Chacrinha foi o pernambucano José Abelardo Barbosa de Medeiros, estudante de Medicina que virou o apresentador mais anárquico da televisão brasileira. Começou no rádio do Recife em 1937, chegou ao Rio por acaso em 1939, ganhou o apelido num programa de carnaval em 1943 e comandou auditório com buzina e bacalhau até morrer, em 30 de junho de 1988, aos 70 anos. As frases dele, como "Quem não se comunica, se trumbica", ficaram no português do dia a dia.
O detalhe que quase ninguém conhece: a primeira vez dele num microfone, em 1937, na Rádio Clube de Pernambuco, foi para dar uma palestra sobre alcoolismo, como estudante de Medicina, segundo a Wikipédia. Ontem, 30 de setembro, ele faria 109 anos. Eu fui atrás da história inteira.
De onde veio Abelardo Barbosa?
Nasceu em 30 de setembro de 1917, em Surubim, no agreste de Pernambuco. Aos 10 anos, a família se mudou para Campina Grande, na Paraíba. Aos 17, ele foi estudar no Recife e entrou na faculdade de Medicina em 1936, segundo a Wikipedia em inglês.
Em 1938, uma apendicite levou o estudante à mesa de cirurgia, operado por colegas já formados. Ainda se recuperando, entrou como baterista no Bando Acadêmico, um grupo de estudantes, e embarcou no navio Bagé rumo à Alemanha. A Segunda Guerra Mundial estourou em 1939, a viagem parou, e ele desceu no Rio de Janeiro, então capital do país, segundo a Wikipédia. A Medicina ficou para trás.
De onde veio o nome Chacrinha?
De um programa de rádio. No Rio, ele virou locutor da Rádio Tupi. Em 1943, lançou na Rádio Clube Fluminense um programa de marchinhas de carnaval chamado Rei Momo na Chacrinha. Fez tanto sucesso que o apresentador passou a ser conhecido como Abelardo "Chacrinha" Barbosa.
O "Terezinha", que ele gritava para a plateia, também nasceu no rádio. Substituiu o nome de um antigo patrocinador do programa, a água sanitária Clarinha, registra a Wikipédia.

Como ele chegou à televisão?
Em 1956, na TV Tupi, com o Rancho Alegre. Depois vieram a Discoteca do Chacrinha, a TV Rio e, em 1967, a Globo. O estilo era o oposto do que a TV fazia: ele interrompia o número musical de cantor famoso, tocava uma buzina de mão para desclassificar calouro e jogava bacalhau na plateia. "Vocês querem bacalhau?", perguntava antes de atirar o peixe.
O calouro que agradava ganhava prêmio. Uma foto do arquivo do jornal Correio da Manhã, hoje no Arquivo Nacional, mostra Chacrinha entregando um televisor à vencedora da disputa de melhor calouro da noite.

Ele também era vascaíno declarado. O Conselho Deliberativo do Vasco o fez sócio honorário em 9 de dezembro de 1968, e o clube estampou o nome dele na manga da camisa em outubro de 2017, no centenário, segundo o Lance, reproduzido pelo Terra.
Por que ele saiu da Globo em 1972?
Por causa do relógio. Em 3 de dezembro de 1972, o programa de domingo devia acabar às 22h. Às 22h04, ainda faltavam três atrações. O diretor José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, mandou encerrar às 22h10. Chacrinha respondeu, pelo filho Jorge, que não tinha previsão de término. "Boni tirou do ar o programa na mesma hora", relata o Observatório da TV. Chacrinha foi à sala do diretor aos gritos e disse que ia embora. Foi.
Passou pela Tupi, pela Record e pela Bandeirantes. Foi na Bandeirantes que veio o episódio com a censura do regime militar. Segundo a Wikipédia, uma censora se sentiu desacatada quando ele pediu que ela saísse de uma área reservada aos artistas. Ela chamou um delegado, um chefe da censura e dez agentes federais, e Chacrinha foi levado preso. O Correio Braziliense situa o caso em 1981 e conta que depois ele foi recebido pelo presidente João Figueiredo na Granja do Torto.
Como foi a volta por cima?
Em 6 de março de 1982, a Globo estreou o Cassino do Chacrinha, aos sábados à tarde, gravado no Teatro Fênix, no Rio. Calouros com júri, cantores no palco e as chacretes, as dançarinas do programa. Muito artista dos anos 1980 ficou conhecido ali, registra a Wikipédia. Foi ele quem apresentava o cantor Roberto Müller como "o romântico pingo de ouro do Brasil", como a revista contou na morte do Pingo de Ouro.
A essa altura ele já era o Velho Guerreiro. O apelido veio de "Aquele Abraço", canção de 1969 em que Gilberto Gil manda um recado ao apresentador, gravada pouco antes de Gil partir para o exílio em Londres, segundo a Wikipédia.

Quais frases dele ficaram?
| Frase | Onde aparece |
|---|---|
| "Quem não se comunica, se trumbica!" | Wikipédia e Correio Braziliense; virou samba-enredo do Império Serrano em 1987, segundo a Adealq |
| "Eu vim para confundir, não para explicar!" | Wikipédia e Correio Braziliense |
| "Vai para o trono ou não vai?" | Wikipédia e Correio Braziliense |
| "Na televisão, nada se cria, tudo se copia" | Wikipédia |
| "Terezinha!" | Wikipédia, que liga o grito à água sanitária Clarinha |
| "Roda e avisa" e "Vamos receber" | Correio Braziliense |
Os números da vida
| O que | Número | Fonte |
|---|---|---|
| Ano da primeira vez no rádio | 1937 | Wikipédia |
| Ano em que desceu no Rio | 1939 | Wikipédia |
| Ano do apelido | 1943 | Wikipédia |
| Estreia na TV | 1956 | Wikipédia |
| Estreia do Cassino do Chacrinha | 6 de março de 1982 | Wikipédia |
| Público estimado no velório | cerca de 30 mil pessoas | Correio Braziliense |
| Idade na morte | 70 anos | Correio Braziliense |
Como foram os últimos meses?
Em 1988, com a saúde fraca, ele passou a dividir o Cassino com os humoristas Paulo Silvino e João Kléber, que o substituíam. Chacrinha morreu em 30 de junho de 1988, no Rio. A causa informada foi infarto, segundo o Correio Braziliense. Ele tratava um câncer, descrito como de pulmão pela Wikipédia em português e de garganta pela versão em inglês. O último Cassino do Chacrinha foi ao ar em 2 de julho, dois dias depois da morte.
Cerca de 30 mil pessoas passaram pelo velório. O enterro foi no dia seguinte, no Cemitério São João Batista, com Chico Anysio, Wanderléa e o próprio Boni, segundo a Wikipédia.

O que joga contra, e entra
"Chacrinha era só palhaçada, não era jornalismo nem cultura." Ele mesmo dizia que vinha para confundir. O filósofo francês Edgar Morin o chamou de "Papa da Comunicação", segundo a Wikipédia, e muito artista dos anos 1980 ficou conhecido no palco dele.
"Ele foi expulso da Globo." Saiu por conta própria, em dezembro de 1972, depois que Boni tirou o programa do ar por estourar o horário. Dez anos depois, voltou à mesma Globo com o Cassino.
"Ele foi preso por fazer oposição à ditadura." O registro é de um caso de desacato alegado por uma censora, que chamou agentes federais por ter sido mandada sair de uma área de artistas. Depois disso, segundo o Correio Braziliense, ele foi recebido pelo presidente Figueiredo.
"Ele morreu no palco." Morreu no Rio, depois de meses dividindo o programa com substitutos. O último programa foi exibido dois dias depois da morte.
E a resposta?
O estudante que ia para a Alemanha tocando bateria desceu no Rio por causa de uma guerra, ganhou o nome num programa de carnaval e comandou auditório por cerca de 40 anos, segundo o Correio Braziliense. Brigou com a Globo, foi preso na ditadura por causa de uma censora e voltou por cima aos 64 anos. Em 2018, a vida dele virou filme, Chacrinha: O Velho Guerreiro, de Andrucha Waddington, com Stepan Nercessian. A colega de foto no acervo do Correio da Manhã, Hebe Camargo, também tem a história inteira contada aqui.
Perguntas que chegam nos comentários
Qual era o nome verdadeiro do Chacrinha?
José Abelardo Barbosa de Medeiros. Nasceu em Surubim, Pernambuco, em 30 de setembro de 1917.
Por que ele se chamava Chacrinha?
Por causa do programa de rádio Rei Momo na Chacrinha, lançado em 1943 na Rádio Clube Fluminense. O sucesso colou o nome no apresentador.
Por que Chacrinha era chamado de Velho Guerreiro?
Por causa de "Aquele Abraço", canção de Gilberto Gil de 1969, em que Gil o chama assim.
Do que Chacrinha morreu?
A causa informada foi infarto, em 30 de junho de 1988, no Rio, aos 70 anos. Ele tratava um câncer havia meses.
Chacrinha foi preso na ditadura?
Foi levado preso por agentes federais quando estava na Bandeirantes, depois que uma censora se disse desacatada por ele. O Correio Braziliense situa o caso em 1981.







