Os jogadores da França já estavam perfilados no gramado de Izmit, na Turquia. A Marselhesa começou a tocar.
O técnico não estava lá.
Zinedine Zidane e a comissão técnica chegaram alguns segundos depois, com o hino já em andamento. Era a primeira partida dele no comando da seleção francesa. No dia seguinte, ele explicou à imprensa, segundo a Foot Mercato:
"Infelizmente, sim. O protocolo andou mais rápido do que o previsto. Tive um pequeno atraso na largada. Teria preferido chegar no começo."
Um detalhe de protocolo. Só que o hino que ele não ouviu inteiro carrega uma história que começa numa praça de concreto de Marselha e passa pela Argélia duas vezes.
A estreia
O jogo foi na sexta-feira, 25 de setembro de 2026, no estádio de Kocaeli, em Izmit, pela Liga das Nações. A França venceu a Turquia por 1 a 0.
O gol saiu aos 9 minutos do segundo tempo. Segundo a Gazeta Esportiva, Mbappé recebeu passe de Michael Olise na área, depois de um erro turco na saída de bola, e chutou no canto. Logo depois da comemoração, sentiu o joelho esquerdo. A CNN Brasil informou que a dor era a mesma que ele tinha sentido no aquecimento. Saiu de campo e deu lugar a Désiré Doué.
Zidane tinha sido anunciado como técnico em 28 de julho de 2026, no lugar de Didier Deschamps, que ficou 14 anos no cargo. Assumiu uma seleção que terminou a Copa do Mundo de 2026 em quarto lugar.
A Foot Mercato lembrou o detalhe que dá peso ao atraso: a última vez que Zidane tinha ouvido a Marselhesa vestindo a camisa da França foi na final da Copa de 2006, contra a Itália. Vinte anos antes.
A praça de concreto
Zinedine Zidane nasceu em 23 de junho de 1972, em La Castellane, um conjunto habitacional na periferia de Marselha.
Os pais, Smaïl e Malika, eram argelinos da Cabília. Chegaram à França em 1953. O pai trabalhou como estoquista e como vigia noturno. A mãe cuidava da casa. Ele era o caçula de cinco irmãos.
Aos 5 anos começou a jogar com os meninos do bairro na Place Tartane, uma praça de uns 73 metros de comprimento por 11 de largura. Era ali o campo.
Aos 14, num estágio de formação, um olheiro do Cannes chamado Jean Varraud o viu jogar. A frase dele ficou registrada: "os pés dele falavam com a bola."
O convite era para seis semanas de teste. Zidane ficou quatro anos. O diretor do clube, Jean-Claude Elineau, o levou para morar com a própria família, fora do alojamento. Foi ali, segundo a biografia, que o menino de Marselha "encontrou o equilíbrio".
O topo
Em 12 de julho de 1998, na final da Copa do Mundo, no Stade de France, fez dois gols de cabeça, os dois em escanteio, aos 27 minutos e nos acréscimos do primeiro tempo. A França ganhou do Brasil por 3 a 0 e conquistou a primeira Copa da história. No fim do ano ele recebeu a Bola de Ouro.
Em 2001, o Real Madrid pagou 77,5 milhões de euros à Juventus por ele. Pela seleção, foram 108 jogos e 31 gols.
Depois, como técnico do Real, ganhou a Champions três vezes seguidas: 2016, 2017 e 2018.
A noite da cabeçada
Final da Copa de 2006, 9 de julho, Estádio Olímpico de Berlim, contra a Itália. Zidane tinha anunciado em abril que pararia depois daquele Mundial.
Aos 110 minutos, na prorrogação, Zidane se virou e deu uma cabeçada no peito do zagueiro Marco Materazzi. Foi expulso. A partida terminou 1 a 1 e a Itália venceu por 5 a 3 nos pênaltis.
Mais tarde, ele disse que Materazzi tinha ofendido a irmã dele. Em 2010, quando perguntaram se pediria desculpas, respondeu: "Prefiro morrer."
Foi a última Marselhesa dele de uniforme.
A virada do filho
Luca, um dos filhos de Zidane, é goleiro.
Em 19 de setembro de 2025, a FIFA aprovou o pedido de Luca para trocar de nacionalidade esportiva: da França para a Argélia. Em 14 de outubro de 2025, ele estreou no gol da seleção argelina, contra Uganda, nas eliminatórias da Copa. Foi convocado para o Mundial de 2026 e jogou a vitória da Argélia sobre a Holanda num amistoso em 4 de junho.
O avô saiu da Cabília em 1953. O pai foi campeão do mundo pela França. O neto voltou para a Argélia pelo gol.
Os números
| Nascimento | 23/6/1972, La Castellane, Marselha |
| Pais | Smaïl e Malika, da Cabília, na França desde 1953 |
| Pela seleção | 108 jogos, 31 gols |
| Copa de 1998 | 2 gols na final, título |
| Bola de Ouro | 1998 |
| Transferência ao Real | 77,5 milhões de euros (2001) |
| Champions como técnico | 3 seguidas (2016, 2017, 2018) |
| Anúncio na seleção | 28/7/2026 |
| Estreia | 25/9/2026, França 1 x 0 Turquia |
O que joga contra, e entra
"Ele se recusou a cantar o hino." Falso. Nenhuma das fontes que eu li diz isso. Zidane chegou atrasado e explicou o motivo no dia seguinte. Não há protesto nenhum nessa história.
"Então o Zidane está do lado da Argélia." Não há declaração dele nesse sentido nas fontes que consultei. Quem escolheu a Argélia foi o filho, com aprovação da FIFA, um ano antes de o pai assumir a França. Zidane nasceu em Marselha e jogou 108 vezes pela França.
A cabeçada tem outra versão. Que Materazzi ofendeu a irmã é o relato de Zidane. O italiano deu versões diferentes ao longo dos anos. O fato que ninguém discute é a expulsão.
A estreia não foi brilhante. Vitória por 1 a 0, gol que nasceu de erro do adversário e o principal jogador saindo machucado. A gravidade da lesão de Mbappé não tinha sido detalhada oficialmente nas fontes que abri até o fechamento deste texto.
Local do jogo. Um veículo brasileiro informou Istambul. CNN Brasil, Gazeta Esportiva e Goal registram Izmit, e é o que fica.
A resposta
Zidane chegou atrasado ao hino porque o protocolo correu. Foi só isso.
Mas a cena resume o homem. Filho de argelinos da Cabília, criado numa praça de concreto de 11 metros de largura em Marselha, ele deu à França a primeira Copa, saiu da última final com uma cabeçada e voltou vinte anos depois para ouvir a mesma Marselhesa como técnico. Perdeu os primeiros segundos. Enquanto isso, o filho defende o gol da Argélia.
As duas bandeiras sempre estiveram na mesma casa.








