A resposta em três linhas
Existe um nome técnico para o que você sente quando pensa na urna: voto negativo. É quando a escolha começa pelo "esse não" e só depois, se sobrar, pelo "esse sim". Isso não é impressão de quem olha a internet. Está medido, com número, desde 1980.
No Brasil de hoje, 30% dos eleitores dizem ao Datafolha que votam principalmente para evitar que outro candidato chegue à Presidência. Não para eleger alguém. Para impedir alguém.
E tem uma parte que quase ninguém conta: a raiva não fica na urna. Ela vai junto para a mesa de domingo e para o grupo de WhatsApp da família. 52,7% dos brasileiros já romperam ou se afastaram de alguém próximo por causa de política.
Eu fui ver o que a ciência já mediu sobre isso. Tem estudo de ciência política com quarenta anos de dados, tem exame de ressonância magnética olhando o cérebro de quem é contrariado, tem pesquisa com 32 mil pessoas testando 25 jeitos de baixar a temperatura. Está tudo aqui, com fonte e data. E no fim eu deixo uma régua de quatro perguntas para você se testar.
Este texto tem opinião. Eu torço pelo Augusto Cury e não escondo. O que joga contra a minha opinião está no fim, sem suavizar.
O que é voto negativo, em português de casa
Imagine duas pessoas na fila da urna.
A primeira sabe o nome de três coisas que o candidato dela promete fazer. Ela vota por aquilo.
A segunda não sabe dizer nenhuma. Mas sabe, com o corpo inteiro, quem ela não quer ver sentado na cadeira. Ela vota contra.
As duas apertam botão igual. O voto vale o mesmo. Mas o que acontece depois da eleição é completamente diferente, e eu volto nisso no fim.
A ciência política tem duas palavras para isso:
| Termo técnico | O que quer dizer na sua vida |
|---|---|
| Voto negativo | Você escolhe pensando primeiro em quem quer barrar |
| Partidarismo negativo | Você não tem partido; você tem um partido que odeia |
| Polarização afetiva | A raiva do outro lado é do mesmo tamanho da torcida pelo seu |
| Voto de castigo | Você vota para punir quem está no poder, não para premiar quem entra |
Repare que nenhuma dessas quatro coisas é sobre proposta. Todas são sobre sentimento. É por isso que argumento não resolve. Eu explico o motivo lá embaixo, quando chegar no cérebro.
O número que mostra o tamanho da mudança
O trabalho mais citado sobre isso é de dois professores da Universidade Emory, nos Estados Unidos: Alan Abramowitz e Steven Webster. O artigo saiu na revista Electoral Studies em 2016 e se chama, em tradução livre, "A ascensão do partidarismo negativo".
Eles usaram a maior pesquisa eleitoral americana, o American National Election Studies, que pergunta a mesma coisa há décadas. Uma dessas perguntas é o "termômetro de sentimento": dê uma nota de 0 a 100 para cada partido, sendo 50 o morno.
O que eles acharam é simples de entender e difícil de esquecer.
Nota média que o eleitor americano dá aos partidos, de 0 a 100
Fonte: ANES, compilado por Abramowitz e Webster, Electoral Studies, 2016
Leia de novo com calma. O amor pelo próprio lado quase não mudou em trinta anos: saiu de 72 e ficou em 70. O que mudou foi o ódio pelo outro lado, que caiu de 45 para 30.
A frase dos autores é direta:
"the substantial increase in polarization of party feeling thermometer scores over the past three decades was entirely due to increasingly negative ratings of the opposing party"
Em português: todo o aumento da divisão veio de o eleitor passar a detestar mais o adversário. Não de gostar mais do próprio time.
Entre os eleitores mais fiéis, a queda é ainda mais feia. A nota dada ao partido adversário foi de 41 para 24. Entre os eleitores mornos, de 47 para 36. Entre os independentes que se inclinam para um lado, de 48 para 35. Ninguém escapou.
E mais um número, que é o que resume tudo:
A nota dada ao partido adversário, nos Estados Unidos
Em trinta e dois anos, os dois números trocaram de lugar.
Os autores mostram ainda uma coisa que parece detalhe e não é: a nota que a pessoa dá ao próprio partido e a nota que ela dá ao outro são quase independentes uma da outra. A correlação média entre 1978 e 2012 é de 0,09 negativo. Descontando a força da identificação partidária, cai para 0,01 negativo, que na prática é zero.
Tradução: amar o seu e odiar o outro são dois botões separados. Dá para apertar um sem apertar o outro. Só que o país inteiro apertou o segundo.
Quando o partido passou a incomodar mais do que o time de futebol
Em 2019, cinco pesquisadores de Stanford, Pensilvânia e Dartmouth publicaram uma revisão de tudo o que já tinha sido medido sobre o assunto. Eles deram nome ao fenômeno: polarização afetiva.
A definição, palavra por palavra:
"Ordinary Americans increasingly dislike and distrust those from the other party. Democrats and Republicans both say that the other party's members are hypocritical, selfish, and closed-minded, and they are unwilling to socialize across party lines. This phenomenon of animosity between the parties is known as affective polarization."
Traduzindo: o americano comum passou a antipatizar e desconfiar de quem é do outro partido; os dois lados dizem que o outro é hipócrita, egoísta e fechado; e ninguém quer conviver com o outro.
A medida mais chocante da revisão não é sobre voto. É sobre casamento.
Em 1960, perguntaram aos americanos se eles ficariam chateados caso o filho ou a filha casasse com alguém do outro partido. Entre 4% e 5% disseram que sim. Era praticamente ninguém.
Em 2010, a mesma pergunta: um terço dos democratas e metade dos republicanos disseram que sim.
Quem ficaria chateado se o filho casasse com alguém do outro partido, em %
Fonte: Iyengar e colegas, 2012, citado na revisão de 2019
Aquela última barra é a que dói. Os autores citam um levantamento em que entre 17% e 20% das pessoas não queriam o filho casado com torcedor do time de beisebol rival. Hoje, nos Estados Unidos, o partido do genro incomoda mais do que o time do genro.
Outro dado da mesma revisão: 80,5% dos casais casados nos Estados Unidos votam no mesmo partido. E os pesquisadores mostram que isso é escolha na hora de namorar, não convencimento depois de casar.
A distância entre a nota dada ao próprio partido e a nota dada ao adversário, que era de 22,64 pontos em 1978, chegou a 40,87 pontos em 2016.
Uma ressalva honesta, ainda nesta parte
Essa medida do casamento tem um problema que os próprios pesquisadores apontam. Um estudo de 2018, de Samara Klar e colegas, mostrou que, quando se avisa antes que a pessoa do outro partido quase não fala de política, a rejeição ao casamento cai muito. E quando se avisa que alguém do seu próprio partido vive falando de política, a rejeição sobe.
Ou seja: parte do que parece ódio ao partido pode ser cansaço de gente que só fala de política. Guarde isso. Vai aparecer de novo lá no fim, quando eu falar do que reduz a raiva.
A terceira peça: quando o partido virou tudo o que você é
Em 2018, a cientista política Lilliana Mason publicou pela Universidade de Chicago o livro "Uncivil Agreement", que em português seria algo como "concordância mal-educada".
A tese dela explica por que a raiva cresceu mesmo quando as opiniões sobre políticas públicas não se afastaram tanto assim.
O que aconteceu, segundo Mason, é que as identidades se empilharam. Religião, região, cor, escolaridade, gosto, igreja e trabalho passaram a coincidir com o partido. O partido deixou de ser uma opinião sobre imposto e virou uma identidade guarda-chuva, que carrega junto todas as outras coisas que a pessoa é.
E aí muda tudo. Perder uma eleição deixa de ser "meu projeto de imposto não passou" e vira "eu perdi". Quando o adversário ataca o partido, ele não está discordando de uma ideia: ele está atacando a pessoa. O corpo responde à altura.
Eu não achei uma frase do livro em fonte aberta para colocar entre aspas, então não coloco. Fica a tese, com o nome da autora, a editora e o ano, para você conferir.
O Brasil: trinta por cento já admitem que votam contra
Agora o dado que interessa a quem vai apertar botão em 4 de outubro.
O Datafolha fez 2.058 entrevistas entre 18 e 20 de agosto de 2026, com registro BR-04496/2026 no Tribunal Superior Eleitoral. Perguntou o motivo principal do voto.
Por que o eleitor brasileiro diz que vota, em agosto de 2026
Quase um em cada três. E o número muda bastante conforme o candidato:
| Eleitor de | Vota para evitar outro candidato |
|---|---|
| Romeu Zema | 37% |
| Flávio Bolsonaro | 35% |
| Ronaldo Caiado | 31% |
| Renan Santos | 24% |
| Lula | 23% |
O Datafolha não publicou esse recorte para os eleitores de Augusto Cury. Eu procurei e não achei. Então eu não invento número para o meu candidato. Fica como não apurado.
Repare que os dois extremos da tabela são candidatos do mesmo campo. Zema tem 37% e Lula tem 23%. Isso conta uma história: o voto contra não é de um lado só, e nem sempre está onde a gente supõe.
Em 2022 a conta foi quase total
Na véspera do segundo turno de 2022, em 28 e 29 de outubro, o Datafolha perguntou em quem o eleitor não votaria de jeito nenhum.
| Resposta | Percentual |
|---|---|
| Rejeitava só Jair Bolsonaro | 48% |
| Rejeitava só Lula | 43% |
| Rejeitava os dois | 3% |
| Não rejeitava nenhum dos dois | 7% |
Some as três primeiras linhas: 91% dos eleitores chegaram à urna daquele segundo turno com um "esse não" fechado. Essa soma é minha, não do instituto. Mas as três linhas são do instituto.
Uma ressalva de método que eu faço questão de deixar clara: a pergunta de 2022 e a pergunta de 2026 não são iguais. Uma mede rejeição, a outra mede motivo do voto. Por isso eu não digo que o voto contra subiu ou caiu de uma eleição para a outra. Quem faz essa comparação está comparando coisas diferentes.
O partidarismo negativo brasileiro tem nome e tem tamanho
No Brasil, o partidarismo negativo tem endereço. Três pesquisadores mediram isso com 5.000 entrevistas entre abril e maio de 2022: César Zucco, da Fundação Getulio Vargas de São Paulo, Fernando Mello e David Samuels, da Universidade de Minnesota.
Como o eleitorado brasileiro se dividia em 2022, em %
Fonte: Zucco, Mello e Samuels, 5.000 entrevistas, abril e maio de 2022
O grupo que se define pelo que odeia é maior do que o grupo que se define pelo que ama. Somados, os dois dão 53% do eleitorado.
O perfil do antipetista, em pontos acima da média da população: mais 13,1 pontos nas classes A e B, mais 11,1 pontos entre evangélicos.
Zucco resumiu o caso brasileiro assim:
"Esse grau de antipartidarismo ligado a um partido só não é comum"
E, sobre a chance de alguém mudar de campo:
"pesquisas recentes mostram que a conversão de petistas em antipetistas e vice-versa é muito rara"
Guarde essa última frase. Ela é a resposta para quem passa o dia tentando convencer o cunhado no grupo da família.
O que acontece no seu cérebro quando alguém contraria o seu voto
Aqui entra a parte que me fez querer escrever esta matéria.
Em dezembro de 2016, três pesquisadores do Instituto do Cérebro e da Criatividade da Universidade do Sul da Califórnia publicaram um estudo na revista Scientific Reports. São eles Jonas Kaplan, Sarah Gimbel e Sam Harris. O título, em tradução livre: "Correlatos neurais de manter as próprias crenças políticas diante de prova em contrário".
O desenho é fácil de contar.
Eles chamaram 40 pessoas, todas com convicção política forte, média de 24 anos. Colocaram cada uma dentro do aparelho de ressonância magnética, que fotografa o cérebro funcionando. Mostraram 8 afirmações políticas e 8 afirmações não políticas em que a pessoa acreditava muito. Depois mostraram 5 argumentos contra cada uma dessas afirmações. Antes e depois, a pessoa dava uma nota de 1 a 7 para o quanto ainda acreditava.
O resultado é este:
Quanto a crença cedeu depois de 5 argumentos contra, em pontos de uma escala de 1 a 7
Fonte: Kaplan, Gimbel e Harris, Scientific Reports, dezembro de 2016
A crença que não era política cedeu quatro vezes mais. A diferença tem significância estatística de p menor que 0,001, que é o jeito técnico de dizer que a chance de aquilo ser sorte é mínima.
E onde acendeu no cérebro?

Quando a pessoa ouvia um argumento contra a crença política, acendia a chamada rede de modo padrão: precúneo, cingulado posterior e córtex pré-frontal medial. É a rede que trabalha quando a gente pensa em si mesmo e se desliga do mundo de fora.
E tem o achado que dá nome a esta matéria. Quem mudou mais de ideia mostrou menos sinal na ínsula e na amígdala. Quem não mudou, mostrou mais.
A frase dos autores, no trecho que eu copio exatamente como está no papel:
"Individual differences in persuasion were related to differences in activity within the insular cortex and the amygdala"
Em português: a diferença entre quem se convence e quem não se convence apareceu em duas peças do cérebro. Os autores descrevem a ínsula e a amígdala como estruturas centrais para a emoção e para o que a gente sente.
E a conclusão que eles tiram disso, também em tradução minha: o cérebro usa o sistema das emoções para defender aquilo com que a pessoa se identifica muito.
A amígdala explicada como se explica para criança
Amígdala aqui não é a da garganta. É outra coisa, com o mesmo nome.
Você tem, dentro do cérebro, duas pecinhas do tamanho de uma amêndoa, uma de cada lado. O nome vem daí: amígdala quer dizer amêndoa em grego. O trabalho dessas pecinhas é um só: avisar de perigo antes de a cabeça entender o que está acontecendo.
É a amígdala que faz você pular para trás quando vê uma mangueira torta no chão, antes de reparar que não era cobra. Ela é rápida porque tem que ser. Quem espera entender morre.
O que o estudo mostrou é que, quando alguém apresenta um argumento contra o seu voto, essa peça do perigo entra em atividade. O argumento não chega ao seu cérebro como informação. Chega como ameaça.
E aí acontece o que sempre acontece com ameaça: o corpo se fecha, o coração acelera, a mão suspende o argumento na ponta da língua. Você não está sendo burro. Você está sendo defendido por um sistema que foi feito para salvar sua vida de onça e está sendo usado para salvar sua opinião sobre imposto.
Essa explicação da amêndoa é minha, para o texto ficar claro. Não está entre aspas porque não é frase do estudo. O que é do estudo são os números e os nomes das áreas.
O limite deste estudo, dito na hora
São 40 pessoas. Todas do mesmo lado do espectro político. Média de 24 anos. Tudo nos Estados Unidos, em 2016.
Não é retrato do Brasil, não é retrato dos dois lados e não é retrato de um país inteiro. Quem disser que "a ciência provou que o cérebro do eleitor não muda" está esticando o que o papel diz. O certo é: num estudo com 40 pessoas, a crença política cedeu quatro vezes menos.
Eu já contei aqui um estudo maior, com outro método, que chegou perto do mesmo lugar: quatro professores americanos começaram a pagar as pessoas para acertar perguntas de fato sobre política, e a distância entre os dois lados encolheu cerca de 80%. Está na matéria sobre o estudo que pagou eleitores para falar a verdade. Vale a leitura depois desta.
Onde a raiva cobra a conta: a mesa de domingo e o grupo da família
Até aqui é laboratório e urna. Agora é a sua casa.
O Instituto Informa fez 2.419 entrevistas entre 21 de maio e 7 de junho de 2026, com margem de 2 pontos, na pesquisa Panorama Eleitoral Brasileiro.
O sociólogo Fábio Gomes, que preside o instituto, resumiu:
"Quando mais da metade da população afirma ter se afastado de pessoas próximas por divergências políticas, percebemos que a polarização extrapolou o ambiente eleitoral e já produz impactos concretos na convivência social."
O Instituto Informa é menos conhecido do que Datafolha ou Quaest. Por isso eu escrevo o campo, o tamanho da amostra e a margem, para você pesar sozinho o que vale.
Agora o número que eu mais gosto desta matéria, porque é o mais concreto de todos. O Datafolha ouviu 2.948 pessoas em 176 cidades, em 5 e 6 de dezembro de 2019, e perguntou o que a política tinha feito com a vida digital delas.
| O que a pessoa fez por causa de política | Percentual |
|---|---|
| Deixou de comentar política em grupo de WhatsApp | 51% |
| Deixou de postar sobre política para não brigar com família ou amigo | 46% |
| Saiu de grupo de WhatsApp para não discutir | 27% |
| Deixou de seguir ou bloqueou amigo ou parente | 19% |
| Deixou de seguir ou bloqueou uma empresa ou marca | 19% |
Um em cada quatro brasileiros já saiu de um grupo de WhatsApp por causa disso. Metade já engoliu o que queria dizer.
O dado é de 2019, e eu digo a data porque importa. Não achei pesquisa brasileira mais nova que medisse exatamente briga em grupo de WhatsApp. Se alguém tiver, eu publico.
E tem o retrato de humor mais recente. A Ipsos-Ipec, em levantamento divulgado em dezembro de 2025:
O que o brasileiro sente sobre a polarização
Setenta e dois por cento incomodados. E ainda assim, na hora de escolher, uma parte grande volta para o mesmo lugar de sempre. É esse o nó.
O cansaço virou número, e cresce rápido
O BTG Pactual e o instituto Nexus fizeram 2.002 entrevistas por telefone entre 4 e 7 de setembro de 2026, registro BR-06790/2026 no TSE. Perguntaram quem reconhece que existe polarização e se diz cansado ou desconfortável com ela.
Cansaço com a polarização, em % do eleitorado
Fonte: BTG/Nexus, medições de 10 de agosto e de 4 a 7 de setembro de 2026
Sete pontos em menos de um mês. A frase da divulgação:
"O cansaço com a polarização política cresceu entre os eleitores brasileiros e passou de 36% para 43% em menos de um mês"
E o recorte por candidato mostra onde esse cansaço mora:
| Eleitor de | Diz estar cansado da polarização |
|---|---|
| Renan Santos | 67% |
| Augusto Cury | 66% |
| Flávio Bolsonaro | 42% |
| Lula | 34% |
Dois terços de quem escolheu o meu candidato dizem estar cansados da briga. Um terço de quem escolheu o primeiro colocado diz o mesmo.
Eu sou suspeito para falar disso, então vou colocar o outro lado na mesma linha: a mesma pesquisa mostra que, no grupo dos cansados, a intenção de voto no primeiro turno fica em 32% para Lula e 35% para Flávio Bolsonaro. Cansaço da polarização não quer dizer voto em terceira via. Quer dizer só cansaço.
Como o Brasil chegou aqui, em quatro fases
O professor Fábio Vasconcellos, da Faculdade de Comunicação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, escreveu para o instituto ReDem uma linha do tempo da polarização brasileira que eu achei a mais útil que já li.
| Período | O que estava acontecendo |
|---|---|
| 2000 a 2011 | Estabilidade. A disputa era entre projetos, e o eleitor trocava de lado sem drama |
| 2012 a 2015 | Escalada. O antagonismo começa a virar identidade |
| 2016 a 2022 | Ruptura clara entre dois grupos que não se falam |
| De 2023 em diante | Possível volta à estabilidade |
E vem o contraponto mais importante desta matéria inteira, que eu faço questão de colocar aqui e não escondido lá embaixo. Segundo o mesmo levantamento:
"a polarização política parece envolver toda a sociedade, mas o antagonismo, na verdade, é puxado por pequenas minorias"
Os números que ele apresenta: cerca de 60% da população fica fora da polarização. Os ativistas somam algo perto de 5%, e os semiativistas mais 15%.
Isso conversa com um estudo que eu já publiquei aqui. O Laboratório de Opinião Pública da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo fez 1.500 entrevistas presenciais em maio de 2026 e achou que a polarização afetiva no Brasil subiu de 19% em 2006 para 31% hoje, mas que a maioria do eleitorado não é polarizada. Eu desenvolvi esse estudo inteiro, com a tabela completa, na matéria em que explico por que eu voto 70.
Junte as duas coisas e você tem o retrato: a maioria do país não é raivosa, mas a minoria raivosa decide o tom da conversa, e a conta chega para todo mundo.
Vale registrar também o humor de fundo. A pesquisa "A Cara da Democracia", do Instituto da Democracia, que reúne pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais, da Unicamp, da Universidade de Brasília e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, ouviu 2.536 pessoas em 188 municípios entre 26 de junho e 3 de julho de 2024. O resultado: 56,5% se dizem insatisfeitos com o funcionamento da democracia, 38% se dizem satisfeitos, e mesmo assim 58,3% concordam que a democracia é preferível a qualquer outro modelo. O brasileiro reclama do regime e não quer trocar o regime.
O que a evidência diz que reduz a raiva
Essa é a parte que ninguém publica, porque não rende briga. Mas é a única que serve para alguma coisa.
1. O maior teste já feito: 25 ideias, 32.059 pessoas
Em outubro de 2024, a revista Science publicou um trabalho com mais de 80 autores, liderado por Jan Voelkel, da Universidade Cornell, com Michael Stagnaro, do MIT, James Chu, da Columbia, e Robb Willer, de Stanford.
O desenho foi diferente de tudo. Eles abriram uma chamada pública, o Strengthening Democracy Challenge, e receberam 252 propostas de 419 pessoas de 17 países em quatro continentes. Um painel escolheu as 25 melhores ideias para reduzir a hostilidade entre eleitores de lados opostos. Cada ideia virou um tratamento de até 8 minutos, aplicado pela internet.
O megaestudo da Science, outubro de 2024
Vinte e três de vinte e cinco. Quase tudo funcionou.
O que funcionou melhor, segundo os autores: mostrar uma pessoa simpática do outro lado, e lembrar uma identidade que os dois lados dividem.
O tratamento campeão contra a hostilidade foi um comercial de cerveja. Chama-se "Worlds Apart", da Heineken. Nele, estranhos com opiniões opostas sobre feminismo, clima e direitos trans montam um móvel juntos sem saber da divergência, e só depois descobrem quem é quem e sentam para conversar tomando uma cerveja.
Um comercial de cerveja de quatro minutos bateu 24 propostas de acadêmicos. Isso deveria ensinar alguma coisa a quem escreve sobre política, inclusive a mim.
A fala de Voelkel na divulgação da Cornell:
"We have a pretty good understanding of how to reduce basic dislike of opposing partisans, and the effects were quite sizable, so we thought that was great news."
Em português: a gente já entende bem como reduzir a antipatia básica entre eleitores de lados opostos, e os efeitos foram grandes.
O limite, que os próprios autores registram: o efeito encolheu bastante em duas semanas. Não é vacina. É banho. Tem que repetir.
2. A conversa cara a cara, e o assunto certo
Em 2022, Erik Santoro, de Stanford, e David Broockman, da Universidade da Califórnia em Berkeley, publicaram na Science Advances um experimento simples: pegaram estranhos de partidos opostos e pediram que conversassem por vídeo sobre um assunto sorteado.
Quando o assunto sorteado foi "como seria o seu dia perfeito", o efeito foi grande. A simpatia pelo eleitor do outro partido subiu o equivalente a 9 graus no termômetro de 0 a 100.
Os autores fazem a conta do que isso significa: nove graus equivalem a desfazer mais de duas décadas de aumento da polarização afetiva. Numa conversa. Entre estranhos. Sem treinamento nenhum.
Agora a parte que quase todo mundo ignora quando cita esse estudo. Três ressalvas dos próprios autores:
- Funcionou quando o assunto não era o ponto de discórdia. Conversar sobre o desacordo pode destruir o efeito.
- O efeito não dura no longo prazo.
- Não mudou a opinião sobre responsabilização democrática. É simpatia, não é conversão.
Lembra da ressalva lá em cima, de que parte da rejeição ao casamento cai quando se avisa que a pessoa do outro partido quase não fala de política? É a mesma lição por outro caminho. O que envenena a relação não é o outro. É o assunto.
3. Lembrar o que os dois lados são juntos
Na revisão de Iyengar e colegas aparece um experimento de Matthew Levendusky, de 2018, que usou o feriado de 4 de julho, o dia da independência americana. Quem teve a identidade nacional comum ativada ficou 25% menos propenso a dar nota zero ao outro partido e 35% mais propenso a dar nota 50 ou mais.
É o mesmo achado do megaestudo, por um método independente. Lembrar do que une baixa a temperatura mais rápido do que discutir o que separa.
4. Pagar pela resposta certa
Este eu já contei inteiro aqui no portal, então resumo em três linhas. Quatro professores americanos, num estudo de 2015, perceberam que democratas e republicanos respondiam perguntas de fato como quem torce. Aí passaram a pagar por acerto. A distância entre os dois lados caiu cerca de 80%. Depois pagaram alguns centavos para quem admitisse não saber, e quase metade admitiu.
A conclusão incomoda: boa parte do que parece convicção é torcida. Quando custa dinheiro errar, a torcida some. O estudo inteiro está na matéria sobre quem paga eleitor para dizer a verdade.
A régua de quatro perguntas
Chegamos ao que interessa. Você está votando a favor de alguém ou contra alguém?
Isto aqui não é escala validada por universidade nenhuma. É uma ferramenta que eu montei com o que li para escrever esta matéria. Está declarado. Use como espelho, não como diagnóstico.
Pergunta 1. Você sabe dizer três coisas que o seu candidato promete fazer, sem citar o adversário em nenhuma das três?
Pergunta 2. Se o candidato que você rejeita saísse da disputa hoje, você continuaria votando na mesma pessoa?
Pergunta 3. Você consegue dizer uma coisa boa que o outro lado já fez, sem emendar um "mas" na frente?
Pergunta 4. No dia 5 de outubro, o que você vai cobrar de quem você elegeu? Escreva numa folha agora.
Como ler o resultado, pelo meu critério:
| Respostas "não" | O que isso provavelmente quer dizer |
|---|---|
| Nenhuma ou uma | Você tem candidato. Está votando a favor |
| Duas | Está no meio do caminho. A raiva já pesa mais do que a proposta |
| Três ou quatro | Você não tem candidato. Você tem um inimigo |
A quarta pergunta é a mais importante das quatro, e é por isso que ela é a última. Se a sua resposta for "que o outro não ganhe", a sua cobrança acabou no dia da urna.
É este o preço que quase ninguém calcula. Quem vota a favor de alguém continua cobrando no dia seguinte, porque o objetivo é o que a pessoa vai fazer. Quem vota contra alguém já recebeu tudo o que queria quando o resultado saiu. Sobra um mandato de quatro anos com cheque em branco.
O que eu penso
Esta parte é opinião. Está marcada por isso.
Eu acho que o voto contra é uma forma de terceirizar a própria escolha. Você deixa o outro lado decidir por você. A sua posição na urna passa a ser definida pelo que o inimigo é, e não pelo que você quer. Isso é confortável, porque odiar é mais fácil do que escolher, e o ódio já vem pronto no celular toda manhã.
E acho que o preço não é na eleição. É depois dela. Quem vota a favor tem uma lista para cobrar. Quem vota contra tem um alívio, e alívio não se cobra.
Tem mais uma coisa que os dados desta matéria dizem e que eu não vi ninguém falar. O amor pelo próprio lado não cresceu em quarenta anos de medição americana: saiu de 72 e ficou em 70. Foi só o ódio que cresceu. Isso quer dizer que ninguém está mais convencido do próprio projeto do que estava em 1980. A gente não ficou mais convicto. Ficou mais bravo. É outra coisa, e é uma coisa pior.
Por fim, o que me deu alguma esperança ao ler tudo isso: 23 de 25 tentativas funcionaram para baixar a hostilidade. Não é um problema sem saída. É um problema que responde, e responde rápido, quando alguém tira o assunto do lugar de ameaça. O que não responde é discussão. Discussão liga a amêndoa do perigo e acaba a conversa.
Se você chegou até aqui, faça a régua de quatro perguntas. Depois mostre para alguém da sua casa que vota diferente de você e peça para ela fazer também. Não discutam o resultado. Só leiam.
Perguntas que me fizeram sobre esta matéria
Votar contra alguém é errado?
Não é errado e não é ilegal. É uma escolha legítima, e no segundo turno é a única coisa possível, porque só sobram dois nomes. O que os dados mostram é que o voto contra tem um custo: quem vota só para impedir alguém não cobra nada depois, porque o objetivo dele já foi cumprido no dia da apuração.
Quantos brasileiros votam contra?
No Datafolha de 18 a 20 de agosto de 2026, com 2.058 entrevistas, 30% dizem que votam principalmente para evitar que outro candidato chegue à Presidência. Outros 61% dizem que votam por considerar o seu candidato o mais preparado.
O que é polarização afetiva?
É quando a pessoa gosta de um lado e detesta o outro, e a raiva é do mesmo tamanho da torcida. O nome apareceu numa revisão de 2019 de pesquisadores de Stanford, Pensilvânia e Dartmouth. No Brasil, um estudo da FESPSP de maio de 2026 achou 31% de eleitores nessa situação, contra 19% em 2006.
É verdade que o cérebro trata argumento político como ameaça?
Num estudo de 2016 com 40 pessoas, feito na Universidade do Sul da Califórnia, sim. Quando a crença política era contrariada, acendiam áreas ligadas à emoção, entre elas a amígdala e a ínsula. E a crença política cedeu quatro vezes menos do que a crença não política. São 40 pessoas, todas de um lado só, com média de 24 anos. É um indício forte, não é prova sobre a população.
Existe alguma coisa que comprovadamente reduz essa raiva?
Existe. Num teste publicado na Science em 2024, com 32.059 pessoas e 25 ideias diferentes, 23 reduziram a hostilidade de forma significativa. O que funcionou melhor foi mostrar uma pessoa simpática do outro lado e lembrar uma identidade compartilhada. O efeito, porém, encolhe em duas semanas.
Discutir política com parente adianta?
Os dados dizem que quase nunca. Um experimento de 2022 mostrou que conversa entre eleitores de lados opostos aumenta muito a simpatia, mas só quando o assunto não é o ponto de discórdia. E o Datafolha de 2019 mostrou o tamanho do desgaste: 27% dos brasileiros já saíram de grupo de WhatsApp para não discutir, e 51% pararam de comentar política nos grupos.







