Revista De Castro

Notícias / 29 de setembro de 2026

Eu fui checar

O governo tem 264 toneladas de feijão guardadas. Dá para o Brasil comer por 51 minutos

Eu fui ler a tabela oficial da Conab. O feijão do estoque público está mesmo quase zerado: 264 toneladas no fim de agosto, 1,2 grama por brasileiro. O arroz, que circulou como 293 toneladas, é 293 mil. Aqui estão a conta, os sete anos de cofre vazio que passaram por três presidentes, e o que o governo diz que está fazendo.

Publicado
29 de setembro de 2026
Atualizado
29 de setembro de 2026
Editoria
Notícias
Leitura
10 min
Fontes
12 citadas

Ouvir a matéria

Imagem ilustrativa. Ivan Blumenschein / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0
Imagem ilustrativa. Ivan Blumenschein / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

O estoque público de feijão do Brasil tinha 264 toneladas no fim de agosto de 2026, o suficiente para o país comer por cerca de 51 minutos. O dado está na Série histórica de estoques públicos da Conab, a Companhia Nacional de Abastecimento, edição de agosto de 2026. O arroz está em situação bem diferente: são 293.949 toneladas, uns 10 dias de consumo, e não as 293 toneladas que circularam em setembro.

Eu fui ler a tabela oficial, linha por linha, porque os dois números viraram munição em vídeo viral sobre fome em 2027. Um deles está certo. O outro perdeu três zeros no caminho.

A conta do feijão

A tabela 21 da Conab, "Estoque Total de Feijão", registra 207 toneladas em julho e 264 toneladas em agosto de 2026.

O Brasil consome 2,7 milhões de toneladas de feijão por ano, segundo a projeção de demanda da Conab publicada pela Agência Gov em setembro. Dividido pelas 8.760 horas do ano, dá 308 toneladas por hora. As 264 toneladas do governo cobrem 0,86 hora: 51 minutos.

Por pessoa, com os 214,2 milhões de habitantes que o IBGE estimou para 1º de julho de 2026, são 1,23 grama.

O número do arroz que circulou

Em 7 de setembro de 2026, o site Sou Agro publicou "Estoques públicos de arroz e feijão estão quase zerados". O texto dizia que, em julho, o governo tinha "apenas 293 toneladas" de arroz e 207 de feijão. A notícia foi replicada por vários portais e chegou às redes junto com o vídeo sobre a "segunda edição do Fica em Casa", que eu chequei em outra matéria.

A tabela 4 da Conab, "Estoque Total de Arroz", traz para julho de 2026 o número 293.800. No Brasil, o ponto separa o milhar. São 293,8 mil toneladas.

O curioso: a mesma notícia leu certo o milho ("125,5 mil toneladas", que na tabela aparece como 125.525) e o trigo ("6,6 mil toneladas"). No arroz, o ponto de milhar foi lido como se fosse vírgula.

A própria tabela confirma a ordem de grandeza. Ela registra 223.511 toneladas de arroz em dezembro de 2025, número que O Joio e o Trigo noticiou em março como "223 mil toneladas".

ProdutoJulho de 2026Agosto de 2026O que circulou
Arroz293.800 t293.949 t293 t (errado)
Feijão207 t264 t207 t (certo)
Milho125.525 t118.892 t125,5 mil t (certo)
Trigo6.582 t6.582 t6,6 mil t (certo)

Fonte: Conab, Série histórica de estoques públicos, agosto de 2026, tabelas 4, 8, 21 e 25.

Unidade da Conab no Piauí, fachada verde com a placa da companhia Unidade da Conab no Piauí. Almanaque Lusofonista / Wikimedia Commons, domínio público

Quanto dura o arroz do governo?

As 293.949 toneladas de agosto divididas por 214,2 milhões de brasileiros dão 1,37 quilo por pessoa. O país consome 10,8 milhões de toneladas de arroz por ano (Conab, via Planeta Arroz, abril de 2026), perto de 29,6 mil por dia. O arroz do governo dura uns 10 dias.

É pouco para uma reserva nacional. Mas está longe de zero.

Sete anos sem um quilo de feijão

O detalhe que quase ninguém notou está na tabela 21. De setembro de 2016 a novembro de 2023, o governo federal não teve um quilo de feijão guardado. Foram 87 meses seguidos de zero, atravessando os governos Michel Temer, Jair Bolsonaro e o primeiro ano de Luiz Inácio Lula da Silva.

Em dezembro de 2023 entraram 45 mil toneladas. Em fevereiro de 2024, o estoque já estava zerado de novo. Desde então, nunca passou de 350 toneladas.

Não é a primeira vez. A mesma tabela mostra o feijão zerado durante quase todo o período entre agosto de 2001 e outubro de 2003. E em abril de 2010 havia 201.640 toneladas.

Galpão industrial enorme e vazio, com luz entrando pelo telhado Imagem ilustrativa: galpão portuário em Birkenhead, Inglaterra (não é armazém da Conab). Rodhullandemu / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

Para que serve o estoque público?

É comida que o governo compra para dois fins, segundo a introdução da série da Conab: garantir preço mínimo a quem planta e abastecer programas sociais. Quando falta o produto e o preço dispara, o governo pode vender o que guardou e segurar a alta.

Em agosto de 1988, o estoque de arroz chegou a 5.271.979 toneladas. Hoje é 18 vezes menor.

Arroz no estoque público, em toneladas

Ago/19885.271.979
Fev/20121.726.313
Ago/202021.592
Dez/20221.759
Ago/20240
Ago/2026293.949

Conab, Série histórica de estoques públicos, agosto de 2026, tabela 4

A ladeira do arroz, e o preço

O arroz guardado caiu de 1,7 milhão de toneladas em fevereiro de 2012 para cerca de 21,6 mil entre 2019 e 2021. Em dezembro de 2022 eram 1.759 toneladas. De janeiro de 2023 a setembro de 2024, zero: 21 meses seguidos.

Em 2024, com o cofre vazio, o arroz subiu 24,5% no IPCA, segundo O Joio e o Trigo.

De onde voltou o arroz de hoje?

Em 2025, o preço do arroz caiu 26,5% no IPCA. O governo usou dois caminhos para comprar. O principal foi o contrato de opção, em que o produtor ganha o direito de vender ao governo numa data futura, por preço fixado antes: a tabela 2 da Conab registra 194.508 toneladas por esse meio desde dezembro de 2025. O outro foi a compra direta (AGF), com 98.820 toneladas na tabela 1.

Somados, respondem por quase todo o arroz guardado hoje.

Colheitadeira amarela numa lavoura de arroz, com a bandeira do Rio Grande do Sul ao fundo Abertura da colheita do arroz em Pelotas (RS), fevereiro de 2023. Gustavo Vara / Prefeitura de Pelotas, domínio público

O que joga contra, e entra

O El Niño. O Met Office, serviço de meteorologia do Reino Unido, prevê para 2026 o maior El Niño da memória viva, provavelmente o maior desde o século 19. O relatório do banco JPMorgan sobre comida em 2027 coloca o Brasil entre os emergentes mais vulneráveis à alta de preço, ao lado de Índia, Indonésia e Colômbia, segundo a Gazeta do Povo.

O caixa da Conab. O orçamento da companhia caiu de R$ 3,4 bilhões em 2021 para R$ 1,9 bilhão em 2026, em valores corrigidos pelo IPCA, segundo O Joio e o Trigo. O período atravessa os dois governos.

Os armazéns. A mesma reportagem registra que o governo Bolsonaro fechou 27 armazéns da Conab e não fez a manutenção necessária em outros 64.

A própria Conab admite que comprou pouco. Em março, o diretor-executivo de Política Agrícola da Conab, Sílvio Isoppo Porto, disse a O Joio e o Trigo: "Queríamos ter comprado mais arroz. Poderíamos ter encerrado o ano com 600 mil toneladas em estoque". E completou: "A questão política também pesou". A reportagem não detalha qual foi essa questão, e eu não vou especular.

O que diz o governo

O governo diz que está agindo. Em 2 de setembro de 2026, a Portaria Interministerial nº 20, dos ministérios do Desenvolvimento Agrário, da Agricultura e da Fazenda, destinou até R$ 500 milhões para comprar arroz e formar estoque público. O motivo oficial, nas palavras da Conab: "ações de mitigação dos impactos associados ao fenômeno El Niño". O preço pago pode chegar a 125% do preço mínimo.

O governo também ampliou de 50 mil para 260 mil toneladas o volume de milho que pode comprar em 2026, segundo a Sou Agro.

O primeiro leilão, em 16 de setembro, ofereceu a compra de 127,33 mil toneladas de arroz. Fechou 4,05 mil, ou 5,1%, segundo o Planeta Arroz. O teto do governo era de R$ 80 a R$ 82 por saca. No mercado gaúcho, a saca já valia de R$ 80 a R$ 85 na lavoura e R$ 90 no porto. Para o analista Evandro Oliveira, da consultoria Safras & Mercado, ouvido pelo Planeta Arroz, o preço do governo era parecido com o do mercado. Sem vantagem, pouca gente vendeu.

Silos e secador de grãos à beira de uma estrada de terra no Rio Grande do Sul Armazém privado de grãos em Barra do Ribeiro (RS). Paulo rsmenezes / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0 BR

A parte que acalma

O estoque do governo é a reserva. A comida do dia a dia está com fazendas, cooperativas e empresas. Somando tudo, a Conab projetou em abril que o arroz fecharia a safra 2025/26 com 1,7 milhão de toneladas guardadas, "ainda garantindo segurança no abastecimento interno". Isso dá uns dois meses de consumo.

A lavoura também não parou. A safra de arroz 2025/26 foi de 11,08 milhões de toneladas, 13,2% menor que a anterior, mas acima do consumo de 10,8 milhões; segundo a Conab, "o volume colhido atende à demanda do mercado doméstico". O feijão, com três safras por ano, soma 2,95 milhões de toneladas para uma demanda de 2,7 milhões. Em agosto, a Conab escreveu que "a produção garante o abastecimento no mercado interno".

Em setembro, a Conab disse à CNN Brasil que a terceira safra de feijão deve aumentar a oferta nos próximos meses e que o preço do feijão caiu em 20 capitais.

Prato feito com arroz, feijão e verduras numa bandeja Mike Peel / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

Vai faltar feijão?

A Conab não prevê falta: a colheita cobre o consumo. O que falta é reserva. O feijão guardado pelo governo alimenta o país por 51 minutos, e o arroz, por uns 10 dias, às vésperas de um El Niño que o Met Office chama de histórico. A pergunta que a tabela deixa é de escolha pública: o Brasil devia guardar mais comida, mesmo custando caro?

Perguntas que chegam nos comentários

Quanto arroz o governo tem guardado?

293.949 toneladas em 31 de agosto de 2026, segundo a tabela 4 da Conab. O número de 293 toneladas que circulou em setembro está errado: o ponto é separador de milhar.

Quanto feijão o governo tem guardado?

264 toneladas em agosto de 2026. Com consumo de 2,7 milhões de toneladas por ano, isso dura cerca de 51 minutos.

Desde quando o estoque de feijão está baixo?

Ficou zerado de setembro de 2016 a novembro de 2023, nos governos Temer, Bolsonaro e no primeiro ano de Lula. Desde fevereiro de 2024, nunca passou de 350 toneladas.

Vai faltar arroz e feijão no mercado?

A Conab diz que não: a safra 2025/26 de arroz (11,08 milhões de t) e a de feijão (2,95 milhões de t) cobrem o consumo interno. O estoque público é a reserva para emergências.

O que o governo está fazendo?

Liberou até R$ 500 milhões para comprar arroz, citando o El Niño. No primeiro leilão, em 16 de setembro, comprou 4,05 mil das 127,33 mil toneladas ofertadas.

Fontes desta materia

  1. Conab, Série histórica de estoques públicos, edição agosto de 2026, tabelas 1, 2, 4, 8, 21 e 25
  2. Sou Agro, Estoques públicos de arroz e feijão estão quase zerados, 07/09/2026
  3. Conab, Portaria destina até R$ 500 milhões para compra de arroz e formação de estoques públicos, 04/09/2026
  4. Planeta Arroz, Leilão de compra de arroz da Conab negocia apenas 4 mil t, 16/09/2026
  5. O Joio e o Trigo, Sem orçamento e armazéns, recomposição de estoques de alimentos patina, 10/03/2026
  6. Planeta Arroz, Oferta e demanda de arroz indicam ajuste de mercado e estoques mais controlados, diz Conab, 16/04/2026
  7. Agência Gov, Conab estima produção de 361,7 milhões de toneladas de grãos na safra 2025/26, setembro de 2026
  8. Diário do Grande ABC, Conab eleva previsão de recorde na safra 2025/26, 13/08/2026
  9. Agência Brasil, Crescimento populacional caiu para 0,37% em 2026, estima IBGE, 28/08/2026
  10. Met Office, An unprecedented El Niño and its implications for the weather forecast, 21/08/2026
  11. Gazeta do Povo, JP Morgan alerta para risco de crise alimentar em 2027; Brasil está entre os mais vulneráveis, 21/08/2026
  12. CNN Brasil, Conab vê maior oferta de feijão com entrada da terceira safra, 22/09/2026