Revista De Castro

Magazine / 25 de setembro de 2026

A história inteira

Pediram que ela não fosse receber o Nobel. Marie Curie foi assim mesmo

Em 1911, prestes a receber o segundo prêmio, ela recebeu uma carta de Estocolmo pedindo que telegrafasse avisando que não iria à cerimônia. O motivo não era ciência: era o escândalo com Paul Langevin. A resposta dela cabe numa frase. Aqui está a história inteira, da universidade clandestina em Varsóvia aos cadernos que até hoje ficam em caixas forradas de chumbo.

Publicado
25 de setembro de 2026
Atualizado
25 de setembro de 2026
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Magazine
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Autor desconhecido / Wikimedia Commons, domínio público
Autor desconhecido / Wikimedia Commons, domínio público

Dezembro de 1911. Uma mulher de 44 anos, viúva, com duas filhas, acaba de receber o segundo Prêmio Nobel da vida dela.

Chega uma carta de Estocolmo pedindo que ela mande um telegrama avisando que não vai à cerimônia, e escreva dizendo que não quer aceitar o prêmio enquanto o processo judicial não provar que as acusações contra ela são infundadas.

As acusações não tinham nada a ver com ciência.

O que a carta pedia, exatamente

Quem escreveu foi Svante Arrhenius, químico sueco, Nobel de 1903, membro da Real Academia Sueca de Ciências e do comitê do Nobel. As fontes divergem sobre o cargo exato dele naquele momento: o site da Fundação Nobel o descreve como "um membro" da Academia, outras fontes o apontam como presidente do comitê. Fica registrada a divergência.

O teor da carta está no ensaio histórico que a Fundação Nobel publica em nobelprize.org, feito com os arquivos do comitê. Arrhenius disse que o duelo entre Paul Langevin e o jornalista Gustave Téry dera a impressão de que as cartas publicadas na imprensa não eram falsificadas. E pediu o telegrama.

Ela respondeu que o prêmio fora concedido pela descoberta do rádio e do polônio, e que não podia aceitar que a apreciação do valor de um trabalho científico fosse influenciada por difamação sobre a vida privada. Em citação direta:

"O prêmio foi concedido pela descoberta do rádio e do polônio. Acredito que não há relação entre o meu trabalho científico e os fatos da vida privada. Não posso aceitar que a apreciação do valor de um trabalho científico seja influenciada por calúnia e difamação sobre a vida privada."

Ela foi. Deu a palestra do Nobel em Estocolmo em 11 de dezembro de 1911.

O ano em que a França tentou expulsá-la

Para medir a coragem, é preciso ver o que acontecia em volta.

23 de janeiro de 1911. A Academia Francesa de Ciências vota a entrada dela, com jornalistas e fotógrafos na sala. Ela perde por um voto no primeiro turno e por dois no segundo, em 58 votos. Uma semana antes, um adversário havia sido lançado para barrá-la: Édouard Branly.

Início de novembro. Ela está em Bruxelas, na primeira Conferência de Solvay, quando recebe o aviso de que uma nova campanha começou na imprensa francesa. Agora sobre a vida privada dela e a relação com o colega Paul Langevin, que também estava na conferência.

Ela obriga o Le Temps a se retratar. No mesmo dia chega o telegrama de Estocolmo com o segundo Nobel. Os jornais que a transformaram em lenda em 1903 ignoraram o prêmio de Química ou o enfiaram numa página interna.

23 de novembro. O L'Oeuvre publica trechos de cartas roubadas num arrombamento do apartamento de Langevin. No mesmo dia, uma multidão hostil se junta na frente da casa dela, em Sceaux. Alguém grita "volta para a Polônia". Uma pedra acerta a casa. Marguerite Borel e André Debierne a tiram dali com a filha Ève pela mão. Marie atravessou a multidão pálida e rígida. No mesmo 23 de novembro, Albert Einstein lhe escreveu uma carta de apoio, indignado com a maneira vil com que o público se metia na vida dela.

25 de novembro. Langevin desafia Téry, o editor do jornal, para um duelo de pistola a 25 metros. Nenhum tiro foi disparado.

Nos jornais, o argumento repetido era um só: uma estrangeira, uma polonesa, uma pesquisadora bancada pelos cientistas franceses, tinha vindo roubar o marido de uma francesa honesta. O mais agressivo era o ultranacionalista e antissemita L'Action Française, de Léon Daudet. Ela era católica, mas o sobrenome Skłodowska foi usado para insinuar origem judaica, no rescaldo do caso Dreyfus. Daudet chegou a citar a frase que mandou o químico Lavoisier para a guilhotina na Revolução: a República não precisa de cientistas. Uma manchete de primeira página perguntava se Madame Curie ainda podia ser professora da Sorbonne.

O ministro da Instrução Pública chamou Émile Borel e avisou que ele não podia hospedar Marie Curie, porque a casa pertencia à École Normale Supérieure. Se insistisse, seria demitido. Borel respondeu que insistiria.

Nunca houve processo. Langevin e a mulher fizeram acordo em 9 de dezembro, sem citar o nome dela.

29 de dezembro de 1911. Dezoito dias depois da palestra em Estocolmo, ela foi internada num hospital cujo endereço foi mantido em segredo. Levou um ano para voltar a trabalhar como antes.

A menina proibida de estudar

Maria Salomea Skłodowska nasceu em 7 de novembro de 1867, em Varsóvia, na Polônia sob domínio russo. Pai e mãe eram professores. Desde 1863, um decreto do ministério da educação russo proibia mulheres de se matricular nas universidades do império.

Ela estudou na Universidade Volante, curso clandestino dado em casas particulares de Varsóvia, que trocavam de endereço para escapar da polícia.

Para chegar a Paris, fez um acordo com a irmã: trabalharia como governanta e sustentaria os estudos de medicina de Bronya; quando Bronya se formasse, pagaria os estudos dela. Por isso só desembarcou em Paris aos 24 anos, no fim de 1891.

Alugou uma água-furtada no Quartier Latin. O frio era tal que dormia vestindo todas as roupas que tinha. Segundo a exposição do American Institute of Physics, desmaiava de fome, por ficar absorta demais no estudo para comer.

Em 1893 foi a primeira colocada no grau de física, e a segunda em matemática no ano seguinte.

O galpão

Marie casou com Pierre Curie em 26 de julho de 1895. Ganharam dinheiro de presente e compraram uma bicicleta para cada um.

Foi ela quem escolheu o tema: a investigação sistemática dos raios de urânio. Descobriu que o tório emitia a mesma coisa e que a intensidade não dependia do composto químico, só da quantidade de urânio ou tório. E tirou daí a conclusão que mudou a física: a capacidade de irradiar não vem do arranjo dos átomos numa molécula, vem do interior do próprio átomo. Pierre largou a própria pesquisa sobre cristais para entrar no projeto dela.

Em julho de 1898 anunciaram o polônio, batizado com o nome do país dela, no mesmo trabalho em que usaram, pela primeira vez na história, a palavra radioatividade. Em 26 de dezembro de 1898 anunciaram o rádio.

Provar que os dois elementos existiam exigiu toneladas de pechblenda e um galpão emprestado, que o químico alemão Wilhelm Ostwald, ao visitar, descreveu como um cruzamento entre um estábulo e um depósito de batata. Ela processava 20 quilos de material bruto por vez.

"Às vezes eu tinha de passar um dia inteiro mexendo uma massa fervente com uma barra de ferro quase do meu tamanho. Eu terminava o dia arrasada de cansaço."

De toneladas de material saiu um decigrama de cloreto de rádio quase puro. Ela defendeu a tese em 25 de junho de 1903, e a banca disse que era a maior contribuição científica já apresentada num doutorado.

Os números que a revista não arredonda

O Nobel de Física de 1903 foi dividido: metade para o casal Curie, metade para Henri Becquerel. O nome dela não estava na indicação original. O matemático Gösta Mittag-Leffler avisou Pierre, que respondeu em 6 de agosto de 1903 pedindo para ser considerado junto com ela.

Em 19 de abril de 1906, Pierre foi atropelado por uma carroça puxada a cavalo perto da Pont Neuf e morreu. Marie ficou com Irène, de 9 anos, e Ève, de 2. Ofereceram a ela uma pensão. Recusou: tinha 38 anos e era capaz de se sustentar. Assumiu o laboratório e as aulas do marido e virou a primeira mulher a lecionar na Sorbonne. Em 1908, a primeira mulher nomeada professora ali.

Na Primeira Guerra montou as unidades móveis de radiografia, as petites Curies, e o primeiro centro militar de radiologia da França. Cerca de um milhão de feridos foram atendidos com raio X pelo sistema dela. Ela morreu em 4 de julho de 1934, aos 66 anos, de anemia aplástica, atribuída a décadas de exposição à radiação sem proteção.

Os cadernos ainda são radioativos

Os cadernos de laboratório dela estão guardados na Bibliothèque Nationale de France, na coleção Pierre e Marie Curie, dentro de caixas forradas de chumbo. Quem quiser consultar assina termo de responsabilidade e veste roupa de proteção. O contaminante é o rádio-226, de meia-vida próxima de 1.601 anos.

Não são só os cadernos. Os móveis dela e até os livros de receita seguem contaminados. Marie e Pierre carregavam material radioativo no bolso do casaco e na gaveta da escrivaninha.

O que joga contra, e entra

"O segundo Nobel foi consolo pelo escândalo." Alguns biógrafos levantaram isso, e o texto da Fundação Nobel registra a dúvida. E responde: a citação de 1903 foi redigida prevendo um futuro prêmio de Química, e os químicos consideravam o isolamento do rádio o maior acontecimento da área desde a descoberta do oxigênio.

"Ela destruiu um casamento." Langevin tinha problemas conjugais havia anos e já tinha saído de casa antes. Marie era viúva desde 1906. As cartas saíram de um arrombamento. Nunca houve processo, e o acordo do casal Langevin não citou o nome dela. A natureza exata da relação nunca foi estabelecida. Esta revista não vai fingir que sabe.

"Ela só foi famosa por causa do marido." A hipótese foi dela, a escolha da pechblenda foi dela, a conclusão de que a radiação vem do interior do átomo foi dela. Pierre entrou depois.

"Ela era francesa." Era polonesa naturalizada, de um país que naquele momento não existia no mapa. Batizou de polônio o primeiro elemento que descobriu.

A resposta

A semana do Nobel de 2026 começa em 5 de outubro.

Em 1911, pediram à laureada que ficasse em casa porque a vida privada dela estava incomodando. Ela separou as duas coisas numa frase e pegou o trem.

Entrou no auditório em Estocolmo depois de um mês de multidão na porta de casa, pedra na parede e jornal pedindo a demissão dela. Falou do campo de pesquisa que, com todas as letras, chamou de "o que eu chamei de radioatividade". Dezoito dias depois desabou, e sumiu num hospital sem endereço.

Ela foi. Esse é o fato.

Fontes desta materia

  1. NobelPrize.org, Marie and Pierre Curie and the discovery of polonium and radium
  2. NobelPrize.org, The Nobel Prize in Chemistry 1911, Marie Curie, Nobel Lecture
  3. Wikipedia, Marie Curie
  4. American Institute of Physics, Marie Curie, A Student in Paris (1891-1897)
  5. Christian Science Monitor, Marie Curie: Why her papers are still radioactive
  6. NPR, Don't Come to Stockholm! Madame Curie's Nobel Scandal
  7. Open Culture, The Uplifting Letter That Albert Einstein Sent to Marie Curie (1911)
  8. Open Culture, Marie Curie Attended a Secret, Underground Flying University
  9. Culture.pl, The Flying University: Towards the Emancipation of Polish Women
  10. American Scientist, The Inner Marie Curie
  11. Gizmodo, Marie Curie's century-old radioactive notebook still requires a lead box
  12. UNESCO, Marie Skłodowska-Curie (Poland/France, 1867-1934)