Todo mundo já ouviu falar em emenda Pix. Quase ninguém viu a lista.
Eu fui atrás. Baixei a base oficial do Portal da Transparência, do governo federal, com data de 7 de outubro de 2026. Separei só as emendas Pix do atual mandato, de 2023 até agora, e somei tudo: quem mandou, para onde foi e quanto deu por morador.
Esta reportagem mostra o resultado. No fim, eu ensino você a procurar o nome do seu deputado e do seu senador, em dois minutos.
Fonte: Portal da Transparência (CGU), base de 7 de outubro de 2026.
O que é emenda Pix
O nome oficial é transferência especial. Funciona assim: o deputado ou o senador escolhe uma prefeitura ou um governo de estado, e o dinheiro federal cai direto na conta. Sem convênio, sem projeto aprovado antes em um ministério.
Por isso o apelido. É rápido como um Pix.
Ela está na Constituição desde dezembro de 2019, no artigo 166-A. A regra diz que pelo menos 70% do valor precisa ir para investimento, como obra e equipamento. E proíbe usar o dinheiro para pagar salário de servidor ou dívida.
Quem criou
A proposta nasceu no Senado em 2015. É a PEC 61, de autoria da então senadora Gleisi Hoffmann, do PT, que depois foi presidente do partido. O Congresso aprovou o texto em 2019, e ele virou a Emenda Constitucional 105.
Vale lembrar isso toda vez que alguém disser que emenda Pix é invenção de um lado só.
O tamanho da conta
No primeiro ano, 2020, foram R$ 621 milhões. Em 2024, R$ 7,68 bilhões. O valor ficou doze vezes maior em quatro anos.
Emendas Pix pagas, por ano da emenda
Fonte: Portal da Transparência, base de 7/10/2026. O ano de 2026 vai até outubro.
Somando só o atual mandato, de 2023 a outubro de 2026, dá R$ 26,21 bilhões. Desse total, R$ 24,2 bilhões foram para prefeituras e R$ 1,99 bilhão para governos de estado.

Quem mais mandou
Dezessete parlamentares passaram de R$ 100 milhões cada um. Os dezessete são senadores.
Tem um motivo. A cota de cada senador é maior que a de cada deputado. No Orçamento de 2026, são R$ 72,8 milhões em emendas individuais por senador e R$ 39,9 milhões por deputado. A emenda Pix é uma parte dessa cota.
Os 17 que passaram de R$ 100 milhões em emendas Pix (2023 a outubro de 2026)
Fonte: Portal da Transparência, base de 7/10/2026. Valores pagos.
Na média, cada parlamentar mandou R$ 33,1 milhões em emendas Pix no período. Metade deles ficou abaixo de R$ 28,8 milhões.
Dois jeitos de mandar
O primeiro da lista, o senador Giordano, de São Paulo, concentrou. Foram R$ 130 milhões para só 8 destinos. Osasco recebeu R$ 34,8 milhões. Mairiporã, R$ 25,2 milhões. Morungaba, R$ 20,5 milhões. Ubatuba, R$ 18,1 milhões. Itatiba, R$ 13 milhões.
O senador Luis Carlos Heinze, do Rio Grande do Sul, fez o contrário. Espalhou R$ 116,3 milhões por 215 destinos. O maior deles, São Borja, ficou com R$ 6,4 milhões.
Os dois jeitos são legais. Mas contam histórias diferentes para o eleitor.
Estes são os maiores repasses de um único parlamentar para um único destino:
- Lucas Barreto para a Prefeitura de Macapá: R$ 64,0 milhões.
- Jaques Wagner para o Governo da Bahia: R$ 63,7 milhões.
- Randolfe Rodrigues para o Governo do Amapá: R$ 62,0 milhões.
- Sergio Moro para o Governo do Paraná: R$ 44,8 milhões.
- Marco Feliciano para a Prefeitura de Carapicuíba (SP): R$ 44,2 milhões.
Quem mais recebeu
Os 10 maiores destinos das emendas Pix (2023 a outubro de 2026)
Fonte: Portal da Transparência, base de 7/10/2026.
O Governo da Bahia está muito na frente. Recebeu R$ 408,3 milhões, mandados por 26 parlamentares. É mais que o dobro do segundo colocado.
Entre as prefeituras, Macapá lidera com R$ 167,6 milhões. Carapicuíba, na Grande São Paulo, recebeu R$ 127 milhões, mais que o dobro da capital paulista inteira, que ficou com R$ 59,1 milhões.

A conta por morador
Aqui o número muda de figura. Eu dividi o que cada prefeitura recebeu pela população do Censo de 2022.
A média do Brasil é de R$ 119 por morador em quase quatro anos.
Emenda Pix por morador: as 10 cidades no topo (2023 a outubro de 2026)
Fontes: Portal da Transparência e Censo 2022 do IBGE.
Curral Velho, na Paraíba, tem 2.292 moradores e recebeu R$ 15,3 milhões. Dá R$ 6.667 por pessoa.
Agora as maiores cidades do país:
- Manaus e Recife: R$ 12 por morador.
- Curitiba: R$ 11.
- Belo Horizonte: R$ 6.
- São Paulo e Rio de Janeiro: R$ 5.
- Salvador: R$ 4.
- Fortaleza: menos de R$ 1. A capital do Ceará recebeu R$ 1,2 milhão no período inteiro.
A diferença aparece também entre os estados. Somando tudo o que foi para Roraima, dá cerca de R$ 1.125 por morador. No Amapá, cerca de R$ 1.010. Em São Paulo, R$ 48. No Rio de Janeiro, R$ 32.
A explicação está na regra. Todo estado tem três senadores e no mínimo oito deputados, tenha 600 mil ou 44 milhões de habitantes. Cada um deles tem a mesma cota. Estado pequeno recebe muito mais por cabeça.
Estado por estado
Em cada linha: o total que o estado recebeu, o parlamentar que mais mandou para lá e o maior destino. Valores de 2023 a outubro de 2026.
- Minas Gerais: R$ 2,52 bilhões. Mais mandou: Carlos Viana (R$ 96,2 milhões). Maior destino: Governo de Minas (R$ 100,8 milhões).
- Bahia: R$ 2,17 bilhões. Mais mandou: Otto Alencar (R$ 117,1 milhões). Maior destino: Governo da Bahia (R$ 408,3 milhões).
- São Paulo: R$ 2,12 bilhões. Mais mandou: Giordano (R$ 130,0 milhões). Maior destino: Governo de São Paulo (R$ 132,8 milhões).
- Rio Grande do Sul: R$ 1,61 bilhão. Mais mandou: Luis Carlos Heinze (R$ 115,9 milhões). Maior destino: Porto Alegre (R$ 38,2 milhões).
- Paraná: R$ 1,29 bilhão. Mais mandou: Ricardo Barros (R$ 59,8 milhões). Maior destino: Governo do Paraná (R$ 73,8 milhões).
- Pernambuco: R$ 1,24 bilhão. Mais mandou: André Ferreira (R$ 64,6 milhões). Maior destino: Bom Jardim (R$ 43,0 milhões).
- Maranhão: R$ 1,18 bilhão. Mais mandou: Eliziane Gama (R$ 110,2 milhões). Maior destino: Governo do Maranhão (R$ 82,0 milhões).
- Ceará: R$ 1,13 bilhão. Mais mandou: Robério Monteiro (R$ 64,4 milhões). Maior destino: Tauá (R$ 45,0 milhões).
- Pará: R$ 1,13 bilhão. Mais mandou: Beto Faro (R$ 94,4 milhões). Maior destino: Ananindeua (R$ 53,4 milhões).
- Santa Catarina: R$ 1,06 bilhão. Mais mandou: Ivete da Silveira (R$ 88,6 milhões). Maior destino: Joinville (R$ 36,4 milhões).
- Goiás: R$ 936 milhões. Mais mandou: José Nelto (R$ 63,1 milhões). Maior destino: Novo Gama (R$ 38,3 milhões).
- Piauí: R$ 934 milhões. Mais mandou: Marcelo Castro (R$ 118,2 milhões). Maior destino: Governo do Piauí (R$ 116,2 milhões).
- Paraíba: R$ 824 milhões. Mais mandou: Veneziano Vital do Rêgo (R$ 105,3 milhões). Maior destino: Governo da Paraíba (R$ 48,9 milhões).
- Amapá: R$ 741 milhões. Mais mandou: Davi Alcolumbre (R$ 123,8 milhões). Maior destino: Macapá (R$ 167,6 milhões).
- Sergipe: R$ 731 milhões. Mais mandou: Rogério Carvalho (R$ 109,6 milhões). Maior destino: Governo de Sergipe (R$ 75,3 milhões).
- Rondônia: R$ 719 milhões. Mais mandou: Marcos Rogério (R$ 124,9 milhões). Maior destino: Nova Mamoré (R$ 39,0 milhões).
- Roraima: R$ 716 milhões. Mais mandou: Mecias de Jesus (R$ 113,6 milhões). Maior destino: São Luiz (R$ 72,9 milhões).
- Tocantins: R$ 716 milhões. Mais mandou: Eduardo Gomes (R$ 95,8 milhões). Maior destino: Porto Nacional (R$ 28,7 milhões).
- Acre: R$ 688 milhões. Mais mandou: Marcio Bittar (R$ 83,2 milhões). Maior destino: Governo do Acre (R$ 161,2 milhões).
- Rio Grande do Norte: R$ 664 milhões. Mais mandou: Styvenson Valentim (R$ 113,1 milhões). Maior destino: Natal (R$ 28,4 milhões).
- Alagoas: R$ 620 milhões. Mais mandou: Fernando Farias (R$ 85,7 milhões). Maior destino: Matriz de Camaragibe (R$ 33,5 milhões).
- Mato Grosso do Sul: R$ 535 milhões. Mais mandou: Nelsinho Trad (R$ 115,3 milhões). Maior destino: Governo de Mato Grosso do Sul (R$ 161,5 milhões).
- Rio de Janeiro: R$ 508 milhões. Mais mandou: Julio Lopes (R$ 47,6 milhões). Maior destino: São João de Meriti (R$ 83,7 milhões).
- Mato Grosso: R$ 479 milhões. Mais mandou: Jayme Campos (R$ 115,4 milhões). Maior destino: Governo de Mato Grosso (R$ 36,7 milhões).
- Espírito Santo: R$ 477 milhões. Mais mandou: Evair Vieira de Melo (R$ 50,7 milhões). Maior destino: Governo do Espírito Santo (R$ 61,8 milhões).
- Amazonas: R$ 431 milhões. Mais mandou: Plínio Valério (R$ 80,2 milhões). Maior destino: Coari (R$ 68,3 milhões).
- Distrito Federal: R$ 53 milhões. Mais mandou: Celina Leão (R$ 16,1 milhões). Maior destino: Governo do Distrito Federal (R$ 36,2 milhões).
Um detalhe que chama a atenção: o Rio de Janeiro, terceiro estado mais populoso do país, recebeu menos que Roraima, o menos populoso.

Isso é crime?
Não. Emenda Pix é legal e está na Constituição. Aparecer nesta lista não significa ter feito nada errado. Muita cidade pequena só consegue trocar a ambulância ou asfaltar a rua por causa dela.
O problema é outro: saber onde o dinheiro foi gasto depois que caiu na conta.
Em agosto de 2024, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, suspendeu os pagamentos até que houvesse plano de trabalho e rastreio. O plenário manteve a decisão. Em novembro de 2024, o Congresso aprovou a Lei Complementar 210, com regras novas.
Em janeiro de 2026, o Tribunal de Contas da União abriu uma auditoria sobre R$ 22 bilhões em emendas Pix de 2020 a 2024. Em julho saiu o primeiro resultado. De 100 repasses examinados, 82 tinham algum problema. O prejuízo estimado foi de R$ 49 milhões, um quarto do valor conferido. Os casos mais comuns: falta de transparência, pagamento sem nota válida e obra não entregue.
O que joga contra esta conta
Toda lista tem limite. Estes são os da minha:
- Pago é diferente de gasto. A base mostra o dinheiro que saiu de Brasília e entrou na conta da prefeitura ou do estado. Ela não mostra em que ele foi usado.
- A base não traz o partido nem o cargo. Por isso eu não fiz ranking por partido. Os nomes aparecem como estão registrados no Portal da Transparência.
- São 793 nomes para 594 cadeiras. As emendas de 2023 foram apresentadas em 2022, pelo Congresso anterior. A lista inclui quem não se reelegeu e também suplentes.
- Cidade muito pequena distorce a conta por morador. Uma obra de R$ 15 milhões pesa muito mais em um município de 2 mil habitantes.
- O ano de 2026 está incompleto. Os dados vão até a atualização de 7 de outubro.
- Valor alto não é sinal de irregularidade. Senador tem cota maior e fica no topo por regra, não por esperteza.
Como achar o seu deputado
Leva dois minutos e é de graça:
- Abra o Portal da Transparência, na página de emendas parlamentares.
- No filtro de autor, digite o nome do deputado ou do senador.
- No tipo de emenda, escolha "transferências especiais". É o nome oficial da emenda Pix.
- Clique na emenda para ver a lista de favorecidos: a cidade e o valor.
Depois, a pergunta vai para a prefeitura: em que esse dinheiro foi usado?
O que os candidatos dizem
O plano de governo de Flávio Bolsonaro, registrado no Tribunal Superior Eleitoral, trata do assunto na página 68. Promete mais transparência, controle e rastreio nas emendas parlamentares, ligadas às prioridades do Plano Plurianual.
Na minha opinião, é o mínimo. O dinheiro é seu. Você tem o direito de saber para onde ele foi e de cobrar de quem você elegeu.

Perguntas que chegam nos comentários
O que é emenda Pix?
É o apelido da transferência especial. O deputado ou o senador indica uma prefeitura ou um governo de estado, e o dinheiro federal cai direto na conta, sem convênio. Está no artigo 166-A da Constituição desde 2019.
Emenda Pix é ilegal?
Não. Ela é prevista na Constituição. O que o Supremo e o Tribunal de Contas da União cobram é transparência: plano de trabalho e prestação de contas sobre o uso do dinheiro.
Quem criou a emenda Pix?
A proposta original é a PEC 61, de 2015, da então senadora Gleisi Hoffmann, do PT. O Congresso aprovou o texto em 2019, como Emenda Constitucional 105.
Quanto já foi pago em emendas Pix?
De 2023 a outubro de 2026, R$ 26,2 bilhões, segundo a base do Portal da Transparência de 7 de outubro de 2026. Desde a criação, em 2020, são R$ 32,1 bilhões.
Quem mais mandou emenda Pix?
O senador Giordano, de São Paulo, com R$ 130 milhões no período. Dezessete parlamentares passaram de R$ 100 milhões, todos senadores.
Qual cidade mais recebeu por morador?
Curral Velho, na Paraíba: R$ 6.667 por morador, com 2.292 habitantes no Censo de 2022. A média do Brasil é de R$ 119.
Como eu vejo as emendas do meu deputado?
No Portal da Transparência, na página de emendas parlamentares. Busque pelo nome do autor e filtre o tipo "transferências especiais".







