Entre a segunda-feira, 21 de setembro, e a quinta-feira, 24, o perfil do Rick ganhou mais de 1 milhão de seguidores novos.
Nesse intervalo, o helicóptero em que ele viajava caiu na serra catarinense, os bombeiros acharam os destroços e o corpo foi enterrado em Sorocaba.
Ele não viu nenhum desses seguidores chegar.
A frase que acendeu a discussão
Na manhã de quinta, 24, Roberta Miranda compartilhou no Instagram uma publicação de outra pessoa. O texto dizia: "Rick ganhou 1 milhão de seguidores porque morreu. Isso não faz sentido algum. Valorizem as pessoas em vida!"
Por cima, ela escreveu o próprio comentário: "Pensei o mesmo… chega a ser cruel você não valorizar em vida quem tanto fez pela música".
O Portal Leo Dias registrou a postagem às 11h43. Em 48 horas, a história estava em toda parte. Eu contei no agregador do Google Notícias: 39 veículos diferentes publicaram a reação dela entre 24 e 26 de setembro, de G1 e Estadão a jornais regionais do Acre e da Bahia.
Um detalhe que se perdeu no caminho. A frase do "porque morreu" não é da Roberta. Ela repostou. O que é dela é o "cruel".
O número, e o que ninguém publicou dele
O Brasil 247 fixou o intervalo: o ganho de mais de 1 milhão aconteceu entre 21 de setembro, dia do acidente, e 24 de setembro.
Nenhuma das reportagens que eu li diz quantos seguidores o Rick tinha antes. Sem o ponto de partida, não dá para saber se o perfil dobrou, triplicou ou cresceu 20%. Esse é o dado que falta na conversa inteira, e deixo a lacuna à vista.
O que dá para medir é o tamanho do público que já existia. Em 22 de setembro, o Portal Salvador FM listou as cinco músicas mais tocadas da dupla no Spotify:
| Música | Reproduções no Spotify |
|---|---|
| Ela É Demais | 73.910.434 |
| Nos Bares da Cidade | 70.795.756 |
| Estou Apaixonado (ao vivo) | 63.233.833 |
| Escolta de Vagalumes | 38.490.433 |
| Casa de Caboclo | 32.908.921 |
| Soma das cinco | 279.339.377 |
São quase 280 milhões de reproduções em cinco faixas. A dupla vendeu mais de 10 milhões de discos em 40 anos de carreira, segundo o verbete da Wikipédia.
O público do Rick estava lá. Ouvia. Só não seguia o perfil.
O velório que ficou fechado
A segunda metade da história aconteceu no mesmo dia da postagem.
Na quarta, 23, a família avisou que o velório em Sorocaba seria restrito a parentes e amigos próximos (Metrópoles). Na quinta, 24, a cerimônia aconteceu no Jardim Cemitério Pax, com a presença de artistas como Zezé Di Camargo, Marrone e Felipe Araújo, segundo o TV Prime, do Correio Braziliense.
Quem ficou do lado de fora reclamou nas redes. A família respondeu no dia seguinte.
A viúva, Geralda Helena, falou da "necessidade de preservar um momento de uma dor imensurável" (Correio). O comunicado da família disse que a decisão não foi "falta de carinho, consideração ou gratidão pelo público" (TV Prime). E terminou com a frase que virou manchete no Metrópoles: o corpo foi enterrado, mas o Rick "não pode ser sepultado", porque continua vivo na voz, nas músicas e na história que construiu.
A virada
Junte as duas cenas e aparece o paradoxo da semana.
O mesmo público que seguiu o Rick depois da morte foi o que ficou na calçada do cemitério. A internet abriu a porta que o velório fechou.
As duas decisões fazem sentido quando olhadas sozinhas. A família quis chorar em paz. O fã quis dar um gesto, e o gesto disponível era apertar "seguir".
O que o milhão mede, e o que não mede
Seguir um perfil depois de uma morte é o gesto mais barato do luto digital. Custa um toque. Não exige ingresso, viagem ou fila na porta do cemitério.
A minha leitura, e marco que é leitura: o perfil do Rick virou o endereço da notícia. Quem soube do acidente pela TV foi procurar o nome dele, caiu no perfil e seguiu. Não encontrei estudo nem dado da plataforma que confirme esse caminho no caso do Rick.
O que o milhão não mede é se virou música ouvida. A Hot 100 da Billboard Brasil publicada para a semana de 21 de setembro não tem Rick e Renner entre as 100 mais. A parada sai às terças, com dados da semana anterior. A próxima, em 29 de setembro, é a primeira que pega a semana da morte.
O que joga contra, e entra
"Seguir depois da morte é homenagem, não hipocrisia." É uma leitura justa. Muita gente conhecia "Ela É Demais" sem saber o rosto de quem cantava. Descobrir o artista na despedida não é crime. A crítica da Roberta mira outra coisa: o reconhecimento que chega tarde para quem fez a obra.
"O número é inflado por robô." Ninguém mediu. Não achei análise de auditoria do perfil. Fica como NÃO CONFIRMADO, para os dois lados.
"A família devia ter aberto o velório." A decisão é da família, e ela explicou por escrito, duas vezes. Fã tem direito ao luto. Viúva tem direito à intimidade. Um não anula o outro.
"A Roberta está lacrando em cima de um morto." Ela lamentou a morte do colega em postagens anteriores, segundo o Portal Leo Dias. O que ela escreveu foi um comentário de uma linha sobre um texto de outra pessoa.
A resposta
Quem tem direito ao luto de um ídolo? Todo mundo que ouviu.
Os 280 milhões de reproduções provam que esse público existia antes do acidente. O que ele não fazia era dizer isso em vida, no único lugar onde o Rick podia ler.
Eu fico com a parte da frase que é da Roberta. O resto é conta: um milhão de pessoas apertou um botão numa semana em que um homem não podia mais ver.
Leia também: a caixa-preta do helicóptero do Rick e as duas vezes em que ele tentou ser só Rick.








