No dia 27 de agosto de 1975, a Globo tinha 30 capítulos gravados e as chamadas no ar. À noite, no Jornal Nacional, Cid Moreira avisou que a estreia de Roque Santeiro não aconteceria. Era a primeira vez que a ditadura proibia uma novela inteira no Brasil.
Cinquenta e um anos depois, a mesma história volta à tela da Globo. A data escolhida: segunda-feira, 5 de outubro de 2026. O dia seguinte ao primeiro turno.
O que a Globo anunciou
A emissora divulgou a reprise nas redes sociais na quarta-feira, 23 de setembro. Roque Santeiro entra nas tardes, na faixa Edição Especial, no lugar de Além do Tempo (2015). O Extra, o Correio Braziliense, o Diário Gaúcho e a Revista Quem confirmam a data de 5 de outubro.
A novela original tem 209 capítulos. Segundo a coluna Outro Canal, da Folha de S.Paulo, a Globo prevê exibir cerca de 140. São 69 capítulos a menos.
O motivo oficial é o aniversário: 40 anos da estreia, em 1985. O motivo que aparece nos números é outro. Segundo a TV Pop, a faixa das tardes vinha marcando cerca de 10 pontos na Grande São Paulo. No sábado, 19 de setembro, Além do Tempo registrou 8 pontos, o pior índice do ano, de acordo com O Globo. Na segunda, 22, fez 9,6 pontos, a pior segunda em dois meses e meio, segundo o Notícias da TV.
A história que a cidade inteira vende
Asa Branca é uma cidade que vive de um santo. Roque, artesão de imagens de barro, teria morrido ao defender o povo do bandido Navalhada. Virou mártir, estátua e romaria. A fama sustenta o comércio, a igreja e a política local.
Dezessete anos depois, Roque volta. Vivo.
A volta ameaça quem lucra com a lenda: o fazendeiro Sinhozinho Malta (Lima Duarte), o padre Hipólito (Paulo Gracindo), o prefeito Florindo Abelha (Ary Fontoura) e o comerciante Zé das Medalhas (Armando Bógus), que vende objetos do suposto mártir. No centro está a Viúva Porcina (Regina Duarte), viúva de um homem com quem nunca se casou. José Wilker, morto em 2014, fez o papel-título.
O Memória Globo descreve o prefeito assim: "inteiramente dominado pela viúva Porcina e por Sinhozinho Malta, que o elegeram".
O grampo de 1975
A novela nasceu de uma peça do próprio Dias Gomes, O Berço do Herói, proibida pela censura em 1965. Em 1975, a Globo marcou a estreia de Roque Santeiro para 27 de agosto, no lugar de Escalada.
Na data da estreia, chegou o ofício do governo federal proibindo a exibição. Segundo a Wikipédia, que reúne a história da produção, o motivo foi uma escuta telefônica: o governo gravou Dias Gomes dizendo que a novela era uma forma de enganar os militares, uma adaptação da peça censurada com pequenas mudanças para ninguém perceber.
Roberto Marinho foi pessoalmente ao ministro da Justiça, Armando Falcão, pedir a liberação. Não conseguiu. A Globo pôs no ar uma versão condensada de Selva de Pedra e, depois, Pecado Capital, reaproveitando parte do elenco e dos cenários.
Na versão de 1975, o Roque era Francisco Cuoco, segundo a NSC Total. Lima Duarte contracenava com Betty Faria. Elizangela e Milton Gonçalves estavam no elenco censurado e voltaram dez anos depois, em outros papéis.
A virada de 1985
A ditadura acabou em março de 1985. Em junho, Roque Santeiro estreou. Dias Gomes escreveu os primeiros capítulos, Aguinaldo Silva assumiu o texto no meio da novela e Dias Gomes voltou para o final. Dos 209 capítulos, 99 são de Dias Gomes, incluindo os 51 que já estavam escritos desde 1975.
A censura ainda existia como órgão. A novela teve cortes. Em outubro de 1985, depois de uma crítica pública de Dias Gomes, o ministro da Justiça Fernando Lyra proibiu cortes na trama e disse que o órgão deveria só classificar horário.
Os números
| Dado | Valor | Fonte |
|---|---|---|
| Capítulos gravados em 1975 | 30 | Wikipédia |
| Capítulos em 1985 | 209 | NSC Total, Diário Gaúcho |
| Média de audiência em 1985 | 74 pontos | Wikipédia, Diário Gaúcho |
| Último capítulo | 96 pontos, com picos de 100 | Wikipédia, Diário Gaúcho |
| Capítulos previstos na reprise de 2026 | cerca de 140 | Folha de S.Paulo |
| Última exibição na TV aberta | 2000, Vale a Pena Ver de Novo | NSC Total |
O primeiro disco da trilha vendeu mais de meio milhão de cópias em três meses, segundo o Memória Globo. Foi a primeira novela de Claudia Raia, Patrícia Pillar e Maurício Mattar.
Depois de 1985, a novela passou pela Globo em 1991 e 1992, no Vale a Pena Ver de Novo de 2000 e 2001, no Canal Viva em 2011 e 2012 e de novo entre 2024 e 2025, de acordo com O Tempo. Está no Globoplay desde 2021, segundo o Correio Braziliense. Na TV aberta, são 25 anos de ausência.
A Porcina que foi ao governo
Um dado que o leitor vai lembrar sozinho, e que eu conferi. Regina Duarte apoiou Jair Bolsonaro em 2018. Em 29 de janeiro de 2020, aceitou o convite para a Secretaria Especial da Cultura. Ficou no cargo de 4 de março a 10 de junho de 2020, segundo o verbete da atriz na Wikipédia.
A Viúva Porcina, a mulher que sustentou uma lenda para manter o poder de Asa Branca, volta às tardes interpretada por uma atriz que passou pelo governo. A novela é de 1985. A coincidência é de 2026.
O que joga contra, e entra
"A Globo escolheu a data por causa da eleição." Não encontrei nenhuma declaração da emissora ligando a reprise ao calendário eleitoral. O que está registrado é o aniversário de 40 anos e, segundo a TV Pop, a missão de levantar a audiência da faixa. A proximidade com o primeiro turno é uma leitura minha, e está marcada como leitura.
"74 pontos não se compara com o Ibope de hoje." Correto. A medição de 1985 usava outro método e outra base de televisores. Serve para comparar novelas da época entre si, não com Quem Ama Cuida. E mesmo entre as antigas há disputa: o Diário Gaúcho reproduz um trecho do livro O Lado B de Boni em que o ex-diretor da Globo coloca Roque Santeiro como a segunda maior audiência da história, atrás de Tieta.
"Vai ser a mesma novela." Não inteira. Com cerca de 140 capítulos, a reprise corta um terço da história. A Folha informa que a Globo vai observar a audiência antes de fechar a versão.
"O grampo é lenda." O relato do grampo aparece nos verbetes da novela e da versão de 1975, com referência à reportagem "Grampo no telefone levou a novela a ser censurada". Não tive acesso ao áudio nem ao documento original da escuta. O fato da proibição, na data da estreia, é documentado.
A resposta
A novela que a ditadura proibiu por medo de uma sátira sobre poder e mentira volta às tardes na segunda-feira seguinte à eleição. É a quinta reprise desde 1985 e a primeira na TV aberta em 25 anos. Se a Globo quis só recuperar os pontos perdidos da faixa, escolheu a história mais política que ela já produziu para isso. O bordão de Sinhozinho Malta vale para a semana: "Tô certo ou tô errado?"








