Sylvester Stallone conseguiu fazer Rocky porque se recusou a vender o roteiro sem ser o protagonista, mesmo com 106 dólares no banco. A oferta chegou a 265 mil dólares, segundo o New York Times de 1976, e ele disse não até os produtores aceitarem um desconhecido no papel.
Essa virada é o assunto de "Eu Sou o Rocky" (I Play Rocky), de Peter Farrelly, o diretor de "Green Book". O filme estreia nos cinemas brasileiros em 19 de novembro de 2026, pela Diamond Films, exatamente 50 anos depois da estreia mundial de Rocky, em 20 de novembro de 1976, em Nova York.
Eu fui ler a entrevista que Stallone deu ao New York Times em 1º de novembro de 1976, antes do Oscar, para separar o que ele disse na época do que virou lenda depois.
Quem é o menino da boca torta?
A história começa no parto. Stallone nasceu em 6 de julho de 1946, em Hell's Kitchen, Manhattan. Os médicos usaram fórceps e cortaram um nervo por acidente. O lado esquerdo de baixo do rosto ficou paralisado: parte do lábio, da língua e do queixo. Daí vêm a boca caída e a fala arrastada que viraram marca registrada.
Ele passou parte da infância em lares adotivos. Até os 15 anos, tinha passado por 12 escolas e sido expulso da maioria, contou ao Times. Já contei aqui como ele foi parar, aos 17, numa ala de punição que compara a um hospício, na matéria sobre o livro de memórias dele, que chega às livrarias americanas hoje.
Como era a vida dele antes de Rocky?
Em Nova York, limpou jaula de leão no zoológico do Central Park. Foi lanterninha do cinema Baronet e acabou demitido por tentar cambiar um ingresso de "M.A.S.H." por 20 dólares. O comprador era Walter Reade, o dono do cinema.
Em 1970, sem ter onde morar, aceitou um filme erótico por 200 dólares por dois dias de trabalho. Dormiu três semanas na rodoviária de Port Authority. "Era fazer aquele filme ou roubar alguém", explicou depois, segundo a Wikipedia.
Em 1975, já em Hollywood, o retrato é este, publicado pelo Times: 106 dólares no banco, a mulher, Sasha, grávida, o bull mastiff passando fome e o aluguel atrasado. O apartamento tinha um quarto e meio, um saco de pancada na sala e baratas na cozinha. Custava 215 dólares por mês.
A luta que ele viu num cinema
Em 24 de março de 1975, Muhammad Ali defendeu o título contra Chuck Wepner, em Richfield, Ohio. Wepner vendia bebida durante o dia e era chamado de "o sangrador de Bayonne". Ninguém dava nada por ele. No 9º round, derrubou o campeão (fotos da época mostram que ele pisava no pé de Ali). Aguentou até o 15º e só caiu a 19 segundos do fim.

Stallone assistiu num cinema. "Eu disse a mim mesmo: vamos falar de ambição sufocada e de sonhos desfeitos", contou ao Times em 1976.
Foi mesmo em três dias?
Foi e não foi. Segundo o próprio Stallone, ele pensou na ideia por um mês e deixou "incubar" por dez. Aí escreveu o primeiro tratamento em três dias e meio, acordando às 6h, à mão, com caneta Bic, em folha de caderno pautada. Sasha datilografava. Depois vieram mais dois tratamentos.
No primeiro final, Rocky entregava a luta. O treinador Mickey era racista. Os dois detalhes sumiram nas versões seguintes, segundo a Wikipedia.
A virada: o não que valeu 1 milhão
O roteiro agradou. O problema era o ator. A United Artists pensava em Robert Redford, Ryan O'Neal, Burt Reynolds ou James Caan. As ofertas subiram. O Times de 1976 fala em 265 mil dólares. Versões posteriores falam em 350 mil (Wikipedia) e 360 mil (No Film School).
Stallone recusou todas. "Eu disse à minha mulher que preferia enterrar o roteiro no quintal e deixar as lagartas interpretarem Rocky", contou ao Times. Sasha, segundo ele, topava morar num trailer no meio de um pântano se fosse preciso.
Os produtores Irwin Winkler e Robert Chartoff cederam. Eles podiam aprovar filmes baratos por contrato e deram como garantia um filme maior deles, "New York, New York". Rocky ficou com 1.075.000 dólares de orçamento.
Como se faz um filme com 1 milhão?
Com a família. O pai de Stallone toca o sino dos rounds. O irmão, Frank, canta na esquina. Sasha foi a fotógrafa de cena. Butkus, o bull mastiff, faz o cachorro de Rocky. "Eles trabalham barato", brincou Stallone ao Times.
Ele nunca tinha tido aula de boxe. Treinou seis horas por dia durante cinco meses. A luta final tinha 14 páginas de coreografia, soco por soco. O filme foi rodado em 28 dias, a partir de 9 de janeiro de 1976, na Filadélfia. A corrida escadaria acima usou a Steadicam, câmera recém-inventada por Garrett Brown.

Os números
| Item | Número |
|---|---|
| Dinheiro no banco em 1975 | 106 dólares |
| Oferta recusada pelo roteiro | 265 mil a 360 mil dólares |
| Orçamento | 1.075.000 dólares |
| Dias de filmagem | 28 |
| Parte de Stallone no filme | 10% |
| Bilheteria EUA e Canadá | 117,2 milhões de dólares |
| Bilheteria mundial | 225 milhões de dólares |
| Indicações ao Oscar | 10 |
| Oscars ganhos | 3 |
O Oscar e as duas derrotas
Em 28 de março de 1977, Rocky ganhou o Oscar de melhor filme. Os adversários eram "Taxi Driver", "Rede de Intrigas", "Todos os Homens do Presidente" e "Esta Terra É Minha Terra". Levou também direção, com John G. Avildsen, e montagem.
Stallone perdeu as duas categorias em que concorria. Ator foi para Peter Finch. Roteiro original também escapou. Mesmo assim, entrou para a história: foi o terceiro a ser indicado como ator e roteirista no mesmo ano, depois de Charlie Chaplin e Orson Welles.
E o cachorro vendido?
Conta-se que Stallone vendeu Butkus por falta de dinheiro e o comprou de volta quando vendeu o roteiro. Quem conta é ele, décadas depois, e os números mudam. Numa entrevista de 2013, reproduzida pelo Snopes, disse que vendeu o cão por 50 dólares na porta de uma loja e pagou 3 mil para reaver. Em 2017, no Instagram, segundo o CBR, o valor subiu para 15 mil. O Snopes classifica a história como não comprovada. Butkus, esse sim, existiu, passava fome em 1975 e está no filme.
O que joga contra, e entra
"É tudo marketing." Em parte, é. Gabe Sumner, chefe de marketing da United Artists na época, admitiu, em depoimento reproduzido pelo Snopes, que o estúdio inventou a cifra de 18 mil dólares pelo roteiro para vender a imagem do azarão. Os 106 dólares, as baratas e os 10%, porém, estão na entrevista de Stallone ao Times antes do Oscar.
"Rocky é o Wepner." Stallone negou por anos e depois admitiu a inspiração. Wepner o processou em 2003. Os dois fizeram acordo em 2006, com valor não divulgado.
"Ninguém escreve um filme em três dias." Ele mesmo disse que foram 11 meses de ideia antes dos três dias e meio, e mais dois tratamentos depois.
Por que isso volta agora?
Filadélfia chama os próximos meses de "Rocky Season", de 29 de setembro a 3 de dezembro. Em 23 de setembro, a estátua de Rocky voltou para o alto dos 72 degraus do Museu de Arte, segundo a CBS. Ela recebe cerca de 4 milhões de visitantes por ano.

"Eu Sou o Rocky" estreou no Festival de Toronto em 12 de setembro e ficou em segundo lugar no prêmio do público. Anthony Ippolito faz Stallone. AnnaSophia Robb faz Sasha. Matt Dillon faz o pai. Nos Estados Unidos, o filme chega em 6 de novembro. Segundo o AdoroCinema, Stallone não tem envolvimento direto na produção.
A resposta
Stallone fez Rocky com uma aposta que qualquer contador reprovaria: recusou uma fortuna com 106 dólares na conta. Parte da lenda foi polida pelo estúdio. O essencial está no jornal de 1976, dito por ele antes de qualquer estatueta: "Eu teria me odiado por me vender."
Perguntas que chegam nos comentários
Quanto Stallone recusou pelo roteiro de Rocky?
O New York Times de 1976 fala em 265 mil dólares. Fontes posteriores citam 350 mil e 360 mil. Ele só aceitou vender se fosse o protagonista.
Em quantos dias Stallone escreveu Rocky?
O primeiro tratamento saiu em três dias e meio, depois de 11 meses pensando na ideia, segundo ele próprio. Vieram mais dois tratamentos.
Quanto custou e quanto rendeu Rocky?
Custou 1.075.000 dólares e rendeu 117,2 milhões nos EUA e Canadá e 225 milhões no mundo.
Stallone ganhou o Oscar por Rocky?
Não. Foi indicado a ator e roteiro e perdeu os dois. O filme ganhou três: melhor filme, direção e montagem.
Quando estreia Eu Sou o Rocky no Brasil?
Em 19 de novembro de 2026, pela Diamond Films, com Anthony Ippolito no papel de Stallone.








