Javier Milei deu duas semanas para o Reino Unido parar as obras do Sea Lion, um campo de petróleo no mar ao norte das Ilhas Malvinas. Se Londres não parar, a Argentina vai pedir ao Tribunal Internacional do Direito do Mar, em Hamburgo, na Alemanha, que suspenda o projeto. O anúncio foi feito na noite de segunda-feira, 28 de setembro de 2026, junto com a ordem para abrir uma arbitragem contra os britânicos.
O que Milei anunciou?
Uma briga na Justiça internacional. Milei mandou a Chancelaria argentina iniciar um processo de arbitragem com base na Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, segundo o jornal argentino Perfil.
Ele chamou o projeto de "saque ilegal dos nossos recursos" e disse que a Argentina "não vai ficar de braços cruzados" diante de um dano "irreversível e irreparável", segundo a Al Jazeera e a agência AP (tradução livre). O chanceler Pablo Quirno falou em "um passo histórico e inédito". Ao Perfil, foi mais direto: "Quem explorar ou extrair nossos recursos naturais nas Malvinas sem autorização argentina tem que enfrentar as consequências".
O argumento argentino é que o projeto desrespeita uma resolução da ONU que pede aos dois países que não tomem ações unilaterais nas ilhas enquanto a disputa não for resolvida.
O que é o Sea Lion?
É o primeiro grande campo de petróleo das Malvinas. Fica a cerca de 220 quilômetros ao norte das ilhas e foi descoberto em 2010.
| Sea Lion em números | |
|---|---|
| Operadora | Navitas Petroleum (Israel), 65% |
| Sócia | Rockhopper Exploration (Reino Unido), 35% |
| Decisão final de investimento | 10 de dezembro de 2025 |
| Custo até o primeiro barril | US$ 1,8 bilhão |
| Recursos estimados | 917 milhões de barris |
| Produção no pico da fase 1 | cerca de 50 mil barris por dia |
| Início previsto | 2028 |
| Receita prevista para as ilhas | cerca de 4 bilhões de libras em 35 anos |
Fonte: página do Sea Lion Field na Wikipedia, com base nos dados das empresas.
Para um território com menos de 3.700 moradores, é dinheiro que muda tudo. É como uma cidade pequena do interior descobrir que está em cima de um poço.

A Argentina já fez o quê?
Segundo a AP, um juiz argentino mandou suspender as obras do Sea Lion neste mês até uma revisão ambiental. O governo mandou ao Congresso um projeto que prevê até 20 anos de prisão para quem explorar recursos em volta das ilhas sem autorização argentina. E pelo menos 60 empresas e executivos estão sendo investigados.
O Reino Unido rejeita a reivindicação e cita o direito dos ilhéus de decidir o próprio destino, segundo a Al Jazeera. Segundo a France 24, o governo britânico sustenta que tem o direito de desenvolver os recursos naturais como achar melhor.
De onde vem essa briga?
De 1833, quando os britânicos ocuparam as ilhas. Em 1982, a Argentina invadiu o arquipélago e perdeu uma guerra de dez semanas. Morreram 649 argentinos, 255 britânicos e 3 moradores das ilhas, segundo a AP e a Al Jazeera. Em 2013, os ilhéus votaram num referendo para continuar território britânico.

A disputa ganhou fôlego novo em 2026. Segundo a Al Jazeera, Buenos Aires endureceu o discurso depois que Donald Trump disse que os Estados Unidos poderiam rever a neutralidade que mantêm há décadas sobre as ilhas.
E o Brasil com isso?
O Brasil está do lado argentino há quase 200 anos. Em nota de janeiro de 2024, o Itamaraty reafirmou o apoio aos "direitos legítimos" da Argentina na disputa e lembrou que essa posição vem de 1833, quando o embaixador brasileiro em Londres foi instruído a ajudar no protesto argentino contra a ocupação, segundo o MercoPress.
A posição tem efeito prático. Desde 2012, os países do Mercosul não aceitam em seus portos navios com a bandeira das Falklands, o nome inglês das ilhas. "Não existe bloqueio às embarcações. O que existe é a não aceitação de uma bandeira", explicou na época Benoni Belli, do Itamaraty, à Exame.
Até a manhã de 29 de setembro, eu não encontrei manifestação do governo brasileiro sobre a arbitragem anunciada por Milei.








