A família de Moacyr Ramos de Paiva Agustinho Júnior desistiu da ação em que ele dizia ser filho de Samuel Klein, o fundador das Casas Bahia. A desistência veio depois de um exame de DNA, feito em abril de 2026, que não achou vínculo genético. Com isso, pode destravar a partilha de uma herança declarada em R$ 500 milhões, parada desde 2015.
Os pedidos foram entregues à Justiça de São Caetano do Sul e ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), segundo a Folha de S.Paulo. Os dois ainda precisam ser homologados por um juiz.
Quem dizia ser o quarto filho?
Moacyr nasceu em 1976. Segundo o que ele contou no processo, soube em 2008, pela mãe, Rita de Cássia, ex-funcionária de Klein, que era filho do "rei do varejo". A mãe morreu dois anos depois. Em 2011, ele entrou na Justiça.
Klein morreu em 2014 sem que a paternidade fosse decidida. A partilha começou em 2015. Em 2016, a Justiça mandou guardar um oitavo de tudo até que a dúvida fosse resolvida. Moacyr morreu em 2021, aos 45 anos. A viúva e os três filhos continuaram a ação.
O que o DNA mostrou?
Sem o suposto pai e sem o suposto filho vivos, o exame foi feito com os descendentes. O laboratório Genomic Engenharia Molecular comparou, em abril de 2026, material dos três filhos de Moacyr com o de Saul Klein, 72 anos, filho reconhecido do empresário.
O cromossomo Y passa de pai para filho sem mudar. Se Moacyr fosse filho de Samuel, o neto dele e Saul teriam o mesmo Y. Não têm. "Com um LR (Likelihood Ratio, ou Proporção de Probabilidade) menor que 0,01 e uma probabilidade menor que 1%, os resultados obtidos através desta análise não demonstram a existência de vínculo genético", diz o laudo, publicado pelo Metrópoles em maio.
Segundo a Folha, outra análise chegou a apontar 25,01% de probabilidade de parentesco. A do cromossomo Y indicou que os dois não descendem do mesmo homem. Foi essa que pesou.
"Os exames genéticos afastaram a alegação de filiação", disse ao Portal LeoDias o empresário Enzo Gorentzvaig, que cuida da parte de Saul na herança desde 2022.
A briga que não acabou
O DNA resolve uma briga. A outra continua, e é entre irmãos.
| O que está em disputa | Número |
|---|---|
| Herança declarada por Michael Klein em 2014 | R$ 500 milhões |
| Parte da antiga Casas Bahia | R$ 300 milhões |
| Imóveis e outros bens | R$ 200 milhões |
| Quanto a defesa de Saul diz que a herança vale | até R$ 3 bilhões |
| Fatia que estava reservada a Moacyr | 1/8 |
| Quinhão que Saul pediu para receber já, em maio de 2026 | R$ 220 milhões |
Os números são da Bloomberg Línea (2024) e do Metrópoles (2026). Saul acusa Michael, o irmão mais velho e inventariante, de ter diminuído o patrimônio do pai com mudanças na empresa entre 2002 e 2009. Em agosto de 2025, o Ministério Público de São Paulo arquivou o inquérito sobre suposta falsificação de assinaturas: uma perícia comparou 60 assinaturas de Samuel feitas entre 1968 e 2014 e concluiu que eram "AUTÊNTICAS", segundo o Times Brasil. A defesa de Michael disse que não comenta processo sob sigilo.
A empresa listada na Bolsa não entra nessa conta. Os bens em disputa foram separados quando a família vendeu o controle ao Grupo Pão de Açúcar, em 2009. O Grupo Casas Bahia de hoje tem os próprios problemas: pediu recuperação judicial em agosto de 2026.
Ele fugiu de Auschwitz?
É a versão que circula. Não é o que dizem os registros da morte dele.
Samuel Klein nasceu em 15 de novembro de 1923, na região de Lublin, na Polônia, o terceiro de nove filhos de um carpinteiro judeu. Aos 19 anos, foi preso pelos nazistas e levado com o pai para o campo de concentração de Majdanek. A mãe e cinco irmãos mais novos foram mandados para Treblinka. Ele nunca mais os viu. As duas principais notícias da morte dele, da Agência Brasil e do Diário do Grande ABC, falam em Majdanek e numa fuga em 1944.

A Wikipedia em inglês acrescenta que ele foi transferido para Auschwitz em 1944 e fugiu dos soldados em 22 de julho daquele ano. A revista Jewish Currents diz que ele escapou de uma marcha forçada. O ponto em comum entre as fontes é a fuga em 1944, dos soldados que levavam os presos. Nenhuma das fontes que li diz que ele fugiu de dentro de Auschwitz.
O mascate da charrete
Depois da guerra, Klein morou em Munique, passou pela Bolívia e chegou ao Brasil em 1952. Foi para São Caetano do Sul, no ABC paulista. Com a ajuda de um conhecido do Bom Retiro, comprou uma carteira de 200 clientes e saiu vendendo roupa de cama, mesa e banho de porta em porta, numa charrete.
Em 1957, já tinha dinheiro para a primeira loja, no centro de São Caetano. Deu o nome de Casa Bahia, em homenagem aos nordestinos que tinham ido trabalhar nas montadoras da região. A rede passou de 500 lojas. Em 2009, ele vendeu o controle ao Pão de Açúcar. Morreu em 20 de novembro de 2014, aos 91 anos.
O que veio depois da morte
Em 15 de abril de 2021, a Agência Pública publicou uma investigação, com mais de 35 fontes, processos e inquéritos, segundo a qual Klein teria mantido por décadas um esquema de exploração sexual de meninas menores de idade, na sede da empresa e em imóveis dele; em julho, novos depoimentos estenderam o período relatado para 1983 a 2013. Klein nunca foi condenado: segundo a Pública, os casos terminaram em acordos com indenização, inquéritos arquivados por prescrição ou pela morte dele, e o Ministério Público do Trabalho abriu inquérito sobre a responsabilidade da empresa. A família Klein respondeu em nota no mesmo dia: "É uma pena que ele não esteja vivo para se defender das acusações mencionadas". A Via Varejo, então dona da marca, disse que a família nunca teve controle sobre a holding e que repudia "veementemente todo e qualquer tipo de assédio, práticas ilegais e atos discriminatórios" em suas dependências.
O que joga contra, e entra
"Um DNA feito sem o pai vale?" Vale como prova, e é o que a genética usa quando o suposto pai já morreu. O cromossomo Y do neto de Moacyr teria de ser igual ao de Saul. Não é.
"Então a herança já vai ser dividida?" Ainda não. A desistência precisa ser homologada em São Caetano e no STJ. E Saul continua dizendo que o patrimônio é maior que o declarado.
"Por que falar do passado de Klein numa matéria sobre herança?" Porque a história de superação dele é a que todo mundo conta, e ela não está completa sem o que foi publicado em 2021. Fica o registro: são acusações, com a resposta da família, e nenhuma condenação.
"Ele fugiu ou não de um campo nazista?" Fugiu. O que não se confirma é o nome do campo que circula nas redes.
A resposta
O DNA respondeu à pergunta que travava a herança havia uma década: Moacyr não era filho de Samuel Klein. Se a desistência for homologada, o oitavo reservado volta para a conta dos herdeiros. A briga pelo tamanho dessa conta, entre Saul e Michael, segue na Justiça.
Perguntas que chegam nos comentários
Quanto vale a herança de Samuel Klein?
Foi declarada em R$ 500 milhões por Michael Klein, o inventariante, em 2014. A defesa de Saul Klein diz que pode chegar a R$ 3 bilhões. A Justiça ainda não decidiu.
Quem era o suposto filho de Samuel Klein?
Moacyr Ramos de Paiva Agustinho Júnior, nascido em 1976. Ele entrou na Justiça em 2011 e morreu em 2021. A família dele desistiu da ação em setembro de 2026.
Como foi feito o exame de DNA?
Em abril de 2026, pelo laboratório Genomic, com os três filhos de Moacyr e Saul Klein. A comparação do cromossomo Y de um neto de Moacyr com o de Saul mostrou que eles não descendem do mesmo homem.
Samuel Klein fugiu de Auschwitz?
Os registros brasileiros da morte dele dizem que ele esteve preso em Majdanek, na Polônia, e fugiu em 1944. A Wikipedia em inglês cita uma transferência para Auschwitz e a fuga em 22 de julho de 1944, durante o trajeto.
A desistência afeta a empresa Casas Bahia?
Não. A herança envolve bens que ficaram com a família quando o controle foi vendido ao Grupo Pão de Açúcar, em 2009.








