Revista De Castro

Bem-estar / 26 de setembro de 2026

Eu fui checar

Dormiu oito horas e acordou moído? O café pode estar roubando o sono profundo

Uma revisão da Universidade de Medicina de Wroclaw mostra que a cafeína apaga parte das ondas do sono profundo mesmo em quem pega no sono na hora. O estrago não acorda ninguém, e por isso passa despercebido. O que o estudo diz, e o que ele não mede.

Publicado
26 de setembro de 2026
Atualizado
26 de setembro de 2026
Editoria
Bem-estar
Leitura
3 min
Fontes
5 citadas
Shixart1985 / Wikimedia Commons, CC BY 2.0
Shixart1985 / Wikimedia Commons, CC BY 2.0

Tem gente que toma café à noite e garante que dorme do mesmo jeito: deita e apaga.

Uma revisão publicada em setembro de 2026 mostra que apagar e dormir fundo são coisas diferentes.

O que o estudo achou

A professora Donata Kurpas, do Departamento de Enfermagem da Universidade de Medicina de Wroclaw, na Polônia, publicou na revista Nutrients uma revisão sobre cafeína e sono. O ScienceDaily divulgou o trabalho em 22 de setembro.

O achado central: a cafeína reduz a atividade de ondas lentas no eletroencefalograma. Essas ondas são a marca do sono profundo, a fase mais restauradora da noite.

E isso aparece mesmo quando a pessoa adormece normalmente e dorme oito horas, sem acordar no meio da noite.

Kurpas resumiu assim: "a sensação subjetiva de ter dormido bem nem sempre corresponde ao que observamos nos registros neurofisiológicos" (tradução livre).

O sono profundo não é detalhe. Um estudo publicado na PLOS Medicine em setembro, com 95.559 britânicos monitorados por sensor, ligou mais sono profundo a risco menor de sete doenças, entre elas diabetes tipo 2 e depressão maior. É associação, não prova de causa, mas mostra que essa fase entra na conta.

Por que ninguém percebe

O estrago não produz um despertar. Não há o momento de olhar para o teto às 3 da manhã. A noite parece normal, e o cansaço do dia seguinte fica sem explicação.

A professora descreve um círculo vicioso. A recuperação noturna piora, o cansaço do dia aumenta, a pessoa toma mais café, e a noite seguinte recupera ainda menos.

Segundo o texto, até o café da manhã pode afetar o sono em pessoas mais sensíveis.

Quem sente mais

A revisão lista o que muda a sensibilidade de cada um à cafeína: genética, metabolismo, idade, nível de estresse e cansaço acumulado.

Duas pessoas tomando a mesma xícara no mesmo horário podem ter noites muito diferentes.

O tamanho do hábito

No Brasil, cada pessoa tomou em média 1.400 xícaras de café em 2025, segundo a ABIC, a associação da indústria do café. O país consumiu 21,4 milhões de sacas no ano e é o segundo maior consumidor do mundo.

A FDA, agência americana de alimentos e medicamentos, cita 400 miligramas de cafeína por dia como a quantidade em geral não associada a efeitos negativos na maioria dos adultos saudáveis. Pelas contas da própria agência, isso dá de duas a três canecas de 355 ml de café.

A revisão polonesa não contradiz esse número. Ela mostra outra coisa: o efeito sobre a qualidade do sono pode aparecer abaixo do ponto em que a pessoa sente qualquer sinal.

O que o estudo não diz

É uma revisão de estudos já publicados, sem participantes próprios. Ela não traz um número de quanto sono profundo se perde por xícara, nem um horário-limite que valha para todo mundo. Os autores repetem que o efeito depende da dose, da hora, da idade, do estilo de vida e da sensibilidade individual.

Também não é um estudo sobre doença. Não diz que café faz mal.

A resposta

Dormir na hora não garante dormir fundo. Se você dorme oito horas e acorda moído, a xícara da tarde entra na lista de suspeitos, junto com o estresse, que a Pesquisa Global do Sono 2026 da Resmed aponta como o primeiro motivo de noite ruim no mundo (39%).

Quem quiser tirar a dúvida pode testar em si mesmo e, se o cansaço persistir, levar a pergunta a um médico.

Fontes desta materia

  1. ScienceDaily (Universidade de Medicina de Wroclaw), Coffee doesn't have to keep you awake to disrupt your sleep
  2. FDA, Spilling the beans: how much caffeine is too much?
  3. ABIC, indicadores do consumo de café no Brasil
  4. PLOS Medicine, fases do sono medidas por sensor e risco de doenças
  5. Resmed, Pesquisa Global do Sono 2026