Sexta-feira, 25 de setembro. O presidente Lula assina a medida provisória que proíbe as plataformas de apostas esportivas no Brasil. A MP entra em vigor na publicação no Diário Oficial, nove dias antes do primeiro turno (Metrópoles).
No mesmo dia, três rostos que venderam aposta nas redes passaram a ser cobrados por isso. Cada um reagiu de um jeito.
Felipe Neto: o arrependimento
Felipe Neto divulgou a Blaze por cerca de dez meses, segundo o Estado de Minas e a Revista Fórum. A parceria foi citada na CPI das Bets do Senado, em 2025.
Depois da MP, ele escreveu no X, na sexta-feira (25): "Foi a pior coisa q fiz na vida. Não fiquei com o dinheiro e ainda fiquei com a fama de ter ficado com o dinheiro." E acrescentou: "considero bem feito pra mim. Ninguém mandou ser burro e ganancioso."
Ele se declarou "100% do lado da proibição das bets" e fez uma previsão sobre os colegas que vão mudar de país: "Anotem, eles vão fazer isso. A lei tem que prever a derrubada da conta na rede social, ou eles vão fazer isso" (Revista Fórum).
Não é a primeira vez. Em 2024, Felipe Neto já tinha chamado a publicidade de "maior erro" da vida e dito que destinaria os ganhos a projetos sociais, segundo a Revista Fórum. Eu não encontrei confirmação independente de para onde foi esse dinheiro.
Rico Melquiades: a mudança
Rico Melquiades, que tem contratos com casas de apostas, anunciou nas redes, na sexta (25), que vai deixar o país. As frases, reproduzidas pelo Metrópoles:
"Próximo mês eu não serei mais um cidadão brasileiro."
"Vou continuar gravando conteúdo para vocês aqui, mas não vou mais residir no Brasil. Eu vou morar em Portugal."
A reação foi de chacota. Rico já tinha sentado na mesa da CPI das Bets: a Agência Senado o fotografou depondo em 14 de maio de 2025.
Ele não disse que vai divulgar apostas de Portugal. Quem disse isso foram internautas, nos comentários.
Virginia Fonseca: o processo
O caso de Virginia é o único dos três que está na Justiça.
O Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) move uma ação civil pública contra ela e a Foggo, operadora da Blaze. Pede R$ 120 milhões por dano moral coletivo e a condenação solidária das duas (Metrópoles, coluna de Fábia Oliveira, 22/09). A 1ª Promotoria de Defesa do Consumidor acusa a Blaze de usar "padrões enganosos e técnicas de gamificação para induzir consumidores vulneráveis ao risco" (BNLData).
Virginia é ré, e não foi condenada. A defesa dela diz que ela não tinha "qualquer atuação na operação da plataforma", que não se envolveu "na administração dos jogos, resultados, saques ou depósitos" e que "seu pagamento era, em regra, fixo, com remunerações mensais vinculadas às entregas de publicidade" (Metrópoles). Ela nega que ganhasse mais quando o apostador perdia.
Em 24 de setembro, a Folha de S.Paulo revelou o tamanho do contrato, com base em pessoas que tiveram acesso ao documento: cerca de R$ 100 milhões por 18 meses, a partir de julho de 2024 (BNLData e DOL). A Blaze borrou os valores ao juntar o contrato ao processo. Virginia pediu à Justiça que contratos, aditivos, vídeos e transcrições fiquem sob sigilo.
Uma semana antes, em 17 de setembro, O Tempo noticiou que a Justiça proibiu Virginia de ficar mais de 20 dias fora do país, sob risco de retenção do passaporte, depois de mais de 40 mil reclamações contra a Blaze.
A virada
Durante anos, a pergunta sobre bets foi feita às casas de aposta: se pagam imposto, se estão autorizadas, quanto faturam. A MP de 25 de setembro mudou o alvo da conversa. Com o produto proibido, quem fez a propaganda virou o assunto.
O governo pôs um número na mesa no mesmo dia. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, disse que as bets custam ao país R$ 38,8 bilhões por ano em prejuízo social, com base num estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde, o Iepes (Revista Fórum).
Os números
| Dado | Valor | Fonte |
|---|---|---|
| Tempo de Felipe Neto com a Blaze | cerca de 10 meses | Estado de Minas |
| Contrato de Virginia com a Blaze | cerca de R$ 100 milhões em 18 meses | Folha, via BNLData |
| Valor pedido pelo MPDFT | R$ 120 milhões | Metrópoles |
| Reclamações contra a Blaze | mais de 40 mil | O Tempo |
| Limite de viagem de Virginia | 20 dias | O Tempo |
| Prejuízo social estimado das bets | R$ 38,8 bilhões por ano | Padilha, via Revista Fórum |
| Distância da MP ao primeiro turno | 9 dias | Metrópoles |
O que ainda não está claro
Três pontos, que eu não consegui fechar com documento:
- Quem decidiu a restrição de viagem de Virginia, e em que processo. O Tempo escreve "Justiça proíbe", mas no mesmo texto atribui a decisão ao Ministério Público.
- Quando a parceria Virginia e Blaze acabou. O Tempo fala em agosto de 2026. Outros textos trazem datas diferentes.
- O que a MP diz sobre influenciadores. Felipe Neto pede que a lei preveja a derrubada de contas de quem divulgar do exterior. O texto que eu li não detalha se a medida já faz isso.
O que joga contra, e entra
"Felipe Neto só se arrependeu agora porque ficou fácil." Ele já tinha dito algo parecido em 2024, dois anos antes da proibição. O que mudou em 2026 foi o tom: desta vez, ele se chama de "burro e ganancioso" com todas as letras e pede punição para quem continuar.
"A Virginia já foi condenada." Não foi. Ela responde a uma ação civil pública em andamento e tem defesa nos autos. O que existe contra ela, até aqui, é acusação, valor de contrato revelado pela imprensa e uma restrição de viagem.
"Influenciador só fez publicidade de uma empresa que funcionava." É o argumento da defesa, e ele tem peso: fazer propaganda não é operar o jogo. O MPDFT sustenta outra tese, a de que a propaganda fazia parte do mecanismo de atrair o consumidor vulnerável. Quem decide é o juiz.
"Rico vai continuar divulgando de Portugal." Ele não disse isso. Disse que vai morar lá e continuar gravando conteúdo. O resto é suposição.
A resposta
E quem fez a propaganda?
Por enquanto, responde de três formas diferentes. Virginia responde na Justiça, como ré, num processo de R$ 120 milhões. Felipe Neto responde para o público, com um pedido de desculpas que já tinha ensaiado em 2024. Rico responde com a mala.
A MP fechou a porta das casas de aposta. A conta de quem vendeu a aposta ainda está aberta, e vai ser decidida no tribunal, não no X.







