Os estudos sobre arrependimento mostram que, no curto prazo, a gente se arrepende mais do que fez de errado, e no longo prazo, do que deixou de fazer. É a conclusão do psicólogo Thomas Gilovich, da Universidade Cornell, e de Victoria Medvec, publicada em 1995. O empresário Bruno Avelar, que morreu em 21 de setembro, tinha um método contra isso: duas listas.
Eu anotei o método num vídeo dele, antes de saber do acidente, e contei aqui quem ele era.
Quais eram as duas listas?
Na lista do destino ficavam as pessoas que importam: a esposa, os filhos, os pais, os irmãos, os sócios e os melhores amigos. E acabou. Na da agenda, o trabalho, que só existia para sustentar a primeira.
Cinco dias antes de morrer, no podcast Pivotando, do SBT News, ele disse que o dinheiro tinha virado uma espécie de troféu e que a família ganhou espaço entre as prioridades. E deixou uma frase sobre o passado: "Eu gostaria de ter tido uma oportunidade ou um aconselhamento de ter buscado conhecimento mais cedo".
Três semanas antes, ele respondeu "na hora, né" quando um amigo corretor perguntou se faria um seguro de vida sabendo que ia morrer no dia seguinte, segundo o Metrópoles. Marcou para o dia 30. O cuidado com a lista do destino ficou esperando na agenda.
O que as pessoas lamentam no fim da vida?
A enfermeira Bronnie Ware passou anos cuidando de pacientes nas últimas 3 a 12 semanas de vida e anotou o que eles diziam. Juntou cinco arrependimentos que se repetiam:
| Arrependimento | O que ela ouviu |
|---|---|
| 1 | Não ter tido coragem de viver a própria vida, e não a que os outros esperavam |
| 2 | Ter trabalhado tanto |
| 3 | Não ter tido coragem de dizer o que sentia |
| 4 | Ter perdido contato com os amigos |
| 5 | Não ter se permitido ser mais feliz |
Sobre o segundo, ela escreveu que eles perderam a infância dos filhos.
É relato de quem cuidou, e não pesquisa com amostra. A ciência chegou perto por outro caminho.

O que os estudos de Cornell mostram?
Três achados, medidos em entrevistas, questionários e experimentos:
O tempo muda o arrependimento. Gilovich e Medvec mostraram, em 1994 e 1995, que o erro cometido dói mais logo depois. Com os anos, a dor muda de lado, e o que pesa é o que não se fez.
O que fica é o "eu ideal". Em seis estudos publicados em 2018, Shai Davidai e Gilovich viram que os arrependimentos mais duradouros vêm da distância entre quem a pessoa é e quem ela sonhava ser. O motivo: obrigação descumprida a gente corre para consertar; sonho adiado fica para depois, sem solução.
Arrepende-se onde havia chance. Uma meta-análise de 11 estudos, de Roese e Summerville, publicada em 2005, achou os seis campos que mais geram arrependimento: estudo, carreira, relacionamento amoroso, criação dos filhos, o próprio eu e o lazer.
O escritor Daniel Pink juntou mais de 26 mil arrependimentos, de 134 países, no World Regret Survey.
O que eu tiro disso?
Na minha opinião, as duas listas do Bruno são a versão prática do que esses estudos medem. A agenda cobra todo dia e grita. O destino espera calado, e é por isso que ele fica para depois.
Escrevo isto porque a minha lista do destino também tem coisa marcada para "semana que vem". A pergunta que o corretor fez ao Bruno serve fora do seguro: se fosse amanhã, o que da primeira lista você faria hoje?
Perguntas que chegam nos comentários
Quais são os cinco arrependimentos de quem está morrendo?
Segundo a enfermeira Bronnie Ware: não ter vivido a própria vida, ter trabalhado demais, não ter dito o que sentia, ter perdido contato com os amigos e não ter se permitido ser mais feliz.
A gente se arrepende mais do que fez ou do que não fez?
No curto prazo, do que fez. No longo prazo, do que deixou de fazer, segundo os estudos de Thomas Gilovich e Victoria Medvec publicados em 1994 e 1995.







