O estoque público de feijão do Brasil tinha 264 toneladas no fim de agosto de 2026, o suficiente para o país comer por cerca de 51 minutos. O dado está na Série histórica de estoques públicos da Conab, a Companhia Nacional de Abastecimento, edição de agosto de 2026. O arroz está em situação bem diferente: são 293.949 toneladas, uns 10 dias de consumo, e não as 293 toneladas que circularam em setembro.
Eu fui ler a tabela oficial, linha por linha, porque os dois números viraram munição em vídeo viral sobre fome em 2027. Um deles está certo. O outro perdeu três zeros no caminho.
A conta do feijão
A tabela 21 da Conab, "Estoque Total de Feijão", registra 207 toneladas em julho e 264 toneladas em agosto de 2026.
O Brasil consome 2,7 milhões de toneladas de feijão por ano, segundo a projeção de demanda da Conab publicada pela Agência Gov em setembro. Dividido pelas 8.760 horas do ano, dá 308 toneladas por hora. As 264 toneladas do governo cobrem 0,86 hora: 51 minutos.
Por pessoa, com os 214,2 milhões de habitantes que o IBGE estimou para 1º de julho de 2026, são 1,23 grama.
O número do arroz que circulou
Em 7 de setembro de 2026, o site Sou Agro publicou "Estoques públicos de arroz e feijão estão quase zerados". O texto dizia que, em julho, o governo tinha "apenas 293 toneladas" de arroz e 207 de feijão. A notícia foi replicada por vários portais e chegou às redes junto com o vídeo sobre a "segunda edição do Fica em Casa", que eu chequei em outra matéria.
A tabela 4 da Conab, "Estoque Total de Arroz", traz para julho de 2026 o número 293.800. No Brasil, o ponto separa o milhar. São 293,8 mil toneladas.
O curioso: a mesma notícia leu certo o milho ("125,5 mil toneladas", que na tabela aparece como 125.525) e o trigo ("6,6 mil toneladas"). No arroz, o ponto de milhar foi lido como se fosse vírgula.
A própria tabela confirma a ordem de grandeza. Ela registra 223.511 toneladas de arroz em dezembro de 2025, número que O Joio e o Trigo noticiou em março como "223 mil toneladas".
| Produto | Julho de 2026 | Agosto de 2026 | O que circulou |
|---|---|---|---|
| Arroz | 293.800 t | 293.949 t | 293 t (errado) |
| Feijão | 207 t | 264 t | 207 t (certo) |
| Milho | 125.525 t | 118.892 t | 125,5 mil t (certo) |
| Trigo | 6.582 t | 6.582 t | 6,6 mil t (certo) |
Fonte: Conab, Série histórica de estoques públicos, agosto de 2026, tabelas 4, 8, 21 e 25.
Unidade da Conab no Piauí. Almanaque Lusofonista / Wikimedia Commons, domínio público
Quanto dura o arroz do governo?
As 293.949 toneladas de agosto divididas por 214,2 milhões de brasileiros dão 1,37 quilo por pessoa. O país consome 10,8 milhões de toneladas de arroz por ano (Conab, via Planeta Arroz, abril de 2026), perto de 29,6 mil por dia. O arroz do governo dura uns 10 dias.
É pouco para uma reserva nacional. Mas está longe de zero.
Sete anos sem um quilo de feijão
O detalhe que quase ninguém notou está na tabela 21. De setembro de 2016 a novembro de 2023, o governo federal não teve um quilo de feijão guardado. Foram 87 meses seguidos de zero, atravessando os governos Michel Temer, Jair Bolsonaro e o primeiro ano de Luiz Inácio Lula da Silva.
Em dezembro de 2023 entraram 45 mil toneladas. Em fevereiro de 2024, o estoque já estava zerado de novo. Desde então, nunca passou de 350 toneladas.
Não é a primeira vez. A mesma tabela mostra o feijão zerado durante quase todo o período entre agosto de 2001 e outubro de 2003. E em abril de 2010 havia 201.640 toneladas.
Imagem ilustrativa: galpão portuário em Birkenhead, Inglaterra (não é armazém da Conab). Rodhullandemu / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0
Para que serve o estoque público?
É comida que o governo compra para dois fins, segundo a introdução da série da Conab: garantir preço mínimo a quem planta e abastecer programas sociais. Quando falta o produto e o preço dispara, o governo pode vender o que guardou e segurar a alta.
Em agosto de 1988, o estoque de arroz chegou a 5.271.979 toneladas. Hoje é 18 vezes menor.
Arroz no estoque público, em toneladas
Conab, Série histórica de estoques públicos, agosto de 2026, tabela 4
A ladeira do arroz, e o preço
O arroz guardado caiu de 1,7 milhão de toneladas em fevereiro de 2012 para cerca de 21,6 mil entre 2019 e 2021. Em dezembro de 2022 eram 1.759 toneladas. De janeiro de 2023 a setembro de 2024, zero: 21 meses seguidos.
Em 2024, com o cofre vazio, o arroz subiu 24,5% no IPCA, segundo O Joio e o Trigo.
De onde voltou o arroz de hoje?
Em 2025, o preço do arroz caiu 26,5% no IPCA. O governo usou dois caminhos para comprar. O principal foi o contrato de opção, em que o produtor ganha o direito de vender ao governo numa data futura, por preço fixado antes: a tabela 2 da Conab registra 194.508 toneladas por esse meio desde dezembro de 2025. O outro foi a compra direta (AGF), com 98.820 toneladas na tabela 1.
Somados, respondem por quase todo o arroz guardado hoje.
Abertura da colheita do arroz em Pelotas (RS), fevereiro de 2023. Gustavo Vara / Prefeitura de Pelotas, domínio público
O que joga contra, e entra
O El Niño. O Met Office, serviço de meteorologia do Reino Unido, prevê para 2026 o maior El Niño da memória viva, provavelmente o maior desde o século 19. O relatório do banco JPMorgan sobre comida em 2027 coloca o Brasil entre os emergentes mais vulneráveis à alta de preço, ao lado de Índia, Indonésia e Colômbia, segundo a Gazeta do Povo.
O caixa da Conab. O orçamento da companhia caiu de R$ 3,4 bilhões em 2021 para R$ 1,9 bilhão em 2026, em valores corrigidos pelo IPCA, segundo O Joio e o Trigo. O período atravessa os dois governos.
Os armazéns. A mesma reportagem registra que o governo Bolsonaro fechou 27 armazéns da Conab e não fez a manutenção necessária em outros 64.
A própria Conab admite que comprou pouco. Em março, o diretor-executivo de Política Agrícola da Conab, Sílvio Isoppo Porto, disse a O Joio e o Trigo: "Queríamos ter comprado mais arroz. Poderíamos ter encerrado o ano com 600 mil toneladas em estoque". E completou: "A questão política também pesou". A reportagem não detalha qual foi essa questão, e eu não vou especular.
O que diz o governo
O governo diz que está agindo. Em 2 de setembro de 2026, a Portaria Interministerial nº 20, dos ministérios do Desenvolvimento Agrário, da Agricultura e da Fazenda, destinou até R$ 500 milhões para comprar arroz e formar estoque público. O motivo oficial, nas palavras da Conab: "ações de mitigação dos impactos associados ao fenômeno El Niño". O preço pago pode chegar a 125% do preço mínimo.
O governo também ampliou de 50 mil para 260 mil toneladas o volume de milho que pode comprar em 2026, segundo a Sou Agro.
O primeiro leilão, em 16 de setembro, ofereceu a compra de 127,33 mil toneladas de arroz. Fechou 4,05 mil, ou 5,1%, segundo o Planeta Arroz. O teto do governo era de R$ 80 a R$ 82 por saca. No mercado gaúcho, a saca já valia de R$ 80 a R$ 85 na lavoura e R$ 90 no porto. Para o analista Evandro Oliveira, da consultoria Safras & Mercado, ouvido pelo Planeta Arroz, o preço do governo era parecido com o do mercado. Sem vantagem, pouca gente vendeu.
Armazém privado de grãos em Barra do Ribeiro (RS). Paulo rsmenezes / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0 BR
A parte que acalma
O estoque do governo é a reserva. A comida do dia a dia está com fazendas, cooperativas e empresas. Somando tudo, a Conab projetou em abril que o arroz fecharia a safra 2025/26 com 1,7 milhão de toneladas guardadas, "ainda garantindo segurança no abastecimento interno". Isso dá uns dois meses de consumo.
A lavoura também não parou. A safra de arroz 2025/26 foi de 11,08 milhões de toneladas, 13,2% menor que a anterior, mas acima do consumo de 10,8 milhões; segundo a Conab, "o volume colhido atende à demanda do mercado doméstico". O feijão, com três safras por ano, soma 2,95 milhões de toneladas para uma demanda de 2,7 milhões. Em agosto, a Conab escreveu que "a produção garante o abastecimento no mercado interno".
Em setembro, a Conab disse à CNN Brasil que a terceira safra de feijão deve aumentar a oferta nos próximos meses e que o preço do feijão caiu em 20 capitais.
Mike Peel / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0
Vai faltar feijão?
A Conab não prevê falta: a colheita cobre o consumo. O que falta é reserva. O feijão guardado pelo governo alimenta o país por 51 minutos, e o arroz, por uns 10 dias, às vésperas de um El Niño que o Met Office chama de histórico. A pergunta que a tabela deixa é de escolha pública: o Brasil devia guardar mais comida, mesmo custando caro?
Perguntas que chegam nos comentários
Quanto arroz o governo tem guardado?
293.949 toneladas em 31 de agosto de 2026, segundo a tabela 4 da Conab. O número de 293 toneladas que circulou em setembro está errado: o ponto é separador de milhar.
Quanto feijão o governo tem guardado?
264 toneladas em agosto de 2026. Com consumo de 2,7 milhões de toneladas por ano, isso dura cerca de 51 minutos.
Desde quando o estoque de feijão está baixo?
Ficou zerado de setembro de 2016 a novembro de 2023, nos governos Temer, Bolsonaro e no primeiro ano de Lula. Desde fevereiro de 2024, nunca passou de 350 toneladas.
Vai faltar arroz e feijão no mercado?
A Conab diz que não: a safra 2025/26 de arroz (11,08 milhões de t) e a de feijão (2,95 milhões de t) cobrem o consumo interno. O estoque público é a reserva para emergências.
O que o governo está fazendo?
Liberou até R$ 500 milhões para comprar arroz, citando o El Niño. No primeiro leilão, em 16 de setembro, comprou 4,05 mil das 127,33 mil toneladas ofertadas.








