A resposta curta
Dá para conferir o currículo de qualquer candidato do Brasil, do vereador ao presidente, com o celular na mão e sem pagar nada. São sete sites públicos. Cada um responde uma pergunta diferente, e é aí que quase todo mundo erra: procura mestrado no lugar que só tem faculdade, e volta achando que descobriu uma fraude.
A ordem que funciona é esta. Comece no site do TSE, que mostra o que o candidato declarou. Depois vá à Plataforma Lattes, que mostra o que ele conta de si mesmo no meio acadêmico. Então cheque no e-MEC se a faculdade e o curso existem, e no Sucupira se o mestrado e o doutorado existem. Se o diploma veio de fora, procure na Plataforma Carolina Bori se ele foi reconhecido no Brasil. Se ele é médico, procure no CFM. Se é advogado, procure na OAB. E, no fim, use a Wayback Machine para ver o que o site dele dizia antes de virar candidato.
Vinte minutos. É esse o tempo. Este texto é o mapa.
O tamanho do problema, e o tamanho da ferramenta
Por que eu escrevi isto hoje
Esta semana virou notícia um caso de currículo na eleição presidencial: o site de Augusto Cury diz, no presente, que ele "é professor de pós-graduação da USP", e a universidade respondeu que ele deu aula lá como convidado em 2020, 2021 e 2022. Eu li tudo e escrevi separado, com a nota de repúdio inteira, a captura do site e a resposta da USP palavra por palavra, em Augusto Cury mentiu sobre a USP?.
Não vou repetir aquele caso aqui. Aqui é outra coisa. Aqui é o método, para você não depender de mim nem do Estadão na próxima vez.
Porque vai ter próxima vez. E não vai ser só com presidente.
Passo 1. O TSE: o que o candidato declarou
O primeiro endereço é o DivulgaCandContas, do Tribunal Superior Eleitoral. Fica em divulgacandcontas.tse.jus.br. É o balcão oficial da eleição.
A tela que eu capturei às 22h59 de 13 de setembro de 2026. No quadro da direita, os pedidos de candidatura: 13 para presidente, 200 para governador, 318 para senador, 7.792 para deputado federal, 11.277 para deputado estadual. Total de 20.939. O site avisa que atualiza a cada 60 minutos.
Como usar, no celular mesmo. Abra o endereço. Escolha a eleição. Clique na região ou no estado. Escolha o cargo. Digite o nome do candidato, o nome de urna ou o número. A ficha abre.
O que a ficha traz:
- Nome completo, nome de urna, número, partido e coligação.
- Situação do registro: deferido, indeferido, sub judice.
- Ocupação. É uma palavra só, escolhida numa lista do TSE. Empresário, médico, advogado, servidor, escritor.
- Grau de instrução. Também de uma lista: ensino fundamental, médio, superior incompleto, superior completo. E é só isso. Não existe campo "mestrado" nem "doutorado" no grau de instrução.
- Bens declarados, item por item, com o valor.
- Certidões criminais dos tribunais.
- Proposta de governo em PDF. Este é o documento mais esquecido da eleição inteira. Está ali, aberto, e quase ninguém baixa.
- Prestação de contas: quem doou, quanto, e para quem o dinheiro foi.
Agora a parte que você precisa guardar, porque é a que todo mundo erra.
O TSE não confere nada disso. Ocupação e grau de instrução são autodeclarados. O candidato escreve, o sistema aceita. O que a Justiça Eleitoral confere é outra lista: quitação eleitoral, filiação partidária, domicílio, certidões, prazos. Diploma não entra.
Ou seja: a ficha do TSE não é prova de que o título existe. Ela é o ponto de partida. Ela mostra o que a pessoa está disposta a assinar embaixo num documento oficial, e é por isso que ela vale muito quando bate de frente com o que está escrito no site de vendas dele.
Um detalhe prático. Se o candidato escreveu um plano de governo com 80 páginas, o plano está ali em PDF e é onde biografia costuma aparecer inchada. Baixe. É gratuito.
Passo 2. Plataforma Lattes: o currículo que a própria pessoa escreve
O segundo endereço é a busca pública da Plataforma Lattes, do CNPq, em buscatextual.cnpq.br.
A busca simples do Lattes, capturada em 13 de setembro de 2026. Dá para buscar por nome ou por assunto, filtrar por doutores ou demais pesquisadores, e refinar por formação acadêmica, atuação profissional e instituição.
Como usar. Marque "Nome". Digite o nome completo. Deixe marcadas as duas bases, "Doutores" e "Demais pesquisadores". Clique em Buscar. Se o nome aparecer, clique e leia o currículo inteiro.
O que procurar dentro do currículo:
- Formação acadêmica. O Lattes separa graduação, especialização, MBA, mestrado e doutorado em campos diferentes. Repare em qual campo cada coisa está.
- Ano de conclusão. Se o ano está vazio ou aparece a palavra "em andamento", o título não está concluído.
- Título do trabalho. Mestrado tem dissertação. Doutorado tem tese. As duas têm nome, ano e orientador. Se não tem, acenda a luz amarela.
- Atuação profissional. É aqui que a pessoa lista as instituições onde trabalhou, e com que vínculo.
E agora o limite, que é grande: o Lattes é autodeclarado. Quem preenche é a própria pessoa, com login e senha. O CNPq não audita diploma por diploma. A Fiquem Sabendo mantém até um verbete inteiro chamado "Fraudes no Currículo Lattes".
Então o Lattes não prova nada sozinho. Ele serve para duas coisas, e serve muito bem para as duas.
A primeira: pegar contradição. Se o plano de governo diz doutorado em psicologia e o Lattes diz doutorado em administração, alguma coisa não fecha, e a pergunta é legítima. Foi exatamente assim que a Folha de S.Paulo achou a contradição no plano de governo de Augusto Cury, em 1º de setembro de 2026.
A segunda: achar o fio da meada. O Lattes dá o nome da universidade, o ano e o nome da tese. Com esses três dados você vai conferir nas bases que conferem de verdade, que são as duas próximas.
Passo 3. O e-MEC: a faculdade e o curso existem?
O e-MEC é o cadastro nacional das instituições e dos cursos de educação superior do Brasil. Fica em emec.mec.gov.br.
Aviso honesto: eu tentei capturar a tela dele três vezes, de três jeitos, e o site devolveu um bloqueio de segurança contra automação nas três. Para você, com um navegador comum, ele abre. Para o meu robô de captura, não abriu. Registro aqui e sigo, porque prometi mostrar tudo o que dá e tudo o que não deu.
Como usar. Abra o site, escolha "Consulta Avançada", digite o nome da instituição ou do curso, e leia o resultado.
O que procurar:
- A instituição está credenciada? Instituição sem credenciamento não pode emitir diploma de ensino superior. O que ela oferece é curso livre, que é outra coisa e não dá grau.
- O curso está autorizado e reconhecido? Curso de graduação só gera diploma com validade nacional depois de reconhecido.
- Qual é o conceito da avaliação? O e-MEC publica a nota.
E aqui vem a regra que separa quem sabe conferir de quem só acha que sabe:
e-MEC responde por instituição, graduação e especialização. Mestrado e doutorado ficam no Sucupira, da CAPES. Quem procura mestrado no e-MEC não acha e sai dizendo que o mestrado não existe. Errado. Estava procurando na gaveta errada.
Passo 4. Sucupira e CAPES: onde mestrado e doutorado existem de verdade
A Plataforma Sucupira é da CAPES, a agência do governo que avalia a pós-graduação brasileira.
A consulta pública de programas por instituição, capturada em 13 de setembro de 2026. O título da caixa é "Cursos Avaliados e Reconhecidos", e cada linha é uma instituição, com as colunas ME (mestrado), DO (doutorado), MP (mestrado profissional) e DP (doutorado profissional). Um aviso prático: o endereço antigo redireciona hoje para o domínio sucupira-legado, e a versão nova do sistema devolveu página não encontrada nas minhas duas tentativas.
Como usar. Entre na consulta pública, escolha a instituição, e leia a lista de programas dela.
O que a lista mostra de cada programa:
- Nome do programa e área de avaliação.
- Modalidade: acadêmico ou profissional.
- Nível: mestrado, doutorado, mestrado profissional.
- Situação: em funcionamento ou desativado.
- Nota da CAPES, de 1 a 7. Programa com nota 3 ou mais está reconhecido. Abaixo disso, é descredenciado.
O teste é direto. O candidato diz "mestrado em tal coisa pela universidade tal". Então o programa tem de existir na lista daquela universidade, com aquele nome, naquele nível, e estar funcionando na época em que ele diz que estudou.
Tem uma segunda camada, e é a que resolve a maior parte das brigas de internet: o Sucupira e os sites dos programas publicam o corpo docente credenciado. Credenciado é o professor que a comissão do programa aprovou para orientar aluno e responder por disciplina. É uma lista curta, com nome e sobrenome, e está aberta.
Quem foi convidado para dar uma aula não aparece nessa lista. Não porque seja menos importante, mas porque convidado não é credenciado. São dois crachás diferentes.
Passo 5. Diploma de fora do Brasil: a Plataforma Carolina Bori
Esta é a parte que mais gente desconhece, e é a que mais derruba currículo.
O Portal Carolina Bori, do MEC, que cuida da revalidação e do reconhecimento de diplomas estrangeiros. Na caixa CONSULTAS, quatro botões abertos ao público: processos finalizados na plataforma, pesquise aqui o seu curso, universidades aderentes e valores cobrados por processo. Tela da cópia guardada pelo Internet Archive.
A regra, em duas frases:
- Diploma estrangeiro de graduação precisa ser revalidado no Brasil.
- Diploma estrangeiro de mestrado ou doutorado precisa ser reconhecido no Brasil.
Nos dois casos, quem faz isso é uma universidade pública brasileira que tenha curso reconhecido na mesma área e no mesmo nível ou acima. E o pedido passa pela Plataforma Carolina Bori, do MEC.
O que isso significa na prática, sem rodeio: um doutorado feito fora do Brasil não vale automaticamente aqui. Ele existe no país onde foi emitido. No Brasil, ele passa a produzir efeito depois que uma universidade brasileira reconhece. Sem esse carimbo, quem tem o título pode dizer que estudou lá, e é verdade, mas não pode usar o título como se fosse um doutorado brasileiro.
Como conferir. Abra o portal, entre em "Processos finalizados na plataforma" e procure o nome. Entre também em "Pesquise aqui o seu curso" e em "Universidades aderentes" para saber quais instituições brasileiras fazem esse trabalho.
E tem um passo anterior, que vale ouro quando o diploma vem dos Estados Unidos: a universidade estrangeira é credenciada no país dela? Nos Estados Unidos, credenciamento é feito por agências reconhecidas pelo Departamento de Educação ou pelo CHEA, e a própria universidade costuma publicar essa informação no catálogo dela. Existe um mercado grande de instituição que vende título e não é credenciada em lugar nenhum. A Extra Classe e a Gazeta do Povo já mapearam esse mercado, com nomes e números.
Passo 6. Médico: CFM e o conselho do estado
Se o candidato se apresenta como médico, ou como especialista em alguma área da medicina, a conferência é rápida.
A busca por médicos do Conselho Federal de Medicina, capturada em 13 de setembro de 2026. A página abre com a frase Nesta área, você pode realizar uma busca por médico a partir do preenchimento dos campos abaixo.
O endereço é portal.cfm.org.br/busca-medicos. Digite o nome ou o número do CRM e o estado.
O que volta: nome, número do CRM, estado da inscrição, situação da inscrição, data de inscrição, instituição e ano de formatura, e as especialidades registradas.
A frase que resolve quase toda discussão sobre médico: especialidade só é especialidade quando está registrada no conselho. Curso feito, congresso, imersão de fim de semana e certificado de instituto particular não entram ali. Se a pessoa escreve "especialista em X" e X não aparece no registro dela, a palavra que ela está usando não é a palavra que o conselho confirma.
Em São Paulo, o Cremesp tem busca própria, em cremesp.org.br. Cada estado tem a sua, e o CFM agrega todas.
Passo 7. Advogado: o Cadastro Nacional da OAB
Mesmo raciocínio, outra porta.
O Cadastro Nacional dos Advogados, em cna.oab.org.br, capturado em 13 de setembro de 2026. Busca por nome ou por número de inscrição, com filtro de seccional e de tipo de inscrição.
O endereço é cna.oab.org.br. Digite o nome ou o número da inscrição.
O que volta: nome, número, seccional (o estado), tipo de inscrição e situação. Situação é a palavra que importa: ativa, suspensa, cancelada, licenciada. Quem virou parlamentar costuma ficar licenciado, e isso é normal. Suspensa e cancelada são outra conversa.
Passo 8. Escavador e Google Acadêmico: para achar o fio
Estes dois não são bases oficiais. São ferramentas de garimpo, e é assim que devem ser usadas.
Escavador (escavador.com) junta, num perfil só, processos judiciais públicos, publicações em diários oficiais, o currículo Lattes e as publicações acadêmicas de uma pessoa. É empresa privada, parte do acervo é paga, e o conteúdo vem de raspagem de fontes públicas. Serve para encontrar o fio; a confirmação você faz no tribunal, no CNPq, na CAPES e no MEC.
Google Acadêmico (scholar.google.com.br) procura o nome da pessoa entre autores de artigos, dissertações e teses. Quem fez mestrado ou doutorado de verdade quase sempre deixa rastro: o trabalho está no repositório da universidade, na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações ou no catálogo da CAPES.
Dois cuidados, porque aqui é fácil errar para os dois lados. Não achar nada no Google Acadêmico não prova que o título não existe, porque trabalho antigo pode nunca ter sido digitalizado. E achar artigos não prova o título, porque publicar artigo não é a mesma coisa que defender tese.
Passo 9. Wayback Machine: o que o site dizia antes
O último passo é o mais divertido, e é o que quase ninguém faz.
O calendário da Wayback Machine, aqui com o endereço do e-MEC na caixa de busca. A linha do topo diz o tamanho do acervo daquela página: "Saved 2.366 times between March 22, 2007 and August 28, 2026". Cada marca colorida é um dia em que o Internet Archive guardou uma cópia. Clicando no dia, a página abre como estava naquela data.
Como usar. Abra web.archive.org, cole o endereço do site do candidato, e o calendário mostra os dias em que o robô do Internet Archive guardou uma cópia. Clique em um dia. A página abre como era.
Por que isso pesa numa checagem de currículo: biografia de site de campanha muda. Some um verbo, entra um título, sai uma data. A cópia guardada não muda. Se a página de hoje diz uma coisa e a de seis meses atrás dizia outra, as duas estão registradas, e você tem as duas na mão.
Vale também para redes sociais, perfil em site oficial da Câmara ou da Assembleia, e página de curso que o candidato vende.
A tabela que eu queria ter visto há dez anos
| A pergunta | A base certa | O que ela responde | O que ela NÃO responde |
|---|---|---|---|
| O que ele declarou à Justiça Eleitoral? | DivulgaCand (TSE) | Ocupação, grau de instrução, bens, certidões, plano de governo | Se o que ele declarou é verdade |
| O que ele conta de si no meio acadêmico? | Plataforma Lattes (CNPq) | Formação, ano, orientador, atuação profissional | Nada com prova. É autodeclarado |
| A faculdade existe e é reconhecida? | e-MEC | Credenciamento da instituição, autorização e reconhecimento de graduação e especialização | Mestrado e doutorado |
| O mestrado ou o doutorado existe? | Sucupira (CAPES) | Programa, nível, nota e docentes credenciados | Graduação e cursos livres |
| O diploma de fora vale aqui? | Carolina Bori (MEC) | Se houve revalidação ou reconhecimento no Brasil | Se a universidade estrangeira é boa |
| Ele é médico? É especialista mesmo? | CFM e o CRM do estado | Inscrição, situação e especialidades registradas | Cursos e certificados particulares |
| Ele é advogado? | Cadastro Nacional da OAB | Inscrição, seccional e situação | Atuação e resultado de processos |
| Onde ele publicou? | Google Acadêmico e repositórios | Artigos, dissertações e teses digitalizados | Trabalho antigo e não digitalizado |
| O que o site dele dizia antes? | Wayback Machine | Cópias antigas, com data e hora | O que nunca foi guardado pelo robô |
Professor concursado, convidado, visitante e honoris causa
Esta parte merece capítulo próprio, porque é a origem de metade das brigas.
Quando uma pessoa comum lê "professor da universidade X", ela entende uma coisa só: funcionário, do quadro, com cargo. Só que universidade tem quatro relações diferentes que carregam a palavra professor, e três delas não são cargo.
Concursado, ou do quadro. Entra por concurso público de títulos e provas. Ganha nome de cargo (na USP, por exemplo, Professor Doutor, Professor Associado, Professor Titular), matrícula, salário pago pelo Estado e regime de trabalho. Aparece na lista do departamento e no portal de transparência. Este pode dizer "sou professor da universidade X".
Convidado, ou colaborador. É alguém de fora que a universidade chama para dar uma disciplina, ou um pedaço dela, por um tempo. Não faz concurso, não ganha cargo, não vira funcionário e não entra no quadro. O regimento da pós-graduação da USP, a Resolução CoPGr 7493 de 2018, prevê isso nos artigos 35 e 64: ou a pessoa vira responsável pela disciplina por uma via de exceção, com aprovação em quatro instâncias, ou entra como colaborador para ministrar partes específicas, com um professor da casa assinando por ela. Quando a disciplina acaba, o convite acaba. Este pode dizer "dei aula na universidade X, como convidado, em tais anos".
Visitante. É contrato temporário, com prazo e remuneração, previsto em lei própria (na rede federal, a Lei 8.745 de 1993). É mais do que convite e menos do que concurso. Contrato, não cargo efetivo. Este pode dizer "fui professor visitante da universidade X entre tal e tal ano".
Doutor honoris causa. É homenagem, aprovada por um conselho da universidade. E aqui está o ponto que quase ninguém sabe: honoris causa não é grau acadêmico. Não exige curso, não exige tese, não autoriza exercício profissional, não gera direito funcional e não permite registro em conselho de classe. Como resumiu o Nexo Jornal em abril de 2021, o homenageado "ganha o título de doutor, mas não é o mesmo tipo de doutorado de quem defende teses". O título aparece na galeria de títulos honoríficos da universidade, e não aparece como titulação no Lattes nem como vínculo no Sucupira.
Honoris causa é bonito e é legítimo. O problema nunca é receber. O problema é escrever "Dr." numa biografia de campanha e deixar o leitor entender outra coisa.
Os cinco erros mais comuns de currículo político
Eu separei os cinco que mais aparecem. Cada um vem com pelo menos um caso real, já publicado pela Folha de S.Paulo, pela Agência Lupa ou pelo Aos Fatos, e com a base onde você pega esse erro sozinho.
Erro 1. Curso cursado virando título concluído
É o campeão. A pessoa entrou no mestrado, assistiu às aulas, cumpriu créditos e parou antes da defesa. No currículo, aparece "mestrado".
O caso. Em 2009, os currículos oficiais de Dilma Rousseff traziam mestrado e doutorado pela Unicamp. A apuração da Folha de S.Paulo mostrou que ela, nas palavras do registro da época, "foi aluna dos programas de mestrado e doutorado da universidade, mas não havia concluído a elaboração e a defesa de teses".
O caso irmão, e o mais famoso do Brasil. Carlos Alberto Decotelli foi anunciado ministro da Educação em 26 de junho de 2020 e estava fora cinco dias depois. O reitor da Universidad Nacional de Rosario, Franco Bartolacci, afirmou que ele "cursou o doutorado, mas não o concluiu, pois lhe falta a aprovação da tese. Portanto, não é doutor pela Universidad Nacional de Rosario, como se chegou a afirmar". A Universidade de Wuppertal, na Alemanha, também negou o pós-doutorado que constava do Lattes dele. A Agência Lupa checou, a Folha apurou, e o currículo foi alterado no meio do episódio.
Como você pega. Sucupira, para ver se o programa existe. Repositório da universidade e Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações, para ver se a tese existe. Tese defendida deixa documento público, com data de defesa e nome da banca. Se não deixou, pergunte por quê.
Erro 2. Doutorado de instituição sem credenciamento
A pessoa estudou de verdade, pagou de verdade e recebeu um papel de verdade. Só que a instituição que emitiu o papel não é credenciada em lugar nenhum.
O caso. Em 1º de setembro de 2026, a Folha de S.Paulo publicou que o plano de governo entregue ao TSE por Augusto Cury cita um "doutorado em Psicologia Multifocal" pela Florida Christian University, enquanto o currículo Lattes dele registra doutorado em administração. E o catálogo 2020-2021 da própria Florida Christian University, na seção de credenciamento, página 3, informa que a instituição não é credenciada por agência aprovada pelo governo americano. Eu tratei desse ponto, com as duas páginas na mão, em Augusto Cury mentiu sobre a USP?.
O tamanho do mercado. Não é caso isolado. Extra Classe e Gazeta do Povo já mapearam o comércio de diplomas de instituições estrangeiras sem credenciamento que chegam ao Brasil com cara de título válido.
Como você pega. Duas perguntas, nesta ordem. A instituição é credenciada no país dela? E o título foi reconhecido no Brasil pela Plataforma Carolina Bori? Se as duas respostas forem não, o papel existe e o título não vale aqui.
Erro 3. "Professor da universidade X" sem vínculo
A pessoa deu uma palestra, um curso de extensão, uma aula convidada. No currículo, vira professor da casa.
O caso. Ainda em junho de 2020, o currículo de Decotelli o ligava à Fundação Getulio Vargas. A FGV respondeu que ele havia feito mestrado ali, concluído em 2008, e que nunca foi pesquisador nem teve pesquisa financiada pela instituição. Ou seja: aluno, sim. Professor da casa, não.
O caso irmão. Em 2019, o currículo de Wilson Witzel dizia que ele havia feito curso sanduíche em Harvard durante o doutorado na UFF. A apuração da Folha mostrou que ele nunca participou, e nem chegou a se inscrever na seleção. Em 2020, o mesmo jornal publicou que Yale não tinha registro de frequência de Ricardo Salles no mestrado em direito público que constava do currículo dele.
Como você pega. Universidade publica lista de docentes por departamento e lista de docentes credenciados por programa de pós. São duas listas curtas e abertas. Se o nome não está em nenhuma das duas, a pergunta certa não é "ele mentiu?". A pergunta certa é "qual foi o tipo de vínculo?", e quem responde isso por escrito é a universidade.
Erro 4. Honoris causa apresentado como título acadêmico
A homenagem vira diploma na cabeça de quem lê.
O caso. Em 10 de abril de 2025, o Aos Fatos, por Luiz Fernando Menezes, checou publicações que diziam que o presidente Lula havia falsificado um diploma. A história real era outra: a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia anunciou um título de doutor honoris causa, a Justiça suspendeu o título no dia seguinte, e alunos entregaram a ele um documento simbólico no lugar do diploma vetado. A checagem concluiu que "o diploma que aparece nas publicações, portanto, não é um documento falsificado, mas uma homenagem de alunos", "sem valor oficial".
Repare no que esse caso ensina, e é por isso que eu escolhi ele. Num episódio só, três documentos diferentes foram confundidos: homenagem simbólica de estudante, título honorífico de universidade e diploma acadêmico. Só o terceiro é grau.
Uma lacuna que eu registro. Eu procurei uma checagem de Aos Fatos, Agência Lupa, Estadão Verifica ou Folha sobre um candidato que tenha declarado honoris causa como grau de instrução no TSE. Não achei. Não vou inventar caso para fechar a lista bonitinha.
Como você pega. Honoris causa aparece na galeria de títulos honoríficos da universidade, que é pública (a Unifesp publica a dela, por exemplo). E não aparece como titulação no Lattes, nem como vínculo docente no Sucupira.
Erro 5. Especialização, MBA ou pós que não houve, chamada de mestrado
Lato sensu virando stricto sensu. Especialização e MBA são pós-graduação, sim, mas são outra categoria: não têm defesa de dissertação, não passam pela avaliação da CAPES e não dão grau de mestre.
O caso. Em janeiro de 2019, Damares Alves se apresentava como mestre em educação e em direito constitucional e de família. Procurada pela Folha de S.Paulo sobre em que instituições teria feito os cursos, a assessoria confirmou que os títulos acadêmicos não existiam. Ela explicou que o "mestre" era outro: "Diferentemente do mestre secular, que precisa ir a uma universidade para fazer mestrado, nas igrejas cristãs é chamado mestre todo aquele que é dedicado ao ensino bíblico". O currículo oficial dela no ministério listava graduação em direito pela Faculdade de Direito de São Carlos e em pedagogia pela Faculdade Pio Décimo. Ela não tinha currículo Lattes.
O caso irmão, deste ano. Em agosto de 2026, perfis oficiais de Flávio Bolsonaro no site do Senado, na Assembleia do Rio e no LinkedIn traziam uma pós-graduação em Ciência Política pela UFRJ. A universidade informou que ele nunca estudou lá. Em 12 de agosto, ele publicou os diplomas nas redes. A assessoria chamou a inclusão de "equívoco", disse que os dados teriam sido "possivelmente extraídos de páginas como a Wikipédia" e afirmou já ter pedido correção às plataformas. A formação confirmada pela equipe dele: direito pela Universidade Candido Mendes, pós em Políticas Públicas pelo Iuperj e MBA em Empreendedorismo pela FGV.
Os casos irmãos de 2020. A Folha registrou 22 inconsistências no currículo Lattes de Ricardo Vélez Rodriguez, ministro da Educação, incluindo coautores omitidos. E registrou que Abraham Weintraub publicou dois artigos idênticos em períodos diferentes.
Como você pega. Especialização e MBA se conferem no e-MEC, no cadastro do curso. Mestrado e doutorado, no Sucupira. Se o curso só existe como especialização e o currículo diz mestrado, o erro está ali, e é um erro de categoria, não de digitação.
O roteiro de 20 minutos, na ordem
- DivulgaCand (2 minutos). Anote ocupação, grau de instrução e baixe o plano de governo.
- Site oficial do candidato (3 minutos). Copie a biografia dele. Ela é a versão que ele quer que você leia.
- Wayback Machine (2 minutos). Veja a mesma biografia seis meses antes. Compare os verbos.
- Lattes (3 minutos). Procure contradição entre o que está lá e o que está no plano e no site.
- e-MEC (2 minutos). Confira a faculdade e a especialização.
- Sucupira (3 minutos). Confira o programa de mestrado ou doutorado e a lista de docentes credenciados.
- Carolina Bori (2 minutos), se algum diploma veio de fora.
- CFM ou OAB (1 minuto), se ele se apresenta como médico ou advogado.
- Google Acadêmico (2 minutos). Procure a dissertação ou a tese.
Se sobrar dúvida no fim disso, sobrou uma pergunta legítima, e quem responde é a instituição, não o adversário político dele. Escreva para a assessoria de imprensa da universidade. Elas respondem, e respondem por escrito.
O que pesa contra este método
O que eu penso, em primeira pessoa
Eu vou falar como marqueteiro, que é o que eu sou.
Biografia de campanha é peça de venda. Ela é escrita para convencer, e toda peça de venda tem um ponto onde o texto puxa a corda. "Maior especialista do mundo" ninguém confere, porque não dá. Agora, quando entra o nome de uma instituição pública, com sigla e tudo, a frase muda de natureza. Ela deixa de ser propaganda e vira um fato conferível. E fato conferível, num ano de eleição, é conferido.
Isso vale para os candidatos e vale para mim. Eu ponho a fonte no rodapé de cada matéria porque quero que você desconfie de mim também.
E tem uma coisa que eu aprendi lendo os comentários do meu perfil nesta semana. As pessoas não querem que alguém diga a elas em quem votar. Elas querem parar de se sentir idiotas. Querem ter na mão a resposta para o cunhado que chega com um print no grupo da família. Esse é o serviço que estes sete sites prestam. Não é para você virar fiscal de ninguém. É para você não engolir nem o ataque nem a defesa sem conferir.
Vinte minutos. Faltam poucas semanas para a urna. Escolha um candidato, qualquer um, e rode o roteiro. De preferência, comece pelo seu.
Perguntas que chegam nos comentários
O TSE não confere o currículo do candidato?
Não. Ocupação e grau de instrução são declarados pelo próprio candidato, numa lista fechada de opções. A Justiça Eleitoral confere outra coisa: quitação eleitoral, filiação, domicílio, certidões e prazos. Diploma não entra nessa conferência.
Então o Lattes serve para quê?
Para comparar e para achar o fio. Ele é preenchido pela própria pessoa, com login e senha, e o CNPq não audita diploma por diploma. O valor dele é este: se o Lattes diz uma coisa e o plano de governo diz outra, existe uma contradição documentada, e a pergunta passa a ser legítima.
Onde eu confiro um mestrado?
No Sucupira, da CAPES. É lá que ficam os programas de mestrado e doutorado, com nível, situação, nota e lista de docentes credenciados. No e-MEC ficam a instituição, a graduação e a especialização. Quem procura mestrado no e-MEC não acha e conclui errado.
Doutorado feito no exterior vale no Brasil?
Não automaticamente. Graduação estrangeira precisa ser revalidada; mestrado e doutorado estrangeiros precisam ser reconhecidos, sempre por universidade pública brasileira, pela Plataforma Carolina Bori, do MEC. Sem esse passo, o título existe no país de origem e não produz efeito aqui.
Professor convidado é professor da universidade?
Ele deu aula na universidade, o que é verdade e não é pouco. Mas não tem cargo, não fez concurso, não é funcionário e não aparece na lista de docentes credenciados. Quando o leitor comum lê "professor da universidade X", ele entende concursado. Por isso convidado pede a palavra "convidado" do lado, e pede a data.
Doutor honoris causa é doutorado?
Não. É homenagem aprovada por um conselho da universidade. Não exige curso nem tese, não autoriza exercício profissional e não permite registro em conselho de classe. Aparece na galeria de títulos honoríficos da universidade e não aparece como titulação no Lattes.
Como sei se a especialização é de verdade?
No e-MEC, procurando a instituição e o curso. Especialização e MBA são lato sensu: são pós-graduação, mas não dão grau de mestre nem de doutor, não têm defesa de dissertação e não passam pela avaliação da CAPES.
Achei uma diferença no currículo. E agora?
Primeiro, confira se não é desatualização, que é comum. Depois, procure a instituição, não o adversário político. Assessoria de imprensa de universidade responde por escrito, e resposta por escrito é o que transforma suspeita em informação. E guarde o print com a data, porque página some.
O resumo, para você mandar no grupo
Sete sites, de graça, no celular: TSE para o que ele declarou, Lattes para o que ele conta, e-MEC para a faculdade, Sucupira para o mestrado, Carolina Bori para diploma de fora, CFM e OAB para profissão, Wayback Machine para o que o site dizia antes.
Vinte minutos por candidato. Comece pelo seu. É assim que a conversa muda.







