Em 2004, um rapaz de 18 anos recém-chegado do Havaí assinou contrato com a Motown Records.
A Motown. A gravadora de Marvin Gaye, de Stevie Wonder, dos Jackson 5, dos Temptations. O endereço mais desejado da música negra americana.
Em menos de um ano ele estava na rua, sem um disco lançado.
O nome que ele inventou para sobreviver
O nome de batismo é Peter Gene Hernandez. Nasceu em Honolulu, no Havaí, em 8 de outubro de 1985. O pai era porto-riquenho e judeu asquenazi, criado no Brooklyn. A mãe, Bernadette San Pedro Bayot, era filipina.
O apelido veio antes de tudo. Aos 2 anos, o pai começou a chamá-lo de Bruno, porque o menino gordinho e teimoso lembrava o lutador de luta livre Bruno Sammartino.
O sobrenome artístico ele escolheu sozinho, muitos anos depois, e a explicação dele é esta:
"Eu sentia que não tinha nenhum brilho, e muitas garotas dizem que eu sou de outro mundo, então pensei: acho que sou de Marte."
Havia uma segunda razão, prática. Peter Hernandez, num escritório de gravadora americana em 2004, entrava na gaveta de artista latino. Bruno Mars não entrava em gaveta nenhuma.
O menino que imitava Elvis
A família tinha uma banda em Waikiki, a Love Notes. O show era no estilo revista de Las Vegas: sucessos da Motown, doo-wop e imitações de gente famosa.
Aos 4 anos, o caçula entrou no elenco. O papel dele era imitar Elvis Presley. Logo virou a principal atração.
Aos 6, apareceu no filme "Lua de Mel a Três", de 1992, e no programa de Arsenio Hall.
Em 2003, aos 17, foi para Los Angeles.
Cinco anos escrevendo para os outros
Depois de ser dispensado pela Motown, ele não voltou para casa.
Em 2005, conseguiu um contrato de edição musical com a Westside Independent. Em 2006, foi apresentado a Aaron Bay-Schuck, da Atlantic Records, tocou duas músicas no violão e o executivo quis assinar na hora.
A gravadora levou três anos para fechar.
Nesse meio-tempo, Bay-Schuck contratou Bruno e o trio de produção dele, os Smeezingtons, para escrever e produzir música para os artistas da casa. Foi assim que ele passou a assinar sucesso alheio: "Right Round", do Flo Rida, "Nothin' on You", do B.o.B, e "Fuck You", do CeeLo Green.
O contrato próprio com a Atlantic só saiu em 2009.
Em 20 de julho de 2010 saiu "Just the Way You Are". Ele tinha 24 anos. Seis anos depois da Motown.
Dois meses depois, a cadeia
Em 19 de setembro de 2010, com o disco de estreia ainda para sair, ele foi preso em Las Vegas com 2,6 gramas de cocaína, depois de um show no Hard Rock Hotel & Casino.
Declarou-se culpado. Levou liberdade condicional, multa de US$ 2 mil, 200 horas de serviço comunitário e 8 horas de aconselhamento antidrogas. Como era réu primário, a acusação de crime grave foi arquivada depois que ele cumpriu o acordo.
"Doo-Wops & Hooligans" saiu em 5 de outubro de 2010 e vendeu 15,5 milhões de cópias no mundo.
A mãe
1.º de junho de 2013. Bernadette Hernandez morreu de aneurisma cerebral no Queen's Medical Center, em Honolulu, aos 55 anos.
Ela era a mulher que cantava na banda da família em Waikiki, a mesma que colocou o filho de 4 anos no palco para imitar Elvis.
Os números
| Recorte | Marca |
|---|---|
| Grammys | 16, incluindo Álbum do Ano por "24K Magic", em 2018 |
| Discos vendidos | mais de 150 milhões no mundo |
| Músicas em primeiro lugar na Billboard Hot 100 | 10 |
| Doo-Wops & Hooligans | 15,5 milhões de cópias |
| Unorthodox Jukebox | mais de 6 milhões |
| 24K Magic | mais de 5 milhões |
| Super Bowl XLVIII, 2014 | 115,3 milhões de espectadores, o intervalo mais assistido até então |
Em 2021, o disco com Anderson .Paak, "An Evening with Silk Sonic", levou "Leave the Door Open" ao primeiro lugar. Em 2024, "Die with a Smile", com Lady Gaga, e "APT.", com Rosé, foram para o topo das paradas globais.
Em 27 de fevereiro de 2026 saiu "The Romantic", o quarto disco solo, produzido só por ele e por D'Mile. Estreou em primeiro na Billboard 200.
O Brasil
Este pedaço merece parágrafo próprio, porque é recorde.
Entre outubro e novembro de 2024, ele fez 14 shows em cinco cidades brasileiras, com 817 mil ingressos vendidos e US$ 85 milhões de bilheteria. É a maior turnê de artista internacional já realizada no país. O recorde anterior era do RBD, com 13 shows, em 2006.
Só em São Paulo foram seis apresentações no MorumBIS, nos dias 4, 5, 8, 9, 12 e 13 de outubro. Os quatro primeiros esgotaram em menos de uma hora, e a produção abriu mais quatro datas.
O show de 1.º de outubro, no Morumbi, foi a maior bilheteria da carreira dele na América Latina: US$ 7,054 milhões.
O que joga contra, e entra
Esta parte a revista não pula.
A prisão de 2010. Está descrita acima com o desfecho completo, inclusive o arquivamento. Ele nunca escondeu o episódio.
A dívida de jogo que não existiu. Em março de 2024, publicações noticiaram que ele deveria mais de US$ 50 milhões ao cassino MGM. A MGM Resorts International respondeu por escrito que a informação era "completamente falsa" e que Bruno Mars não tem dívida com a empresa. A história continua circulando, e por isso o desmentido precisa aparecer sempre que o assunto voltar.
A acusação de apropriação cultural. Em 2018, houve um debate público sobre um artista não negro construir a carreira inteira sobre funk, soul e R&B. Registro o debate, não a sentença. Não localizei nas fontes que consultei uma declaração dele que encerre a discussão, e não vou atribuir a ele frase que não achei.
A resposta
A Motown não errou por falta de informação. Tinha o menino na frente, com contrato assinado, e devolveu.
O que a gravadora não tinha jeito de saber é que aquele rapaz já estava em cima de palco desde os 4 anos e não conhecia outra profissão.
Ele não voltou para o Havaí. Ficou em Los Angeles cinco anos escrevendo música que outros cantores levaram para o primeiro lugar, com o nome dele em letra pequena na ficha técnica.
Mais de vinte anos depois daquela dispensa, ele tem 16 Grammys, mais de 150 milhões de discos vendidos e o maior público que um artista estrangeiro já juntou no Brasil.
E faz 41 anos em 8 de outubro.







