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Notícias / 25 de setembro de 2026

Eu fui checar

O Banco Central e a Fazenda não veem o mesmo país

Dois documentos oficiais do mesmo governo saíram com dois dias de diferença e projetaram economias diferentes. Para 2027, a distância é de 0,9 ponto percentual. No mesmo dia, o juro de 30 anos americano bateu o maior nível desde 2004, e o crédito livre para empresa no Brasil cresceu 1,4% em um ano com inflação de 4,22%. Eu fui aos dois relatórios, à API do Banco Central e à planilha do Tesouro americano.

Publicado
25 de setembro de 2026
Atualizado
25 de setembro de 2026
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Agência Senado / Wikimedia Commons, CC BY 2.0
Agência Senado / Wikimedia Commons, CC BY 2.0

Terça-feira, 22 de setembro. O Ministério da Fazenda publicou o Boletim Macrofiscal e disse que o Brasil vai crescer 2,0% em 2026 e 2,3% em 2027.

Quinta-feira, 24 de setembro. O Banco Central publicou o Relatório de Política Monetária e disse que o Brasil vai crescer 1,8% em 2026 e 1,4% em 2027.

Dois documentos oficiais do mesmo governo, com dois dias de diferença, descrevendo dois países.

O que é esse tal de Relatório de Política Monetária

Quase toda a cobertura pulou essa parte.

O RPM é um documento que o Banco Central é obrigado a publicar até o último dia de cada trimestre, por força do Decreto 12.079, de 26 de junho de 2024. Até 2024 ele se chamava Relatório de Inflação, e o nome mudou junto com a regra da meta.

A mudança importa. Antes, a meta valia para o ano-calendário e o placar era conferido em dezembro. Desde janeiro de 2025 ela é contínua: 3,00% de IPCA em 12 meses, apurado mês a mês, com tolerância de 1,50% a 4,50%. Fora da faixa por seis meses seguidos, o presidente do BC escreve carta aberta ao ministro da Fazenda explicando por quê. Antes o banco tinha o ano inteiro para consertar. Agora o relógio dispara todo mês.

A edição de setembro tem 89 páginas e foi fechada com os dados até a 281ª reunião do Copom, de 15 e 16 de setembro, que cortou a Selic de 14,00% para 13,75% ao ano.

O que o Banco Central viu

A frase que define o documento está na página 6. O corte de 2,0% para 1,8% veio, escreve o Copom, "sob influência da avaliação menos favorável da composição do crescimento no segundo trimestre e dos primeiros indicadores do terceiro trimestre, que sugerem atividade mais fraca".

O PIB cresceu 1,1% no primeiro trimestre e 0,5% no segundo. Perdeu mais da metade do embalo em três meses.

Na inflação, a boa notícia e a ressalva vêm juntas. O IPCA em 12 meses caiu de 4,72% em maio para 4,22% em agosto, mas o relatório projeta que ele volta a subir e fecha o quarto trimestre em 5,2%, acima do teto de 4,50% por dois trimestres seguidos. O motivo, textualmente: "a inflação de serviços segue elevada, em cenário de mercado de trabalho aquecido e hiato do produto positivo".

Os dois relatórios, lado a lado

IndicadorBanco Central, 24/09Fazenda, 22/09Distância
PIB 20261,8%2,0%0,2 ponto
PIB 20271,4%2,3%0,9 ponto
IPCA 20265,2%4,9%0,3 ponto

Em 2026, a briga é de 0,2 ponto. Coisa pequena. Em 2027 são 0,9 ponto percentual, quase um ponto de PIB, que em dinheiro passa de R$ 100 bilhões.

Justiça seja feita: a Fazenda também piorou o cenário, cortando o PIB de 2026 de 2,3% para 2,0% e o de 2027 de 2,5% para 2,3%, por causa dos "juros ainda restritivos". Na inflação ela foi para o outro lado, de 5,1% para 4,9%.

A conta que o BC coloca na mesa

A parte mais dura não está no PIB. Está na página 26: para 2027, escreve o Copom, "o governo projeta superávit e cumprimento da meta, enquanto a mediana das projeções de mercado aponta déficit e resultado abaixo do piso na métrica de aferição".

Sobre a dívida, o relatório põe as duas contas em sequência sem escolher. Pela mediana do Focus, a Dívida Bruta do Governo Geral chega a 100% do PIB em 2033, 17 pontos acima de hoje, sem estabilizar na próxima década. Pelo Tesouro Nacional, ela atinge o pico de 88% em 2029 e cai a 83% em 2036.

Os números da própria Fazenda ajudam a entender a desconfiança: déficit primário bruto de R$ 52,01 bilhões que vira superávit de R$ 10,77 bilhões depois de R$ 62,78 bilhões em descontos permitidos por lei.

Gabriel Galípolo, que foi indicado por Lula e sabatinado pelo Senado, resumiu na coletiva da mesma quinta-feira: "esse é um BC que não é muito emotivo, não se emociona muito com os dados", e "não podemos nos apoiar em uma falsa precisão nesse processo". A divergência com a Fazenda não é de time.

Corrijo um número que circulou

A versão que rodou nas redes na quinta dizia "Ibovespa a 185,7 mil pontos e dólar a R$ 5,16". Fui à fonte original. Ela diz, com a palavra escrita, que o Ibovespa "opera" em queda aos 185,7 mil e que o dólar "opera" em alta a R$ 5,16. São cotações de meio de pregão.

Os fechamentos de 24 de setembro: Ibovespa em 183.965,91 pontos, queda de 0,99%, e dólar comercial a R$ 5,1937 na venda, alta de 0,49%. A série 1 do sistema de séries temporais do próprio Banco Central mostra a escalada da PTAX: R$ 5,1161 em 22 de setembro, R$ 5,1414 em 23, R$ 5,1795 em 24.

O dólar passou por R$ 5,16. Depois subiu mais.

O juro americano, com o dado oficial

As manchetes disseram 5,50%. Baixei a planilha do Tesouro americano.

O fechamento oficial do papel de 30 anos em 24 de setembro foi 5,47%, o maior desde 2004. Em 22 de setembro era 5,29%: dezoito pontos-base em dois pregões. A CNBC registrou máxima intradia de 5,501% e a Reuters, 5,444%, em momentos diferentes do mesmo dia.

Em 2 de janeiro esse papel pagava 4,86%. A mínima do ano foi 4,64%, em 27 de fevereiro. Do piso até quinta-feira, 83 pontos-base.

Por que isso importa para quem vende pão

Primeiro degrau. O título de 30 anos do Tesouro americano é o investimento mais seguro que existe no planeta, e por isso é o piso de tudo. Quando ele paga 4,6%, quem quiser dinheiro emprestado no mundo precisa oferecer mais. Quando passa a pagar 5,47%, o piso sobe junto.

Segundo degrau. O Banco Central escreveu isso na página 9: as taxas longas subiram, "com isso, as condições financeiras se tornaram mais restritivas", e entre as causas está "a forte demanda por capital decorrente do financiamento dos déficits fiscais e dos investimentos em IA".

Repare na palavra: inteligência artificial. Cinco empresas americanas de tecnologia (Amazon, Alphabet, Meta, Microsoft e Oracle) saíram de cerca de US$ 35 bilhões por ano em emissão de dívida entre 2020 e 2024 para US$ 132 bilhões só nos sete primeiros meses de 2026. Os data centers disputam o mesmo dinheiro que a padaria de Sorocaba.

Terceiro degrau. O estrategista Lucas Queiroz decompôs a variação do DI brasileiro de cinco anos e concluiu: "desde a metade do ano passado, quem guia a nossa taxa longa é o cenário externo."

O crédito da empresa pequena parou

O número que resume a matéria está na página 63. Variação do saldo de crédito em 12 meses:

Segmento20242025Jul/2026
Total11,4%10,4%9,5%
Livre, pessoa física12,7%13,5%10,8%
Livre, pessoa jurídica8,8%2,2%1,4%
Direcionado11,8%12,8%12,8%

O crédito livre para empresa cresceu 1,4% nominais em 12 meses até julho, com inflação de 4,22% no mesmo período. Em poder de compra, ele encolheu.

O que ainda cresce é o direcionado, ou seja, programa de governo. O relatório diz de onde vem: as concessões recentes para pessoa jurídica foram "impulsionadas pelo programa Desenrola para Micro e Pequenas Empresas", que afrouxou as condições do Pronampe e já passou de R$ 8 bilhões em cerca de 65 mil operações desde maio.

O preço que o dono do negócio paga

Séries de julho de 2026, puxadas na interface de dados abertos do Banco Central: Selic a 13,75% ao ano, juros médios para pessoa jurídica a 20,97%, capital de giro acima de 365 dias a 23,55% e juros médios para pessoa física a 37,41%.

Olhe o capital de giro ao longo do ano: 21,79% em abril, 21,58% em junho, 23,55% em julho. O Copom cortou a Selic nesse período e o capital de giro subiu quase dois pontos.

A Selic manda no dinheiro de curtíssimo prazo. O empréstimo de dois anos para trocar o forno é precificado na curva longa, e a curva longa está presa no Treasury.

A ponta, medida por quem está nela

A 11ª edição da pesquisa Pulso dos Pequenos Negócios, do Sebrae, ouviu 6.173 empreendedores em todos os estados entre 18 e 31 de agosto de 2026. Resultado: 25% procuraram empréstimo em banco nos três meses anteriores, 44% conseguiram, 21% estavam com conta ou empréstimo em atraso e 43% se declararam preocupados com o futuro.

Um em cada quatro pede. Menos da metade consegue.

O consumidor sentiu. O índice de confiança da FGV de setembro caiu 0,5 ponto e foi a 84,2 pontos, quinta queda seguida e o menor nível desde novembro de 2022. Rodolpho Tobler, do FGV Ibre: "recente movimento dificulta imaginar uma recuperação nos próximos meses, dadas as condições financeiras apertadas."

Um detalhe corta contra a leitura fácil: a confiança subiu entre consumidores de renda mais baixa. Quem está mais pessimista é a classe média.

O que joga contra, e entra

"Isso é briga política do BC contra o governo." Galípolo foi indicado por Lula. A divergência de 0,9 ponto em 2027 está na seção fiscal do relatório e trata de premissa de resultado primário.

"Dois décimos de PIB não mudam nada." Em 2026, concordo. Em 2027 a distância é de 0,9 ponto, e é nela que mora a discussão sobre a dívida.

"O juro americano é problema deles." O relatório do BC atribui o aperto das condições financeiras globais à alta das taxas longas e aponta o efeito sobre emergentes.

"Mas o Copom cortou a Selic." Cortou, para 13,75%. O capital de giro longo foi de 21,79% em abril para 23,55% em julho.

"O crédito está crescendo 9,5%." O agregado, sim. O livre para empresa cresceu 1,4% nominais, abaixo da inflação de 4,22%.

"Foi a eleição que derrubou a bolsa na quinta." A eleição pesa, e no mesmo dia o Treasury bateu a máxima desde 2004, o Brent subiu 3,41% e o BC cortou o PIB. Atribuir a um fator só seria chute.

A resposta

O Banco Central vê uma economia que já esfriou e uma inflação de serviços que não cede. A Fazenda vê uma economia que volta a acelerar em 2027. Quem está certo ninguém sabe antes de acontecer. O que dá para medir hoje é a ponta, e a ponta já respondeu: crédito livre para empresa em 1,4% num ano de inflação de 4,22%, capital de giro a 23,55% ao ano, 44% de aprovação para quem pede empréstimo, confiança do consumidor no pior nível em quase quatro anos.

Enquanto isso, um papel de 30 anos emitido em Washington paga 5,47% ao ano, e quem quiser disputar dinheiro com ele precisa pagar mais.

Não é metáfora. É o piso da sala, e ele subiu.

Fontes desta materia

  1. Banco Central do Brasil, Relatório de Política Monetária, volume 2, número 3, setembro de 2026
  2. Banco Central do Brasil, SGS, séries 1, 432, 20715, 20716 e 20723
  3. US Department of the Treasury, Daily Treasury Par Yield Curve Rates, 2026
  4. Agência Brasil, BC reduz projeção de crescimento da economia para 1,8%
  5. Metrópoles, Banco Central reduz projeção de crescimento do PIB para 1,8% em 2026
  6. Poder360, Fazenda reduz PIB de 2026 e estima superávit de R$ 10,77 bi na meta
  7. O Povo, Fazenda: projeção de alta do PIB de 2026 cai de 2,3% para 2,0%
  8. Revista Oeste, Galípolo diz que BC não será emotivo e revisa PIB de 2026 para 1,8%
  9. InfoMoney, Ibovespa hoje, bolsa de valores ao vivo, 24/09/2026
  10. O Povo, Fechamento do mercado financeiro, 24/09/2026
  11. CNBC, 30-year Treasury yield hits highest level since 2004 as bond market rout continues
  12. Reuters via Investing.com, US 30-year bond yield rises to highest since 2004 as selloff deepens
  13. InfoMoney, É mesmo só fiscal? Cresce a parcela de culpa dos EUA no problema do juro brasileiro
  14. Jornal do Comércio, FGV: confiança do consumidor cai 0,5 ponto em setembro, para 84,2 pontos
  15. Agência Sebrae, Finanças em dia: cai a inadimplência entre pequenos negócios
  16. Jornal Grande Bahia, Programa Desenrola para empresas ultrapassa R$ 8 bilhões em crédito
  17. Ministério da Fazenda, Desenrola Brasil Empresas, perguntas frequentes
  18. Diário do Grande ABC, BC divulgará novo Relatório de Política Monetária, que substitui o RTI
  19. Melhor Investimento, Copom corta a Selic para 13,75% ao ano e sinaliza cautela nos juros
  20. Mercado Hoje, Notícias de 24/09/2026