Tudo começou com um comentário. O mais curtido das últimas postagens do meu perfil, com 537 curtidas e 12 respostas:
"Se organizar direitinho, nem segundo turno tem."
Todo mundo tratou como sonho. Eu vou tratar como plano. Com número, data e a sua parte no meio. E vou te avisar já: a conta fecha, mas depende de uma condição. No fim eu te digo qual.
O ponto de partida, sem esconder nada
Quando escrevi o carrossel, no fim de agosto, as pesquisas davam a ele de 2% a 4%. Em uma semana, isso mudou.
| Instituto | Data do campo | Lula | Flávio Bolsonaro | Cury |
|---|---|---|---|---|
| BTG/Nexus | 24 de agosto | 41% | 37% | 2% |
| BTG/Nexus | 28 a 30 de agosto | 39% | 33% | 11% |
| Genial/Quaest | 30 de agosto a 1º de setembro | 37% | 29% | 10% |
| Datafolha | divulgado em 4 de setembro | 38% | 8% |
Nove pontos em sete dias na BTG/Nexus. É o maior salto desta eleição. E é aqui que todo mundo para de ler. A gente continua, porque pesquisa mede o presente, e eleição se ganha no futuro.
Para ganhar no primeiro turno, o que precisa acontecer
A regra é simples: mais de 50% dos votos válidos, que são os votos sem brancos e nulos. Na Quaest, brancos e nulos somam 7% e indecisos 11%. Ou seja, o bolo dos votos válidos hoje é de cerca de 82%, e metade disso é 41%.
Arma número 1: os que se recusaram a escolher
Este é o número que quase ninguém coloca na conta.
TSE, segundo turno de 2022
O maior reservatório de votos do país não tem dono. E, pela primeira vez, ele começou a se mexer. Nos meus comentários, gente que não ia votar escrevendo: "eu estava sem esperança e sem saber o que fazer com meu voto". Isso ainda não aparece em pesquisa. Mas aparece no dado dos independentes: na Quaest, Cury lidera entre eles com 24%, contra 21% do Lula.
Arma número 2: o voto dos dois lados
Ele é o único do pleito que tira voto da esquerda e da direita ao mesmo tempo. Nos meus comentários: "Eu era Lula. Agora sou 70." E, no mesmo post: "Eu votei Enéas em 94 e voto Augusto Cury." Ex-eleitor do Lula de um lado, eleitor histórico do Enéas do outro. Todo outro candidato só tira do próprio campo.
A pesquisa confirma: nos cortes da Quaest, ele cresce nos dois lados da polarização, e é o único com esse desenho.
Arma número 3: a conta da mobilização
Cada ponto percentual na pesquisa vale cerca de 1,2 milhão de votos. Parece muito. Faz a conta comigo.
Este perfil tem 474 mil pessoas. Se cada uma convencer duas, são quase 1 milhão de votos. Um ponto inteiro, saído de um perfil só. E não existe só este perfil: o dele passou de 10 milhões de seguidores. Se 10% deles convencerem uma pessoa, é mais um milhão.
Isso não é matemática de campanha. É matemática de rede, e é a única que ele tem, porque a outra ele não tem:
| Recurso | Lula | Flávio Bolsonaro | Cury |
|---|---|---|---|
| Tempo de TV por dia | 5 min 32 s | 4 min 20 s | 35 s |
| Fundo eleitoral do partido | R$ 615,3 mi | R$ 881,6 mi | R$ 72,5 mi |
| Deputados federais | 81 | 98 | 7 |
O palco tem data marcada
Três chances nacionais antes da urna:
| Data | Debate |
|---|---|
| 14 de setembro | SBT, CNN, RedeTV! e Rede Vida |
| 27 de setembro | Record |
| 1º de outubro | Globo, três dias antes do voto |
| 4 de outubro | Eleição |
O Enéas precisava de 15 segundos. Ele vai ter três noites inteiras.
A escada, degrau por degrau
A escada da virada, com data
Projeção minha, a partir das pesquisas de setembro
Com 18 a 20%, a vaga no segundo turno é real: a Quaest já testou e ele perde de Lula por 40 a 34, com 21% de brancos e nulos em aberto. Com 25%, ele vira o segundo turno em disputa. Para o primeiro turno, ele precisa que os 32 milhões entrem no jogo. Aí deixa de ser sonho e vira aritmética.
"Ah, mas isso nunca aconteceu"
Aconteceu. Em 2018, um candidato que patinava nas pesquisas explodiu nas últimas oito semanas. O eleitor brasileiro decide tarde, e isso é o padrão das nossas eleições, não a exceção. Na Quaest, 11% ainda não sabem em quem votar e 48% de quem diz votar no Cury admite mudar. O jogo está aberto dos dois lados.
A condição que faz a conta fechar
Ele não tem a TV. Não tem a máquina dos partidos velhos. A TV dele é você. Cada compartilhamento é um comercial que ele não teve dinheiro para pagar.
A conta do primeiro turno só fecha se os 32 milhões voltarem. E os 32 milhões só voltam se alguém que eles conhecem mostrar o motivo. Não é discurso. É gente convencendo gente, uma por uma, em 30 dias.
Perguntas que chegam nos comentários
O que é preciso para ganhar no primeiro turno?
Mais da metade dos votos válidos, descontados brancos e nulos. Com Lula em 37% e Cury entre 8% e 10%, isso exigiria uma virada sem precedente em 30 dias.
Quantos brasileiros não votaram em 2022?
32,2 milhões se abstiveram no segundo turno, 20,6% do eleitorado. Somando brancos e nulos, 37,9 milhões não escolheram ninguém. É esse o reservatório da conta.
Cury vence Lula no segundo turno?
Na única pesquisa que testou, a Quaest de 2 de setembro, não: Lula 40, Cury 34, com 26% em aberto.
Cury pode chegar ao segundo turno?
Precisa passar Flávio Bolsonaro, que tem de 30% a 33%. São cerca de 20 pontos em 30 dias. Aécio ganhou 18,5 em 2014 e Haddad 16,3 em 2018; Marina perdeu 13 na mesma janela.
O autor acha que Cury ganha no primeiro turno?
Não, e diz isso na matéria. A conta foi feita para mostrar o tamanho do número, não para prometer resultado.
Minha opinião, avisada como opinião
Eu não acho que ele ganha no primeiro turno. Acho que ele chega ao segundo se a onda continuar, e que o segundo turno contra o Lula é uma eleição de verdade, e não um passeio. Mas a conta do primeiro turno precisava ser feita, porque ela mostra uma coisa: a diferença entre sonho e plano é saber o tamanho do número. Agora você sabe.
Eu volto a cada pesquisa, com a conta refeita.






