Xapuri, Acre, começo de 1989. Fazia poucas semanas que Chico Mendes tinha sido assassinado.
Na cidade havia um menino de 13 anos sob proteção policial. O nome dele era Genésio Ferreira da Silva, e ele era uma das testemunhas-chave do caso.
O repórter que o Jornal do Brasil tinha mandado para cobrir o crime achava que o menino ia ser morto. Então fez uma coisa que repórter não costuma fazer. Levou Genésio para o Rio de Janeiro.
Anos depois, contou a chegada assim, segundo o Observatório da Imprensa:
"Cheguei com o Genésio debaixo do braço, apresentei para minha mulher e meus dois filhos."
O menino ficou sob a tutela dele até completar 18 anos, de acordo com o Portal Acre. O repórter resumiu a escolha numa frase:
"Era reportar uma morte ou evitá-la."
O repórter era Zuenir Ventura.
A morte, esta semana
Zuenir morreu na manhã de terça-feira, 22 de setembro de 2026, em casa, no Rio, aos 95 anos, por complicações de uma pneumonia. A informação é da Agência Brasil.
Foi velado no dia 23 na Academia Brasileira de Letras e sepultado no mausoléu da ABL, no Cemitério São João Batista.
A historiadora Lilia Schwarcz escreveu: "Hoje o Brasil perdeu um homem justo." O filho, Mauro Ventura, o descreveu como "o ser humano mais generoso, irreverente, brincalhão e acolhedor que conheci". Miriam Leitão se despediu com "Eternamente, nosso mestre Zu". As três frases foram reunidas pelo Perfil Brasil.
O filho do pintor
Zuenir Ventura nasceu em 1º de junho de 1931, em Além Paraíba, Minas Gerais. O pai, Antônio José Ventura, era pintor de parede. A mãe, Herina, cuidava da casa.
Aos 11 anos, ele já trabalhava com o pai na pintura, segundo a Wikipédia. O Correio Braziliense registra que, antes do jornalismo, foi office boy e professor primário. Formou-se em Letras Neolatinas.
Ele mesmo dizia, numa frase citada pelo Perfil Brasil: "Tudo na minha vida aconteceu por acaso."
Como entrou no jornal
O primeiro emprego em redação foi no arquivo da Tribuna da Imprensa, no Rio. Ele trabalhava à noite, enquanto estudava.
A virada veio com uma morte. Em 1960, morreu o escritor francês Albert Camus. De acordo com o Correio Braziliense, "como era fascinado pela obra de Camus, se ofereceu para escrever". Foi o primeiro texto publicado dele.
No mesmo ano ganhou uma bolsa para o Centro de Formação de Jornalistas, em Paris, onde ficou até 1961, segundo a biografia da ABL. Na volta, passou por Correio da Manhã, O Cruzeiro, Fatos & Fotos, Visão, Veja, Jornal do Brasil e O Globo.
A prisão
Em dezembro de 1968, a ditadura baixou o Ato Institucional nº 5. Zuenir foi preso por três meses, segundo a Rádio Senado.
Em 1976, depois da morte do jornalista Vladimir Herzog, assinou o manifesto "Em Nome da Verdade", que contestava a versão oficial. O Observatório da Imprensa conta 1.004 jornalistas signatários.
O livro que não terminou
Em 1988, publicou "1968: o ano que não terminou". A ABL registra mais de 400 mil exemplares vendidos em 48 edições. O livro inspirou a minissérie "Anos Rebeldes", segundo o Correio Braziliense.
No fim daquele mesmo ano, em 22 de dezembro de 1988, Chico Mendes foi morto em Xapuri.
O Acre de Chico Mendes
Semanas depois, o Jornal do Brasil mandou Zuenir para o Acre. Ele ficou cerca de um mês na região, no começo de 1989, de acordo com o Portal Acre.
A série de reportagens se chamou "O Acre de Chico Mendes". Ganhou o Prêmio Esso e o Prêmio Vladimir Herzog.
Foi nessa viagem que ele conheceu Genésio. Quinze anos depois, em 2003, voltou ao Acre para terminar a história e publicou "Chico Mendes: Crime e Castigo", com o julgamento dos assassinos. A Amazônia Real registra que o trabalho ajudou na condenação dos irmãos Alves.
Em 2018, a jornalista Kátia Brasil o convidou para participar de um documentário sobre Genésio. Ela contou à Amazônia Real: "Zuenir ficou muito emocionado com o convite para participar do documentário do Genésio, quis saber como ele estava."
O resto da obra
Em 1994, publicou "Cidade Partida", sobre a violência no Rio. Ganhou o Prêmio Jabuti de reportagem. Em 2008, recebeu um troféu especial da ONU pelo trabalho em direitos humanos.
Em 30 de outubro de 2014, foi eleito para a cadeira 32 da Academia Brasileira de Letras com 35 dos 37 votos. Sucedeu Ariano Suassuna. Tomou posse em 6 de março de 2015.
Sobre o ofício, deixou uma frase que todo jornalista entende, citada pelo Correio Braziliense: "Detesto escrever. Gosto de ter escrito."
Os números
| Ano | Fato |
|---|---|
| 1931 | Nasce em Além Paraíba (MG), filho de pintor de parede |
| 1960 | Primeiro texto publicado: o obituário de Albert Camus |
| 1968 | Preso por três meses depois do AI-5 |
| 1976 | Assina o manifesto sobre a morte de Herzog, com 1.004 jornalistas |
| 1988 | Publica "1968: o ano que não terminou" (400 mil exemplares) |
| 1989 | "O Acre de Chico Mendes": Prêmio Esso e Prêmio Vladimir Herzog |
| 1989 | Leva Genésio, de 13 anos, para morar com a família no Rio |
| 1994 | "Cidade Partida", Prêmio Jabuti |
| 2003 | "Chico Mendes: Crime e Castigo" |
| 2014 | Eleito para a ABL, cadeira 32, com 35 de 37 votos |
| 2026 | Morre no Rio, aos 95 anos |
O que joga contra, e entra
Repórter pode se envolver assim com a história? A regra do ofício manda manter distância da fonte. Zuenir quebrou a regra e explicou por quê: entre reportar uma morte e evitá-la, escolheu evitar. O menino era testemunha do caso e estava sob proteção policial. Cada leitor pode julgar. O fato é que Genésio viveu.
Ele foi torturado na prisão? Não afirmo isso. A Wikipédia registra que ele relatou não ter sofrido tortura física. O que está confirmado é a prisão de três meses depois do AI-5.
Quando começou no jornalismo? As fontes divergem. A ABL e o Observatório da Imprensa falam em 1956, no arquivo da Tribuna da Imprensa. O Perfil Brasil dá 1960. O primeiro texto publicado, o de Camus, é de 1960, ano da morte do escritor.
A cadeira já tem candidato. Dois dias depois da morte, o médico Drauzio Varella anunciou que vai disputar a vaga, segundo o TMC. Eleição não tem data.
A resposta
Por que um repórter levaria para casa a testemunha da reportagem?
Porque ele achou que o menino ia morrer. Zuenir Ventura, filho de um pintor de parede de Minas, que entrou no jornal pedindo para escrever sobre a morte de Camus, que foi preso pela ditadura e que escreveu o livro sobre o ano que não terminou, voltou do Acre com um garoto de 13 anos e o criou até a maioridade.
Contou a história do crime, ajudou a levar os assassinos a julgamento e manteve o menino vivo. Foi o repórter inteiro que ele foi.








