A resposta em duas linhas
Ganhar do Lula, o Flávio pode. Três das cinco pesquisas de setembro colocam ele numericamente na frente do presidente num segundo turno, e eu mostro as cinco daqui a pouco, com registro no TSE.
O que a apuração não sustenta é a palavra "só". Em 2022, o sobrenome Bolsonaro esteve frente a frente com o PT numa urna, com a Presidência da República na mão, com o maior tempo de televisão, e perdeu por 2.139.645 votos. Foi a eleição presidencial mais apertada da história do Brasil.
O placar do sobrenome contra o PT numa disputa presidencial é 1 a 1. Uma vitória em 2018, por 10,26 pontos. Uma derrota em 2022, por 1,80 ponto.
Esta matéria não é sobre o caráter de ninguém. É sobre a conta.
De onde saiu esta pergunta
Na sexta-feira, 12 de setembro, eu li um por um os comentários de três posts meus sobre em quem as pessoas vão votar. Separei tudo por argumento. O eleitor do 22 escreveu muita coisa nesses posts, e quase tudo era ataque ao Augusto Cury. Uma frase, porém, apareceu 13 vezes, e é a única coisa que ele escreve a favor do próprio candidato:
"Com total certeza toda familia e 90% Rondônia em @flaviobolsonaro 22. Único que derruba o PT!" @natalibpasqualotto, 8 curtidas
O mesmo perfil, em outro post, escreveu de novo, mais curto:
"Somente @flaviobolsonaro tira o PT de lá! 22"
E teve quem explicasse a lógica inteira numa frase só:
"Não voto jamais no Lula. E por isso que vou votar em quem pode ganhar do Lula, que é o Flávio Bolsonaro." @julianeberft
Do outro lado do mesmo post, uma leitora respondeu com a conta que eu vim checar aqui:
"Quem sabe minimamente sobre política, entende que no segundo turno vence quem tem menor rejeição. A rejeição do Flávio infelizmente é gigante." @thaisiesc, 7 curtidas
Duas mulheres, dois candidatos, o mesmo objetivo. As duas querem tirar o PT. Elas discordam sobre a ferramenta.
Quem não disse nada disso foi o próprio Flávio Bolsonaro. Eu procurei e não achei nenhuma frase dele afirmando que é o único capaz de derrotar o Lula. O "só" é do eleitor, não do candidato. Fica registrado, porque é injusto cobrar de alguém uma frase que ele não falou.
Primeiro, o ano em que o sobrenome tirou o PT
Isto aqui é verdade e precisa vir antes de tudo, porque é o pedaço da história que dá força ao argumento do eleitor do 22.
Em 28 de outubro de 2018, Jair Bolsonaro, então no PSL, derrotou Fernando Haddad, do PT, no segundo turno. O resultado oficial, com 100% das urnas apuradas, publicado pela Agência Brasil no mesmo dia:
- Jair Bolsonaro: 57.796.986 votos, 55,13% dos válidos.
- Fernando Haddad: 47.038.963 votos, 44,87% dos válidos.
- Diferença: 10.758.023 votos, 10,26 pontos.
Dez milhões e setecentos mil votos. Não foi disputa, foi atropelo. E acabou com 13 anos seguidos de PT no Palácio do Planalto, contando de 1º de janeiro de 2003, quando Lula tomou posse, até o impeachment da Dilma em 2016 e a sucessão do Temer.
Quem diz que o sobrenome Bolsonaro já tirou o PT do poder está falando a verdade. Aconteceu. Está na apuração.
O problema da frase é o tempo verbal e o advérbio. "Já tirou uma vez" é diferente de "só ele tira".
Agora o ano em que não tirou
Quatro anos depois, o mesmo homem, agora no PL e agora presidente da República, disputou de novo. Do outro lado, o PT. Não mais o Haddad. O próprio Lula.
O resultado oficial de 30 de outubro de 2022, com 100% das seções totalizadas:
O segundo turno de 2022, apuração oficial do TSE
Foi a eleição presidencial mais apertada desde que o Brasil voltou a votar para presidente, em 1989. Nenhuma outra chegou perto.
E ela aconteceu com o candidato Bolsonaro tendo tudo o que um candidato pode ter. Era o presidente em exercício. Tinha a máquina federal. Tinha o maior tempo de propaganda no rádio e na TV entre os dois finalistas. Tinha auxílio emergencial ampliado no ano da eleição. Tinha governadores eleitos no primeiro turno nos estados mais ricos. Perdeu.
Vale dizer o contrário também, porque é a mesma conta vista do outro lado: chegar a 1,80 ponto de distância do Lula, num país onde o Lula tinha acabado de sair da prisão e voltado com a máquina da oposição inteira atrás dele, é um resultado enorme. Nenhum adversário do PT chegou tão perto numa disputa direta.
Os dois lados dessa frase são verdade. É por isso que o assunto rende tanto comentário.
O que 2022 mudou na régua da política brasileira
Tem um detalhe de 2022 que quase ninguém repete, e ele é o coração desta matéria.
A reeleição presidencial existe no Brasil desde 1997. De lá para cá, quatro presidentes tentaram continuar: Fernando Henrique Cardoso em 1998, Lula em 2006, Dilma Rousseff em 2014 e Jair Bolsonaro em 2022. Os três primeiros conseguiram. O quarto, não.
A Rádio Senado registrou isso na noite da apuração, em 30 de outubro de 2022:
"Jair Bolsonaro foi o primeiro presidente a tentar a reeleição e não conseguir."
E completou:
"Desde 1997, quando foi instituída a reeleição no Brasil, nenhum presidente havia sido derrotado ao tentar o segundo mandato."
Por que isso importa para a frase "só o Flávio tira o PT"? Porque mostra que, no Brasil, quem está com o poder na mão é favorito. Era assim em 1998, em 2006 e em 2014. Em 2022 deixou de ser uma regra absoluta. Hoje, quem está com o poder na mão é o Lula. A vantagem estrutural que o pai do Flávio tinha em 2022 está no outro lado agora.
As sete eleições decididas no segundo turno, lado a lado
Desde 1989, o Brasil teve nove eleições presidenciais. Sete foram decididas no segundo turno. Coloquei as sete na mesma tabela, com os números oficiais do repositório do TSE.
Correção feita em 13 de setembro de 2026, depois da publicação: esta matéria saiu dizendo cinco. Faltavam 2006 e 2010, as duas reeleições do PT decididas em segundo turno. A tabela abaixo já está completa.
| Ano | Quem venceu | % válidos | Quem perdeu | % válidos | Diferença em votos | Em pontos |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 1989 | Collor (PRN) | 53,03 | Lula (PT) | 46,97 | 4.014.403 | 6,06 |
| 2002 | Lula (PT) | 61,27 | Serra (PSDB) | 38,73 | 19.422.625 | 22,54 |
| 2006 | Lula (PT) | 60,83 | Alckmin (PSDB) | 39,17 | 20.751.864 | 21,66 |
| 2010 | Dilma (PT) | 56,05 | Serra (PSDB) | 43,95 | 12.041.141 | 12,10 |
| 2014 | Dilma (PT) | 51,64 | Aécio (PSDB) | 48,36 | 3.459.963 | 3,28 |
| 2018 | Bolsonaro (PSL) | 55,13 | Haddad (PT) | 44,87 | 10.758.023 | 10,26 |
| 2022 | Lula (PT) | 50,90 | Bolsonaro (PL) | 49,10 | 2.139.645 | 1,80 |
Repare no tamanho da diferença de 2022 comparada com todas as outras.
Diferença entre o 1º e o 2º colocado no 2º turno, em pontos percentuais
Apuração oficial do TSE, as sete eleições de 1989 a 2022
Um aviso de honestidade sobre esta tabela. Uma das buscas que eu fiz me devolveu a diferença de 2014 como 1.459.963 votos. Está errado. A subtração de 54.501.118 menos 51.041.155 dá 3.459.963. Eu refiz a conta na mão e é esse o número que está aí em cima. Se você achar 1,4 milhão circulando por aí, é esse engano.
Quem já tirou um governo no Brasil, e com quanta rejeição
Agora a parte que responde de verdade a discussão dos comentários.
Em nove eleições, o poder trocou de campo três vezes depois da redemocratização, mais a eleição fundadora de 1989:
- 2002. Lula tirou o PSDB, que estava no Planalto desde 1995. Venceu com 61,27% dos válidos.
- 2018. Bolsonaro tirou o PT, que estava no Planalto desde 2003. Venceu com 55,13%.
- 2022. Lula tirou o Bolsonaro, que estava no Planalto desde 2019. Venceu com 50,90%.
Três trocas de campo. Três vencedores diferentes. E nenhum deles era, na véspera da eleição, o "único capaz". Em 2002 havia Ciro Gomes e Anthony Garotinho na disputa. Em 2018 havia Ciro de novo, e Marina, e Alckmin. Em 2022 havia Simone Tebet, cujo eleitor decidiu o segundo turno: o Datafolha da véspera mostrou que 59% dos votos válidos dela foram para o Lula e 41% para o Bolsonaro.
Agora junte com a rejeição de cada um deles. Todos os números abaixo são do Datafolha, porque cada instituto pergunta de um jeito e só dá para comparar instituto com ele mesmo.
| Quem | Quando | Rejeição no Datafolha | O que aconteceu |
|---|---|---|---|
| FHC | uma semana antes da votação de 1998 | 21% | Reeleito no 1º turno |
| Lula | véspera do 1º turno de 2006 | 30% | Reeleito no 2º turno |
| Jair Bolsonaro | 4 de outubro de 2018 | 45% | Eleito com 55,13% |
| Fernando Haddad | 4 de outubro de 2018 | 40% | Derrotado |
| Dilma | véspera do 1º turno de 2014 | 32% | Reeleita por 3,28 pontos |
| Jair Bolsonaro | 16 de setembro de 2022 | 53% | Derrotado |
| Jair Bolsonaro | véspera do 2º turno, 28 e 29 de outubro de 2022 | 50% | Derrotado |
| Lula | véspera do 2º turno, 28 e 29 de outubro de 2022 | 46% | Eleito com 50,90% |
A régua que sai daí é simples de guardar: no Brasil, quem venceu uma disputa presidencial chegou à urna com rejeição entre 21% e 46%. O único que chegou com 50% perdeu. E perdeu sendo o presidente.
Palavra difícil explicada na hora: rejeição, na pesquisa, é a resposta à pergunta "você votaria com certeza, talvez votaria ou não votaria de jeito nenhum" em cada candidato. Rejeição é a fatia do "não votaria de jeito nenhum". Não é gente que não gosta. É gente que já fechou a porta.
O relatório do Datafolha de 2022 traz o número dos dois lados na mesma folha:
"Uma parcela de 50% dos eleitores brasileiros declara não votar de jeito nenhum no presidente Jair Bolsonaro neste segundo turno, índice igual ao registrado no levantamento anterior."
"A rejeição a Lula oscilou de 45% para 46% nos últimos dias."
E a combinação dos dois, que é o retrato do país naquele domingo:
"48% rejeitam somente Bolsonaro, 43% rejeitam somente Lula, 3% rejeitam tanto o petista como o atual presidente, e 7% não rejeitam nenhum deles."
Sete por cento. Só sete em cada cem brasileiros não tinham fechado a porta para nenhum dos dois finalistas. Foi nessa faixa estreita que a eleição mais apertada da história foi decidida.
A pesquisa da véspera acertou em 2018 e quase errou em 2022
Antes de ir para setembro de 2026, vale um teste de confiança nas pesquisas, porque é o material com que todo mundo está discutindo agora.
2018. O Datafolha da véspera, com campo em 26 e 27 de outubro, 18.371 entrevistas em 340 municípios e margem de 2 pontos, deu Bolsonaro 55% e Haddad 45% nos votos válidos. A urna deu 55,13% e 44,87%. Acertou na casa decimal.
2022. O Datafolha da véspera, registro BR-08297/2022, campo em 28 e 29 de outubro, 8.308 entrevistas em 253 municípios e margem de 2 pontos, deu Lula 52% e Bolsonaro 48% nos válidos. A urna deu 50,90% e 49,10%. O instituto acertou o vencedor, mas errou 1,1 ponto para cada lado, e o resultado ficou no limite da margem de erro. A série inteira daquele mês foi 53/47, 53/47, 52/48, 53/47 e 52/48. O Lula nunca apareceu abaixo de 52 e ganhou com 50,9.
A lição para quem está olhando as pesquisas de hoje: elas acertam o desenho, erram o detalhe, e o detalhe é exatamente o que decide uma eleição de 1,80 ponto.
Setembro de 2026: as cinco pesquisas, sem escolher a que me convém
Aqui está o cenário atual. Cinco institutos foram a campo em setembro e todos testaram o segundo turno. Todos têm registro na Justiça Eleitoral.
| Instituto | Campo | Registro TSE | Entrevistas | Margem | Lula x Flávio |
|---|---|---|---|---|---|
| Genial/Quaest | 3 a 6/9 | BR-01720/2026 | 2.004 | 2 | Lula 41 x Flávio 41 |
| BTG/Nexus | 4 a 7/9 | BR-06790/2026 | 2.002 | 2 | Flávio 46 x Lula 45 |
| AtlasIntel/Bloomberg | 4 a 9/9 | BR-01452/2026 | 5.000 | 1 | Flávio 46,4 x Lula 46,2 |
| PoderData/Aya | 6 a 9/9 | BR-04914/2026 | 3.000 | 1,8 | Flávio 47 x Lula 45 |
| Datafolha | 8 a 10/9 | BR-01833/2026 | 2.002 | 2 | Lula 46 x Flávio 44 |
Leia com atenção, porque este é o dado que dá razão a quem comentou. Em três das cinco pesquisas, Flávio Bolsonaro aparece numericamente à frente do Lula: BTG/Nexus, AtlasIntel e PoderData. Quem escreveu "é o único que pode ganhar do Lula" está olhando para números que existem e que foram registrados no TSE.
E agora a parte que o mesmo eleitor precisa saber: nas cinco, a diferença está dentro da margem de erro. Isso se chama empate técnico. Quando a distância entre dois candidatos é menor do que a margem, a pesquisa não é capaz de dizer quem está na frente. Ela diz que estão juntos.
Quem apurou o cenário completo, com os outros duelos, os brancos, os nulos e a rejeição de cada nome, foi esta outra matéria que eu publiquei hoje: o Lula quer o Flávio no segundo turno. Lá estão os números de Lula contra Caiado, contra Zema, contra Renan e contra Augusto Cury, mais a rejeição de todo mundo em cada instituto. Aqui eu fico no que interessa para a frase dos comentários.
A palavra que não fecha é "só"
Para "só o Flávio tira o PT" ser verdade, duas coisas precisariam ser verdade ao mesmo tempo. A primeira é que o Flávio bate o Lula. A segunda é que mais ninguém bate.
A primeira tem lastro, como você acabou de ver.
A segunda não. Nos mesmos cinco institutos, no mesmo mês, com as mesmas margens, o Lula empata tecnicamente com outros nomes também. Contra Augusto Cury, empata em quatro das cinco pesquisas, e o Cury fica numericamente à frente na PoderData e na BTG/Nexus. Contra Ronaldo Caiado, o Datafolha dá Lula 46 x 41 e a BTG/Nexus dá 46 x 43. Contra Romeu Zema, a AtlasIntel dá Zema 46,2 x Lula 46. Está tudo na matéria irmã, com a fonte de cada linha.
Então a frase honesta não é "só o Flávio". A frase honesta é "o Flávio é um dos que empatam com o Lula hoje, 21 dias antes da votação".
E existe um pedaço da conta que quase ninguém faz. Em 2022, o candidato que somou 58 milhões de votos, o maior número de votos que uma oposição já teve no Brasil, ainda assim perdeu. O que faltou não foi voto do próprio campo. O que faltou foi voto de quem não é de campo nenhum. Foram 32,2 milhões de eleitores que não apareceram na urna e os 7% que não rejeitavam nem um nem outro.
Essa é a diferença entre juntar o seu lado e ganhar uma eleição. Juntar o seu lado dá 49,10%. Ganhar exige o pessoal do meio.
O que o Flávio Bolsonaro já ganhou na urna
Para fechar a conta sem exagero para nenhum lado, aqui está a ficha eleitoral dele, que é boa.
Em 7 de outubro de 2018, Flávio Bolsonaro foi eleito senador pelo Rio de Janeiro com 4,37 milhões de votos, 31,3% dos válidos no estado. Foi o mais votado da disputa pelo Senado no Rio naquele ano. Antes disso, cumpriu quatro mandatos seguidos de deputado estadual.
Quatro milhões e trezentos e setenta mil votos numa urna não é pouca coisa. É voto de gente de verdade, contado pela Justiça Eleitoral.
O que também é fato, e não é ofensa: esta é a primeira vez que ele disputa uma eleição nacional. A eleição para senador é estadual. A régua de uma campanha presidencial é outra, com debate em rede nacional, com 26 estados e o Distrito Federal, com uma rejeição medida no Brasil inteiro. Isso vale para ele e vale igualmente para o Augusto Cury, que também nunca disputou nada antes.
A linha do tempo, para você guardar
| Data | O que aconteceu |
|---|---|
| 17 de dezembro de 1989 | Collor vence Lula por 6,06 pontos, no primeiro 2º turno da democracia |
| 27 de outubro de 2002 | Lula tira o PSDB do Planalto com 61,27% dos válidos |
| 26 de outubro de 2014 | Dilma se reelege por 3,28 pontos sobre Aécio Neves |
| 7 de outubro de 2018 | Flávio Bolsonaro é eleito senador pelo RJ com 4,37 milhões de votos |
| 28 de outubro de 2018 | Jair Bolsonaro tira o PT do Planalto com 55,13% dos válidos |
| 16 de setembro de 2022 | Datafolha mede a rejeição a Bolsonaro em 53%, a maior de um presidente que tentava reeleição |
| 29 de outubro de 2022 | Datafolha da véspera: Lula 52 x Bolsonaro 48 nos válidos, rejeição 46 x 50 |
| 30 de outubro de 2022 | Lula vence por 2.139.645 votos. Bolsonaro é o primeiro presidente derrotado tentando se reeleger |
| 3 a 10 de setembro de 2026 | Cinco institutos medem o 2º turno. Flávio à frente em três, empate técnico nas cinco |
| 4 de outubro de 2026 | A urna abre |
O que pesa contra o que eu escrevi aqui
O que eu penso, e está separado do resto
O que me incomoda no "só o Flávio tira o PT" não é o Flávio. É o "só".
Eu entendo de onde vem. Quem odeia o PT há 20 anos aprendeu que dividir é perder, e aprendeu doendo. Em 2022 faltou pouco. Faltou tão pouco que dá para contar quantas pessoas faltaram. Quem viveu aquilo passa a tratar qualquer terceiro nome como ameaça, porque o terceiro nome, em 2022, teria sido a diferença.
Só que a mesma apuração que ensina isso ensina outra coisa junto, e ninguém repete a segunda parte. A oposição de 2022 tirou do próprio campo tudo o que podia tirar. Fez 58 milhões de votos. Foi o teto. E o teto não deu.
Ou seja: o problema de 2022 não foi divisão. Foi alcance. Faltou gente que não é do time nenhum, e é exatamente essa gente que decide segundo turno no Brasil, como decidiu em 1989, em 2014 e em 2022.
Por isso eu voto no 70. Não porque o Flávio não possa ganhar. Ele pode, está nas pesquisas, eu coloquei as cinco aí em cima e não escondi nenhuma. Eu voto no 70 porque a conta que me convence é a da rejeição, e porque quem tem a porta fechada por metade do país precisa de sorte para ganhar, enquanto quem tem a porta aberta precisa só de tempo.
Você pode discordar. A leitora @thaisiesc e a leitora @natalibpasqualotto discordam uma da outra nos meus comentários, com educação, e as duas querem a mesma coisa. É assim que essa conversa deveria ser sempre.
O que eu peço é só isto: quando alguém disser "só", pergunte de onde saiu o "só". Ele quase nunca tem fonte.
Perguntas que chegam nos comentários
Então o Flávio não pode ganhar do Lula?
Pode. Em três das cinco pesquisas de setembro ele aparece numericamente à frente: BTG/Nexus 46 a 45, AtlasIntel 46,4 a 46,2 e PoderData 47 a 45. Nas cinco, a diferença está dentro da margem de erro, o que se chama empate técnico. O que a apuração não sustenta é a palavra "só".
O pai dele não tirou o PT em 2018?
Tirou. Em 28 de outubro de 2018, Jair Bolsonaro venceu Fernando Haddad com 55,13% dos válidos, 10,26 pontos de diferença. Em 2022 o mesmo homem, já presidente, perdeu para o Lula por 1,80 ponto. O placar contra o PT é 1 a 1.
Por quantos votos o Bolsonaro perdeu em 2022?
Por 2.139.645 votos, 1,80 ponto percentual. Lula fez 60.345.999 e Bolsonaro 58.206.354. É a eleição presidencial mais apertada da história do Brasil.
Quem tem mais rejeição hoje?
Depende do instituto, e só dá para comparar instituto com ele mesmo. Na AtlasIntel de setembro, Lula 52,5% e Flávio 49,6%. Na Quaest, Flávio 55% e Lula 53%. Na BTG/Nexus, Flávio 50% e Lula 49%. No Datafolha, empate em 46%. Na PoderData, Lula 50% e Flávio 45%. Augusto Cury tem a menor entre os três em todos os institutos.
Rejeição alta impede alguém de ganhar?
Não impede, encarece. Bolsonaro tinha 45% de rejeição em outubro de 2018 e venceu com 55,13%. O que nunca aconteceu no Brasil foi alguém vencer chegando à urna com 50%. Em 2022, quem chegou com 50% foi o Bolsonaro, e ele perdeu.
Votar em quem não é o Flávio ajuda o Lula?
Essa é outra conta e eu fiz ela inteira, com a regra do artigo 77 da Constituição e a matemática do voto válido, em votar no Cury é jogar voto fora. A resposta tem duas partes e a segunda contraria quem repete a frase.
Este texto é uma checagem de argumento, não uma checagem de pessoa. O Flávio Bolsonaro não disse a frase que está no título. Quem disse foram leitores meus, no meu perfil, e eu respondo a eles com a apuração oficial em vez de responder com opinião.
Se você achar erro em qualquer número desta página, me escreva. Eu corrijo e marco a correção com a data, como já fiz em outras matérias aqui.







