Na quinta-feira, 24 de setembro, o brasileiro que abriu o celular de manhã leu que Lula estava ganhando. Depois leu que Flávio estava ganhando. Depois leu que estava empatado.
As três coisas saíram no mesmo dia. As três vieram de pesquisa registrada no Tribunal Superior Eleitoral. Nenhuma delas mentiu.
Eu passei a sexta-feira abrindo uma por uma para entender o que separa a primeira da terceira. A resposta cabe em seis perguntas que você consegue fazer sozinho, e é isso que este texto entrega.
O que saiu, e de quem
Seis institutos divulgaram cenário de segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro na mesma semana.
| Instituto | Campo | Amostra | Como coletou | Margem | Lula | Flávio |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Datafolha | 22 e 23/09 | 2.002 | presencial | 2 pp | 47% | 45% |
| AtlasIntel | 17 a 22/09 | 5.015 | digital | 1 pp | 50,2% | 49,8% |
| PoderData/Aya | 20 a 23/09 | 3.000 | telefone | 1,8 pp | 45% | 46% |
| Palver | 20 a 23/09 | 5.000 | recrutamento digital | 2,5 pp | 45% | 48% |
| Real Time Big Data | 19 a 23/09 | 2.000 | telefone e digital | 2 pp | 44% | 45% |
| Futura | 19 a 23/09 | 2.000 | não detalhado | 2,2 pp | 43,7% | 49,4% |
O número de Flávio vai de 45% a 49,4% na mesma semana. O de Lula, de 43,7% a 47%.
Antes de gritar fraude, vale saber o que cada linha dessa tabela está de fato medindo.
1. Voto total e voto válido não são a mesma conta
O Datafolha publica voto total. Os 47% de Lula e os 45% de Flávio dividem espaço com 7% de branco, nulo e nenhum, mais 1% de indeciso. Os cem por cento incluem quem não quer nenhum dos dois.
O AtlasIntel publica também em voto válido, que joga branco, nulo e indeciso fora da conta antes de calcular. Por isso o número dele aparece perto de 50% para os dois.
Colocar 47% do Datafolha ao lado de 50,2% do AtlasIntel e dizer que um subiu três pontos é erro de leitura. São duas contas com denominadores diferentes.
Detalhe que prova o ponto: na rodada anterior do próprio AtlasIntel, de 11 a 16 de setembro, o voto total dava Flávio com 47,2% e Lula com 46,8%.
2. Margem de erro vale para cada número, não para a distância entre eles
Este é o erro mais comum, e o mais caro.
No Datafolha, a margem é de 2 pontos. Isso significa que Lula está em algum lugar entre 45% e 49%. E Flávio, entre 43% e 47%.
Repare que os dois intervalos se cruzam. Existe um cenário matematicamente compatível com a pesquisa em que Flávio tem 47% e Lula tem 45%. Isso se chama empate técnico, e é a leitura correta de 47 a 45 com margem de 2.
Mesma coisa no PoderData/Aya: 46 a 45 com margem de 1,8 ponto é empate.
Quem diz "o Datafolha deu Lula ganhando" está contando uma história que a própria pesquisa não autoriza.
3. Quem atende a porta não é quem atende o telefone
Aqui está a diferença de verdade.
O Datafolha trabalha predominantemente com entrevista presencial, gente na rua e na casa das pessoas. O PoderData/Aya fez 3.000 entrevistas por telefone, fixo e celular, em 723 municípios dos 27 estados, discando dezenas de milhares de vezes até fechar as cotas. O Palver recrutou 5.000 respondentes por anúncio em rede social, com formulário online de link único, em amostra não probabilística ajustada por cotas de sexo, idade e geografia. O Real Time Big Data misturou telefone e recrutamento digital.
Cada porta dessas abre para um Brasil diferente. Quem clica num anúncio de rede social às onze da noite não é o mesmo perfil de quem atende telefone fixo às três da tarde, nem de quem abre o portão para um entrevistador com prancheta.
Os institutos corrigem isso com ponderação, usando IBGE e TSE como referência. Corrigem bem, mas não corrigem igual. É aí que nascem os quatro pontos de diferença.
4. Uma semana de campanha cabe entre uma pesquisa e outra
O AtlasIntel fechou o campo em 22 de setembro. O Futura começou em 19. O Datafolha ouviu gente nos dias 22 e 23.
Parece pouco. Numa campanha em que o debate da Globo, o cancelamento do debate da Record e o anúncio do fim das bets aconteceram na mesma semana, não é pouco.
Comparar pesquisas com campos diferentes e chamar a diferença de "erro do instituto" ignora que os dois estão medindo semanas ligeiramente diferentes.
5. Estimulada e espontânea contam histórias distintas
No Datafolha de 24 de setembro, a pergunta estimulada mostra a cartela com os treze nomes da urna. Resultado: Lula 40%, Flávio 36%, Augusto Cury 5%, Ronaldo Caiado 4%, Renan Santos 3%, Romeu Zema 1%, Samara Martins 1%.
A pergunta espontânea não mostra nada. O entrevistado fala o nome que lembra. Resultado: Lula 36%, Flávio 27%, Cury 3%, Renan 2%, Caiado 2%, Zema 0%. E 18% de indecisos.
Na estimulada, a distância é de 4 pontos. Na espontânea, é de 9.
Tem mais. Na espontânea, 4% dos entrevistados citaram Jair Bolsonaro, que não é candidato. Esses 4% são um pedaço do eleitorado que ainda não fez a transferência de nome, e ele vale mais que a diferença entre qualquer duas dessas pesquisas.
6. Está registrada? O número está na matéria?
A regra do TSE é simples de conferir e quase ninguém confere.
Toda pesquisa destinada à divulgação pública tem de ser registrada no sistema PesqEle com antecedência mínima de cinco dias. No registro entram o nome de quem contratou e quanto pagou, a origem do dinheiro, o plano amostral inteiro, a ponderação por sexo, idade, escolaridade e nível econômico, o questionário completo, e o nome e o registro profissional do estatístico responsável.
Na hora de publicar, o veículo é obrigado a informar o número do registro. Publicar pesquisa sem registro é infração eleitoral sujeita a multa.
Guarde os números desta semana: Datafolha BR-00304/2026, AtlasIntel BR-04739/2026, PoderData/Aya BR-01739/2026, Palver BR-09587/2026, Futura BR-05268/2026. Com esse código você abre o registro no site do TSE e lê o questionário que fizeram. Sem esse código na matéria, desconfie.
Datafolha foi contratado por Folha de S.Paulo e Globo. Palver, PoderData e Futura declararam recursos do próprio instituto.
O que deu errado em 2022, sem suavizar
Quem diz que pesquisa erra tem um caso forte, e é honesto colocá-lo aqui.
No primeiro turno de 2022, a urna deu Lula 48,4% e Bolsonaro 43,2%, vantagem de 5,23 pontos. A última rodada do Datafolha projetava 50% a 36%. A do Ipec, 51% a 37%. Os dois projetavam 14 pontos de vantagem.
O erro na diferença foi de quase 9 pontos, com margem declarada de 2.
Quem chegou perto foram Paraná Pesquisas, com 47,1% a 40%, e AtlasIntel, com 50,3% a 41,1%. No segundo turno daquele ano, quatro pesquisas acertaram dentro da margem: MDA, Datafolha, Paraná Pesquisas e Quaest.
O mesmo Datafolha errou feio em outubro e acertou em novembro. Isso diz alguma coisa sobre o que uma pesquisa é: uma fotografia com tremor, não uma profecia.
A tese do voto envergonhado, e quem a contesta
A explicação mais repetida para o erro de 2022 é que o eleitor de direita esconde o voto.
Raphael Nishimura, estatístico e diretor de operações de amostragem da Universidade de Michigan, que colabora voluntariamente com o Palver, disse ao Correio Braziliense em 24 de setembro que a hipótese não se sustenta nos testes feitos nos Estados Unidos: "estudos testaram essa hipótese nos Estados Unidos para eleitores do presidente Donald Trump e não encontraram evidências de que isso ocorra".
Sobre a comparação de metodologias feita pela American Association for Public Opinion Research, ele completou: "a gente não tem aqui evidências suficientes que sustentem essa hipótese do voto envergonhado".
O que ele aponta como problema real no Brasil é outro: "a maioria deles empurra com a barriga. Eles botam o mínimo para passar".
O que joga contra, e entra
"Pesquisa é comprada." O registro no TSE obriga a declarar quem pagou e quanto. Você abre e lê. Se um instituto tivesse dono oculto, a fraude estaria no documento público, não no resultado.
"Erraram tudo em 2022, não vale nada." Erraram a diferença por 9 pontos no primeiro turno e acertaram dentro da margem no segundo. As duas coisas são verdade, e ignorar uma delas é escolher a metade que serve.
"O instituto X é de esquerda." A divergência desta semana tem explicação técnica documentada: presencial, telefone e recrutamento digital alcançam públicos distintos, e voto total e voto válido são contas diferentes. Antes de acusar ideologia, confira o denominador.
"Se tudo é empate técnico, para que serve a pesquisa?" Para tendência. Em 14 de janeiro, a Quaest dava a Lula 7 pontos de vantagem no segundo turno. Em julho, o Datafolha dava 8. Em setembro, quatro dos seis institutos colocam Flávio na frente. A direção do movimento é a informação, não o número de hoje.
"Então não devo acreditar em nenhuma." Deve acreditar no conjunto. Uma pesquisa isolada é um ponto. Seis pesquisas na mesma semana são uma nuvem, e essa nuvem, nesta semana, diz uma coisa só: a eleição está dentro da margem de erro.
A resposta
Nenhum dos quatro está errado. Eles estão medindo coisas parecidas com réguas diferentes, e publicando em unidades diferentes, em semanas ligeiramente diferentes.
O que a rodada inteira diz, quando você para de escolher o instituto que te agrada, é que a diferença entre Lula e Flávio cabe dentro do erro de qualquer uma dessas pesquisas. Isso não é indefinição do instituto. É indefinição do eleitorado, e foi ele quem produziu esse empate.
Em 4 de outubro, a única pesquisa com margem de erro zero abre às oito da manhã.







