Revista De Castro

Notícias / 25 de setembro de 2026

Eu fui checar

A Globo barrou um candidato do último debate. Isso é democrático?

Quatro convidados, nove de fora. Renan Santos, com registro deferido e até 8% em uma das pesquisas, ficou na porta. Eu não voto nele. E fui checar a regra que a emissora usou, encontrei o detalhe que ninguém explicou, e a diferença entre 2018, 2024 e agora. A lei, a resolução do TSE, os números, e o argumento dos dois lados.

Publicado
25 de setembro de 2026
Atualizado
25 de setembro de 2026
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Notícias
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Leonardo Carraro / Wikimedia Commons, CC BY 4.0
Leonardo Carraro / Wikimedia Commons, CC BY 4.0

Começo pelo que importa para você julgar o que vem a seguir: eu não voto em Renan Santos. Prefiro o Caiado.

E mesmo assim passei o dia apurando por que ele ficou de fora do último debate antes do voto. Porque tirar tempo e oportunidade de um candidato com registro deferido, três dias antes da eleição, usando uma regra que nenhum partido novo consegue cumprir, me incomoda.

O que aconteceu

Quarta-feira, 23 de setembro. A Globo avisou as campanhas: o debate de 1º de outubro, depois do Jornal Nacional, o último antes do primeiro turno, terá quatro candidatos.

Lula, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado e Augusto Cury.

De fora: Renan Santos, Romeu Zema, Samara Martins e outros seis. Treze candidatos estão na urna.

Em 2022, o mesmo debate da Globo teve sete: Lula, Bolsonaro, Ciro Gomes, Simone Tebet, Soraya Thronicke, Felipe D'Avila e Padre Kelmon.

Renan reagiu em vídeo no mesmo dia: "na última eleição convidaram sete. Agora resolveram por quatro e me tiraram disso." E marcou protesto na porta da emissora, no Rio, para o dia do debate.

O critério, como a lei escreve

A Globo disse que seguiu "a legislação eleitoral". Fui ler.

A norma é a Lei 9.504 de 1997, artigo 46. O texto diz que é facultada a transmissão de debates por rádio e televisão, e que, quando a emissora faz, fica assegurada a participação de candidatos de partidos com representação no Congresso Nacional de, no mínimo, cinco parlamentares.

Para os demais, o texto usa uma palavra que muda tudo: a participação é "facultada".

Traduzindo: a lei obriga a emissora a chamar quem tem cinco ou mais. Quanto ao resto, a emissora escolhe.

O detalhe que ninguém explicou

Aqui está a parte que não apareceu em quase nenhuma cobertura.

A resolução 23.610 do TSE, que regulamenta o artigo 46, diz no parágrafo 6º que a representação de cada partido a ser considerada é a resultante da última eleição geral. Ou seja, a bancada eleita em 2022, não a bancada de hoje.

Isso vira tudo de cabeça para baixo:

PartidoEleitos em 2022Bancada hojeCandidato
PSD4251Caiado
Avante75Cury
Novo35Zema
Missãonão existia1Renan

O Novo tem 5 deputados hoje, mas elegeu 3. O Avante tem 5 hoje, mas elegeu 7.

Por isso Cury entra e Zema fica de fora.

E o partido de Renan, o Missão, foi fundado em outubro de 2023 e só teve o registro aprovado pelo TSE em 4 de novembro de 2025, com 577.999 assinaturas. Não podia ter elegido ninguém em 2022, porque não existia.

Pela régua da bancada eleita, nenhum partido novo consegue cumprir a regra. Nunca.

Não foi pesquisa, foi bancada

O Datafolha de 22 e 23 de setembro trouxe: Lula 40%, Flávio 36%, Cury 5%, Caiado 4%, Renan 3%, Zema 1%.

Caiado tem 4% e entrou. Renan tem 3% e ficou fora. A diferença de um ponto não decidiu nada, porque a pesquisa não é critério.

O que decidiu foi a bancada: o PSD elegeu 42 deputados em 2022, o Missão tem um deputado hoje, eleito por outro partido.

Renan nas pesquisas, com honestidade

Ele diz que está em terceiro lugar. Vale conferir.

No Datafolha, tem 3% e está em quinto. No Real Time Big Data, 6%. No Palver, feito de 20 a 23 de setembro, 8% e terceiro lugar.

Em duas pesquisas ele está em terceiro. Em três, não está.

Para dimensionar o que 3% significa numa eleição presidencial: Enéas Carneiro, em 1994, com 15 segundos de propaganda na TV, terminou em terceiro lugar com 7,38% dos votos.

Quem é Renan Santos

Tem 42 anos, é paulistano, largou o curso de Direito na USP e cofundou o MBL em 2014. Toca numa banda chamada Limão Rosa.

Patrimônio declarado ao TSE: R$ 795.089. O número na urna é 14. O vice é Aroldo Medina.

O programa dele inclui título de propriedade para erradicar favelas, superpresídios, fusão de municípios pequenos e método fônico na alfabetização.

A revista já contou o episódio anterior: em 31 de agosto, o TSE suspendeu a campanha dele por perfis de rede não declarados. Em 1º de setembro, liberou. A candidatura está deferida. Ele é candidato como os outros doze.

Em 2018, a Globo abriu uma segunda porta

Este é o ponto que muda a discussão de "a lei manda" para "a emissora escolhe".

No debate de 4 de outubro de 2018, a Globo usou dois critérios: cinco parlamentares ou 6% na pesquisa.

Cabo Daciolo, que tinha 4 parlamentares e 1% nas pesquisas, ficou de fora, chamou de "boicote" e recorreu ao TSE. O relator Admar Gonzaga negou. A regra deixou Daciolo fora, mas a emissora tinha aberto a segunda porta por escolha própria.

Em 2024, a segunda porta serviu para Pablo Marçal

Na eleição municipal de São Paulo, em 3 de outubro de 2024, a Globo convidou Pablo Marçal para o debate.

Ele não tinha bancada nenhuma. Entrou pelo critério de 6% na pesquisa, e tinha 21%.

Marçal já tinha sido expulso de um debate e levado uma cadeirada em outro. Conduta não foi critério. Pesquisa foi.

Em 2026, não houve segunda porta

A emissora usou o piso da lei como teto.

Se existisse o critério de 6% deste ano, Renan entraria em duas pesquisas e ficaria de fora em três. A conta seria discutível. Mas seria uma conta.

A escolha de não ter critério de pesquisa é uma escolha.

Quem foge do debate

Do outro lado da mesma moeda, há uma questão que ninguém cobra com a mesma energia.

Em 2006, Lula avisou três horas antes que não iria ao debate da Globo, e a emissora manteve o programa com a cadeira vazia.

Em 2026, Lula e Flávio Bolsonaro não foram a nenhum debate. O da Record foi cancelado em 23 de setembro, com a emissora justificando que, sem os candidatos que concentram a maior parte das intenções de voto, o programa não cumpriria seu objetivo. O do SBT com a CNN também caiu. Em agosto, a Band fez um debate com apenas três: Caiado, Renan e Cury.

Caiado resumiu em agosto: os ausentes "amarelaram". E provocou: se o voto é obrigatório para o eleitor, por que a presença não é obrigatória para o candidato?

O que a Globo ganha com quatro

A CNN apurou o cálculo que rodou os bastidores: com Renan e Zema na mesa, a chance de Lula comparecer era "próxima de zero".

Menos gente na mesa, menos palanque contra o líder, mais chance de ter Lula e Flávio frente a frente pela primeira vez na campanha.

Até a manhã de sexta-feira, nenhum dos dois tinha confirmado. A emissora avisou que mantém o debate de qualquer jeito.

A favor da Globo

O critério está na lei e foi o mesmo aplicado em 2022. A diferença é que naquele ano sete partidos cumpriam a régua, e hoje quatro cumprem.

Debate com dez candidatos vira palanque coletivo contra quem lidera, e a qualidade do que se discute cai.

A emissora não é obrigada a fazer debate nenhum. A palavra da lei é "facultada".

E a Record cancelou o dela justamente por falta dos dois candidatos que somam cerca de 70% das intenções de voto.

Contra a Globo

O piso da lei virou teto. O mínimo obrigatório virou o máximo permitido.

A regra da bancada eleita em 2022 exclui, por definição, qualquer partido criado depois de 2022. Não é difícil de cumprir: é impossível.

É o último debate antes do voto, o de maior audiência, e o único que os dois líderes talvez aceitem. O custo de ficar de fora é máximo.

E a própria emissora abriu a porta da pesquisa em 2018 e em 2024. Em 2026, fechou.

A estratégia de quem fica fora

Renan respondeu em 24 horas: vídeo, nota do partido, protesto marcado na porta da emissora.

Não é novidade. Trump pulou os cinco debates das primárias republicanas em 2023 e deu entrevista no X no mesmo horário. Daciolo virou personagem nacional depois do "boicote".

A ausência vira pauta. O custo é outro: um estudo da Datrix, publicado pela Exame, mostrou que Renan teve 768,4 milhões de interações nas redes entre 7 e 21 de agosto, 85,9% delas no X, com sentimento 23% positivo e 23,8% negativo. A atenção dele cresce junto com a rejeição.

O que joga contra, e entra

"O Thiago só defende porque é de direita." O mesmo critério barrou Samara Martins, candidata de esquerda.

"Renan é provocador, mereceu." A lei não tem critério de conduta, e Marçal foi convidado em 2024 depois de uma cadeirada.

"Com 3% não é candidato de verdade." Enéas tinha 15 segundos de TV e ficou em terceiro.

"Ele disse que foi desconvidado." Não foi desconvidado. Não foi convidado. São coisas diferentes, e a distinção importa.

A minha opinião, marcada como opinião

Eu não voto em Renan Santos. Prefiro o Caiado.

Mas tirar tempo e oportunidade de um candidato com registro deferido, três dias antes do voto, usando uma regra que nenhum partido novo consegue cumprir, não é democrático.

O eleitor decide quem merece o voto. A emissora não deveria decidir quem existe na eleição.

Dia 1º de outubro a gente conta quem sentou na cadeira.

Fontes desta materia

  1. Bahia Notícias, Globo fará debate apenas com Lula, Flávio, Caiado e Cury
  2. Estado de Minas, Globo convida 4 candidatos para debate presidencial, Zema fica de fora
  3. Folha do Estado, Globo chama quatro candidatos, em 2022 foram sete
  4. CNN Brasil, Limite de candidatos eleva chance de Lula e Flávio irem a debate
  5. Correio Braziliense, Após ficar fora de debate, Renan Santos anuncia protesto
  6. TSE, Temas selecionados sobre debate em rádio e TV
  7. TSE, Resolução 23.610, texto integral
  8. NSC Total, Quem é Renan Santos, candidato do Missão à Presidência
  9. Wikipédia, verbete do partido Missão
  10. Câmara dos Deputados, dados abertos, bancada do Missão
  11. Conjur, Quebra de transparência digital sem precedentes motiva suspensão de Renan
  12. Gazeta do Povo, Datafolha presidente, setembro de 2026
  13. Gazeta do Povo, Palver presidente, setembro de 2026
  14. Exame, Renan Santos supera Marçal em menções nas redes, mas avanço vem com desgaste
  15. Diário de Pernambuco, Debate na Globo em 2022, regras e participantes
  16. Gazeta do Povo, Globo deixa Daciolo fora do debate e ele vai à Justiça
  17. Exame, Para Daciolo, Globo faz boicote ao não convidá-lo
  18. Wikipédia, Eleição municipal de São Paulo em 2024
  19. Wikipédia, Eleição presidencial no Brasil em 2006
  20. Exame, Record cancela debate presidencial
  21. Congresso em Foco, Band realiza primeiro debate presidencial, veja quem participa
  22. Agora RN, Caiado sobre debate obrigatório: lei não obriga emissora a transmitir
  23. Poder360, Globo manterá debate mesmo sem Lula e Flávio Bolsonaro
  24. Wikipédia, Enéas Carneiro
  25. Wikipedia, 2024 Republican Party presidential debates