Revista De Castro

Cinema e TV / 25 de setembro de 2026

Eu fui checar

O ministro ligou o filme do Bolsonaro ao dinheiro do PCC. Eu fui ler o que ele disse.

Na terceira fase da Carbono Oculto, em 24 de setembro, o Ministério Público de São Paulo mirou a empresa apontada como canal de US$ 12,3 milhões enviados a um fundo no Texas que financiou o Dark Horse. O ministro da Fazenda falou em dinheiro do crime no mesmo bolso. Aqui está o caminho do dinheiro, o que está em documento, as negativas de cada citado, e a diferença entre investigação, denúncia e condenação.

Publicado
25 de setembro de 2026
Atualizado
25 de setembro de 2026
Editoria
Cinema e TV
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7 min
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18 citadas
Alan Santos / PR / Wikimedia Commons, CC BY 3.0 BR
Alan Santos / PR / Wikimedia Commons, CC BY 3.0 BR

Antes de qualquer coisa, três frases que precisam ficar de pé até o fim desta matéria.

Ninguém foi condenado. Não há denúncia oferecida. E Jair Bolsonaro não é investigado na operação que deu origem a esta história.

Dito isso, aqui está o que aconteceu em 24 de setembro.

A operação

O Ministério Público de São Paulo, pelo Gaeco, com apoio da Receita Federal e das polícias Civil e Militar paulistas, deflagrou a Operação Crédito Oculto, terceira fase da Carbono Oculto, que apura infiltração do crime organizado na cadeia de combustíveis.

Foram 29 mandados de busca e apreensão, em São Paulo e em mais seis estados, contra 13 pessoas físicas e 24 pessoas jurídicas, segundo o Correio Braziliense. O ND+ informa que o valor investigado nesta fase passa de R$ 120 milhões.

Os alvos nomeados: Humberto Arthur Tupinambá Neto, ex-diretor do Banco Genial, os irmãos dele André e Bruno Tupinambá, e Antonio Carlos Freixo Júnior, o "Mineiro", dono da Entre Investimentos.

Onde entra o filme

A Entre Investimentos é apontada pela investigação como a empresa que Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, usou para enviar pelo menos US$ 12,3 milhões ao Havengate Development Fund, um fundo sediado no Texas.

Esse fundo financiou o Dark Horse, a cinebiografia de Jair Bolsonaro.

Segundo o ministro da Fazenda, Dario Durigan, foram sete repasses entre fevereiro e setembro de 2025, por determinação de Vorcaro.

Em delação premiada, Freixo Júnior afirmou ter enviado mais de R$ 60 milhões a um fundo no Texas para financiar o filme, conforme a CartaCapital.

O que Durigan disse, sem corte

Esta é a parte que várias manchetes apertaram demais. Vale ler inteiro.

"Tudo indica que o recurso que dá liquidez para essas operações vem de uma mesma entidade, vem de um mesmo bolso."

"O grupo Entre recebia dinheiro tanto do grupo do Master quanto do crime organizado dentro de um mesmo bolso."

E, quando perguntado sobre a origem ilícita dos recursos:

"É muito complicado você identificar o que é cada coisa."

Leia de novo a última. O ministro não afirmou que o dinheiro que pagou o filme é dinheiro do PCC. Ele afirmou que a mesma empresa recebia recursos das duas origens e que separar é difícil. A diferença entre as duas frases é a diferença entre uma acusação e uma hipótese de trabalho.

Durigan disse ainda: "Nós estamos olhando para o andar de cima e para o envolvimento de estruturas importantes do sistema financeiro."

O caminho do dinheiro, como o MP descreve

A parte da operação que não fala de filme nenhum é a mais detalhada, e ajuda a entender o desenho.

PassoO que a investigação descreve
1Cerca de R$ 100 milhões passam por contas de empresas de fachada e por fintechs
2O valor chega à Usina Itajobi, em Marapoama (SP)
3É depositado no Fundo Radford, criado para a operação
4O fundo compra um certificado vinculado no Banco Genial
5O banco empresta o mesmo valor às holdings Berna e Branson
6As holdings compram a distribuidora Terrana, avaliada em R$ 153 milhões em 2024

O MP chama o resultado de "fluxo circular que dava aparência legal à operação". A financeira investigada movimentou R$ 11,6 bilhões entre 2021 e 2025.

As respostas de cada citado

Banco Genial, em nota: Humberto Tupinambá foi destituído em maio de 2026 e "não integra a Diretoria e não é sócio". O banco diz ter fornecido voluntariamente informações ao Gaeco, incluindo comunicações feitas ao Coaf, ter adotado "medidas adicionais de governança e controle", ter afastado o então diretor e ter renunciado à administração do Fundo Radford. Diz permanecer à disposição das autoridades.

Defesas de Roberto Leme e Mohamad Hussein Mourad: afirmam que seus clientes não foram alvos desta operação.

Daniel Vorcaro: a defesa sustenta que as investigações contra ele se fundam em fato inexistente. Ele foi preso em 17 de novembro de 2025, solto em 29 de novembro e detido de novo em 4 de março de 2026. O Banco Master foi liquidado pelo Banco Central em 18 de novembro de 2025.

Eduardo Bolsonaro, em maio de 2026: "Quem diz que Eduardo Bolsonaro é financiado por Daniel Vorcaro é mentiroso." Ele nega ter tido contato com o banqueiro, diz que nunca conversou com ele, e afirma que o contrato em que aparece como produtor executivo, publicado pelo Intercept, é "velho" e "provisório". Diz ter investido US$ 50 mil na fase inicial do projeto.

Flávio Bolsonaro: confirmou a negociação com Vorcaro e sustenta que se tratava de "um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai", com previsão de retorno financeiro ao investidor.

GoUp Entertainment, produtora do filme: não localizei manifestação pública sobre a declaração de Durigan de 24 de setembro. Em setembro, sobre outra operação, Karina Gama disse ao Poder360 considerar "positiva" a retirada do sigilo das investigações.

O filme, em números

Direção de Cyrus Nowrasteh, história de Mário Frias, Jim Caviezel no papel de Bolsonaro. Produção da GoUp Entertainment, distribuição no Brasil pela Europa Filmes. Rodado em inglês, a partir de outubro de 2025, em São Paulo, nos Estados Unidos e no México.

O valor negociado com Vorcaro, revelado pelo Intercept em 13 de maio, foi de cerca de R$ 134 milhões. Ao menos R$ 61 milhões teriam sido efetivamente repassados entre fevereiro e maio de 2025.

Para dar tamanho a esse número, o Estado de Minas comparou com os últimos 20 vencedores do Oscar de Melhor Filme. O orçamento do Dark Horse supera 15 deles:

FilmeOrçamento
MoonlightUS$ 4 milhões
NomadlandUS$ 5 milhões
AnoraUS$ 6 milhões
ParasitaUS$ 11,4 milhões
Green BookUS$ 23 milhões
Dark Horse, valor negociadocerca de US$ 24 milhões

O brasileiro "Ainda Estou Aqui", que ganhou o Oscar em 2025, custou 7,6 milhões de euros.

Eduardo Bolsonaro responde a essa conta assim: "É um filme que, para quem não conhece, vai pensar que é super caro. Não. Para os padrões de Hollywood, não." E: "Você não faz um filme de 50 mil dólares com o Jim Caviezel."

As outras frentes abertas

O dinheiro do filme já rendeu processos em quatro endereços diferentes, e vale separar um do outro.

No TSE. Três ações caíram por sorteio com o ministro Kassio Nunes Marques. Uma delas pede o bloqueio da exibição por suposto abuso de poder econômico e político. A revista já contou esse capítulo.

Na Ancine. Reportagem do Intercept de 4 de setembro afirma que a produtora omitiu da agência quem controlava o dinheiro vindo de Vorcaro.

Na Polícia Federal. Em 10 de setembro, a Operação Make Up mirou Mário Frias e Karina Gama por suposto desvio de emendas parlamentares. O ministro Flávio Dino escreveu que a organização "alcançaria, inclusive, vínculos com a facção PCC". Trata-se de hipótese de investigação registrada em decisão judicial, não de conclusão.

Na Justiça do Trabalho. Ao menos 14 figurantes acionaram a Justiça alegando condições "humilhantes" durante as filmagens, segundo O Globo. O Sindicato dos Artistas de São Paulo levou o caso ao Ministério do Trabalho.

O que joga contra, e entra

"Isso é perseguição em ano eleitoral." A Carbono Oculto foi deflagrada em 28 de agosto de 2025, um ano antes da campanha, e trata de combustível adulterado e lavagem. O filme entrou porque a mesma empresa aparece nos dois fluxos. Mesmo assim, registro o outro lado do fato: quem falou foi um ministro do governo adversário, a dez dias do primeiro turno.

"Então o filme foi pago pelo PCC." Essa frase não está em documento nenhum, e não foi dita por Durigan. O que ele disse é que a empresa recebia dinheiro das duas origens e que separar é difícil.

"Se ninguém foi condenado, por que publicar?" Porque mandado de busca cumprido por Ministério Público e Receita Federal é ato público e verificável. O limite é outro: investigado não é culpado, e esta matéria não chama ninguém de culpado.

"Eduardo já negou, acabou o assunto." A negativa dele está registrada aqui, com as palavras dele. Ela convive com um contrato publicado pelo Intercept em que ele aparece como produtor executivo. Ele diz que o documento é velho e provisório. As duas informações ficam de pé, e o leitor decide.

"Vorcaro está preso, então é culpado." Prisão não é condenação. A defesa dele afirma que as investigações se baseiam em fato inexistente.

A resposta

O que está provado hoje: uma empresa alvo de operação por lavagem para o crime organizado é a mesma que transferiu US$ 12,3 milhões para o fundo americano que bancou o filme.

O que não está provado: que esse dinheiro específico tenha origem no PCC.

A distância entre as duas frases é exatamente o trabalho que o Ministério Público ainda tem pela frente. E é nessa distância que uma campanha eleitoral costuma jogar a favor de quem quiser.

Dark Horse ainda não tem data de estreia no Brasil. Os direitos foram vendidos em julho. E há uma ação no TSE pedindo que ele não estreie.

Matéria completa · euthiagodecastro.com.br

Fontes desta materia

  1. Correio Braziliense, Durigan diz que patrocinador de Dark Horse recebeu dinheiro do PCC
  2. Brasil de Fato, Nova fase da Carbono Oculto mira Banco Genial e empresa usada por Vorcaro para bancar Dark Horse
  3. Metrópoles, Nova fase da Carbono Oculto atinge Banco Genial e grupo ligado a Dark Horse
  4. ND+, Operação Carbono Oculto, diretor do Banco Genial e executivo do Master
  5. CartaCapital, Dark Horse pode ter recebido recursos do PCC, afirma Durigan
  6. Wikipédia, Operação Carbono Oculto
  7. Wikipedia, Dark Horse, filme de 2026
  8. Estado de Minas, Dark Horse tem orçamento maior que vencedores do Oscar
  9. Intercept Brasil, Eduardo Bolsonaro tinha poder sobre dinheiro do Dark Horse, revela contrato
  10. Intercept Brasil, Produtora de Dark Horse esconde da Ancine quem mandava no dinheiro de Vorcaro
  11. Intercept Brasil, áudios da negociação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro
  12. Poder360, Dino menciona possível ligação entre PCC e filme Dark Horse
  13. CNN Brasil, Quem é Daniel Vorcaro, dono do Banco Master preso em operação da PF
  14. CNN Brasil, À PF, Vorcaro disse que foi surpreendido com liquidação do Banco Master
  15. Correio Braziliense, Eduardo Bolsonaro nega gestão em filme bancado por Vorcaro
  16. Brasil de Fato, Novo ministro da Fazenda Dario Durigan assume no lugar de Haddad
  17. Exame, Entenda a operação que liga emendas parlamentares, o filme Dark Horse e contratos públicos
  18. Wikipedia, Banco Master scandal