-the-day-apple-and-microsoft-made-peace"
- "James Clear, transcrição do discurso de Stanford de 12 de junho de 2005 | https://jamesclear.com/great-speeches/2005-stanford-commencement-address-by-steve-jobs"
- "Wikipedia, Lisa Brennan-Jobs | https://en.wikipedia.org/wiki/Lisa_Brennan-Jobs"
- "SEC, press release 2007-70, caso Nancy Heinen | https://sec.gov/news/press/2007/2007-70.htm"
- "AppleInsider, Tim Cook exposes the lie that Steve Jobs ignored philanthropy | https://appleinsider.com/articles/12/02/02/tim_cook_exposes_the_lie_that_steve_jobs_ignored_philanthropy_"
- "Wikipedia, Steve Jobs | https://en.wikipedia.org/wiki/Steve_Jobs"
titulo_curto: "Apertou a mão do pai sem saber" ---
Um restaurante mediterrâneo ao norte de San Jose, em algum ponto dos anos 1980. Steve Jobs comeu ali algumas vezes. Numa dessas visitas, cumprimentou o dono, um sírio de meia-idade e careca.
Os dois apertaram as mãos e não disseram mais nada.
Aquele homem era Abdulfattah Jandali, o pai biológico dele.
Como a história veio à tona
Vale separar cada frase e dizer de quem ela é, porque muita publicação misturou tudo.
A primeira é de Jobs, registrada pelo biógrafo Walter Isaacson no livro autorizado que saiu em 2011. Sobre o dono do restaurante, ele contou: "ele era sírio. Careca. Nós apertamos as mãos."
A segunda é de Jandali, e não foi dita a Jobs. Foi dita a Mona Simpson, filha dele com Joanne Schieble, a mesma mulher que entregou Steve para adoção em 1955. Mona é romancista, autora de Anywhere But Here, e só descobriu que tinha um irmão quando Jobs procurou a mãe biológica, em 1986, logo depois da morte da mãe adotiva dele.
Quando Mona finalmente localizou o pai, ele estava administrando um restaurante em Sacramento. Puxou conversa sobre o estabelecimento anterior, no Vale do Silício, e comentou, orgulhoso, que gente importante da tecnologia comia lá. Inclusive Steve Jobs. Disse que Jobs "dava uma boa gorjeta".
Jandali não sabia que estava falando do próprio filho.
E não soube por escolha de Jobs, que tinha pedido à irmã para não contar nada sobre ele. A biografia registra o pedido: que ela não dissesse que os dois tinham se encontrado, nem qualquer coisa a respeito dele.
A cena foi ao ar no programa 60 Minutes, da CBS, em 23 de outubro de 2011, dezoito dias depois da morte de Jobs, quando Isaacson levou o áudio das entrevistas ao estúdio.
Uma ressalva de apuração: parte da imprensa situou o aperto de mão em Sacramento. A passagem de Isaacson coloca o restaurante ao norte de San Jose, no Vale do Silício. Sacramento é onde Mona foi encontrá-lo, anos depois. O nome do restaurante nunca foi divulgado.
Por que ele foi adotado
Jandali nasceu em 1931 em Homs, na Síria, filho de um dono de terras. Estudou em Beirute, depois em Nova York e em Wisconsin. Foi lá que conheceu Joanne Carole Schieble.
Ela engravidou em 1954. O pai dela, católico, vetou o casamento porque Jandali era muçulmano. Ele foi embora antes do parto.
Steve nasceu em San Francisco em 24 de fevereiro de 1955 e foi entregue para adoção com uma condição: os pais teriam que ter diploma universitário. O primeiro casal desistiu no último minuto, porque queria uma menina. A ligação chegou de madrugada a Paul e Clara Jobs, que estavam na fila de espera.
Só que Paul não tinha terminado o ensino médio, e Clara não tinha diploma. Joanne se recusou a assinar os papéis. Ela cedeu meses depois, quando o casal prometeu que o menino iria para a faculdade.
Ele foi. Entrou no Reed College, em Portland, em setembro de 1972, e largou depois de um semestre.
A garagem, e os 217 milhões
Em 1º de abril de 1976, Jobs fundou a Apple Computer com Steve Wozniak e Ronald Wayne, na garagem da casa dos pais adotivos, na Crist Drive, em Los Altos.
O Apple I e o Apple II foram projeto de Wozniak. Jobs fez o resto: o produto, a embalagem, o preço, a venda.
Em 12 de dezembro de 1980, a Apple abriu o capital. Foram 4,6 milhões de ações a 22 dólares. Mais de 40 dos cerca de mil funcionários viraram milionários naquele mesmo dia. Jobs, aos 25 anos, encerrou o pregão com 217 milhões de dólares.
O Macintosh chegou em 24 de janeiro de 1984.
O dia em que perdeu tudo
Em maio de 1985, o conselho da Apple reorganizou a empresa e tirou Jobs do grupo do Macintosh. Ele ficou com um cargo sem função. Em 17 de setembro, renunciou.
Anos depois, na formatura de Stanford, em 12 de junho de 2005, ele resumiu o episódio numa pergunta: "como você é demitido de uma empresa que você fundou?"
O que veio a seguir parecia deserto e virou o contrário. Ele criou a NeXT com 7 milhões de dólares e comprou a Pixar por 10 milhões, em 1986. Toy Story saiu em 1995.
Em dezembro de 1996, a Apple comprou a NeXT por 400 milhões de dólares. Jobs voltou em fevereiro de 1997, para uma empresa que perdia cerca de 1 bilhão por ano e tinha menos de 90 dias de caixa.
Em 6 de agosto de 1997, na Macworld de Boston, ele anunciou que a Microsoft investiria 150 milhões de dólares na Apple. O rosto de Bill Gates apareceu num telão gigante e a plateia vaiou.
Foi ali que a empresa não quebrou. Depois vieram o iMac em 15 de agosto de 1998, o iPod em 23 de outubro de 2001, o iPhone anunciado em 9 de janeiro de 2007 e o iPad em 27 de janeiro de 2010.
A doença tinha outro nome
Aqui está a parte que quase toda manchete errou por quinze anos.
Steve Jobs não teve o câncer de pâncreas comum. O tipo comum é o adenocarcinoma ductal, agressivo e quase sempre inoperável quando descoberto. O dele era um tumor neuroendócrino do pâncreas, de células das ilhotas, que cresce mais devagar e pode ser curado com cirurgia quando pego cedo.
Quem usou essas palavras primeiro foi o próprio Jobs, num e-mail aos funcionários da Apple em agosto de 2004. Ele escreveu que teve uma forma muito rara de câncer de pâncreas chamada tumor neuroendócrino de células das ilhotas, que representa cerca de 1% dos casos diagnosticados por ano, e que pode ser curada por remoção cirúrgica se diagnosticada a tempo. O dele, disse, foi.
A conta que ele não incluiu no e-mail está no calendário. O tumor foi encontrado em outubro de 2003. A cirurgia foi feita em 31 de julho de 2004, no centro médico de Stanford.
São nove meses.
Nesse intervalo, segundo Isaacson, Jobs recusou a recomendação médica de operar e tentou dieta vegana, sucos de fruta, acupuntura, fitoterápicos e consultas espirituais. No 60 Minutes, o biógrafo contou que Jobs não queria que o corpo dele fosse aberto e não queria ser violado daquele jeito. E disse que Jobs depois se arrependeu.
Registre-se com precisão: o arrependimento é relato de Isaacson. Jobs nunca disse isso em público.
Em abril de 2009 ele fez um transplante de fígado no Methodist University Hospital, em Memphis. O hospital primeiro negou que ele tivesse sido paciente e só confirmou em junho, depois de o Wall Street Journal publicar. Renunciou ao cargo de CEO em 24 de agosto de 2011 e morreu em casa, em Palo Alto, em 5 de outubro de 2011, aos 56 anos.
O atestado de óbito, divulgado pela Secretaria de Saúde do Condado de Santa Clara, registrou parada respiratória como causa imediata, com tumor neuroendócrino metastático do pâncreas havia cinco anos. Na linha da profissão, escreveram empresário de alta tecnologia.
O que joga contra, e entra
Esta parte a revista não pula.
A filha que ele negou. Lisa nasceu em 1978, filha dele com Chrisann Brennan. Jobs negou a paternidade em documento judicial, alegando ser estéril e sem capacidade física de gerar um filho. Em 1980, num processo movido pelo promotor do condado de San Mateo, o exame apontou 94,4% de probabilidade. Ele foi condenado a pagar 500 dólares por mês e plano de saúde até ela completar 18 anos, sendo já multimilionário. Pai e filha se reconciliaram anos depois.
As opções de ações. Em 2006 a Apple admitiu irregularidades em concessões de opções entre 1997 e 2002 e disse que Jobs sabia que algumas tinham recebido datas favoráveis, sem ter se beneficiado. A SEC processou a ex-advogada-geral Nancy Heinen e, em abril de 2007, informou que não acionaria a empresa.
A filantropia. Ao voltar em 1997, com a Apple no vermelho, ele encerrou os programas filantrópicos da companhia. Eles não voltaram enquanto ele foi CEO. Tim Cook criou o programa de doação equivalente em 2011, depois da morte dele.
E a acusação mais pesada: a medicina alternativa o matou? Não dá para dizer isso com honestidade. Um artigo publicado em 2016 numa revista médica revisada por pares é explícito: os detalhes clínicos do caso nunca foram divulgados, e por isso ninguém pode afirmar se ele tomou ou não a melhor decisão. O que se pode dizer é o que está documentado. Ele adiou nove meses, o biógrafo relata arrependimento, e a garantia de que a cirurgia imediata o salvaria não existe.
A resposta
Dois homens se cumprimentaram num restaurante e seguiram o dia.
Um deles tinha sido entregue para adoção ao nascer, já era o homem mais visível do Vale do Silício e morreria aos 56 anos. O outro tinha fugido de Beirute, servia comida mediterrânea a poucos quilômetros dali e acharia graça em contar, anos depois, que um cliente famoso dava boa gorjeta.
Eles nunca se falaram de novo. Jandali morreu em agosto de 2021, aos 90 anos, sem nunca ter telefonado. Em entrevista ao jornal britânico The Sun, em agosto de 2011, dois meses antes da morte do filho, disse que o orgulho sírio dele não deixava, porque não queria que Steve pensasse que ele estava atrás do dinheiro.
O aperto de mão foi tudo o que os dois tiveram.








