A resposta curta, para quem não vai ler as quatro mil palavras.
Não é Nárnia. Polícia usando drone em ocorrência de violência contra mulher já aconteceu, com nome do preso, data e boletim, nos Estados Unidos, na Austrália e aqui em Minas Gerais. Mais de mil agências americanas já têm autorização para voar. A polícia de Londres persegue a meta de dois minutos. São Paulo abriu pregão de 365 drones. O Rio já recebeu 24 drones com alto-falante embutido.
E não é bem o que o Cury prometeu. No plano de governo que ele entregou ao TSE, o capítulo das mulheres ocupa oito páginas e não usa a palavra drone nenhuma vez.
As duas coisas são verdade ao mesmo tempo. É por isso que esta matéria existe.
De onde veio essa história de Nárnia
Eu li 798 comentários do meu próprio perfil na semana passada. O ataque mais curtido contra uma proposta do Augusto Cury foi este:
Esse Augusto Cury vive em Nárnia, como foi difícil assistir a sabatina.... sinceramente, eu esperava mais. Pode voltar para os livros 😂
O comentário é de @michelleegomess e recebeu 22 curtidas. Nárnia é o país mágico de um livro infantil onde os bichos falam. Chamar alguém de morador de Nárnia é dizer que a pessoa vive na fantasia.
Outro leitor foi mais direto sobre o motivo:
Sério que tão considerando Augusto Cury uma boa opção? O cara que pretende usar drones para proteção da mulher? Esse cara vive em um filme de ficção científica.
É de @jeffmartins16. A mesma objeção apareceu nove vezes na conversa, sempre com a mesma palavra: ficção.
Na outra ponta, dois leitores devolveram. Um deles, @hjsilva_0406, com 5 curtidas:
Quem vive em Nárnia é o povo brasileiro. O cara cita ideias envolvendo tecnologia e ficam todos abismados, como se fosse coisa de outro mundo.
E @emersonalves0, com 3:
Drones: não é drone de guerra nem drone "tacando bomba", gente! 😂 A proposta é usar drones como apoio em ocorrências, inclusive para inibir o agressor enquanto a polícia se desloca
Alguém ali estava certo e alguém estava errado. Dá para descobrir qual sem chutar. Só precisa ler o plano e checar quem já faz.
Eu já tinha escrito sobre a piada do drone e o que ela escondeu, quando mostrei que o crime organizado do Rio já jogava bomba de drone em policial no mesmo dia em que o Brasil ria. Esta matéria é outra coisa. Aqui é o inventário: quem já usa drone para proteger mulher, com data, valor e desfecho.
Primeiro, o que está escrito no papel
Todo mundo discutiu uma frase falada na televisão. Ninguém abriu o documento.
O plano de governo de Augusto Cury e do Avante está registrado no DivulgaCandContas do TSE e tem 200 páginas. Eu baixei o arquivo e li as 200 páginas inteiras. O projeto das mulheres é o Projeto 3, chamado Mulheres Vivas, e ocupa da página 86 à página 93.
Nessas oito páginas, a palavra drone aparece zero vez.
Eu conferi com busca automática no texto extraído do PDF, letra por letra. Não tem. O que tem, na página 88, é isto, literal:
Ampliaremos o uso de botões de alerta com geolocalização, aplicativos de emergência, monitoramento eletrônico de agressores nos casos determinados judicialmente, centrais integradas e protocolos de resposta prioritária para mulheres ameaçadas.
Botão, aplicativo e tornozeleira. Nada voando.
Duas linhas antes, na mesma página, está a frase que explica a urgência:
Em uma situação de violência doméstica, minutos podem representar a diferença entre a vida e a morte.
E logo depois:
O Estado não pode aparecer apenas para contabilizar mais uma vítima. Precisamos chegar antes do agressor.
Guarde essas três frases. Elas descrevem exatamente o problema que o drone resolveria, se alguém tivesse escrito a palavra ali.
Então onde é que está o drone?
Está na página 151. Sessenta e três páginas depois do capítulo das mulheres, em outro assunto: o capítulo que fala em usar as embaixadas brasileiras como vitrine dos projetos do país no exterior. Ali tem uma lista de projetos para mostrar lá fora, e um dos itens da lista é este, literal:
projetos de proteção à mulher, inclusive tecnologias preventivas com drones e sirenes em áreas críticas;
Uma linha. Dentro de uma lista. Em um capítulo sobre diplomacia.
A palavra drone aparece 19 vezes nas 200 páginas. As outras aparições são estas:
| Página | Onde o drone aparece no plano |
|---|---|
| 128 | Agro 4.0, drone agrícola junto com agricultura de precisão |
| 151 | A única linha que liga drone à proteção da mulher, no capítulo das embaixadas |
| 182 | "Drones de resposta rápida" contra incêndio florestal, com frotas regionais |
| 188 | Lista de tecnologia de segurança urbana: drone de patrulhamento e drone de emergência |
| 190 | Fronteiras inteligentes, drone junto com satélite, sensor e radar |
Conclusão honesta, e ela não favorece nenhum dos dois lados da briga: a frase que virou meme não estava no plano. Ela nasceu falada, na sabatina do Jornal Nacional de 29 de agosto de 2026. No papel, o eixo do projeto é botão e aplicativo. Na televisão, o candidato puxou o drone como exemplo, foi questionado sobre os municípios sem internet e recuou ao vivo:
Esqueça a questão do drone, por favor, pense em um aplicativo que possa ter uma resposta mais rápida.
Ele mesmo tirou o drone da mesa. Quem riu continuou rindo do que ele tinha acabado de retirar.
Agora vem a parte que ninguém foi conferir.
Nashville, 28 de maio de 2026
Uma mulher de 24 anos estava dirigindo na East Old Hickory Boulevard, no bairro de Madison, em Nashville, no estado do Tennessee. Estava discutindo com o pai dentro do carro. Ela encostou e mandou ele descer. Ele bateu nela. Dois socos no rosto.
Ela ligou para o 911.
Dentro do Community Safety Center da polícia de Nashville, um operador de drone ouviu essa ligação ao vivo, enquanto ela ainda estava acontecendo. Ele lançou um drone do telhado do distrito policial de Madison.

O drone viu um homem se afastando a pé e ficou em cima dele. O operador passou a posição para os policiais em terra. A prisão aconteceu na Neelys Bend Road, perto da Margaret Street.
Jackie Hopkins, 55 anos, foi preso por agressão doméstica e por porte de material para uso de droga.
A nota oficial da Metro Nashville Police Department descreve a parte do drone assim, literal:
spotted the suspect continuing to walk away and gave ground officers his location
Em português: viu o suspeito continuando a se afastar e passou a localização dele aos policiais em terra.
Isso está publicado no site oficial da prefeitura de Nashville, com data de 28 de maio de 2026. Não é protótipo, não é maquete, não é ficção científica. É um boletim de ocorrência.
O programa que fez isso se chama Drone as First Responder, o drone como primeiro a responder. Em Nashville ele ainda estava em fase de teste quando essa prisão aconteceu.
O inventário: quem já usa drone em ocorrência de violência
Fui atrás de caso documentado, não de promessa. Esta é a lista que consegui fechar com fonte e data.
| Onde | Quando | O que o drone fez |
|---|---|---|
| Nashville, Tennessee | 28 de maio de 2026 | Chegou 2 minutos antes do chamado existir, seguiu o agressor a pé e entregou a posição. Prisão por agressão doméstica |
| Placer County, Califórnia | julho de 2026 | Vasculhou por dentro um celeiro cheio de fardos de feno e achou o suspeito encaixado na pilha, sem policial subir às cegas |
| Colorado Springs, Colorado | 1º de junho de 2026 | Drone, cão e equipe tática numa ocorrência doméstica. Suspeito achado escondido dentro de um armário |
| Scottsboro, Alabama | 1º de julho de 2026 | Localizou um suspeito de violência doméstica, segundo a polícia local |
| Moree, Nova Gales do Sul, Austrália | 2 de agosto de 2026 | Flagrou o descumprimento de uma medida protetiva numa checagem em que a polícia não tinha achado ninguém em casa |
| Chula Vista, Califórnia | desde 2018 | Mais de 25 mil missões. Já localizou suspeito de violência doméstica escondido em acampamento com vegetação densa |
| Patrocínio, Minas Gerais | 17 de junho de 2026 | Localizou e acompanhou o agressor na fuga, passando coordenadas para a captura. Prisão em flagrante |
| Camaçari, Bahia | dentro da Operação Escudo das Marias | Ajudou a capturar homem acusado de agredir e perseguir a ex-companheira |
| Auburn, Washington | data não informada | Localizou suspeito de agressão em contexto doméstico dentro de um acampamento |
Nove ocorrências. Nenhuma inventada. Vou abrir três delas.
Austrália: o drone que estava a 480 quilômetros dali
Domingo, 2 de agosto de 2026, por volta das quatro e meia da tarde. Policiais de Nova Gales do Sul foram até a Boston Street, na cidade de Moree, fazer uma checagem de bem-estar. Bateram na porta. Não tinha ninguém.
Só que tinha.
Um drone do programa PolAir Remote estava no ar acima da casa. Ele viu uma pessoa sair de um galpão no quintal e entrar na casa de fininho. Os policiais entraram e fizeram a prisão minutos depois.
A pessoa presa tinha 28 anos e respondia por descumprir uma AVO, que é como os australianos chamam a medida protetiva. Também estava com a fiança quebrada. Teve pedido de fiança negado duas vezes e audiência marcada no tribunal de Moree.
Agora o detalhe que muda a conversa. Esse drone não foi levado por ninguém no porta-malas. Ele era pilotado de dentro do aeroporto de Bankstown, a cerca de 480 quilômetros de distância. É como se um policial em São Paulo pilotasse um drone sobre um quintal em Belo Horizonte.
Registro honesto, porque a fonte é pública e eu não escolho o que ela diz: neste caso quem descumpriu a medida protetiva era uma mulher. O que importa aqui é a distância de pilotagem, não quem foi preso. Se eu escondesse isso, você não teria motivo para confiar no resto.
Estados Unidos: passou de mil agências
Chula Vista, na Califórnia, começou em 2018 e virou o modelo que todo mundo copia. A polícia de lá já passou de 25 mil missões com drone. Cerca de 30% dos chamados atendidos são de perturbação, que é a categoria onde entra a briga dentro de casa. Em cerca de 17% das vezes o operador encerra o chamado sem precisar mandar viatura nenhuma.
O que mudou nos últimos dois anos foi a escala.
Autorizações da FAA para agências públicas voarem com drone nos Estados Unidos
Fonte: Electronic Frontier Foundation, julho de 2026
Em abril de 2025 a FAA, que é a agência de aviação americana, simplificou o processo. Em dez meses saíram mais autorizações do que nos sete anos anteriores somados. Hoje passa de mil agências de segurança pública com licença para voar, inclusive para voo automático e além do alcance da vista do piloto.
Quem publicou esse levantamento não é fã de drone. É a Electronic Frontier Foundation, entidade americana que defende direitos digitais e é uma das vozes mais duras contra vigilância policial. Volto nela mais para frente, porque ela também é a melhor fonte do que joga contra.
Reino Unido: a meta é dois minutos
Em 24 de outubro de 2025, a Polícia Metropolitana de Londres começou o primeiro programa de drone como primeiro a responder do Reino Unido. Começou no bairro de Islington, com plano de chegar ao West End e ao Hyde Park.
A meta declarada: ter um drone em cima da ocorrência em dois minutos.
Quem falou foi Laurence Taylor, que é Assistant Commissioner e responsável pelo tema drones no conselho nacional dos chefes de polícia britânicos. A frase dele, literal:
Our Drone as First Responder programme will see police resources arriving at crime scenes across London quicker
Em português: nosso programa de drone como primeiro a responder vai fazer os recursos policiais chegarem mais rápido às cenas de crime em Londres.
Aqui eu preciso ser exato, porque a tentação de esticar é grande. O comunicado da polícia de Londres não cita violência doméstica. Ele cita pessoa desaparecida, rastreamento de suspeito e coleta de prova. Quem quiser usar Londres como prova de drone contra feminicídio está esticando o que a fonte diz.
O programa se espalhou pelo país. Coventry entrou com dois drones em teste pela polícia de West Midlands. A polícia de Cleveland registrou 2.185 acionamentos de drone só em 2025.
Índia: o único país que montou uma força só para isso
Em agosto de 2026, o estado indiano de Tamil Nadu criou a Singappen Special Force, uma unidade policial dedicada exclusivamente à proteção de mulheres e crianças. Patrulha com drone em terminal de transporte, escola, universidade, praia, parque, mercado e ponto de maior incidência de crime. O foco declarado é perseguição, assédio sexual e tráfico de pessoas.
A verba anunciada para a primeira fase foi de 354 crore de rúpias. Crore é a unidade indiana que vale dez milhões. A segunda fase prevê 2.500 policiais a mais.
Ressalva: essa informação veio de publicação especializada em drones, não de veículo de imprensa geral nem de documento oficial do governo indiano. Não achei número de drones, tempo de resposta nem resultado medido. Registro como está: bem documentado, ainda sem prova de efeito.
Antes de Tamil Nadu, o estado de Uttar Pradesh já usava drone sobrevoando lajes e telhados na cidade de Lucknow, no projeto Safe City, junto com câmera de reconhecimento facial. A justificativa oficial era a segurança das mulheres. A crítica local foi imediata: vigilância em massa num estado sem lei forte de proteção de dados.
Onde eu procurei e não achei nada
Esta parte vale tanto quanto a lista de cima.
Espanha. Não existe programa espanhol de drone dedicado a proteger vítima de violência de gênero. A Guarda Civil tinha pelo menos 325 drones em 2023, usados em grande evento, busca de desaparecido e incêndio. O sistema espanhol de proteção à vítima se chama VioGén e funciona por avaliação de risco, sem drone nenhum. Quem disser que a Espanha já faz está errado.
México, Colômbia e Argentina. Nada. Na Argentina existe o DAMA, um botão ligado a uma central de operações no município de Tigre. Botão, não drone.
Israel. A polícia israelense aprovou em maio de 2026 o uso de drones contra criminalidade no sul do país, depois de um teste perto de Rahat. O equipamento decola na vertical, voa por horas e opera em silêncio, com câmera de dia e de noite. Não achei nenhuma ligação com violência doméstica. Fica registrado como capacidade existente, não como programa de proteção à mulher.
E o Brasil, faz ou não faz?
Faz. Em pedaços, sem nome de programa, e quase sempre por acaso.
Patrocínio, Minas Gerais, 17 de junho de 2026
Bairro Serra Negra. Duas irmãs, de 18 e 25 anos, foram ameaçadas de morte e agredidas pelo próprio irmão. O motivo registrado no boletim: uma delas tinha desligado a televisão.
A Polícia Militar chegou, o agressor correu. Em vez de sair atrás a pé, os militares subiram um drone. O drone localizou e acompanhou o homem durante a fuga, passando coordenadas precisas para a equipe em terra. Ele foi preso em flagrante, com 28 anos.
É o caso brasileiro mais próximo do que o candidato descreveu na televisão. Não teve sirene, não teve botão de pânico, não teve aplicativo. Teve um policial mineiro com um controle na mão.
Ressalva de apuração: a matéria é de um veículo local, a Módulo FM, e é a única fonte que achei para o caso. A página não abriu direito nas duas vezes que tentei. Trato como fonte única.
Camaçari, Bahia
A Polícia Civil da Bahia usou drone para capturar um homem de 38 anos acusado de agredir e perseguir a ex-companheira, dentro de uma operação com nome próprio: Operação Escudo das Marias. Não consegui a data exata, então não invento uma.
Brasília, 31 de março de 2026
Aqui tem o único caso brasileiro em que um drone foi entregue com a finalidade declarada de enfrentar violência doméstica.
A Polícia Militar do Distrito Federal recebeu 12 viaturas novas e um drone, por emenda parlamentar da senadora Damares Alves. O objetivo anunciado foi reforçar o atendimento pelo 190 e ampliar a rede de proteção a mulheres, crianças, idosos e pessoas com deficiência.
Um drone. Para o Distrito Federal inteiro.
São Paulo, 28 de outubro de 2025
Agora o número grande.
O Comando de Aviação da Polícia Militar de São Paulo, o CAvPM "João Negrão", abriu o pregão eletrônico PR-90028/2025 para comprar 365 drones táticos.
O pregão de drones da PM de São Paulo, aberto em outubro de 2025
A finalidade escrita no edital é ampla: operação tática, resgate, monitoramento e segurança pública em todo o estado. Não diz mulher em lugar nenhum. Mas 365 drones em um estado só é mais do que muita polícia europeia tem no país inteiro.
Separado disso, a PM de São Paulo já tinha 15 núcleos habilitados para operar drone, nove deles com o equipamento na mão, e um projeto de chegar a 250 aparelhos. O furto e o roubo caíram 30% na área coberta pelo programa de policiamento com drone.
Dois processos diferentes, em datas diferentes. Não somo os números e você também não deveria.
Rio de Janeiro, 17 de abril de 2024
E aqui está a parte que quase ninguém percebeu.
O Ministério da Justiça entregou 24 drones à Polícia Militar do Rio, a R$ 45 mil cada, num total de R$ 1,09 milhão, com dinheiro de emenda parlamentar pelo Fundo Nacional de Segurança Pública.
O modelo é o Mavic 3T Enterprise. Ele tem câmera térmica para enxergar no escuro, sensor para não bater em obstáculo e alto-falante acoplado para falar com quem está lá embaixo.
Volta comigo na página 151 do plano de governo: "tecnologias preventivas com drones e sirenes em áreas críticas".
O drone com o alto-falante já está comprado. Já está voando no Rio de Janeiro. Foi pago com dinheiro público em abril de 2024, dois anos antes de alguém chamar a ideia de Nárnia. Só não foi comprado pensando em mulher nenhuma.
A medida do nosso problema
Enquanto isso, em agosto de 2025, o governo do Rio investiu R$ 27 milhões na compra de 80 sistemas antidrone.
Busca e salvamento: onde o drone já salva mulher de verdade
Fora da violência doméstica, achar mulher com drone virou rotina no Brasil. Só em 2026:
- Caeté, Minas Gerais, 17 de agosto. Jandira Macedo de Castro, 95 anos, com Alzheimer, desaparecida havia mais de 24 horas numa área de mata. Achada viva por drone com câmera térmica somado a dois cães de busca, pelo Corpo de Bombeiros de Minas.
- Aripuanã, Mato Grosso, julho. Mulher de cerca de 40 anos, desaparecida havia dias, localizada em área de difícil acesso perto do Mirante da Cachoeira das Andorinhas, com reconhecimento aéreo por drone.
- Coronel Pilar, Rio Grande do Sul, junho. Idosa localizada em área com penhasco, pedra, vegetação densa e sanga. O drone foi decisivo.
Ninguém riu dessas três.
A conta, que é a parte que mais me interessa
| O que | Quanto custa | Onde |
|---|---|---|
| Drone tático, preço unitário estimado | R$ 63.300 | Pregão da PM de São Paulo, 2025 |
| Drone Mavic 3T Enterprise com câmera térmica e alto-falante | R$ 45.000 | Entrega do MJSP à PM do Rio, 2024 |
| Drone em pregão de cidade pequena | R$ 10.797 a R$ 43.723 | Capão da Canoa, Rio Grande do Sul, 2026 |
| Sistema antidrone | R$ 337.500 por unidade | Rio, 80 unidades por R$ 27 milhões, 2025 |
Um drone de polícia com câmera térmica custa menos que um carro popular zero. Uma cidade média consegue comprar dois com emenda de vereador.
O que custa caro não é o aparelho. É o resto: piloto certificado, central de operação funcionando 24 horas, manutenção, bateria de reposição e internet na delegacia. Chula Vista tem uma central com operador dedicado ouvindo o 911 ao vivo. É isso que faz o drone chegar em três minutos e meio. Não é o drone.
Os limites que ninguém coloca no vídeo de campanha
Drone não é mágica e tem limite físico que nenhuma verba resolve.
Bateria. Os modelos de linha voam de 31 a 51 minutos no papel do fabricante. Na prática, conte com 15% a 25% a menos. É o que dá meia hora de voo real, e depois o aparelho tem que pousar.
Vento. Vento de 30 km/h pode cortar até 40% da autonomia, porque o motor gasta energia só para ficar parado no lugar.
Frio. Abaixo de 15 graus a bateria de lítio perde capacidade visivelmente.
Chuva. A maior parte dos drones não é à prova d'água. A recomendação padrão do fabricante é simples: não voe. Ou seja, na noite de temporal, que é quando a ocorrência de violência doméstica aumenta, o drone fica em terra.

O buraco da proposta, e ele é grande
Este é o achado que mais me incomodou, e ele derruba a versão simpática da história.
Eu procurei, em português e em inglês, um programa público em operação que ligue o botão de pânico do aplicativo de uma mulher ao acionamento automático de um drone.
Não existe. Em lugar nenhum do mundo.
O que existe são as duas metades, separadas:
- O aplicativo com botão e localização, que chama viatura. Esse funciona. No Paraná chama Salve Maria, é da Polícia Militar, tem criptografia dos dados, cadastro validado por CPF e telefone, e é voltado para mulher com medida protetiva. Virou lei estadual e entrou no Código da Mulher Paranaense.
- O drone como primeiro a responder, acionado por um operador humano que está ouvindo a ligação de emergência ao vivo. Esse também funciona, e foi o que prendeu o agressor em Nashville.
A junção das duas metades aparece em artigo acadêmico de conceito. Não aparece em política pública nenhuma.
Então a resposta completa é esta: a peça existe, a outra peça existe, ninguém no mundo parafusou uma na outra. Quem promete a junção está prometendo algo inédito. Inédito não é impossível, mas também não é "já funciona lá fora".
O que eu penso
Daqui para baixo é opinião minha, e está marcada como opinião.
Rir custa zero. Checar custa uma noite de trabalho.
Eu passei essa noite e achei nove ocorrências com drone em caso de violência, quatro países, um pregão de 365 aparelhos em São Paulo e 24 drones com alto-falante já voando no Rio. Nada disso é segredo de Estado. Tudo está em site de prefeitura, portal de licitação e comunicado de polícia.
Também achei o que atrapalha a versão bonita: a palavra drone não está no capítulo das mulheres do plano; o próprio candidato desistiu do exemplo ao vivo; e o modelo que ele descreveu não roda em lugar nenhum do mundo.
As duas coisas cabem na mesma matéria. Cabem, inclusive, na mesma frase: ele errou o exemplo e quem riu errou o assunto.
O que me incomoda não é o deboche. É o deboche com sotaque de superioridade. "Vive em Nárnia" é uma frase que se escreve em oito segundos e que dispensa quem escreveu de saber qualquer coisa sobre o tema. É exatamente o contrário do que a gente devia estar fazendo a três semanas de uma eleição.
E tem uma pergunta que continua sem resposta, para qualquer candidato, não só para este. O drone com alto-falante já está comprado. Já está voando no Rio desde 2024. Ninguém apertou o botão para usá-lo do lado da mulher ameaçada.
Nárnia é acreditar que a tecnologia resolve sozinha. Mas fingir que não existe o que já está no hangar, comprado com dinheiro público, também é morar em outro país.
Perguntas que chegam nos comentários
Afinal, o plano de governo do Cury propõe drone para proteger mulher?
Não no capítulo das mulheres. O projeto Mulheres Vivas ocupa as páginas 86 a 93 e não usa a palavra drone nenhuma vez. Fala em botão de alerta com geolocalização, aplicativo de emergência e tornozeleira no agressor. A única linha que liga drone à proteção da mulher está na página 151, no capítulo sobre usar as embaixadas como vitrine dos projetos brasileiros.
Existe polícia que já usa drone em ocorrência de violência doméstica?
Existe, com caso documentado. Em Nashville, nos Estados Unidos, um drone chegou dois minutos antes de o chamado ser criado e ajudou a prender um agressor em 28 de maio de 2026. Em Moree, na Austrália, um drone pilotado a 480 quilômetros flagrou o descumprimento de uma medida protetiva em 2 de agosto de 2026. Em Patrocínio, Minas Gerais, a PM localizou e acompanhou um agressor em fuga com drone em junho de 2026.
Quantas polícias já voam com drone?
Nos Estados Unidos, mais de mil agências de segurança pública tinham autorização da FAA em fevereiro de 2026. Entre abril de 2025 e fevereiro de 2026 saíram mais autorizações do que nos sete anos anteriores somados.
Quanto custa um drone de polícia?
No pregão da PM de São Paulo de outubro de 2025, o preço unitário estimado foi de R$ 63.300 para 365 drones táticos. Os 24 drones entregues pelo Ministério da Justiça à PM do Rio em 2024 custaram R$ 45 mil cada. Em cidade pequena, o valor cai para a faixa de R$ 10 mil a R$ 43 mil.
O drone funciona com chuva e à noite?
À noite funciona, com câmera térmica, que é o caso dos aparelhos entregues ao Rio. Com chuva, não. A maior parte dos drones não é à prova d'água e a recomendação do fabricante é não voar. Vento de 30 km/h pode cortar até 40% da bateria.
Já existe aplicativo que aciona drone automaticamente quando a mulher aperta o botão?
Não achei nenhum programa público assim, nem no Brasil nem no exterior. Existe o aplicativo com botão que chama viatura, como o Salve Maria da PM do Paraná. E existe o drone acionado por um operador que ouve a ligação de emergência ao vivo. A junção automática das duas coisas só aparece em artigo acadêmico de conceito.
O que fica
Uma frase mal escolhida na televisão custou ao candidato uma semana de piada. Justo, faz parte.
Mas o Brasil comprou 365 drones em um pregão, recebeu 24 com alto-falante no Rio e gastou R$ 27 milhões para derrubar os drones do crime. Tudo isso enquanto ria de quem falou em drone.
A ideia já estava no hangar. Só faltou alguém perguntar para que ela serve.
Se você quiser o resto da história, eu já contei o que aconteceu quando o Brasil riu do drone e o Comando Vermelho não riu e já li as 200 páginas do plano inteiro, projeto por projeto.







