A China não comprou "quase tudo" nos portos do Brasil, mas tem pedaços que pesam. A estatal chinesa COFCO opera, por arrendamento de 25 anos, um terminal gigante de grãos no porto de Santos, que levou num leilão sem disputa em 2022. Outra empresa controlada pelo governo chinês, a China Merchants Port, comprou em 2018 90% do terminal de contêineres de Paranaguá.
Eu fui ler o edital, a lei dos portos e os números do governo federal porque um vídeo que viralizou afirma: "Compraram silos, armazéns e portos. Compraram quase tudo." Uma parte é verdade. A outra, a conta desmente. E o que mais pesa, o vídeo nem cita.
Quem levou o terminal de Santos?
Em 30 de março de 2022, o governo leiloou na B3, em São Paulo, o terminal STS11, na região do Paquetá, margem direita do porto de Santos. Só uma empresa fez oferta: a Cofco Internacional Brasil. Levou a área sem disputa, segundo a Agência Brasil e a Revista Ferroviária.
O lance foi de R$ 10 milhões pelo direito de uso. O contrato obriga a empresa a investir R$ 764,8 milhões em obras. O prazo é de 25 anos, que podem ser prorrogados até 70 anos se o governo tiver interesse.
Era o governo Bolsonaro. A Revista Ferroviária registrou que foi o último leilão de Tarcísio de Freitas como ministro da Infraestrutura, antes de ele sair para disputar o governo de São Paulo. O edital saiu 23 dias antes da sessão, e empresas do setor reclamaram que o prazo para estudar o ativo foi curto.

Comprou ou alugou?
Alugou por muito tempo. A COFCO não comprou o porto. A Lei 12.815, de 2013, a Lei dos Portos, define o porto organizado como "bem público" e o arrendamento como "cessão onerosa de área e infraestrutura públicas localizadas dentro do porto organizado, para exploração por prazo determinado".
Em português de todo dia: a empresa paga para usar um pedaço do porto por um tempo fixo. O terreno continua da União. A lei manda que todo arrendamento passe por licitação e que o contrato traga uma cláusula de reversão de bens: quando o prazo acaba, o que foi construído ali volta para o governo federal.
O porém é o prazo. Com as prorrogações, o contrato de Santos pode chegar a 70 anos. É tempo de uma vida inteira.
Quem é a COFCO?
É a gigante de comida do governo chinês. O grupo COFCO é uma estatal supervisionada diretamente pela SASAC, a comissão que administra as empresas do Estado chinês, segundo a Wikipedia.
No Brasil, quem opera é o braço de comércio de grãos, a COFCO International. Em 2023, faturou R$ 72 bilhões aqui, segundo o Diário do Comércio, com base no ranking Valor 1000. No ranking, aparece no pelotão das maiores tradings do país, com as americanas Cargill e Bunge à frente.

Um detalhe pouco contado apareceu numa reportagem do The AgriBiz, de 2 de fevereiro de 2025: "Há mais funcionários da Cofco no Brasil do que na China." São 7 mil pessoas aqui, 900 delas em Santos. Pelo Diário do Comércio, o Brasil tem 7,2 mil dos 11 mil funcionários da COFCO International no mundo. A empresa tem 20 silos em Mato Grosso e exportou 17 milhões de toneladas do Brasil em 2024. Nos silos, o vídeo acertou.
O tamanho do terminal
Depois das obras, o STS11 tem capacidade para movimentar até 14,5 milhões de toneladas por ano, segundo o Monitor Mercantil (a Agência Brasil falava em 14,3 milhões na época do leilão). A área tem 98 mil metros quadrados, dois berços exclusivos para navios e armazéns para mais de 490 mil toneladas. Recebe soja, milho, açúcar e trigo.
A primeira fase foi inaugurada em março de 2025. A Revista OE contou o investimento: R$ 1,7 bilhão na construção e R$ 1,2 bilhão em trens, com 979 vagões e 23 locomotivas. Com o terminal completo, a COFCO triplica a capacidade em Santos e passa a ter ali o seu maior terminal fora da China, à frente do de Rosário, na Argentina.
É um terminal gigante. Guarde o número do armazém: 490 mil toneladas.
E Paranaguá?
Em 22 de fevereiro de 2018, o Ministério dos Transportes anunciou: "China Merchants Port adquire 90% da TCP, avaliada em R$ 3,2 bilhões." TCP é o Terminal de Contêineres de Paranaguá, no Paraná, o terceiro maior do Brasil nesse tipo de carga. Contêiner é aquela caixa de aço gigante que vai empilhada no navio.
Importante: os 90% são do terminal de contêineres, não do porto de Paranaguá. O porto é público e tem outros terminais e operadores.
Os vendedores foram o fundo Advent International, que tinha 50%, e um grupo de sócios que tinha 40%. Os 10% restantes ficaram com parte desses sócios. O arrendamento da TCP já tinha sido prorrogado até 2049. Era o governo Temer. O ministro Maurício Quintella disse na ocasião que a "formação de parcerias é fundamental para o desenvolvimento do país".

A China Merchants Port é controlada pelo China Merchants Group, uma estatal do governo chinês. Segundo a Tecnologística, a empresa opera em 52 portos de 26 países. Paranaguá é uma peça dessa rede.
Foi só um governo?
Não. Foram três, e todos disseram sim.
| Ano | Governo | O que foi assinado |
|---|---|---|
| 2018 | Temer | China Merchants Port compra 90% do terminal de contêineres de Paranaguá |
| 2022 | Bolsonaro | COFCO leva o STS11, em Santos, com lance único de R$ 10 milhões |
| 2025 | Lula | Acordo de mais de R$ 1,5 bilhão com a China Merchants Port para ampliar o terminal de Paranaguá |
O acordo de 2025 foi assinado em 5 de novembro, em Xangai, pelo secretário Nacional de Portos, Alex Avila, com o presidente-executivo da China Merchants Port, Xu Song. O dinheiro vai para ampliar a capacidade de armazenar e movimentar carga no terminal, segundo a Tecnologística.
Quase tudo? A conta
A armazenagem estática do Brasil é de 202,3 milhões de toneladas em 2026, segundo o Anuário Agrologístico da Conab, publicado em agosto. O armazém do terminal da COFCO em Santos guarda 490 mil. Dá 0,24%. Arredondando, duas toneladas em cada mil.
No movimento do porto, a proporção também é pequena. Santos movimentou 186,4 milhões de toneladas em 2025, recorde, segundo a Autoridade Portuária de Santos, citada pela Agência Brasil. O terminal chinês, no máximo da capacidade, movimenta 14,5 milhões. Menos de 8 em cada 100.
Mas o lugar pesa. Santos é o maior porto do país e respondeu por 29,6% de todo o comércio do Brasil com o exterior em 2025, pelo valor. Só de soja, embarcou 44,9 milhões de toneladas. Estar ali vale ouro.
| Número | Valor | Fonte |
|---|---|---|
| Armazém do STS11 | 490 mil toneladas | Monitor Mercantil |
| Armazenagem do Brasil | 202,3 milhões de toneladas | Conab, 2026 |
| Fatia do STS11 na armazenagem | 0,24% | conta da revista |
| Capacidade do STS11 | até 14,5 milhões de t por ano | Monitor Mercantil |
| Movimento de Santos em 2025 | 186,4 milhões de toneladas | Autoridade Portuária de Santos |
| Participação chinesa no terminal de contêineres de Paranaguá | 90% | Ministério dos Transportes |
O que joga contra, e entra
"Mas é estatal chinesa, e sem disputa." É verdade, e é o ponto mais forte do vídeo. No mesmo dia, porém, o terminal SUA07, em Suape, também teve um único interessado e saiu por R$ 15 mil, para o consórcio Sua Granéis. Leilão com um lance só não foi exclusividade da China.
"Arrendar por 70 anos é o mesmo que vender." Pela lei, não: o bem é público, todo arrendamento exige licitação e o contrato prevê a reversão dos bens à União. Mas na prática é muito tempo, e a crítica tem base.
"Paranaguá inteiro é chinês." Não. Os 90% são do Terminal de Contêineres. O porto é público, com outros terminais e operadores.
"0,2% é pouco, então não importa." Importa pelo lugar. Um terminal grande no maior porto do país tem peso estratégico que a porcentagem não mostra.
O que ficou sem resposta. Não encontrei dado público atualizado de quanto da armazenagem do Brasil está nas mãos de empresas estrangeiras. A Conab mantém o cadastro de armazéns por tipo de dono, e esse recorte ainda precisa ser pedido a ela.
O poder que mais pesa: a compra
O que dá mais poder à China no Brasil não é porto. É compra. Pense em 100 dólares vendidos pelo Brasil ao mundo em 2025: 29 vieram da China. Pelo Comex Stat, do governo federal, as exportações somaram US$ 348,3 bilhões, e US$ 99,9 bilhões (28,7%) foram para a China. Os Estados Unidos, em segundo, compraram US$ 37,7 bilhões (10,8%).
Na soja, a dependência é maior. Em 2025, o Brasil exportou 108,18 milhões de toneladas de soja em grão. Foram para a China 85,43 milhões: 79 de cada 100 toneladas.

Ela também precisa da gente
Parece dependência só do lado brasileiro. Não é. Segundo a Forbes Brasil, com dados da alfândega chinesa, a China importou o recorde de 111,83 milhões de toneladas de soja em 2025. Do Brasil vieram 82,32 milhões, ou 73,6%. Os Estados Unidos ficaram com 15%.
A China é a maior cliente do Brasil. E o Brasil é o maior fornecedor de soja da China. Os dois lados têm o que perder.

Então, a China comprou quase tudo?
Não. Comprou 90% de um terminal de contêineres em Paranaguá, arrendou um terminal gigante de grãos em Santos e tem silos em Mato Grosso. São pedaços estratégicos, que três governos seguidos aprovaram. Mas os portos seguem públicos, e o armazém chinês de Santos é 0,2% do que o país guarda. O que mais pesa é outra coisa: 79 de cada 100 toneladas de soja que o Brasil vende vão para a China. A pergunta que fica é qual poder conta mais, o do porto que ela tem ou o da soja que ela compra.
Perguntas que chegam nos comentários
A China comprou o porto de Santos?
Não. A estatal chinesa COFCO arrendou em 2022 o terminal STS11, dentro do porto, por 25 anos, prorrogáveis até 70. O porto de Santos é público. Pela Lei 12.815, porto organizado é bem público.
Quanto a COFCO pagou pelo terminal de Santos?
Lance de R$ 10 milhões pelo direito de uso, com obrigação de investir R$ 764,8 milhões. Foi a única empresa a fazer oferta no leilão de 30 de março de 2022.
A China é dona do porto de Paranaguá?
Não. Em 2018, a China Merchants Port comprou 90% do Terminal de Contêineres de Paranaguá (TCP), avaliado em R$ 3,2 bilhões. O porto é público e tem outros terminais.
Quanto da armazenagem do Brasil está com a China?
O terminal da COFCO em Santos guarda 490 mil toneladas, cerca de 0,2% dos 202,3 milhões de toneladas de armazenagem do país. A COFCO também tem 20 silos em Mato Grosso. Não há dado público atualizado da fatia estrangeira total.
Quanto da soja do Brasil vai para a China?
Em 2025, 79 de cada 100 toneladas de soja em grão exportadas pelo Brasil foram para a China, segundo o Comex Stat. E 73,6% da soja que a China importou saiu do Brasil.








