Terça-feira, 22 de setembro. O Ministério da Fazenda publicou o Boletim Macrofiscal e disse que o Brasil vai crescer 2,0% em 2026 e 2,3% em 2027.
Quinta-feira, 24 de setembro. O Banco Central publicou o Relatório de Política Monetária e disse que o Brasil vai crescer 1,8% em 2026 e 1,4% em 2027.
Dois documentos oficiais do mesmo governo, com dois dias de diferença, descrevendo dois países.
O que é esse tal de Relatório de Política Monetária
Quase toda a cobertura pulou essa parte.
O RPM é um documento que o Banco Central é obrigado a publicar até o último dia de cada trimestre, por força do Decreto 12.079, de 26 de junho de 2024. Até 2024 ele se chamava Relatório de Inflação, e o nome mudou junto com a regra da meta.
A mudança importa. Antes, a meta valia para o ano-calendário e o placar era conferido em dezembro. Desde janeiro de 2025 ela é contínua: 3,00% de IPCA em 12 meses, apurado mês a mês, com tolerância de 1,50% a 4,50%. Fora da faixa por seis meses seguidos, o presidente do BC escreve carta aberta ao ministro da Fazenda explicando por quê. Antes o banco tinha o ano inteiro para consertar. Agora o relógio dispara todo mês.
A edição de setembro tem 89 páginas e foi fechada com os dados até a 281ª reunião do Copom, de 15 e 16 de setembro, que cortou a Selic de 14,00% para 13,75% ao ano.
O que o Banco Central viu
A frase que define o documento está na página 6. O corte de 2,0% para 1,8% veio, escreve o Copom, "sob influência da avaliação menos favorável da composição do crescimento no segundo trimestre e dos primeiros indicadores do terceiro trimestre, que sugerem atividade mais fraca".
O PIB cresceu 1,1% no primeiro trimestre e 0,5% no segundo. Perdeu mais da metade do embalo em três meses.
Na inflação, a boa notícia e a ressalva vêm juntas. O IPCA em 12 meses caiu de 4,72% em maio para 4,22% em agosto, mas o relatório projeta que ele volta a subir e fecha o quarto trimestre em 5,2%, acima do teto de 4,50% por dois trimestres seguidos. O motivo, textualmente: "a inflação de serviços segue elevada, em cenário de mercado de trabalho aquecido e hiato do produto positivo".
Os dois relatórios, lado a lado
| Indicador | Banco Central, 24/09 | Fazenda, 22/09 | Distância |
|---|---|---|---|
| PIB 2026 | 1,8% | 2,0% | 0,2 ponto |
| PIB 2027 | 1,4% | 2,3% | 0,9 ponto |
| IPCA 2026 | 5,2% | 4,9% | 0,3 ponto |
Em 2026, a briga é de 0,2 ponto. Coisa pequena. Em 2027 são 0,9 ponto percentual, quase um ponto de PIB, que em dinheiro passa de R$ 100 bilhões.
Justiça seja feita: a Fazenda também piorou o cenário, cortando o PIB de 2026 de 2,3% para 2,0% e o de 2027 de 2,5% para 2,3%, por causa dos "juros ainda restritivos". Na inflação ela foi para o outro lado, de 5,1% para 4,9%.
A conta que o BC coloca na mesa
A parte mais dura não está no PIB. Está na página 26: para 2027, escreve o Copom, "o governo projeta superávit e cumprimento da meta, enquanto a mediana das projeções de mercado aponta déficit e resultado abaixo do piso na métrica de aferição".
Sobre a dívida, o relatório põe as duas contas em sequência sem escolher. Pela mediana do Focus, a Dívida Bruta do Governo Geral chega a 100% do PIB em 2033, 17 pontos acima de hoje, sem estabilizar na próxima década. Pelo Tesouro Nacional, ela atinge o pico de 88% em 2029 e cai a 83% em 2036.
Os números da própria Fazenda ajudam a entender a desconfiança: déficit primário bruto de R$ 52,01 bilhões que vira superávit de R$ 10,77 bilhões depois de R$ 62,78 bilhões em descontos permitidos por lei.
Gabriel Galípolo, que foi indicado por Lula e sabatinado pelo Senado, resumiu na coletiva da mesma quinta-feira: "esse é um BC que não é muito emotivo, não se emociona muito com os dados", e "não podemos nos apoiar em uma falsa precisão nesse processo". A divergência com a Fazenda não é de time.
Corrijo um número que circulou
A versão que rodou nas redes na quinta dizia "Ibovespa a 185,7 mil pontos e dólar a R$ 5,16". Fui à fonte original. Ela diz, com a palavra escrita, que o Ibovespa "opera" em queda aos 185,7 mil e que o dólar "opera" em alta a R$ 5,16. São cotações de meio de pregão.
Os fechamentos de 24 de setembro: Ibovespa em 183.965,91 pontos, queda de 0,99%, e dólar comercial a R$ 5,1937 na venda, alta de 0,49%. A série 1 do sistema de séries temporais do próprio Banco Central mostra a escalada da PTAX: R$ 5,1161 em 22 de setembro, R$ 5,1414 em 23, R$ 5,1795 em 24.
O dólar passou por R$ 5,16. Depois subiu mais.
O juro americano, com o dado oficial
As manchetes disseram 5,50%. Baixei a planilha do Tesouro americano.
O fechamento oficial do papel de 30 anos em 24 de setembro foi 5,47%, o maior desde 2004. Em 22 de setembro era 5,29%: dezoito pontos-base em dois pregões. A CNBC registrou máxima intradia de 5,501% e a Reuters, 5,444%, em momentos diferentes do mesmo dia.
Em 2 de janeiro esse papel pagava 4,86%. A mínima do ano foi 4,64%, em 27 de fevereiro. Do piso até quinta-feira, 83 pontos-base.
Por que isso importa para quem vende pão
Primeiro degrau. O título de 30 anos do Tesouro americano é o investimento mais seguro que existe no planeta, e por isso é o piso de tudo. Quando ele paga 4,6%, quem quiser dinheiro emprestado no mundo precisa oferecer mais. Quando passa a pagar 5,47%, o piso sobe junto.
Segundo degrau. O Banco Central escreveu isso na página 9: as taxas longas subiram, "com isso, as condições financeiras se tornaram mais restritivas", e entre as causas está "a forte demanda por capital decorrente do financiamento dos déficits fiscais e dos investimentos em IA".
Repare na palavra: inteligência artificial. Cinco empresas americanas de tecnologia (Amazon, Alphabet, Meta, Microsoft e Oracle) saíram de cerca de US$ 35 bilhões por ano em emissão de dívida entre 2020 e 2024 para US$ 132 bilhões só nos sete primeiros meses de 2026. Os data centers disputam o mesmo dinheiro que a padaria de Sorocaba.
Terceiro degrau. O estrategista Lucas Queiroz decompôs a variação do DI brasileiro de cinco anos e concluiu: "desde a metade do ano passado, quem guia a nossa taxa longa é o cenário externo."
O crédito da empresa pequena parou
O número que resume a matéria está na página 63. Variação do saldo de crédito em 12 meses:
| Segmento | 2024 | 2025 | Jul/2026 |
|---|---|---|---|
| Total | 11,4% | 10,4% | 9,5% |
| Livre, pessoa física | 12,7% | 13,5% | 10,8% |
| Livre, pessoa jurídica | 8,8% | 2,2% | 1,4% |
| Direcionado | 11,8% | 12,8% | 12,8% |
O crédito livre para empresa cresceu 1,4% nominais em 12 meses até julho, com inflação de 4,22% no mesmo período. Em poder de compra, ele encolheu.
O que ainda cresce é o direcionado, ou seja, programa de governo. O relatório diz de onde vem: as concessões recentes para pessoa jurídica foram "impulsionadas pelo programa Desenrola para Micro e Pequenas Empresas", que afrouxou as condições do Pronampe e já passou de R$ 8 bilhões em cerca de 65 mil operações desde maio.
O preço que o dono do negócio paga
Séries de julho de 2026, puxadas na interface de dados abertos do Banco Central: Selic a 13,75% ao ano, juros médios para pessoa jurídica a 20,97%, capital de giro acima de 365 dias a 23,55% e juros médios para pessoa física a 37,41%.
Olhe o capital de giro ao longo do ano: 21,79% em abril, 21,58% em junho, 23,55% em julho. O Copom cortou a Selic nesse período e o capital de giro subiu quase dois pontos.
A Selic manda no dinheiro de curtíssimo prazo. O empréstimo de dois anos para trocar o forno é precificado na curva longa, e a curva longa está presa no Treasury.
A ponta, medida por quem está nela
A 11ª edição da pesquisa Pulso dos Pequenos Negócios, do Sebrae, ouviu 6.173 empreendedores em todos os estados entre 18 e 31 de agosto de 2026. Resultado: 25% procuraram empréstimo em banco nos três meses anteriores, 44% conseguiram, 21% estavam com conta ou empréstimo em atraso e 43% se declararam preocupados com o futuro.
Um em cada quatro pede. Menos da metade consegue.
O consumidor sentiu. O índice de confiança da FGV de setembro caiu 0,5 ponto e foi a 84,2 pontos, quinta queda seguida e o menor nível desde novembro de 2022. Rodolpho Tobler, do FGV Ibre: "recente movimento dificulta imaginar uma recuperação nos próximos meses, dadas as condições financeiras apertadas."
Um detalhe corta contra a leitura fácil: a confiança subiu entre consumidores de renda mais baixa. Quem está mais pessimista é a classe média.
O que joga contra, e entra
"Isso é briga política do BC contra o governo." Galípolo foi indicado por Lula. A divergência de 0,9 ponto em 2027 está na seção fiscal do relatório e trata de premissa de resultado primário.
"Dois décimos de PIB não mudam nada." Em 2026, concordo. Em 2027 a distância é de 0,9 ponto, e é nela que mora a discussão sobre a dívida.
"O juro americano é problema deles." O relatório do BC atribui o aperto das condições financeiras globais à alta das taxas longas e aponta o efeito sobre emergentes.
"Mas o Copom cortou a Selic." Cortou, para 13,75%. O capital de giro longo foi de 21,79% em abril para 23,55% em julho.
"O crédito está crescendo 9,5%." O agregado, sim. O livre para empresa cresceu 1,4% nominais, abaixo da inflação de 4,22%.
"Foi a eleição que derrubou a bolsa na quinta." A eleição pesa, e no mesmo dia o Treasury bateu a máxima desde 2004, o Brent subiu 3,41% e o BC cortou o PIB. Atribuir a um fator só seria chute.
A resposta
O Banco Central vê uma economia que já esfriou e uma inflação de serviços que não cede. A Fazenda vê uma economia que volta a acelerar em 2027. Quem está certo ninguém sabe antes de acontecer. O que dá para medir hoje é a ponta, e a ponta já respondeu: crédito livre para empresa em 1,4% num ano de inflação de 4,22%, capital de giro a 23,55% ao ano, 44% de aprovação para quem pede empréstimo, confiança do consumidor no pior nível em quase quatro anos.
Enquanto isso, um papel de 30 anos emitido em Washington paga 5,47% ao ano, e quem quiser disputar dinheiro com ele precisa pagar mais.
Não é metáfora. É o piso da sala, e ele subiu.







