Revista De Castro

Bem-estar / 26 de setembro de 2026

Eu fui checar

A idade mais triste não é mais 47 em seis países. A curva da felicidade quebrou, e o jovem virou o mais infeliz

Em setembro voltou a circular que o fundo do poço da vida chega aos 47 anos. O dado existe, é de 2020, e o próprio economista que o descobriu publicou em 2025 que o padrão sumiu em seis países de língua inglesa. Eu fui ler os três trabalhos no original.

Publicado
26 de setembro de 2026
Atualizado
26 de setembro de 2026
Editoria
Bem-estar
Leitura
3 min
Fontes
5 citadas
Paulus Moreelse, Retrato de homem de meia-idade / Wikimedia Commons, domínio público
Paulus Moreelse, Retrato de homem de meia-idade / Wikimedia Commons, domínio público

"A idade mais triste da vida é 47 anos." A frase voltou a rodar em setembro de 2026, em dezenas de sites.

Ela tem origem séria. E o próprio autor já publicou dados que a contradizem em parte.

De onde vem o 47

O economista David Blanchflower, do Dartmouth College, publicou em janeiro de 2020, pelo NBER, o escritório nacional de pesquisa econômica dos Estados Unidos, um estudo com dados de 132 países. As matérias que circulam falam em "mais de 140"; o artigo original diz 132.

O achado foi a chamada curva em U: a satisfação com a vida é alta na juventude, cai ao longo da vida adulta, chega ao fundo perto dos 47 ou 48 anos e volta a subir depois. Nos países em desenvolvimento, a média das estimativas deu 48,2 anos. A Fast Company Brasil cita 47,2 para os países desenvolvidos.

No mesmo mês, Blanchflower publicou outro trabalho, com quase 10 milhões de pessoas em 40 países europeus e nos Estados Unidos, olhando 15 medidas de infelicidade, como desespero, ansiedade, solidão e depressão. A infelicidade fazia o desenho oposto: subia até a meia-idade e depois caía.

A virada

Em fevereiro de 2025, Blanchflower assinou com a psicóloga Jean Twenge um novo trabalho no NBER. Eles reuniram onze estudos, com bases de dados de seis países de língua inglesa: Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e Irlanda.

A conclusão está no resumo: a curva em U desapareceu, substituída por uma crise de bem-estar entre os jovens. Nas pesquisas mais recentes, a satisfação com a vida sobe com a idade, sobretudo desde 2020.

Os jovens adultos tiveram queda consistente de felicidade na última década. Entre os mais velhos, as tendências foram menos uniformes.

A Fast Company Brasil registra o mesmo movimento: hoje, quem tem de 18 a 24 anos relata mais tristeza do que quem tem de 40 a 50.

O que a OMS vê

O relatório da Comissão sobre Conexão Social da OMS, publicado em junho de 2025, mostra de 17% a 21% de solidão entre pessoas de 13 a 29 anos, com os adolescentes no topo. No mundo todo, 1 em cada 6 pessoas se sente sozinha.

O que o estudo novo não diz

A quebra da curva foi medida em seis países ricos de língua inglesa. Eu não encontrei um estudo equivalente com dados do Brasil, e não dá para afirmar que o mesmo aconteceu aqui.

Pesquisa de satisfação com a vida também não é diagnóstico. Tristeza relatada num questionário não equivale a depressão.

E o trabalho de 2020 não está errado. Ele descreveu bem um padrão que valia até pouco tempo. O que mudou foi o mundo, e o próprio autor registrou a mudança.

A resposta

A idade mais triste foi 47 anos, na média de 132 países, até a década passada. Em seis países de língua inglesa, os dados mais recentes mostram que o fundo do poço mudou de endereço e foi para a juventude.

Quem compartilha o "47" em setembro de 2026 está contando uma história de 2020. Se você é jovem e se reconhece nesses números, o CVV atende de graça, 24 horas, pelo 188.

Fontes desta materia

  1. NBER, Blanchflower, Is Happiness U-shaped Everywhere? Age and Subjective Well-being in 132 Countries
  2. NBER, Blanchflower, Unhappiness and Age
  3. NBER, Twenge e Blanchflower, Declining Life Satisfaction and Happiness Among Young Adults in Six English-speaking Countries
  4. Fast Company Brasil, Qual é a idade mais triste da vida? Veja o que diz a ciência
  5. Organização Mundial da Saúde, relatório da Comissão sobre Conexão Social