Cinco indicações ao Nobel da Paz. Nenhum prêmio.
Em 2 de outubro o mundo comemora o Dia Internacional da Não Violência, na data de nascimento dele, por decisão da Assembleia Geral da ONU. Poucos dias depois, em Oslo, anunciam o Nobel da Paz do ano.
O nome de Mohandas Karamchand Gandhi nunca esteve nessa lista.
O ano em que não deram a ninguém
Ele foi indicado em 1937, 1938, 1939, 1947 e 1948.
A última indicação chegou poucos dias antes do fim. Gandhi foi assassinado em 30 de janeiro de 1948, dois dias antes do prazo final de indicações daquele ano. Mesmo assim o comitê recebeu seis cartas com o nome dele, entre elas a dos quacres e a de Emily Greene Balch, que já tinha sido laureada.
Em 18 de novembro de 1948, o Comitê Nobel Norueguês decidiu não conceder o prêmio da paz naquele ano. A justificativa registrada foi que não havia candidato vivo adequado.
O presidente do comitê, Gunnar Jahn, anotou no diário que lhe parecia fora de dúvida que um prêmio póstumo contrariaria a intenção do testador. Três dos quatro colegas acabaram concordando. Só o membro Oftedal defendeu dar o prêmio a um morto.
Havia ainda um problema prosaico nas atas: Gandhi não pertencia a nenhuma organização, não deixou bens e não deixou testamento. Não havia a quem entregar o dinheiro.
Em 1989, ao anunciar o prêmio ao Dalai Lama, o presidente do comitê disse que aquilo era, em parte, um tributo à memória de Gandhi.
E em 2006, Geir Lundestad, então secretário do Comitê Nobel Norueguês, escreveu a frase que fecha o assunto: "a maior omissão nos nossos 106 anos de história é, sem dúvida, que Mahatma Gandhi nunca recebeu o Nobel da Paz."
Uma nota de honestidade: as fontes que reproduzem a declaração dão o cargo e o ano, e não nomeiam o veículo. Por isso está aqui com o nome dele e a data, sem inventar o resto.
A frase que ele nunca disse
Antes de seguir, um conserto.
"Seja a mudança que você quer ver no mundo" não é de Gandhi.
Não existe registro dessa frase em nenhum escrito ou discurso dele, e o homem foi taquigrafado praticamente o tempo todo, em dezenas de volumes de obras completas. O rastro documental mais antigo da fórmula popular leva a 1970 e a Arleen Lorrance, professora de uma escola pública do Brooklyn, num projeto que ela chamou de The Love Project.
O que ele escreveu, esse sim tem endereço. Está nas obras completas, volume 13, capítulo 153, página 241, publicado no jornal Indian Opinion em 9 de agosto de 1913:
"Nós apenas espelhamos o mundo. Se pudéssemos mudar a nós mesmos, as tendências do mundo também mudariam."
Parece a mesma coisa. Não é. A versão de camiseta manda você virar um exemplo. A versão dele fala de trabalhar a própria natureza, e diz que o mundo responde depois.
O advogado que travou
Ele nasceu em 2 de outubro de 1869, em Porbandar, no Gujarate. Estudou direito no Inner Temple, em Londres, e voltou à Índia em 1891 para abrir banca em Bombaim.
O primeiro caso foi numa corte de pequenas causas. Honorários de 30 rupias. O trabalho dele era inquirir as testemunhas da outra parte.
Ele se levantou e não conseguiu formular uma pergunta sequer.
Pediu desculpas ao juiz e ao cliente, disse que não tinha condições de conduzir o processo, mandou o homem contratar outro advogado e saiu depressa do tribunal.
Seis meses depois fechou a banca e voltou para Rajkot, onde passou a redigir petições e memoriais por cerca de 300 rupias mensais. Não pisou em tribunal de novo até ir para a África do Sul.
A noite na estação
Em 1893, aos 23 anos, aceitou um trabalho na África do Sul.
Em 7 de junho, com passagem válida de primeira classe comprada pelo cliente que o contratou, embarcou em Durban. Por volta das nove da noite, na estação de Pietermaritzburg, um passageiro branco entrou no compartimento, viu um indiano ali e chamou os funcionários.
Mandaram que ele fosse para o vagão de terceira classe. Ele mostrou a passagem e se recusou.
Foi retirado do trem à força e passou a noite de inverno na sala de espera deserta.
Ficou 21 anos na África do Sul.
A pena máxima, pedida por ele
Em 18 de março de 1922, Gandhi foi julgado por sedição no artigo 124A do Código Penal Indiano, em Ahmedabad. Compareceu sem advogado, declarou-se culpado de tudo e pediu ao juiz a pena mais alta possível.
A frase dele, tirada da declaração no tribunal:
"Estou aqui, portanto, para pedir e aceitar de bom grado a pena mais alta que me possa ser imposta por aquilo que, na lei, é um crime deliberado, e que, para mim, é o mais alto dever de um cidadão."
Pegou seis anos. Cumpriu dois, e saiu por causa de uma apendicite.
387 quilômetros por um punhado de sal
Em 12 de março de 1930, Gandhi saiu do ashram de Sabarmati com 78 voluntários.
Andaram 387 quilômetros em 24 dias, até a praia de Dandi.
Às oito e meia da manhã de 6 de abril, ele se abaixou e apanhou sal do chão, quebrando o monopólio britânico. Milhões de indianos fizeram o mesmo nas semanas seguintes. Mais de 60 mil pessoas foram presas.
O que joga contra, e entra
Esta parte a revista não pula.
A fase sul-africana. Nos textos que ele escreveu naquele período, a reclamação não era contra a hierarquia racial. Era contra o lugar que os indianos ocupavam nela. Uma passagem citada na petição que pediu a retirada da estátua dele na Universidade de Gana diz que a luta dos indianos era contra a degradação que os europeus queriam impor, rebaixando-os "ao nível do kaffir bruto", cuja ocupação seria caçar e cuja única ambição seria juntar gado para comprar uma esposa. Outros trechos descrevem os indianos como infinitamente superiores aos africanos negros.
A estátua, inaugurada em Acra pelo ex-presidente indiano Pranab Mukherjee, foi retirada de madrugada em dezembro de 2018, depois de uma campanha de estudantes e professores iniciada em 2016. No mesmo período, uma estátua dele foi depredada em Joanesburgo e a instalação de outra foi barrada em Davis, na Califórnia.
As castas. Gandhi combateu a intocabilidade, mas defendeu por décadas o sistema de varnas em vez de propor o fim da estrutura de castas. Em agosto de 1932, quando o governo britânico concedeu eleitorado separado às Classes Deprimidas, ele entrou em jejum até a morte contra a medida, em 20 de setembro, alegando que aquilo dividiria a sociedade hindu.
Do outro lado estava B. R. Ambedkar, principal liderança dalit e futuro redator-chefe da Constituição indiana, que via no eleitorado separado a única garantia de poder político próprio. Ambedkar classificou o jejum como manobra política, não como luta moral.
O acordo veio em 24 de setembro de 1932, o Pacto de Poona: cadeiras reservadas dentro de um eleitorado conjunto, 148 em vez das 80 previstas. Ambedkar cedeu com a vida de Gandhi na balança. O episódio segue sendo um dos mais disputados da história política indiana.
A independência sem um tiro. Essa é a frase que mais circula, e ela é falsa por omissão. A independência de 15 de agosto de 1947 veio com a Partição. As estimativas acadêmicas de mortos vão de 200 mil a 2 milhões. O deslocamento forçado atingiu de 12 a 20 milhões de pessoas. Até 100 mil mulheres foram estupradas ou sequestradas. Cólera, tifo e varíola varreram os campos de refugiados.
17h17
Em 30 de janeiro de 1948, às cinco e dezessete da tarde, Gandhi caminhava para uma reunião de oração no jardim da Birla House, em Nova Délhi.
Nathuram Godse, nacionalista hindu que se opunha à posição dele sobre tolerância religiosa e sobre a relação entre Índia e Paquistão, disparou três tiros no peito dele à queima-roupa.
Ele tinha 78 anos.
A resposta
O prêmio não veio, e a lista de laureados da paz seguiu sem o nome dele.
Em 15 de junho de 2007, a Assembleia Geral da ONU aprovou a resolução A/RES/61/271, apresentada por 140 copatrocinadores, e transformou a data de nascimento dele em Dia Internacional da Não Violência.
É um prêmio maior, e é também uma conta que não fecha. O homem que travou diante de um juiz aos 22 anos, que dormiu numa sala de espera de estação por causa da cor da pele, que pediu a um tribunal a pena máxima e que andou 387 quilômetros para pegar sal do chão ficou de fora do prêmio criado para exatamente isso.
O próprio comitê admitiu, 58 anos depois.







