Tem gente que toma café à noite e garante que dorme do mesmo jeito: deita e apaga.
Uma revisão publicada em setembro de 2026 mostra que apagar e dormir fundo são coisas diferentes.
O que o estudo achou
A professora Donata Kurpas, do Departamento de Enfermagem da Universidade de Medicina de Wroclaw, na Polônia, publicou na revista Nutrients uma revisão sobre cafeína e sono. O ScienceDaily divulgou o trabalho em 22 de setembro.
O achado central: a cafeína reduz a atividade de ondas lentas no eletroencefalograma. Essas ondas são a marca do sono profundo, a fase mais restauradora da noite.
E isso aparece mesmo quando a pessoa adormece normalmente e dorme oito horas, sem acordar no meio da noite.
Kurpas resumiu assim: "a sensação subjetiva de ter dormido bem nem sempre corresponde ao que observamos nos registros neurofisiológicos" (tradução livre).
O sono profundo não é detalhe. Um estudo publicado na PLOS Medicine em setembro, com 95.559 britânicos monitorados por sensor, ligou mais sono profundo a risco menor de sete doenças, entre elas diabetes tipo 2 e depressão maior. É associação, não prova de causa, mas mostra que essa fase entra na conta.
Por que ninguém percebe
O estrago não produz um despertar. Não há o momento de olhar para o teto às 3 da manhã. A noite parece normal, e o cansaço do dia seguinte fica sem explicação.
A professora descreve um círculo vicioso. A recuperação noturna piora, o cansaço do dia aumenta, a pessoa toma mais café, e a noite seguinte recupera ainda menos.
Segundo o texto, até o café da manhã pode afetar o sono em pessoas mais sensíveis.
Quem sente mais
A revisão lista o que muda a sensibilidade de cada um à cafeína: genética, metabolismo, idade, nível de estresse e cansaço acumulado.
Duas pessoas tomando a mesma xícara no mesmo horário podem ter noites muito diferentes.
O tamanho do hábito
No Brasil, cada pessoa tomou em média 1.400 xícaras de café em 2025, segundo a ABIC, a associação da indústria do café. O país consumiu 21,4 milhões de sacas no ano e é o segundo maior consumidor do mundo.
A FDA, agência americana de alimentos e medicamentos, cita 400 miligramas de cafeína por dia como a quantidade em geral não associada a efeitos negativos na maioria dos adultos saudáveis. Pelas contas da própria agência, isso dá de duas a três canecas de 355 ml de café.
A revisão polonesa não contradiz esse número. Ela mostra outra coisa: o efeito sobre a qualidade do sono pode aparecer abaixo do ponto em que a pessoa sente qualquer sinal.
O que o estudo não diz
É uma revisão de estudos já publicados, sem participantes próprios. Ela não traz um número de quanto sono profundo se perde por xícara, nem um horário-limite que valha para todo mundo. Os autores repetem que o efeito depende da dose, da hora, da idade, do estilo de vida e da sensibilidade individual.
Também não é um estudo sobre doença. Não diz que café faz mal.
A resposta
Dormir na hora não garante dormir fundo. Se você dorme oito horas e acorda moído, a xícara da tarde entra na lista de suspeitos, junto com o estresse, que a Pesquisa Global do Sono 2026 da Resmed aponta como o primeiro motivo de noite ruim no mundo (39%).
Quem quiser tirar a dúvida pode testar em si mesmo e, se o cansaço persistir, levar a pergunta a um médico.







