Começo pelo que importa para você julgar o que vem a seguir: eu não voto em Renan Santos. Prefiro o Caiado.
E mesmo assim passei o dia apurando por que ele ficou de fora do último debate antes do voto. Porque tirar tempo e oportunidade de um candidato com registro deferido, três dias antes da eleição, usando uma regra que nenhum partido novo consegue cumprir, me incomoda.
O que aconteceu
Quarta-feira, 23 de setembro. A Globo avisou as campanhas: o debate de 1º de outubro, depois do Jornal Nacional, o último antes do primeiro turno, terá quatro candidatos.
Lula, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado e Augusto Cury.
De fora: Renan Santos, Romeu Zema, Samara Martins e outros seis. Treze candidatos estão na urna.
Em 2022, o mesmo debate da Globo teve sete: Lula, Bolsonaro, Ciro Gomes, Simone Tebet, Soraya Thronicke, Felipe D'Avila e Padre Kelmon.
Renan reagiu em vídeo no mesmo dia: "na última eleição convidaram sete. Agora resolveram por quatro e me tiraram disso." E marcou protesto na porta da emissora, no Rio, para o dia do debate.
O critério, como a lei escreve
A Globo disse que seguiu "a legislação eleitoral". Fui ler.
A norma é a Lei 9.504 de 1997, artigo 46. O texto diz que é facultada a transmissão de debates por rádio e televisão, e que, quando a emissora faz, fica assegurada a participação de candidatos de partidos com representação no Congresso Nacional de, no mínimo, cinco parlamentares.
Para os demais, o texto usa uma palavra que muda tudo: a participação é "facultada".
Traduzindo: a lei obriga a emissora a chamar quem tem cinco ou mais. Quanto ao resto, a emissora escolhe.
O detalhe que ninguém explicou
Aqui está a parte que não apareceu em quase nenhuma cobertura.
A resolução 23.610 do TSE, que regulamenta o artigo 46, diz no parágrafo 6º que a representação de cada partido a ser considerada é a resultante da última eleição geral. Ou seja, a bancada eleita em 2022, não a bancada de hoje.
Isso vira tudo de cabeça para baixo:
| Partido | Eleitos em 2022 | Bancada hoje | Candidato |
|---|---|---|---|
| PSD | 42 | 51 | Caiado |
| Avante | 7 | 5 | Cury |
| Novo | 3 | 5 | Zema |
| Missão | não existia | 1 | Renan |
O Novo tem 5 deputados hoje, mas elegeu 3. O Avante tem 5 hoje, mas elegeu 7.
Por isso Cury entra e Zema fica de fora.
E o partido de Renan, o Missão, foi fundado em outubro de 2023 e só teve o registro aprovado pelo TSE em 4 de novembro de 2025, com 577.999 assinaturas. Não podia ter elegido ninguém em 2022, porque não existia.
Pela régua da bancada eleita, nenhum partido novo consegue cumprir a regra. Nunca.
Não foi pesquisa, foi bancada
O Datafolha de 22 e 23 de setembro trouxe: Lula 40%, Flávio 36%, Cury 5%, Caiado 4%, Renan 3%, Zema 1%.
Caiado tem 4% e entrou. Renan tem 3% e ficou fora. A diferença de um ponto não decidiu nada, porque a pesquisa não é critério.
O que decidiu foi a bancada: o PSD elegeu 42 deputados em 2022, o Missão tem um deputado hoje, eleito por outro partido.
Renan nas pesquisas, com honestidade
Ele diz que está em terceiro lugar. Vale conferir.
No Datafolha, tem 3% e está em quinto. No Real Time Big Data, 6%. No Palver, feito de 20 a 23 de setembro, 8% e terceiro lugar.
Em duas pesquisas ele está em terceiro. Em três, não está.
Para dimensionar o que 3% significa numa eleição presidencial: Enéas Carneiro, em 1994, com 15 segundos de propaganda na TV, terminou em terceiro lugar com 7,38% dos votos.
Quem é Renan Santos
Tem 42 anos, é paulistano, largou o curso de Direito na USP e cofundou o MBL em 2014. Toca numa banda chamada Limão Rosa.
Patrimônio declarado ao TSE: R$ 795.089. O número na urna é 14. O vice é Aroldo Medina.
O programa dele inclui título de propriedade para erradicar favelas, superpresídios, fusão de municípios pequenos e método fônico na alfabetização.
A revista já contou o episódio anterior: em 31 de agosto, o TSE suspendeu a campanha dele por perfis de rede não declarados. Em 1º de setembro, liberou. A candidatura está deferida. Ele é candidato como os outros doze.
Em 2018, a Globo abriu uma segunda porta
Este é o ponto que muda a discussão de "a lei manda" para "a emissora escolhe".
No debate de 4 de outubro de 2018, a Globo usou dois critérios: cinco parlamentares ou 6% na pesquisa.
Cabo Daciolo, que tinha 4 parlamentares e 1% nas pesquisas, ficou de fora, chamou de "boicote" e recorreu ao TSE. O relator Admar Gonzaga negou. A regra deixou Daciolo fora, mas a emissora tinha aberto a segunda porta por escolha própria.
Em 2024, a segunda porta serviu para Pablo Marçal
Na eleição municipal de São Paulo, em 3 de outubro de 2024, a Globo convidou Pablo Marçal para o debate.
Ele não tinha bancada nenhuma. Entrou pelo critério de 6% na pesquisa, e tinha 21%.
Marçal já tinha sido expulso de um debate e levado uma cadeirada em outro. Conduta não foi critério. Pesquisa foi.
Em 2026, não houve segunda porta
A emissora usou o piso da lei como teto.
Se existisse o critério de 6% deste ano, Renan entraria em duas pesquisas e ficaria de fora em três. A conta seria discutível. Mas seria uma conta.
A escolha de não ter critério de pesquisa é uma escolha.
Quem foge do debate
Do outro lado da mesma moeda, há uma questão que ninguém cobra com a mesma energia.
Em 2006, Lula avisou três horas antes que não iria ao debate da Globo, e a emissora manteve o programa com a cadeira vazia.
Em 2026, Lula e Flávio Bolsonaro não foram a nenhum debate. O da Record foi cancelado em 23 de setembro, com a emissora justificando que, sem os candidatos que concentram a maior parte das intenções de voto, o programa não cumpriria seu objetivo. O do SBT com a CNN também caiu. Em agosto, a Band fez um debate com apenas três: Caiado, Renan e Cury.
Caiado resumiu em agosto: os ausentes "amarelaram". E provocou: se o voto é obrigatório para o eleitor, por que a presença não é obrigatória para o candidato?
O que a Globo ganha com quatro
A CNN apurou o cálculo que rodou os bastidores: com Renan e Zema na mesa, a chance de Lula comparecer era "próxima de zero".
Menos gente na mesa, menos palanque contra o líder, mais chance de ter Lula e Flávio frente a frente pela primeira vez na campanha.
Até a manhã de sexta-feira, nenhum dos dois tinha confirmado. A emissora avisou que mantém o debate de qualquer jeito.
A favor da Globo
O critério está na lei e foi o mesmo aplicado em 2022. A diferença é que naquele ano sete partidos cumpriam a régua, e hoje quatro cumprem.
Debate com dez candidatos vira palanque coletivo contra quem lidera, e a qualidade do que se discute cai.
A emissora não é obrigada a fazer debate nenhum. A palavra da lei é "facultada".
E a Record cancelou o dela justamente por falta dos dois candidatos que somam cerca de 70% das intenções de voto.
Contra a Globo
O piso da lei virou teto. O mínimo obrigatório virou o máximo permitido.
A regra da bancada eleita em 2022 exclui, por definição, qualquer partido criado depois de 2022. Não é difícil de cumprir: é impossível.
É o último debate antes do voto, o de maior audiência, e o único que os dois líderes talvez aceitem. O custo de ficar de fora é máximo.
E a própria emissora abriu a porta da pesquisa em 2018 e em 2024. Em 2026, fechou.
A estratégia de quem fica fora
Renan respondeu em 24 horas: vídeo, nota do partido, protesto marcado na porta da emissora.
Não é novidade. Trump pulou os cinco debates das primárias republicanas em 2023 e deu entrevista no X no mesmo horário. Daciolo virou personagem nacional depois do "boicote".
A ausência vira pauta. O custo é outro: um estudo da Datrix, publicado pela Exame, mostrou que Renan teve 768,4 milhões de interações nas redes entre 7 e 21 de agosto, 85,9% delas no X, com sentimento 23% positivo e 23,8% negativo. A atenção dele cresce junto com a rejeição.
O que joga contra, e entra
"O Thiago só defende porque é de direita." O mesmo critério barrou Samara Martins, candidata de esquerda.
"Renan é provocador, mereceu." A lei não tem critério de conduta, e Marçal foi convidado em 2024 depois de uma cadeirada.
"Com 3% não é candidato de verdade." Enéas tinha 15 segundos de TV e ficou em terceiro.
"Ele disse que foi desconvidado." Não foi desconvidado. Não foi convidado. São coisas diferentes, e a distinção importa.
A minha opinião, marcada como opinião
Eu não voto em Renan Santos. Prefiro o Caiado.
Mas tirar tempo e oportunidade de um candidato com registro deferido, três dias antes do voto, usando uma regra que nenhum partido novo consegue cumprir, não é democrático.
O eleitor decide quem merece o voto. A emissora não deveria decidir quem existe na eleição.
Dia 1º de outubro a gente conta quem sentou na cadeira.







