram 823% em quatro anos. Parece erro de digitação, porque 823 é também o número de benefícios de 2021. A conta fecha.
7.595 dividido por 823 dá 9,23. O total se multiplicou por pouco mais de nove, o que corresponde a um aumento de 823%. Os dois 823 são coincidência aritmética.
O que é burnout, pela OMS
A Organização Mundial da Saúde incluiu o burnout na 11ª revisão da Classificação Internacional de Doenças, a CID-11, como fenômeno ocupacional. Ele entra no capítulo de fatores que influenciam o estado de saúde, e a OMS deixa claro que não o classifica como condição médica.
A definição: uma síndrome resultante de estresse crônico no trabalho que não foi administrado com sucesso. Três marcas a caracterizam:
- sensação de esgotamento ou falta de energia;
- distância mental do trabalho, ou negativismo e cinismo em relação a ele;
- queda da eficácia profissional.
A OMS acrescenta que o termo vale só para o contexto do trabalho, não para outras áreas da vida.
O que muda na empresa
Segundo o Estado de Minas, a Norma Regulamentadora nº 1, do Ministério do Trabalho e Emprego, passou a incluir fatores de risco psicossociais no gerenciamento de riscos ocupacionais.
Na prática, riscos como sobrecarga e assédio passam a entrar no mesmo inventário em que já estavam o barulho e a máquina sem proteção.
A matéria não informa a data de vigência dessa exigência, e eu não consegui confirmá-la no site do ministério.
O trabalho também tira o sono
Na Pesquisa Global do Sono 2026 da Resmed, com 30 mil pessoas em 13 países, 58% disseram que a carga de trabalho alta atrapalha o sono.
No Brasil, 53% disseram que a saúde do sono não é prioridade no ambiente de trabalho, e 58% admitiram ter pedido licença médica pelo menos uma vez no ano por estarem exaustos depois de uma noite mal dormida.
E o estresse que não passa deixa marca física. Um estudo do Imperial College London divulgado em 21 de setembro ligou inflamação crônica, associada a sofrimento psicológico e desvantagem social, a mudanças no formato do coração em quase 480 mil britânicos.
O que o número não diz
Benefício concedido mede diagnóstico e acesso ao INSS, não só adoecimento. Parte da alta pode vir de mais gente reconhecendo o problema e de mais médicos registrando o diagnóstico. Os dados publicados não permitem separar uma coisa da outra.
A resposta
O Brasil passou de 823 para 7.595 afastamentos por esgotamento profissional em quatro anos. A norma de segurança do trabalho agora pede que a empresa olhe para o que adoece a cabeça, e não só para o que machuca o corpo.
Se o cansaço virou rotina e o trabalho parece não ter mais sentido, a conversa é com um médico ou psicólogo. Se o sofrimento ficar pesado, o CVV atende de graça, 24 horas, pelo 188.







