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Notícias / 29 de setembro de 2026

Eu fui checar

Vem aí um segundo Fica em Casa? Eu chequei o vídeo viral frase por frase

Um vídeo que viralizou anuncia a segunda edição do Fica em Casa, com comida racionada e 400 mil mortes até janeiro. O alerta do banco JPMorgan sobre comida em 2027 existe, mas fala de preço mais alto. Mortes, racionamento e confinamento não estão em nenhuma reportagem sobre ele. Abaixo, cada frase com o veredito e a fonte, e o dado mais grave, que o vídeo nem usou.

Publicado
29 de setembro de 2026
Atualizado
29 de setembro de 2026
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Imagem ilustrativa. Wilfredor / Wikimedia Commons, CC0
Imagem ilustrativa. Wilfredor / Wikimedia Commons, CC0

O alerta de comida para 2027 é real: veio do banco JPMorgan, em agosto de 2026, e fala de comida mais cara no mundo. O segundo Fica em Casa, o racionamento e as 400 mil mortes até janeiro não aparecem em nenhum documento. O vídeo viral parte do fato verdadeiro e acrescenta três coisas que o relatório não diz.

Eu fui atrás de cada frase. Onde o vídeo acerta, eu digo que acerta. Onde ele erra, mostro o documento. A autoria do vídeo não está confirmada, por isso não cito o nome de quem fala nele.

O que o vídeo diz

O vídeo circula com o título "A segunda edição do Fica em Casa". A tese: o "banco do mundo" avisou que vai faltar comida em 2027, que até janeiro mais de 400 mil pessoas podem morrer e que "vamos ter que racionar comida". Para provar que o medo é fabricado, ele usa o recorde de zero furacões, diz que o mundo esfriou, que a China comprou "quase tudo" no Brasil e que bilionários estão comprando terra para produzir a própria comida.

O alerta do JPMorgan existe?

Existe. O relatório se chama "Food Security is National Security: A Compounding Storm" (segurança alimentar é segurança nacional: uma tempestade que se acumula). A Fortune noticiou em 18 de agosto de 2026, e a Gazeta do Povo, no dia 21.

O alerta é de preço. Segundo a Energy News Beat, o banco prevê que a inflação global de alimentos passe de cerca de 2,8%, no primeiro semestre de 2026, para cerca de 5% no primeiro semestre de 2027. Isso somaria uns 0,6 ponto à inflação geral do mundo. A mesma reportagem resume a previsão como preço alto que demora a cair.

A Gazeta do Povo cita o trecho do relatório segundo o qual os estoques globais de grãos e arroz "ainda oferecem uma reserva capaz de amortecer parte de uma eventual queda na produção".

Nenhuma das reportagens que li sobre o relatório (Fortune, Gazeta do Povo, Business Today e Energy News Beat) menciona mortes, o número 400 mil, janeiro, racionamento ou confinamento.

Entrada da sede do JPMorgan Chase, na 270 Park Avenue, em Nova York Sede do JPMorgan Chase, Nova York. ajay_suresh / Wikimedia Commons, CC BY 4.0

De onde pode ter saído o "400 mil"?

A pista mais provável é uma análise do Programa Mundial de Alimentos, da ONU, de 12 de setembro de 2023: cada 1% de corte na ajuda alimentar empurra mais de 400 mil pessoas para a fome emergencial. É fome, não morte. E é de três anos atrás. Não consegui confirmar que o vídeo tirou o número daí, por isso trato como hipótese.

O alerta de fome que existe para 2027 é outro, e é do PMA. Em 5 de agosto de 2026, a agência calculou que o El Niño pode levar mais 49 milhões de pessoas à fome aguda até o fim de 2027 (de 225 para 274 milhões no mundo). Na América Latina e no Caribe, são mais de 16 milhões de afetados.

Vereditos, frase por frase

Frase do vídeoVereditoO que os documentos mostram
"O banco do mundo avisou que pode faltar comida em 2027"Verdadeiro com contextoO JPMorgan avisou, mas de alta de preço, não de falta
"Até janeiro, mais de 400 mil pessoas podem morrer"FalsoNenhuma reportagem sobre o relatório fala em mortes
"Vamos ter que racionar comida"FalsoNenhum governo decretou racionamento em 2026
Causas: guerra, estoque, fertilizante, desperdícioVerdadeiro com contextoO banco lista cinco causas; o vídeo tira clima e água
"Inflação de alimentos dobrando"Verdadeiro com contextoA taxa vai de 2,8% para 5%; o preço não dobra
"O primeiro da fila na América Latina: Brasil"ExageradoO Brasil está numa lista com Índia, Indonésia e Colômbia; não há fila
"Não tem plano B"Verdadeiro com contextoVale para fertilizante, que não tem reserva mundial
"Zero furacões na temporada"Verdadeiro com contextoRecorde no Atlântico, causado pelo El Niño
Em 2020, as gigantes tiveram o melhor anoVerdadeiroBilionários ganharam US$ 3,9 trilhões
Bill Gates, maior dono de terra agrícola dos EUAVerdadeiro com contextoMaior dono particular: 0,03% das fazendas do país
Zuckerberg comprou terra no HavaíVerdadeiro com contextoRancho de wagyu; "comida própria" é leitura do vídeo
Musk tem grandes terras no TexasExageradoTem terra industrial; a fortuna está em ações
A China comprou "quase tudo" no BrasilFalsoTem terminais em Santos e Paranaguá, não quase tudo
"O mundo esfriou"Falso2024 foi o ano mais quente já medido
"Você não terá nada e será feliz" é o planoFalsoA frase existe, mas era um cenário para debate
"A pior catástrofe do Holoceno"Sem provaNenhuma fonte usa nada parecido

"Não tem plano B": aqui o vídeo acerta

A frase está na manchete da Fortune. Cerca de um terço do adubo de nitrogênio do mundo passa pelo Estreito de Ormuz, fechado pela guerra no Irã. O petróleo tem reserva estratégica mundial. O fertilizante, não.

Só que o JPMorgan resume as causas em cinco palavras que começam com W: guerra (war), clima (weather), estocagem (warehousing), água (water) e desperdício (waste). O vídeo cita guerra, estoque e desperdício. Deixa de fora clima e água, que são o centro do relatório: um El Niño que o serviço de meteorologia britânico, o Met Office, chama de provavelmente o maior da memória viva.

Zero furacões: verdade, mas por quê?

É verdade. Até 28 de setembro de 2026, o Atlântico teve 8 tempestades com nome e nenhum furacão. Segundo a Wikipedia e a emissora WBTV, é a primeira vez desde 1914 que a temporada chega tão longe sem furacão.

A NOAA, agência de clima do governo americano, explica a causa: o El Niño aumenta o vento cruzado no Atlântico, que desmancha os furacões antes de nascerem. É o mesmo El Niño que o JPMorgan aponta como ameaça à comida. O vídeo usa um fato contra o outro. E do outro lado da América do Norte, no Pacífico, a temporada teve 17 tempestades e 7 furacões, 3 deles de categoria 5.

Olho do furacão Florence visto da Estação Espacial Internacional, em 2018 Furacão Florence, 2018 (em 2026 não houve furacão no Atlântico até o fim de setembro). Alexander Gerst, ESA/NASA, domínio público

Em 2020, alguém ganhou muito dinheiro?

Aqui o vídeo tem razão. Segundo a Oxfam, a fortuna dos bilionários do mundo subiu US$ 3,9 trilhões entre março e dezembro de 2020. Os 10 mais ricos ganharam US$ 540 bilhões.

No Brasil, o IBGE contou 716,4 mil empresas fechadas de vez até a primeira quinzena de junho de 2020, segundo a Agência Brasil. Quase todas (715,1 mil) eram pequenas, com até 49 funcionários.

Corredor de supermercado com prateleiras de macarrão vazias na Austrália, em 2020 Compras de pânico na Austrália, em 2020. Christopher Corneschi / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

Os bilionários e a terra

Bill Gates é o maior dono particular de terra agrícola dos Estados Unidos, segundo a Land Report: cerca de 275 mil acres, em 17 a 20 estados. Os EUA têm 873,95 milhões de acres em fazendas. A fatia de Gates é de 0,03%.

Mark Zuckerberg tem o Ko'olau Ranch, em Kauai, no Havaí: pelo menos 2.300 acres (uns 930 hectares), com gado wagyu e angus alimentado com macadâmia e cerveja do próprio rancho, e um abrigo subterrâneo do tamanho de uma quadra de basquete, segundo a Fortune. Dizer que ele quer "produzir a própria comida" é interpretação do vídeo.

Elon Musk é outro caso. A fortuna dele, de US$ 906,7 bilhões na Forbes em 29 de setembro, está em ações da SpaceX e da Tesla. As empresas dele têm milhares de acres no Texas, mas para fábrica, base de foguetes e moradia de funcionários. Não é terra agrícola.

Bill Gates no palco de um fórum de energia em Pittsburgh, em 2022 Bill Gates em Pittsburgh (EUA), setembro de 2022. Governo da Pensilvânia / Wikimedia Commons, CC BY 2.0

O que joga contra, e entra

Estas são as frases em que o vídeo não para em pé.

"A China comprou quase tudo." A presença chinesa é real. A estatal COFCO opera desde 2025 o terminal STS11, no porto de Santos, arrendado por 25 anos, com 490 mil toneladas de armazenagem. A China Merchants comprou 90% do Terminal de Contêineres de Paranaguá, em 2018. Mas o porto é público, e o terminal de Santos equivale a cerca de 0,2% da capacidade de armazenagem do Brasil, que a Conab calcula entre 202 e 222 milhões de toneladas.

"O mundo esfriou." 2024 foi o ano mais quente já medido, e 2025, o terceiro, segundo o Copernicus, serviço europeu de clima. Agosto de 2026 empatou como o mês mais quente da história. O grão de verdade: 2025 foi 0,13 °C mais frio que 2024, e o mar subiu menos naquele ano por causa da La Niña, segundo a NASA. É oscilação de um ano.

"Você não terá nada e será feliz." A frase existe e saiu no site do Fórum Econômico Mundial. Vem de um ensaio de 2016 da política dinamarquesa Ida Auken, dentro de uma série de cenários para 2030. A autora acrescentou uma nota dizendo que o texto não era a utopia dela. Era um cenário para debate.

DiCaprio e Ruffalo culpam você. DiCaprio, em 2019, culpou negacionistas e líderes que falam pelos grandes poluidores, segundo a Newsweek. O alvo não era o cidadão comum. Os voos de jatinho dele, esses sim, estão documentados.

Ida Auken, política dinamarquesa, de perfil Ida Auken, autora do ensaio de 2016. Christian Ursilva / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

O dado que o vídeo esqueceu

O ponto mais forte da história ficou fora do vídeo. Em agosto de 2026, o governo brasileiro tinha 264 toneladas de feijão no estoque público, segundo a tabela oficial da Conab. Dá menos de uma hora do que o Brasil come, pouco mais de 1 grama por pessoa.

O feijão ficou zerado de setembro de 2016 a novembro de 2023, passando pelos governos Temer, Bolsonaro e o primeiro ano de Lula. O arroz ficou zerado de janeiro de 2023 a setembro de 2024, com Lula. Hoje o arroz público soma 293 mil toneladas. Um site noticiou 293 toneladas, mil vezes menos, e o número se espalhou. Contei essa história inteira, com a tabela, em o estoque de feijão do governo dá 51 minutos.

Então, vem aí um segundo Fica em Casa?

Nenhum documento fala nisso. No Reino Unido, a ministra do Meio Ambiente, Angela Eagle, sugeriu em 4 de setembro que as famílias tenham comida em casa para alguns dias de emergência climática. Isso é preparo, não racionamento.

O que os documentos mostram é comida mais cara em 2027, um El Niño forte e um estoque público de feijão quase zerado. É motivo para acompanhar o preço e cobrar governo. Não é motivo para pânico.

Perguntas que chegam nos comentários

O JPMorgan disse que vai faltar comida em 2027?

Não. O relatório de agosto de 2026 prevê alta de preço: a inflação global de alimentos passaria de cerca de 2,8% para cerca de 5%. As reportagens sobre ele não falam em falta, mortes ou racionamento.

De onde saiu o número de 400 mil mortes?

O número não aparece no relatório do banco. A pista mais provável é uma conta do Programa Mundial de Alimentos, de 2023, sobre 400 mil pessoas empurradas à fome emergencial a cada 1% de corte na ajuda. A conta fala de fome, e tem três anos.

É verdade que não houve furacão no Atlântico em 2026?

Sim, até 28 de setembro foram 8 tempestades e nenhum furacão, algo que não acontecia desde 1914. A causa apontada pela NOAA é o El Niño, o mesmo fenômeno que ameaça as safras.

O governo brasileiro tem estoque de comida?

Pouco. Em agosto de 2026, a Conab tinha 264 toneladas de feijão e 293 mil toneladas de arroz, cerca de 10 dias de consumo de arroz do país.

Medo ou preparo? Eu fico com o preparo, e com a tabela aberta.

Fontes desta materia

  1. Yahoo Finance/Fortune, JPMorgan alerta para crise global de alimentos, 18/08/2026
  2. Energy News Beat, JPMorgan warns of global food crisis looming next year, 25/08/2026
  3. Gazeta do Povo, JP Morgan alerta para risco de crise alimentar em 2027; Brasil está entre os mais vulneráveis, 21/08/2026
  4. Business Today, JPMorgan warns of global food crisis in 2027, 17/08/2026
  5. Programa Mundial de Alimentos (WFP), cada 1% de corte na assistência empurra 400 mil pessoas à fome emergencial, 12/09/2023
  6. ONU News, El Niño pode levar mais 49 milhões de pessoas à fome aguda, 05/08/2026
  7. WBTV, temporada sem furacões no Atlântico bate recorde, 28/09/2026
  8. NOAA, previsão de temporada de furacões abaixo do normal, 06/08/2026
  9. Wikipedia, 2026 Atlantic hurricane season, consulta em 29/09/2026
  10. Global Citizen, relatório da Oxfam sobre bilionários na pandemia, 25/01/2021
  11. Agência Brasil, pandemia fecha 716 mil empresas, diz IBGE, julho de 2020
  12. Land Report, Bill Gates no ranking dos donos de terra, consulta em 29/09/2026
  13. Fortune, o rancho de Mark Zuckerberg no Havaí, 02/07/2026
  14. Forbes, perfil de Elon Musk, consulta em 29/09/2026
  15. Revista OE, inauguração da primeira fase do STS11 no porto de Santos, março de 2025
  16. Ministério dos Transportes, empresa chinesa confirma aquisição de terminal de contêineres, 22/02/2018
  17. Copernicus, 2025 foi o terceiro ano mais quente, 14/01/2026
  18. Copernicus, agosto empatou como o mês mais quente, 10/09/2026
  19. NASA, La Niña limitou a alta do mar em 2025, 29/01/2026
  20. Met Office, um El Niño sem precedentes, 21/08/2026
  21. Wikipedia, You'll own nothing and be happy, consulta em 29/09/2026
  22. Newsweek, Leonardo DiCaprio e a mudança climática, 30/09/2019
  23. Euro Weekly News, britânicos orientados a ter comida em casa diante do El Niño, 04/09/2026
  24. Wikipedia, 2026 Pacific hurricane season, consulta em 29/09/2026
  25. Sala da Notícia, Anuário Agrologístico da Conab 2026 e a capacidade de armazenagem
  26. Conab, Série histórica de estoques públicos, agosto de 2026