O papa Leão XIV disse, na segunda-feira, 28 de setembro de 2026, que a combinação de posições de extrema direita com um certo tipo de religiosidade não representa uma expressão autêntica do cristianismo. A frase veio numa resposta sobre a Alemanha, durante a entrevista coletiva no avião que o levava de Metz, na França, de volta a Roma.
A manchete que circulou encurtou a fala. Eu fui ler a pergunta e a resposta inteiras, porque o detalhe muda a leitura.
Quem perguntou, e o quê?
A pergunta foi do jornalista Ludwig Ring-Eifel, da agência católica alemã KNA, segundo a transcrição do Vatican News. Ele lembrou que o papa estava em Metz, muito perto da fronteira alemã, e quis saber quando Leão XIV visitaria a Alemanha. Citou duas preocupações: "o declínio constante da Igreja Católica na Alemanha e o espantoso crescimento de partidos extremistas" (tradução minha).
O papa não falou do Brasil nem de outro país. A resposta foi sobre a Alemanha.
O que ele respondeu?
Primeiro, falou de missão. "Acredito que, se encontrarmos o verdadeiro espírito missionário e a maneira certa de fazer isso, ainda há muitas pessoas na Alemanha que querem viver e celebrar sua fé cristã e católica", disse, segundo o Vatican News (tradução minha).
Depois, tratou do extremismo. Na versão publicada pela Folhapress, disse: "Seria interessante estudar e analisar se existe, e de que maneira poderia existir, uma relação" entre o crescimento desses grupos e a crise nas igrejas.
A frase central, na tradução do Metrópoles, fala de "uma religiosidade que, não só na minha opinião, mas também na opinião dos líderes das Igrejas Católica e Protestante na Alemanha, não representa uma expressão autêntica do cristianismo".
E fechou assim, também segundo o Metrópoles: "Devemos retornar aos valores do Evangelho, que não se baseiam no ódio e na divisão, mas na compreensão, na compaixão e no acompanhamento."
Segundo a America Magazine, ele disse ainda que espera ir à Alemanha, mas lembrou que tem só 15 meses de pontificado.

Em que viagem isso aconteceu?
Foi a volta de uma visita oficial de quatro dias à França, a primeira do pontificado, com passagem por Paris, Lourdes e Metz, segundo o Metrópoles e a Revista Fórum. Em Metz, o papa fez um discurso sobre a unidade europeia.
Na mesma coletiva, falou de outros temas. Falou de "guerras que já não fazem sentido" (tradução minha) e pediu que Rússia e Ucrânia sentem para dialogar, segundo o Vatican News. Pela Folhapress, disse: "Devemos nos precaver contra a ilusão de que o rearmamento seja a resposta."
Qual é o contexto na Alemanha?
O principal partido da extrema direita alemã é a AfD (Alternativa para a Alemanha). Segundo a Folhapress, ficou em segundo lugar na eleição federal de 2025, com 20,8% dos votos, venceu em setembro de 2026 a eleição estadual da Saxônia-Anhalt, com cerca de 44%, e é monitorada pela inteligência alemã por suspeita de extremismo.
O que os bispos alemães já tinham dito?
O papa citou os líderes das igrejas alemãs, e eu fui atrás do documento dos católicos. Em 22 de fevereiro de 2024, a Conferência Episcopal Alemã publicou a declaração "Nacionalismo étnico (völkisch) e cristianismo são incompatíveis". O texto cita a AfD pelo nome e afirma que partidos de extrema direita "não podem ser lugar de atividade política para cristãos e não podem ser votados" (tradução minha).
Não localizei o documento equivalente dos líderes protestantes, que o papa também mencionou.
Houve reação?
Até a manhã desta terça, 29, as reportagens que li (CNN Brasil, Metrópoles, Brasil 247, Folhapress e Revista Fórum) não registravam resposta de partidos alemães nem de lideranças religiosas ou políticas brasileiras à fala do papa. Esta nota será atualizada se houver.








