Revista De Castro

Cinema e TV / 25 de setembro de 2026

A história inteira

O Superman que voava de verdade

Christopher Reeve faria 74 anos hoje. Fora da tela ele tinha licença comercial de piloto, avião próprio e duas travessias solo do Atlântico. Em 27 de maio de 1995 um cavalo estacou num obstáculo e ele ficou tetraplégico. A história inteira, com a recuperação que existiu e a que não existiu, a crítica que o movimento das pessoas com deficiência fez a ele, e a morte de Dana, que nunca fumou.

Publicado
25 de setembro de 2026
Atualizado
25 de setembro de 2026
Editoria
Cinema e TV
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6 min
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18 citadas
Larry Armstrong / Los Angeles Times / Wikimedia Commons, CC BY 4.0
Larry Armstrong / Los Angeles Times / Wikimedia Commons, CC BY 4.0

O homem que o mundo viu voar com uma capa vermelha tinha licença comercial de piloto, licença de instrutor, licença de voo por instrumentos e licença de planador.

Tinha avião próprio. Um Cherokee, um Bonanza, um Beechcraft Baron bimotor.

E cruzou o Atlântico sozinho duas vezes.

Christopher Reeve faria 74 anos hoje. Morreu em 10 de outubro de 2004, aos 52.

O ator que não precisava de efeito especial

Quando os produtores de The Aviator, de 1985, o chamaram, não sabiam que ele pilotava. Reeve aceitou o papel e voou ele mesmo todas as cenas aéreas do filme.

O recorde pessoal dele em planador foi de 32 mil pés, cerca de 9.750 metros. É altitude de avião comercial, num aparelho sem motor.

Nada disso aparecia no cartaz. Aparecia a capa.

De Princeton para Juilliard

Nasceu em Nova York em 25 de setembro de 1952, filho de Barbara Pitney Lamb e do escritor Franklin D'Olier Reeve. Cresceu em Princeton, Nova Jersey.

Formou-se em Cornell em 1974, com dupla graduação em inglês e teoria musical. Entre 1973 e 1975 estudou na Juilliard, no Grupo 4. Ele e Robin Williams foram os dois únicos alunos escolhidos para o programa avançado, e ficaram amigos para sempre.

O professor John Houseman lhe disse que era importantíssimo que ele se tornasse um ator clássico sério.

Em 1977, Reeve foi escolhido para Superman entre mais de 200 candidatos. Quase não foi ao teste, porque achou o papel bobo demais para quem vinha do teatro.

Treinou dois meses com o levantador de peso britânico David Prowse e ganhou cerca de 13,6 quilos de músculo. O filme estreou em dezembro de 1978. Vieram Superman II em 1980, III em 1983 e IV em 1987.

27 de maio de 1995

Culpeper, Virgínia. Concurso completo de equitação. Reeve montava um puro-sangue chamado Eastern Express na prova de cross-country.

No terceiro obstáculo, o cavalo estacou.

Ele foi arremessado para a frente. As mãos estavam presas nas rédeas, e por isso não conseguiu amortecer a queda. Bateu de cabeça no travessão superior, por volta das três da tarde.

Consciente no chão, disse aos socorristas que não conseguia respirar.

A primeira vértebra cervical fraturou. A segunda foi danificada. Ele foi levado de helicóptero ao hospital da Universidade da Virgínia, onde os cirurgiões religaram o crânio à coluna.

Saiu de lá tetraplégico e dependente de respirador.

O que Dana disse

No hospital, Reeve considerou não continuar.

No livro Still Me, de 1998, ele contou o que a mulher, Dana Morosini Reeve, respondeu. Que o apoiaria no que ele decidisse, porque a vida e a decisão eram dele. E depois a frase que ele registrou como a que segurou tudo: "você ainda é você."

Os dois estavam casados desde 11 de abril de 1992.

Em 25 de março de 1996, dez meses depois do acidente, Reeve entrou no palco da 68ª cerimônia do Oscar, em Los Angeles, na cadeira de rodas e com o equipamento à vista. A plateia levantou. Ele pediu a Hollywood mais filmes sobre temas sociais.

Still Me ficou 11 semanas na lista de mais vendidos do New York Times.

O que melhorou, e o que não melhorou

Em setembro de 2002, o Journal of Neurosurgery: Spine publicou o caso dele.

Depois de três anos de terapia baseada em atividade, Reeve saiu da classe ASIA A, de lesão completa, para a ASIA C. Foi o primeiro relato de melhora desse tipo numa lesão tão alta e tão antiga.

Os números, sem arredondar para cima:

O que mudouQuanto
Sensação recuperada no corpoentre 50% e 60%
Movimento voltoudedos da mão esquerda e dedos dos dois pés
Respiração sem aparelhoaté 90 minutos seguidos
Classificação clínicade ASIA A para ASIA C

O médico John McDonald disse na época que ninguém com lesão tão grave, e sem qualquer recuperação inicial, tinha recuperado tanta função.

E aqui a frase que a maior parte das manchetes de 2002 não escreveu: ele nunca voltou a andar. Continuou tetraplégico e dependente de respirador até o último dia.

O que joga contra, e entra

Esta parte a revista não pula.

O comercial do Super Bowl de 2000. A Nuveen Investments comprou o espaço mais caro da televisão americana para exibir Reeve se levantando da cadeira e caminhando até um palco, ao lado de outras pessoas "curadas" de lesão medular. Tudo por computação gráfica, com marcações desenhadas no rosto de um ator para casar com o dele.

A reação está documentada. A Associação Nacional de Lesão Medular dos Estados Unidos recebeu telefonemas de pessoas paralisadas querendo saber em que instituto Reeve tinha se curado. Robert D'Ambrosia, então presidente da Academia Americana de Cirurgiões Ortopédicos, disse ao Seattle Times que a peça colocava esperança falsa demais no ar. Moshe Solomonow, professor de ortopedia da Universidade Estadual da Louisiana, disse que essas pessoas não precisam de esperança falsa nem do efeito desmoralizante que ela traz. Perry Tillman, paralisado havia 34 anos, resumiu que dá para passar a vida inteira esperando.

A crítica de dentro do movimento. A revista Ragged Edge, publicação do movimento das pessoas com deficiência, escreveu em 2000 que o comercial vendia, em rede nacional, a mensagem de que deficiência é uma coisa ruim. Steve Brown, do Institute for Disability Culture, escreveu que a postura de Reeve convencia o mundo de que, enquanto ele não voltasse a andar, ele não era "still me". Era uma provocação direta ao título do livro dele. O historiador Paul Longmore apontou que a sociedade dava palanque a Reeve e deixava de fora a perspectiva dos direitos das pessoas com deficiência.

A divergência é real e tem nome: ele defendia a cura, e parte do movimento defendia acessibilidade, assistência e o direito de viver bem como se está.

A promessa dos 50 anos. Reeve falou publicamente do objetivo de se levantar no aniversário de 50 anos, em 25 de setembro de 2002, para brindar quem o ajudou. O dia chegou e ele estava sentado.

Dana

Em agosto de 2005, dez meses depois de enviuvar, Dana Reeve anunciou que tinha câncer de pulmão.

Ela nunca fumou.

Morreu em 6 de março de 2006, aos 44 anos, no Memorial Sloan Kettering, em Nova York. Foram 17 meses depois da morte do marido. O casal deixou o filho Will, hoje repórter e apresentador da ABC News, além de Matthew e Alexandra, filhos do primeiro relacionamento de Christopher.

Em 11 de março de 2007, um ano depois, a fundação criada por ele passou a se chamar Christopher & Dana Reeve Foundation.

A conta que ficou

A fundação diz ter investido mais de 140 milhões de dólares em pesquisa de lesão medular.

Em março de 2009, o presidente Barack Obama sancionou o Christopher and Dana Reeve Paralysis Act, que organizou a pesquisa sobre paralisia dentro dos Institutos Nacionais de Saúde.

Um levantamento encomendado pela própria fundação estima que cerca de 5,4 milhões de americanos vivem com alguma paralisia, quase um em cada cinquenta.

Em 21 de setembro de 2024 estreou nos cinemas americanos o documentário Super/Man: The Christopher Reeve Story, com uma sessão extra marcada para 25 de setembro, aniversário dele.

A resposta

O detalhe que quase ninguém sabe é o mais simples de todos: ele voava.

Não de mentira, com cabo de aço e fundo azul. Voava sozinho sobre o oceano, com licença comercial no bolso e um bimotor embaixo.

Em 27 de maio de 1995 um cavalo estacou diante de um obstáculo e aquele corpo parou de obedecer. Ele não voltou a voar nem a andar. Passou os nove anos seguintes com um respirador, brigando por dinheiro de pesquisa e levando pancada de quem achava que estava brigando pela coisa errada.

Faria 74 anos hoje.

O piloto que virou passageiro do próprio corpo e não parou de empurrar a fila inteira para a frente.

Fontes desta materia

  1. Wikipedia, Christopher Reeve
  2. Wikipedia, Dana Reeve
  3. Encyclopedia.com, Reeve, Christopher 1952-
  4. Biography, The Story Behind Christopher Reeve's Accident
  5. The Globe and Mail, Christopher Reeve dead of heart failure
  6. UPI, Actor Reeve regains movement, feeling
  7. Medscape, Reeve Regains Some Function After High Spinal Cord Injury
  8. Seattle Times, Christopher Reeve's improvement makes medical history
  9. Seattle Times, Reeve's walk disturbs doctors and disabled
  10. Ragged Edge, edição de janeiro e fevereiro de 2000
  11. Deseret News, Christopher Reeve's sure he'll be able to walk again
  12. Den of Geek, When Christopher Reeve Surprised the World at the Oscars
  13. Christopher & Dana Reeve Foundation, site oficial
  14. Reeve Foundation, Stats About Paralysis
  15. Wikipedia, Super/Man: The Christopher Reeve Story
  16. Hollywood Reporter, Super/Man doc release in theaters
  17. Wikipedia, Still Me
  18. American Rhetoric, discurso de Reeve na Convenção Democrata de 1996