THIAGODECASTRO Receber no WhatsAppBoletim

Política / 13 de setembro de 2026

Eu fui ver

"Quem tem menos rejeição ganha o segundo turno." Eu fui ver: a regra valeu em 3 das 4 vezes em que dá para medir

A frase apareceu 37 vezes nos comentários desta semana, com 77 curtidas no comentário mais forte. Fui atrás do que é rejeição, de como cada um dos cinco institutos pergunta, da rejeição de Lula, Flávio, Cury, Renan, Zema e Caiado em setembro, da conta do teto de cada um e dos sete segundos turnos que o Brasil teve desde 1989. Achei três coisas que ninguém está contando: em três das sete eleições não existe número para testar a régua, em 2018 a régua quebrou, e existe uma outra régua que bateu 7 de 7 e joga contra quem usa a primeira.

Publicado
13 de setembro de 2026
Atualizado
13 de setembro de 2026
Editoria
Política
Leitura
27 min
Fontes
23 citadas
Urna eletrônica apresentada pelo TSE em escola de Santa Maria. Foto Tribunal Superior Eleitoral, domínio público
Urna eletrônica apresentada pelo TSE em escola de Santa Maria. Foto Tribunal Superior Eleitoral, domínio público

A resposta em duas linhas

Em parte. Desde 1989 o Brasil teve sete eleições decididas no segundo turno. Em três delas não existe número de rejeição publicado para testar a regra. Nas quatro em que existe, quem tinha menos rejeição venceu três vezes e perdeu uma. A vez em que perdeu foi 2018, e quem venceu com mais rejeição se chamava Bolsonaro.

E tem uma régua mais forte que quase ninguém cita nos comentários: em 7 de 7 segundos turnos, quem liderou o primeiro turno ganhou o segundo. Hoje quem lidera o primeiro turno, nos cinco institutos de setembro, é o Lula.

O resto desta matéria é como eu cheguei nisso. Tem a rejeição de seis candidatos em cinco institutos, a conta do teto de cada um, os sete segundos turnos ano a ano e o que eu não consegui achar.

De onde saiu esta pergunta

Eu li os comentários dos meus últimos posts na sexta-feira. A conta da rejeição apareceu 37 vezes. Não é uma frase solta de um comentarista nervoso. É o argumento organizado de quem quer tirar o Lula e não sabe em quem votar.

O comentário mais curtido da leva, com 77 curtidas, é este, do @bruno_v133:

"O único candidato que derrota qualquer um no segundo turno é o Augusto Cury"

A versão longa do argumento veio da @thaisiesc, com 7 curtidas:

"Quem sabe minimamente sobre política, entende que no segundo turno vence quem tem menor rejeição. A rejeição do Flávio infelizmente é gigante. Nossa única chance de tirar o Lula é colocar o Cury no segundo turno."

E o @vinitripsporai resumiu o medo por trás da conta:

"ja viu o indice de rejeição dele para 2° turno? Avalie bem os dados porque com a rejeição que ele tem o tiro vai sair pela culatra, se for Lula e Flavio pea 2° turno o PT ganha de novo"

Tem gente fazendo a mesma conta para o outro lado. O @andre_gazineu, que vota no Renan Santos, escreveu:

"Se o BOLSONARO NÃO GANHOU do Lula por ser mais REJEITADO, NÃO VAI ser o Flávio que vai ganhar por não ser unanimidade nem entre bolsonaristas, por LÓGICA."

Quatro pessoas, três candidatos diferentes, a mesma régua. Por isso a régua merece uma checagem de verdade.

Um reparo antes de seguir, sem graça nenhuma com quem escreveu. O @ivon_carlos_de_oliveira citou "49% de rejeição" para Lula e Flávio. Esse número existiu: é de uma rodada anterior da PoderData, que deu 49% para os dois. Na rodada mais recente, de 6 a 9 de setembro, a mesma PoderData deu Lula 50% e Flávio 45%. O número mudou. Vale conferir a data de qualquer pesquisa antes de usar.

Primeiro: o que é rejeição

Palavra difícil explicada na hora. Rejeição, na pesquisa, é a fatia de gente que diz que não votaria naquele nome de jeito nenhum.

Não é "não gosta". Não é "acha ruim". É "fechou a porta". O entrevistador lê o nome e a pessoa responde que nunca votaria ali, em nenhuma circunstância.

Isso importa no segundo turno por um motivo que cabe numa linha: no segundo turno só sobram dois nomes. Quem fechou a porta para um dos dois só tem três saídas, votar no outro, votar em branco ou nulo, ou não aparecer. Por isso a rejeição, que no primeiro turno é só um incômodo, no segundo turno vira parede.

Só que a parede não é do mesmo tamanho em toda pesquisa. E é aí que quase todo mundo erra.

Cada instituto pergunta de um jeito, e o número muda

Esta é a parte que ninguém conta nos comentários e que muda tudo. Olhe a mesma semana, os mesmos candidatos, cinco institutos:

InstitutoRejeição do LulaRejeição do FlávioRejeição do Cury
Genial/Quaest, 3 a 6 de setembro53%55%26%
AtlasIntel, 4 a 9 de setembro52,5%49,6%25,6%
BTG/Nexus, 4 a 7 de setembro49%50%29%
PoderData, 6 a 9 de setembro50%45%não publicada
Datafolha, 8 a 10 de setembro46%46%10%

A rejeição do Cury varia de 10% a 29% dependendo de quem pergunta. É quase três vezes. Os candidatos são os mesmos, o país é o mesmo, a semana é a mesma. O que muda é a pergunta.

Datafolha. Faz uma pergunta separada da intenção de voto, de múltipla escolha: em qual desses candidatos você não votaria de jeito nenhum. No segundo turno, a formulação clássica dele é "votará com certeza, talvez vote, não votará de jeito nenhum", e a rejeição é a última fatia. A coleta é presencial. Segundo o resumo de metodologia publicado pelo Moon BH em 19 de agosto, o Datafolha "colhe a escolha dupla (espontânea e estimulada) e encerra o bloco". É o instituto que devolve os números mais baixos de todos.

Genial/Quaest. Faz o contrário. Antes de pedir a escolha, passa nome por nome. A descrição, do mesmo texto, é literal: o instituto "pergunta se o eleitor 'não conhece', 'conhece e poderia votar' ou 'conhece e não votaria de jeito nenhum' em cada um dos 11 postulantes". A Quaest insere "uma etapa de 'filtro', perguntando o nível de conhecimento e a rejeição prévia sobre todos os 17 nomes antes de pedir a escolha final". A coleta é presencial. É o instituto que devolve os números mais altos.

O próprio texto resume a diferença numa frase que vale guardar: "Quaest diferencia candidatos desconhecidos de altamente rejeitados; Datafolha foca em números imediatos".

AtlasIntel. Coleta online, por formulário eletrônico, com recrutamento digital. Foram 5.000 eleitores entre 4 e 9 de setembro. Não achei o enunciado exato da pergunta de rejeição da AtlasIntel publicado em lugar nenhum, e procurei duas vezes.

PoderData/Aya. Coleta por telefone, fixo e celular, com um sistema chamado URA, em que o entrevistado responde a perguntas gravadas apertando o teclado do telefone. Não tem pessoa do outro lado. Quem atende telefone e tem paciência de apertar tecla até o fim não é exatamente uma amostra igual à de quem abre a porta de casa para um entrevistador.

BTG/Nexus. Publica a rejeição na íntegra do estudo. O método de coleta eu não consegui confirmar, e procurei duas vezes.

A rejeição de setembro de 2026, nome por nome

Agora a tabela completa, com os seis nomes que aparecem nos comentários e todos os registros na Justiça Eleitoral. Toda pesquisa divulgada tem que ter registro no TSE, e o número do registro está aqui para você conferir.

InstitutoCampoRegistro no TSEEntrevistasMargemLulaFlávioCuryRenanZemaCaiado
AtlasIntel/Bloomberg4 a 9/9BR-01452/20265.0001 ponto52,549,625,635,731,628,1
Genial/Quaest3 a 6/9BR-01720/20262.0042 pontos535526293941
BTG/Nexus4 a 7/9BR-06790/20262.0022 pontos495029434236
PoderData/Aya6 a 9/9BR-04914/20263.0001,8 ponto5045não publicada
Datafolha8 a 10/9BR-01833/20262.0022 pontos464610171614

A AtlasIntel é a que publica a lista mais completa. Nesta rodada ela mediu oito nomes, e a ordem é esta:

Rejeição na AtlasIntel, em %

Lula52.5
Flávio Bolsonaro49.6
Jair Bolsonaro37.7
Renan Santos35.7
Pablo Marçal35.1
Romeu Zema31.6
Ronaldo Caiado28.1
Augusto Cury25.6

Campo de 4 a 9 de setembro de 2026, 5.000 entrevistas, margem de 1 ponto, registro BR-01452/2026

Repare no nome no meio da lista. Jair Bolsonaro, com 37,7%, tem hoje menos rejeição do que o filho, com 49,6%. Isso não é ataque a ninguém, é o que está na tabela da AtlasIntel publicada pela Exame em 10 de setembro.

E agora a parte que eu preciso dar inteira, porque eu torço pelo Cury e por isso mesmo não vou maquiar nada.

A rejeição do Cury subiu, e eu vou dizer quanto

Na AtlasIntel de 25 a 30 de agosto, registro BR-07972/2026, a rejeição do Augusto Cury era 18,5%. Na AtlasIntel de 4 a 9 de setembro, registro BR-01452/2026, ela é 25,6%.

São 7,1 pontos a mais em dez dias, no mesmo instituto, com a mesma régua. É a comparação que vale, e ela é feia para o lado que eu torço. A Crusoé, do O Antagonista, publicou a leitura dela no dia 10 com o título "AtlasIntel confirma freio de Cury".

Duas coisas são verdade ao mesmo tempo, e eu não vou esconder nenhuma:

  1. A rejeição dele subiu 7,1 pontos em dez dias.
  2. Mesmo depois de subir, ela continua sendo a menor de todos os candidatos testados, nos cinco institutos. Menor que a do Caiado, menor que a do Zema, menor que a do Renan, menor que a do Marçal, menor que a do Jair, menor que a do Flávio e menor que a do Lula.

A explicação mais provável da subida é a mais chata: em agosto ele era um nome que muita gente ainda não conhecia direito. Rejeição de desconhecido é baixa porque ninguém formou opinião. À medida que ele apareceu, ganhou eleitor e ganhou rejeitador. É o preço de existir na eleição. Só que essa explicação é minha leitura, não é dado, e por isso está marcada como leitura.

A conta do teto: 100 menos rejeição

Esta é a conta que o comentário faz sem escrever. Se rejeição é quem fechou a porta, então 100 menos a rejeição é quem ainda não fechou. Eu chamo isso de teto.

Fiz a conta para os oito nomes da AtlasIntel, que é a lista mais completa, e converti em gente usando os 158,7 milhões de eleitores aptos em 2026, número do TSE de julho.

CandidatoRejeiçãoTeto teóricoTeto em eleitores
Augusto Cury25,6%74,4%118,1 milhões
Ronaldo Caiado28,1%71,9%114,1 milhões
Romeu Zema31,6%68,4%108,5 milhões
Pablo Marçal35,1%64,9%103,0 milhões
Renan Santos35,7%64,3%102,0 milhões
Jair Bolsonaro37,7%62,3%98,9 milhões
Flávio Bolsonaro49,6%50,4%80,0 milhões
Lula52,5%47,5%75,4 milhões

Essa conta é minha, é simples e qualquer pessoa refaz com uma calculadora. Pelo Datafolha, que usa régua mais baixa, a ordem é a mesma e os tetos sobem: Cury 90, Caiado 86, Zema 84, Renan 83, e Lula e Flávio empatados em 54.

Agora o mais importante da matéria inteira, e é contra o argumento do comentário.

E tem a prova pela outra ponta. Jair Bolsonaro chegou à urna de 2022 com 50% de rejeição no Datafolha da véspera, o pior número de qualquer presidente que tentou reeleição desde 1997. Mesmo assim tirou 58.206.354 votos, 49,10% dos válidos, o maior número de votos que uma oposição já teve no Brasil. Perdeu por 1,80 ponto. Rejeição alta não impediu ele de chegar a dois milhões de votos da vitória.

Do outro lado da mesma moeda: Augusto Cury tem o maior teto dos oito nomes e tinha 6% no primeiro turno do Datafolha de 10 de setembro. Teto é permissão, não é escolha. Ter porta aberta com 118 milhões de pessoas não é a mesma coisa que essas pessoas entrarem.

Urna eletrônica usada na eleição de 2006, a eleição que a conta da casa tinha esquecido

A régua histórica: são sete segundos turnos, não cinco

Aqui eu tenho que corrigir uma conta que eu mesmo publiquei hoje de manhã.

Na matéria só o Flávio tira o PT, eu escrevi que desde 1989 o Brasil teve nove eleições presidenciais e "cinco foram decididas no segundo turno". São sete. Eu esqueci 2006 e 2010.

Em 2006, Lula fechou o primeiro turno com 48,61% dos votos válidos, abaixo dos 50% mais um voto que a Constituição exige, e houve segundo turno em 29 de outubro. Em 2010, Dilma fechou o primeiro turno com 46,91% e houve segundo turno em 31 de outubro. Só 1994 e 1998, as duas de Fernando Henrique, foram decididas em turno único. Nove menos duas dá sete.

Está corrigido aqui, com os números oficiais, e a matéria antiga vai ser atualizada.

AnoData do 2º turnoVenceu% válidosPerdeu% válidosDiferença em pontos
198917 de dezembroCollor (PRN)53,03Lula (PT)46,976,06
200227 de outubroLula (PT)61,27Serra (PSDB)38,7322,54
200629 de outubroLula (PT)60,83Alckmin (PSDB)39,1721,66
201031 de outubroDilma (PT)56,05Serra (PSDB)43,9512,10
201426 de outubroDilma (PT)51,64Aécio (PSDB)48,363,28
201828 de outubroBolsonaro (PSL)55,13Haddad (PT)44,8710,26
202230 de outubroLula (PT)50,90Bolsonaro (PL)49,101,80

Os dois anos que faltavam, em votos: em 2006, Lula teve 58.295.042 contra 37.543.178 de Alckmin, uma diferença de 20.751.864 votos. Em 2010, Dilma teve 55.752.529 contra 43.711.388 de Serra, uma diferença de 12.041.141 votos. As duas subtrações eu refiz na mão.

Caso a caso: quem tinha menos rejeição venceu?

Agora a checagem de verdade. Fui em cada um dos sete anos procurar a rejeição dos dois finalistas na véspera da votação. Esta é a única forma honesta de testar a frase dos comentários.

1989, Collor contra Lula. Rejeição de cada um na véspera: não achei. Procurei duas vezes. O que existe publicado é a série de intenção de voto do Ibope, que mostra Collor abrindo o segundo turno com 50% contra 38% e Lula chegando a 46% na véspera, empate técnico. Sem número de rejeição, não dá para testar.

2002, Lula contra Serra. Rejeição individual na véspera: não achei. Somando as tentativas de hoje, foram quatro buscas. A única coisa que apareceu foi um dado de artigo acadêmico dizendo que 52% não votariam em candidato de continuidade do governo Fernando Henrique, o que não é rejeição a um nome. Não dá para testar.

2006, Lula contra Alckmin. Rejeição individual na véspera: não achei. Duas tentativas. Não dá para testar.

2010, Dilma contra Serra. Aqui existe número. A CNT/Sensus de outubro de 2010 deu Dilma com 35,4% de rejeição e Serra com 37,5%. Dilma tinha a menor e venceu por 12,10 pontos. A regra valeu. Aviso sobre esta fonte, porque eu não escondo fonte fraca: esse número chegou até mim por uma coluna de opinião do site Sul21, de 2014, que cita a pesquisa. A página do Sul21 não abriu para mim, deu erro nas duas tentativas, e eu não achei o relatório original da CNT/Sensus. É a fonte mais frágil desta matéria. Trate esse caso como provável, não como provado.

2014, Dilma contra Aécio. Aqui existe número bom. O Datafolha da véspera, com campo em 24 e 25 de outubro, registro BR-1210/2014, contratado pela Folha e pela TV Globo, deu Aécio com 41% de rejeição e Dilma com 38%. Dilma tinha a menor e venceu por 3,28 pontos. A regra valeu.

Só que 2014 tem uma armadilha que eu não vou esconder, e ela é o melhor argumento contra a régua inteira. Na mesma véspera, outros dois institutos mediram a rejeição e deram a ordem invertida:

Instituto, véspera de 2014Rejeição da DilmaRejeição do AécioQuem tinha a menor
Datafolha, 24 e 25/1038%41%Dilma
CNT/MDA, 23 e 24/1043,3%42,8%Aécio
Sensus42,5%35,3%Aécio

Dois dos três institutos da véspera apontaram a rejeição da Dilma como a maior. Ela ganhou. Se você fosse escolher a régua pelo Sensus, teria errado o resultado. E ainda tem o mês inteiro: no Datafolha de 14 e 15 de outubro, Dilma tinha 42 e Aécio 38, ordem invertida. No Datafolha de 20 de outubro, Aécio tinha 40 e Dilma 39. A ordem trocou três vezes em doze dias.

2018, Bolsonaro contra Haddad. Rejeição na véspera do segundo turno, campo de 26 e 27 de outubro: não achei. Foram quatro tentativas somando as de hoje, inclusive abrindo a página da Gazeta do Povo com a série completa do Datafolha daquele segundo turno, que traz só intenção de voto e nenhuma rejeição.

O que existe é a medição do Datafolha de 4 de outubro de 2018, véspera do primeiro turno: Bolsonaro 45% de rejeição, Haddad 40%. Uma rodada anterior do mesmo mês dava Bolsonaro 44 e Haddad 41. Nas duas, quem tinha mais rejeição era Bolsonaro. Ele venceu por 10,26 pontos.

A regra não valeu. E a ressalva é obrigatória: o dado é de 24 dias antes do segundo turno, e a rejeição pode ter mudado durante a campanha. Sem o número da véspera, este caso fica como "a regra falhou no dado que existe", não como "a regra falhou, provado".

2022, Lula contra Bolsonaro. Datafolha da véspera, registro BR-08297/2022, campo em 28 e 29 de outubro, 8.308 entrevistas. O relatório diz, com estas palavras:

"Uma parcela de 50% dos eleitores brasileiros declara não votar de jeito nenhum no presidente Jair Bolsonaro neste segundo turno, índice igual ao registrado no levantamento anterior."
"A rejeição a Lula oscilou de 45% para 46% nos últimos dias."

Bolsonaro 50, Lula 46. Lula tinha a menor e venceu por 1,80 ponto. A regra valeu.

E o mesmo relatório traz a foto do país naquele domingo, que é o dado mais importante desta matéria inteira:

"48% rejeitam somente Bolsonaro, 43% rejeitam somente Lula, 3% rejeitam tanto o petista como o atual presidente, e 7% não rejeitam nenhum deles."

Sete por cento. A eleição mais apertada da história do Brasil foi decidida dentro de uma faixa de sete em cada cem eleitores.

O placar da régua

7segundos turnos1989, 2002, 2006, 2010, 2014, 2018 e 2022
4têm número de rejeiçãoe um deles, 2018, só tem número de 24 dias antes
3vezes em que a regra valeu2010, 2014 e 2022
1vez em que a regra falhou2018, e quem ganhou com mais rejeição se chamava Bolsonaro

A regra "quem tem menos rejeição ganha o 2º turno", testada nos sete segundos turnos desde 1989

Então a frase honesta é esta: "quem tem menos rejeição ganha o segundo turno" não é lei. É uma tendência que se confirmou nas três últimas vezes em que deu para medir, que já quebrou uma vez, e que em metade das eleições sequer pode ser testada, porque o número não foi publicado ou não sobreviveu.

Quem escreve a frase nos comentários não está inventando. Está generalizando 2022, que é a eleição que todo mundo lembra, e tratando como lei uma coisa que é tendência com quatro casos.

Plenário do Tribunal Superior Eleitoral em sessão

A régua que bateu 7 de 7, e quase ninguém cita

Enquanto eu procurava rejeição, esbarrei numa régua muito mais forte. E ela é inconveniente para quem está discutindo nos comentários, inclusive para mim.

Em todos os sete segundos turnos da história recente, quem liderou o primeiro turno venceu o segundo. Sete de sete.

AnoLiderou o 1º turno% válidos no 1º turnoGanhou o 2º turno?
1989Collor30,47Sim
2002Lula46,44Sim
2006Lula48,61Sim
2010Dilma46,91Sim
2014Dilma41,59Sim
2018Bolsonaro46,03Sim
2022Lula48,43Sim

Um jornal português, a Renascença, publicou isso na véspera do segundo turno de 2022 com o título "No Brasil, quem venceu à primeira volta nunca perdeu à segunda". Continuou verdade depois de 2022.

Compare as duas réguas com frieza. A régua da rejeição vale em 3 de 4 casos mensuráveis e não dá para testar em 3 de 7. A régua da liderança no primeiro turno vale em 7 de 7, sem exceção e sem buraco de dado.

E hoje, 13 de setembro, quem lidera o primeiro turno nos cinco institutos é o Lula: 39% no Datafolha, 43% na AtlasIntel, 38% na PoderData, 39% na BTG/Nexus e 36% na Quaest.

Eu torço pelo Cury e este parágrafo dói de escrever. Mas eu não escrevo o que me convém. Se a régua histórica mais forte vale, ela hoje aponta para o Lula, e quem quer tirar o Lula precisa quebrar uma regra que nunca foi quebrada em sete tentativas.

Ressalva séria, e ela vale para as duas réguas: sete casos é amostra pequena. Regra histórica não é lei de física. Em 2022, ninguém achava que a diferença seria de 1,80 ponto.

Então a conta do 22 fecha?

Vamos pedaço por pedaço, que é como se checa uma conta.

Pedaço 1: "o Flávio tem rejeição gigante". Verdade, nas três réguas mais duras. Quaest 55%, Nexus 50%, AtlasIntel 49,6%. No Datafolha ele tem 46%, empatado com o Lula. Na PoderData ele tem 45%, cinco pontos abaixo do Lula. Ou seja: a rejeição dele é alta em três institutos, igual à do Lula em um e menor que a do Lula em outro. "Gigante" é uma palavra que descreve três das cinco pesquisas.

Pedaço 2: "com essa rejeição, ele perde para o Lula". Aqui a conta não fecha, e este é o ponto que dá razão ao eleitor do 22. Nos mesmos cinco institutos que medem a rejeição, o Flávio aparece numericamente à frente do Lula em três: AtlasIntel 46,4 x 46,2, PoderData 47 x 45 e BTG/Nexus 46 x 45. No Datafolha, Lula 46 x Flávio 44. Na Quaest, 41 a 41. Nas cinco, a diferença está dentro da margem de erro. Empate técnico nas cinco. A rejeição alta dele não virou derrota em pesquisa nenhuma. Eu detalhei todos esses cenários na matéria o Lula quer o Flávio no segundo turno.

Pedaço 3: "por isso é melhor colocar o Cury no segundo turno". Aqui a conta trava em três lugares.

O primeiro: o Cury precisa chegar lá. Ele tem 6% no Datafolha, 6,6% na AtlasIntel, 8% na Quaest, 9% na BTG/Nexus e 10% na PoderData. O Flávio tem entre 29% e 37,4%. Eu já fiz a conta de quanto vale um ponto e quanto falta em votar no Cury é jogar voto fora.

O segundo: quando um instituto testou Cury contra Flávio, o Flávio ganhou. Foi a PoderData de 6 a 9 de setembro: Flávio 43 x Cury 36. Uma vez só, um instituto só, mas é o único teste que existe entre os dois, e a rejeição menor do Cury não virou vitória nele.

O terceiro: no cenário Lula contra Cury, os brancos e nulos são sempre maiores do que no cenário Lula contra Flávio. De 10% a 21% contra 7,4% a 13%. Rejeição baixa não significa entusiasmo. Significa que a porta está aberta e muita gente não entra.

Pedaço 4: "o Bolsonaro perdeu porque era mais rejeitado". Em 2022, sim, o mais rejeitado perdeu. Em 2018, o mais rejeitado ganhou, e era o mesmo homem. Usar 2022 como lei e esquecer 2018 é escolher o ano que ajuda o argumento.

A resposta à pergunta da capa: a conta do 22 fecha na metade. O Flávio empata com o Lula em todas as cinco pesquisas, apesar da rejeição alta, e isso é fato. O que não fecha é a parte mágica, a ideia de que a rejeição sozinha decide o segundo turno. Ela não decidiu em 2018 e não foi medida em três das sete eleições.

A linha do tempo, para guardar

QuandoO que aconteceu
25 a 30 de agosto de 2026AtlasIntel, registro BR-07972/2026: Cury 18,5% de rejeição, Flávio 52,7%, Lula 52,0%
3 a 6 de setembroGenial/Quaest, BR-01720/2026: Flávio 55%, Lula 53%, Cury 26%
4 a 7 de setembroBTG/Nexus, BR-06790/2026: Flávio 50%, Lula 49%, Cury 29%
4 a 9 de setembroAtlasIntel, BR-01452/2026: Lula 52,5%, Flávio 49,6%, Cury 25,6%
6 a 9 de setembroPoderData/Aya, BR-04914/2026: Lula 50%, Flávio 45%. Único teste Cury x Flávio: 43 a 36 para Flávio
8 a 10 de setembroDatafolha, BR-01833/2026: Lula 46%, Flávio 46%, Cury 10%
12 de setembroA conta da rejeição aparece 37 vezes nos comentários deste perfil
14 de setembroDebate do consórcio (CNN, SBT, RedeTV! e Rede Vida), às 22h
4 de outubroPrimeiro turno

O que eu penso, em primeira pessoa

Está separado do resto de propósito. Isto aqui é opinião.

A régua da rejeição virou moda porque 2022 foi traumático e porque ela é simples. Simples demais. Ela trata o eleitor como se ele fosse um interruptor de dois estados, ligado ou desligado, e a eleição não funciona assim. Entre "voto com certeza" e "não voto de jeito nenhum" existe o Brasil inteiro, e foi lá, nos 7% que não rejeitavam nenhum dos dois, que 2022 foi decidido.

O que a rejeição mede bem não é quem vai ganhar. É quanto espaço a pessoa ainda tem para crescer. E, nesse ponto, ela diz uma coisa verdadeira e incômoda para os dois favoritos: Lula e Flávio chegam a setembro com metade do país de porta fechada. Os dois vão disputar um pedaço estreito de gente indecisa, do mesmo jeito que 2022 foi disputado. Quem tem teto grande e não tem voto, como o Cury hoje, tem um problema diferente: precisa que as pessoas entrem pela porta que já está aberta, e faltam 21 dias.

Eu torço pelo Cury. Se ele não chegar ao segundo turno, eu voto no Flávio. Eu não voto no Lula. Nada disso muda a tabela lá em cima, porque a tabela tem registro no TSE e a minha torcida não tem.

O que eu tirei, e por quê

  1. A rejeição na véspera de 1989, 2002 e 2006. Procurei, não achei, não invento. Se eu escrevesse "Collor tinha menos rejeição que o Lula", seria chute com cara de dado.
  2. A rejeição na véspera do segundo turno de 2018. Quatro tentativas. Usei a medição de 4 de outubro e avisei três vezes que é de 24 dias antes.
  3. A rejeição do Cury na PoderData. As duas páginas que publicaram a pesquisa completa bloquearam o acesso. Ficou como "não publicada" na tabela, e não como zero.
  4. O enunciado exato da pergunta de rejeição da AtlasIntel e da BTG/Nexus. Não está publicado. Descrevi o que está confirmado e parei aí.
  5. Qualquer frase de Flávio Bolsonaro ou de Augusto Cury sobre a própria rejeição. Não achei nenhuma em setembro. Não coloco palavra na boca de candidato.

Perguntas que chegam nos comentários

Quem tem menos rejeição sempre ganha o segundo turno?

Não. Nos sete segundos turnos desde 1989, a regra valeu em três (2010, 2014 e 2022), falhou em um (2018) e não pode ser testada em três (1989, 2002 e 2006), porque não achei número de rejeição publicado.

O que é rejeição numa pesquisa?

É a fatia de entrevistados que diz que não votaria naquele candidato de jeito nenhum. Não é quem não gosta. É quem fechou a porta.

Por que a rejeição do Cury é 10% no Datafolha e 26% na Quaest?

Porque os dois perguntam de jeitos diferentes. A Quaest passa nome por nome antes de pedir a escolha, perguntando se a pessoa não conhece, conhece e poderia votar, ou conhece e não votaria de jeito nenhum. O Datafolha faz uma pergunta separada e fecha o bloco. Só dá para comparar instituto com ele mesmo.

Qual é a rejeição do Flávio Bolsonaro hoje?

Depende do instituto. Quaest 55%, Nexus 50%, AtlasIntel 49,6%, Datafolha 46% e PoderData 45%. Na PoderData ele está cinco pontos abaixo do Lula.

A rejeição do Cury subiu?

Subiu. Na AtlasIntel foi de 18,5% no fim de agosto para 25,6% em setembro, 7,1 pontos em dez dias. Mesmo assim segue sendo a menor entre todos os candidatos, nos cinco institutos.

Com 50% de rejeição dá para ganhar eleição?

Nunca deu no Brasil, mas chegou perto. Jair Bolsonaro chegou à urna de 2022 com 50% de rejeição e tirou 49,10% dos votos válidos, perdendo por 1,80 ponto. Fernando Henrique ganhou com 21%, Lula com 30% e Dilma com 32%.

Existe uma régua histórica melhor que a da rejeição?

Existe. Em sete de sete segundos turnos, quem liderou o primeiro turno venceu o segundo. Hoje quem lidera o primeiro turno nos cinco institutos é o Lula.

Quantos segundos turnos o Brasil já teve?

Sete: 1989, 2002, 2006, 2010, 2014, 2018 e 2022. Só 1994 e 1998 foram decididas em turno único.

Eu sou de direita e continuo sendo

E continuo sem aceitar conta errada, mesmo quando a conta errada ajuda o meu lado.

A rejeição é um dado bom. Ela diz onde cada candidato bate no teto. Só que ela não é uma bola de cristal, e quem transforma ela em profecia está fazendo o que sempre se faz em ano de eleição: escolher o número que confirma o que já queria acreditar.

Em 21 dias a urna resolve. Até lá, eu volto a cada passo, com fonte.

Fontes desta materia

  1. Exame, AtlasIntel: vantagem de Lula sobre Flávio Bolsonaro no 1º turno cai para 5,6 pontos, com a tabela completa de rejeição, 10 de setembro de 2026
  2. Gazeta do Povo, AtlasIntel divulga pesquisa para presidente da República, setembro de 2026
  3. Gazeta do Povo, os números completos do Datafolha de setembro de 2026, segunda rodada
  4. Gazeta do Povo, os números completos da Quaest de setembro de 2026
  5. Nexus, a íntegra da pesquisa BTG/Nexus divulgada em 8 de setembro de 2026
  6. Poder360, Lula é rejeitado por 50% e Flávio, por 45%, diz PoderData/Aya, setembro de 2026
  7. Moon BH, as diferenças de metodologia entre Datafolha e Quaest, 19 de agosto de 2026
  8. O Antagonista e Crusoé, AtlasIntel confirma freio de Cury, 10 de setembro de 2026
  9. InfoMoney, As 5 pesquisas que agitaram a véspera do 2º turno de 2014, com a rejeição de Dilma e Aécio em cada instituto
  10. Datafolha, relatório do segundo turno de 2022, registro BR-08297/2022, campo em 28 e 29 de outubro de 2022
  11. Seu Dinheiro, Em novo Datafolha, Bolsonaro sobe e Haddad oscila para cima, com a rejeição de 4 de outubro de 2018
  12. Metrópoles, Saiba qual presidente teve a maior rejeição ao disputar a reeleição
  13. Senado Notícias, Presidente Lula é reeleito com mais de 58 milhões de votos, 30 de outubro de 2006
  14. Wikipédia, Resultados da eleição presidencial no Brasil em 2010, com os dados divulgados pelo TSE
  15. TRE-RJ, memória das eleições de 1989
  16. Renascença, No Brasil, quem venceu à primeira volta nunca perdeu à segunda, 27 de outubro de 2022
  17. Agência Brasil, Com 100% das urnas apuradas, Bolsonaro teve 57,7 milhões de votos, 28 de outubro de 2018
  18. Jornal de Brasília, Com 100% das seções totalizadas, Lula teve 50,90% e Bolsonaro 49,10%, 30 de outubro de 2022
  19. Rádio Senado, Bolsonaro é o primeiro presidente derrotado ao tentar reeleição, 30 de outubro de 2022
  20. TSE, mais de 158 milhões de eleitores estão aptos a votar nas eleições 2026, julho de 2026
  21. TSE, mais de 156 milhões de eleitores voltam às urnas no segundo turno de 2022, 30 de outubro de 2022
  22. Metrópoles, Datafolha: Lula tem 39% no 1º turno, Flávio marca 35% e Cury 6%, 11 de setembro de 2026
  23. TSE, registro e consulta de pesquisas eleitorais