Revista De Castro

Notícias / 29 de setembro de 2026

Eu fui checar

Milei dá duas semanas ao Reino Unido e ameaça ir a tribunal pelo petróleo das Malvinas

Na segunda, 28 de setembro, o presidente argentino mandou abrir uma arbitragem contra Londres por causa do Sea Lion, um campo de petróleo a 220 km das ilhas que deve começar a produzir em 2028. Eu fui ver o que é o projeto, por que a briga voltou agora e onde o Brasil entra nessa história.

Publicado
29 de setembro de 2026
Atualizado
29 de setembro de 2026
Editoria
Notícias
Leitura
4 min
Fontes
8 citadas

Ouvir a matéria

Javier Milei. Cancillería Argentina / Wikimedia Commons, CC BY 2.0
Javier Milei. Cancillería Argentina / Wikimedia Commons, CC BY 2.0

Javier Milei deu duas semanas para o Reino Unido parar as obras do Sea Lion, um campo de petróleo no mar ao norte das Ilhas Malvinas. Se Londres não parar, a Argentina vai pedir ao Tribunal Internacional do Direito do Mar, em Hamburgo, na Alemanha, que suspenda o projeto. O anúncio foi feito na noite de segunda-feira, 28 de setembro de 2026, junto com a ordem para abrir uma arbitragem contra os britânicos.

O que Milei anunciou?

Uma briga na Justiça internacional. Milei mandou a Chancelaria argentina iniciar um processo de arbitragem com base na Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, segundo o jornal argentino Perfil.

Ele chamou o projeto de "saque ilegal dos nossos recursos" e disse que a Argentina "não vai ficar de braços cruzados" diante de um dano "irreversível e irreparável", segundo a Al Jazeera e a agência AP (tradução livre). O chanceler Pablo Quirno falou em "um passo histórico e inédito". Ao Perfil, foi mais direto: "Quem explorar ou extrair nossos recursos naturais nas Malvinas sem autorização argentina tem que enfrentar as consequências".

O argumento argentino é que o projeto desrespeita uma resolução da ONU que pede aos dois países que não tomem ações unilaterais nas ilhas enquanto a disputa não for resolvida.

O que é o Sea Lion?

É o primeiro grande campo de petróleo das Malvinas. Fica a cerca de 220 quilômetros ao norte das ilhas e foi descoberto em 2010.

Sea Lion em números
OperadoraNavitas Petroleum (Israel), 65%
SóciaRockhopper Exploration (Reino Unido), 35%
Decisão final de investimento10 de dezembro de 2025
Custo até o primeiro barrilUS$ 1,8 bilhão
Recursos estimados917 milhões de barris
Produção no pico da fase 1cerca de 50 mil barris por dia
Início previsto2028
Receita prevista para as ilhascerca de 4 bilhões de libras em 35 anos

Fonte: página do Sea Lion Field na Wikipedia, com base nos dados das empresas.

Para um território com menos de 3.700 moradores, é dinheiro que muda tudo. É como uma cidade pequena do interior descobrir que está em cima de um poço.

Casas coloridas de Stanley, capital das Malvinas, vistas da água

A Argentina já fez o quê?

Segundo a AP, um juiz argentino mandou suspender as obras do Sea Lion neste mês até uma revisão ambiental. O governo mandou ao Congresso um projeto que prevê até 20 anos de prisão para quem explorar recursos em volta das ilhas sem autorização argentina. E pelo menos 60 empresas e executivos estão sendo investigados.

O Reino Unido rejeita a reivindicação e cita o direito dos ilhéus de decidir o próprio destino, segundo a Al Jazeera. Segundo a France 24, o governo britânico sustenta que tem o direito de desenvolver os recursos naturais como achar melhor.

De onde vem essa briga?

De 1833, quando os britânicos ocuparam as ilhas. Em 1982, a Argentina invadiu o arquipélago e perdeu uma guerra de dez semanas. Morreram 649 argentinos, 255 britânicos e 3 moradores das ilhas, segundo a AP e a Al Jazeera. Em 2013, os ilhéus votaram num referendo para continuar território britânico.

Criança argentina com camiseta das Malvinas

A disputa ganhou fôlego novo em 2026. Segundo a Al Jazeera, Buenos Aires endureceu o discurso depois que Donald Trump disse que os Estados Unidos poderiam rever a neutralidade que mantêm há décadas sobre as ilhas.

E o Brasil com isso?

O Brasil está do lado argentino há quase 200 anos. Em nota de janeiro de 2024, o Itamaraty reafirmou o apoio aos "direitos legítimos" da Argentina na disputa e lembrou que essa posição vem de 1833, quando o embaixador brasileiro em Londres foi instruído a ajudar no protesto argentino contra a ocupação, segundo o MercoPress.

A posição tem efeito prático. Desde 2012, os países do Mercosul não aceitam em seus portos navios com a bandeira das Falklands, o nome inglês das ilhas. "Não existe bloqueio às embarcações. O que existe é a não aceitação de uma bandeira", explicou na época Benoni Belli, do Itamaraty, à Exame.

Até a manhã de 29 de setembro, eu não encontrei manifestação do governo brasileiro sobre a arbitragem anunciada por Milei.

Fontes desta materia

  1. France 24, Argentina's Milei threatens to sue UK over Falkland Islands oil project
  2. AOL (Associated Press), Argentina's President Milei threatens international legal action over Falklands oilfield
  3. Al Jazeera, Argentina's Milei threatens legal action over Falklands oil project
  4. Al Jazeera, Why do the Falkland Islands matter to the UK and Argentina so much?
  5. Perfil, Quirno habló del nuevo reclamo de Argentina contra el Reino Unido
  6. Wikipedia, Sea Lion Field
  7. MercoPress, Brazilian support for Argentine sovereignty claim over the Falklands
  8. Exame, Malvinas: apoio brasileiro à Argentina é antigo, diz governo