O Atlântico chega ao fim de setembro de 2026 sem nenhum furacão, algo que não acontecia desde 1914. O motivo tem nome, segundo a NOAA, a agência do clima dos Estados Unidos: o El Niño, o mais forte já medido, o mesmo fenômeno que o banco JPMorgan e a ONU apontam como risco para a comida em 2027 e que, no Brasil, pode pesar no preço do feijão.
Eu fui atrás dos documentos porque esse recorde virou argumento num vídeo que viralizou, usado como prova de que o alarme do clima é exagero. O recorde é verdadeiro. A história completa é outra.
Quantos furacões o Atlântico teve em 2026?
Nenhum. Até a manhã de 29 de setembro, a temporada tinha 8 tempestades com nome e zero furacões. Duas estavam ativas: Fay, com ventos de 64 km/h, e Hanna, com 72 km/h. Os avisos do Centro Nacional de Furacões dos EUA daquela manhã não previam furacão em nenhuma das duas.
A Fay chegou perto. No auge, bateu 113 km/h. Um furacão começa em 119 km/h. O vento no alto da atmosfera desmanchou a tempestade antes disso.

Por que 1914?
Em 21 de setembro, segundo a Wikipedia, a temporada de 2026 virou a primeira desde 1914 a chegar tão longe sem um único furacão. Era o ano em que começava a Primeira Guerra Mundial.
Na era dos satélites, que começa em 1966, nunca a espera tinha sido tão longa. O limite anterior era 11 de setembro: foi nesse dia que nasceu o primeiro furacão das temporadas de 2002 e de 2013.
O culpado: o El Niño
A NOAA previu isso. No comunicado de 6 de agosto, apostou em temporada abaixo do normal, com 75% de chance, e explicou: "O El Niño aumenta o cisalhamento do vento, o que tende a impedir que tempestades tropicais se formem ou ganhem força depois de formadas."
Cisalhamento é o vento mudando de força e direção conforme a altura. O furacão é uma coluna que gira em pé. O vento cruzado entorta a coluna, e ela desmonta.
O El Niño é o aquecimento das águas do Pacífico perto da linha do Equador. Ele mexe no vento do planeta inteiro. A MetSul, com dados da NOAA, informou em 28 de setembro que o índice ONI chegou a 3,1 graus acima do normal na região chamada Niño 3.4. O recorde anterior era de 3,0 graus, do super El Niño de 2015-2016. O pico ainda nem chegou: a previsão é de cerca de 4 graus entre novembro e dezembro.
O Met Office, serviço de meteorologia do Reino Unido, já tinha dito em 21 de agosto que este é "provavelmente o maior evento desse tipo desde o século 19".
O Pacífico acordou
O mesmo El Niño que acalmou o Atlântico fez o contrário do outro lado do México. Até 29 de setembro, a temporada do Pacífico Leste tinha 20 tempestades com nome, 9 furacões e 3 de categoria 5, a força máxima: Genevieve, Lowell e Polo. Três categoria 5 numa temporada empata com o recorde de 1994, 2002 e 2018.
Segundo a CBS News, lá o El Niño "incomumente forte" deixou a água mais quente e o vento cruzado mais fraco. O oposto do Atlântico.
O furacão Polo chegou à Baja California Sur na virada de 28 para 29 de setembro, como categoria 2. Uma semana antes, em 22 de setembro, tinha sido categoria 5, com ventos de 285 km/h e pressão de 892 hectopascais. É o segundo furacão mais intenso já medido no Pacífico pela pressão, atrás só do Patricia, de 2015. Na passagem pela costa sudoeste do México, as chuvas e o mar agitado ligados a ele deixaram 2 mortos e 1 desaparecido, segundo a Wikipedia.

O que o El Niño faz no Brasil?
O Inmet, instituto de meteorologia do governo federal, resumiu em 11 de junho: o El Niño costuma trazer "redução das chuvas em áreas das regiões Norte e Nordeste, aumentando o risco de estiagens". E a Região Sul "tende a registrar precipitações acima da média", com risco de alagamentos e cheias de rios.
Seca de um lado, enchente do outro. O Painel El Niño 2026-2027, que reúne Inpe, Inmet, ANA, Cemaden e Defesa Civil, detalhou em 30 de junho. No Nordeste, menos chuva e mais calor podem até ajudar a colher o feijão de terceira safra que já está maduro, mas comprometem a lavoura ainda em desenvolvimento.

O que o vídeo viral esqueceu
O vídeo que usou o recorde de zero furacões como prova contra o alarme do clima acertou o número. Mas deixou de fora a causa. O El Niño que calou os furacões do Atlântico é o mesmo que o JPMorgan aponta como ameaça à comida no relatório "Food Security is National Security", de agosto de 2026.
O banco projeta que a inflação global de alimentos pode chegar a 5% no primeiro semestre de 2027, puxada por dois fatores: o El Niño forte e a falta de fertilizante nitrogenado por causa do bloqueio no Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um terço desse adubo no mundo. Segundo a Gazeta do Povo, o Brasil aparece entre os quatro emergentes mais vulneráveis, com Índia, Indonésia e Colômbia.
O Programa Mundial de Alimentos da ONU fez a conta da fome. Em 5 de agosto, estimou que o El Niño pode levar mais 49 milhões de pessoas à fome aguda até o fim de 2027: de 225 milhões para 274 milhões. Na América Latina e no Caribe, mais de 16 milhões seriam afetados.
Eu escrevi a checagem completa do vídeo, frase por frase, em Vem aí um segundo Fica em Casa?.
Respira: o alerta é de preço
Ninguém decretou racionamento. O próprio relatório do JPMorgan, citado pela Gazeta do Povo, diz que "os estoques globais de grãos e arroz ainda oferecem uma reserva capaz de amortecer parte de uma eventual queda na produção". O risco é de comida mais cara. Não de prateleira vazia.
O Banco Central brasileiro estimou, segundo a mesma reportagem, que o El Niño pode somar 0,3 ponto à inflação de 2026 e 0,4 ponto à de 2027.
O arroz do Sul e o feijão de 2016
No Rio Grande do Sul, maior produtor de arroz do país, a saca de 50 quilos de arroz em casca subiu de R$ 60,33 em 1º de julho para R$ 73,60 em 13 de agosto, alta de 22%, segundo a consultoria agro do Itaú BBA. O El Niño foi um dos motivos, ao lado de estoque apertado, exportação forte e dólar.

A lembrança que mais pesa é a do último super El Niño. Em maio de 2016, o feijão estava 41,62% mais caro que um ano antes, segundo o IBGE, citado pelo Agrolink em 15 de junho daquele ano. Minas Gerais perdeu 40% da produtividade na primeira safra. Bahia e Rio Grande do Sul também tiveram perdas. Em algumas regiões, o quilo chegou a R$ 20.
E o feijão já entrou caro em 2026. Em março, o carioca de melhor qualidade estava 34% mais caro que em março de 2025 no mercado, segundo o Cepea, em parceria com a CNA.

Quanto feijão o governo tem guardado?
Quase nada. A tabela oficial da Conab, a Série histórica de estoques públicos de agosto de 2026, mostra 264 toneladas de feijão no fim de agosto. Em julho eram 207.
| Estoque público (Conab, 31/08/2026) | Quantidade |
|---|---|
| Feijão | 264 toneladas |
| Arroz | 293.949 toneladas |
| Milho | 118.892 toneladas |
Faça a conta. A Conab estima o consumo de feijão do país em 2,7 milhões de toneladas por ano, segundo reportagem de 23 de setembro. Dá 308 toneladas por hora. As 264 toneladas duram 51 minutos. Divididas pelos 214,2 milhões de brasileiros contados pelo IBGE, dão 1,2 grama por pessoa.
Um cuidado: circulou que o arroz público seria de 293 toneladas. Está errado. A tabela da Conab mostra 293.949 toneladas, ou 293 mil. A notícia que espalhou o número leu o ponto de milhar errado.
O feijão ficou zerado no estoque público de setembro de 2016 a novembro de 2023, pela mesma tabela. O corte passa por mais de um governo. O Joio e o Trigo contou 27 armazéns da Conab fechados no governo Bolsonaro. E o orçamento da companhia caiu de R$ 3,4 bilhões em 2021 para R$ 1,9 bilhão em 2026, em valores corrigidos, já no governo Lula. A conta inteira está em O governo tem 264 toneladas de feijão guardadas.
O que joga contra, e entra
A temporada ainda não acabou. Ela vai até 30 de novembro. O Atlântico ainda pode ter furacão em outubro ou novembro. O recorde é de demora, não de temporada inteira.
O feijão está caindo agora. Em setembro, o preço do feijão caiu em 20 capitais pesquisadas pela Conab com o Dieese. O presidente da Conab, Silvio Porto, disse à CNN Brasil que a terceira safra põe mais de 700 mil toneladas no mercado.
El Niño recorde não garante estrago recorde. A própria MetSul faz esse alerta: a força do fenômeno no oceano não se traduz automaticamente em consequência recorde em terra, porque a atmosfera responde diferente a cada episódio.
O vídeo tinha razão no número. Zero furacões é fato. O erro foi não perguntar o motivo.
Estoque público não é o feijão do país. O que está no mercado é do produtor e da indústria. O estoque do governo serve para segurar o preço numa crise. É ele que está quase vazio.
Zero furacão: alívio ou aviso?
As duas coisas. É alívio para quem mora na costa do Caribe e dos Estados Unidos, que passou setembro sem furacão. E é aviso, porque o motivo do alívio é o mesmo fenômeno que seca o Nordeste, encharca o Sul, formou três furacões de força máxima no Pacífico e entra na conta do preço da comida em 2027. O melhor a fazer agora é olhar o preço, não o pânico.
Perguntas que chegam nos comentários
É verdade que o Atlântico não teve nenhum furacão em 2026?
Sim, até 29 de setembro. Foram 8 tempestades com nome e nenhum furacão, a primeira temporada desde 1914 a chegar tão longe assim. A temporada vai até 30 de novembro.
Por que não teve furacão no Atlântico?
Por causa do El Niño, segundo a NOAA. Ele aumenta o vento cruzado no alto da atmosfera sobre o Atlântico, o que impede as tempestades de ganhar força.
O El Niño de 2026 é o mais forte da história?
É o mais forte já medido na era moderna, segundo a MetSul com dados da NOAA: índice ONI de 3,1 graus, acima dos 3,0 graus de 2015-2016. O Met Office diz que é provavelmente o maior desde o século 19.
O feijão vai ficar mais caro por causa do El Niño?
Pode ficar. No último super El Niño, em 2016, o feijão subiu 41,62% em 12 meses. Mas em setembro de 2026 o preço caiu em 20 capitais, e a terceira safra traz mais de 700 mil toneladas. Não há previsão oficial de alta.
Quanto feijão o governo tem em estoque?
264 toneladas no fim de agosto de 2026, segundo a Conab. Dá 51 minutos do consumo do Brasil. O arroz público é de 293 mil toneladas, não 293.








