Depois da sabatina do Jornal Nacional, em 29 de agosto, foi isso que apareceu nas telas: "propõe trocar funcionários públicos por IA", "defende IA para substituir servidores", "propõe IA em vez de servidor".
Fui atrás do que Augusto Cury disse. E não foi isso.
A frase literal
Se a gente gerir toda a máquina pública adequadamente e não contratar mais funcionários e introduzir inteligência artificial, conseguiríamos economizar.
Augusto Cury, sabatina do Jornal Nacional, 29 de agosto de 2026.
Leia de novo a parte do meio: não contratar mais. Não é demitir.
E no plano de governo registrado no TSE, o que consta é outra coisa ainda: corte de 30% dos cargos de confiança, que são os comissionados, indicados sem concurso. Servidor concursado tem estabilidade constitucional e não pode ser demitido por decisão de governo. Comissionado pode.
A diferença é o seu emprego
Três coisas que parecem iguais e não são:
| O que significa | Está na proposta? | |
|---|---|---|
| Demitir concursado | Tirar quem passou em concurso | Não. Nenhuma vez, e a Constituição não permite |
| Cortar comissionado | Tirar cargo de indicação política | Sim, 30%, no plano de governo |
| Não repor vaga | Deixar a cadeira vazia quando o servidor se aposenta | Sim, é o que foi dito na sabatina |
Uma atinge quem tem emprego por indicação. A outra tira a vaga de quem ainda vai prestar concurso. São debates diferentes, e a terceira é a que realmente pega no bolso de milhões de concurseiros.
O número que faz a proposta existir
Servidores do Executivo federal, em milhões
Fonte: Portal da Transparência, 2026
São dois grupos praticamente do mesmo tamanho: um trabalhando, outro recebendo. E o segundo cresce todo ano, porque a saída por aposentadoria não para.
A conta da folha acompanha:
| Ano | Despesa de pessoal do Executivo federal |
|---|---|
| 2025 | R$ 315 bilhões |
| 2026 | R$ 350,4 bilhões |
E o governo atual faz o contrário
Aqui está o contraste que a manchete não mostrou. Enquanto Cury fala em não contratar, o governo Lula tem a meta oposta: 115 mil vagas em concursos públicos até o fim de 2026, segundo o Ministério da Gestão, incluindo as duas edições do Concurso Nacional Unificado, o "Enem dos concursos".
| Governo Lula | Proposta de Cury | |
|---|---|---|
| Concursos | Meta de 115 mil vagas até 2026 | Não contratar mais |
| Comissionados | Sem corte anunciado | Corte de 30% |
| Digitalização | gov.br em expansão | IA para substituir função |
Não é detalhe. É uma diferença de modelo de Estado, e o eleitor que estuda para concurso deveria saber exatamente qual dos dois está na urna.
Existe um país que já fez isso
E não é teoria de campanha. Está rodando há mais de duas décadas.
Na Estônia, 99% dos serviços públicos são acessados pela internet. Registro de empresa, certidão de nascimento, pagamento de taxas, imposto: tudo online, sem fila e sem carimbo.
| Indicador estoniano | Número |
|---|---|
| População com identidade digital com chip | 98,2% |
| Tempo para declarar imposto de renda | cerca de 3 minutos |
| Tempo para abrir empresa | cerca de 15 minutos |
| Serviços públicos disponíveis online | 99% |
Traduzindo para o Brasil
Dois por cento do PIB brasileiro passam de R$ 240 bilhões por ano. É quase a folha inteira do funcionalismo federal, todo ano, sem demitir uma pessoa sequer.
E o Brasil não começaria do zero. O gov.br já é um dos maiores sistemas de identidade digital do mundo, com mais de 160 milhões de contas, e você provavelmente já o usa para consultar CPF, FGTS, CNH e imposto de renda. A base existe. O que não existe é a decisão de trocar carimbo por assinatura digital em toda a máquina, inclusive nos cartórios.
A contradição que precisa ser dita
Junto com a digitalização, foi proposta a criação de um Ministério da Robótica e da Inteligência Artificial, que tem matéria própria.
Criar ministério novo em quem promete cortar ministérios é contradição, e ela não foi explicada. A promessa é reduzir de 8 a 10 pastas, sem dizer quais, e criar até três.
Enquanto os "quais" não vierem, a conta não fecha.
Onde o argumento dele tem pé
Também é preciso dizer o que sustenta a proposta.
O argumento central é que a automação vai atingir o mercado de trabalho em prazo curto, e que o país que não se preparar será atropelado. Nesse ponto específico, ele está descrevendo algo real: a transformação já está em curso, não é cenário de dez anos à frente. Eu mostrei isso nos dados das vagas que já pedem IA.
A diferença entre o país que se prepara e o que não se prepara costuma ser de uma geração inteira.
Perguntas que chegam nos comentários
Augusto Cury quer demitir servidores públicos?
Não. A frase na sabatina do JN foi "não contratar mais funcionários e introduzir inteligência artificial". Servidor concursado tem estabilidade constitucional e não pode ser demitido por decisão de governo.
O que Cury propõe para os cargos comissionados?
Corte de 30% dos cargos de confiança, segundo o plano de governo registrado no TSE. Comissionados são indicados sem concurso e podem ser exonerados.
Quantos servidores federais o Brasil tem?
Cerca de 1,114 milhão na ativa e 1,101 milhão de aposentados e pensionistas no Executivo federal, segundo o Portal da Transparência.
Quanto custa a folha do funcionalismo federal?
R$ 350,4 bilhões em 2026, contra R$ 315 bilhões em 2025, alta de 11% em um ano.
O governo Lula vai fazer concursos em 2026?
Sim. A meta do Ministério da Gestão é de 115 mil vagas até o fim de 2026, incluindo o Concurso Nacional Unificado.
A Estônia substituiu servidores por tecnologia?
Digitalizou 99% dos serviços e economiza cerca de 2% do PIB por ano, mas principalmente pela assinatura eletrônica, não por corte de pessoal. E tem 1,3 milhão de habitantes.
O resumo
| Afirmação | Verdadeiro? |
|---|---|
| Quer demitir servidor concursado | Não. Não aparece na fala nenhuma vez, e a Constituição não permite |
| Quer cortar comissionados | Sim. 30%, sem dizer quais |
| Quer parar de repor vagas | Sim. E é isso que atinge quem estuda para concurso |
| Quer digitalizar o serviço público | Sim. E existe precedente internacional medido |
| Quer criar ministério novo | Sim. E isso contradiz o corte que promete |
Manchete não é proposta. Quem lê a proposta discute outra coisa, e discute melhor.
Leia também: Eu li as 200 páginas do plano de governo.






