Na noite de quinta-feira, 24 de setembro, horas depois do enterro do Rick, Renner ligou a câmera do celular.
"A saudade fica, mas o show não pode parar", disse, no primeiro vídeo desde a morte do parceiro (Correio Braziliense).
Quem acompanha a dupla reconheceu a frase. "O Show Não Pode Parar" é o nome de uma música que Rick e Renner gravaram nos anos 1990. A ficha do Vagalume registra o lançamento em 21 de junho de 1995, com composição de Carva e Peninha.
O que o Renner disse, e o que ele não disse
O vídeo tem cinco frases que se repetem nas reportagens de O Tempo e do Correio Braziliense.
Ele falou do tamanho da perda: "foram 40 anos de convivência, de suor, muita luta". Falou da fé: "Estou bem, estou forte no Senhor Jesus". Agradeceu "os milhões de mensagens carinhosas" (Terra). E fechou com a promessa: "O show não pode parar, a gente vai continuar cantando".
O que ele não disse também importa. O Terra conferiu: não há anúncio de carreira solo, de novo parceiro, de cancelamento ou de manutenção das datas. A turnê de 40 anos da dupla estava programada até dezembro, segundo o Diário de Cuiabá. O destino dela está em aberto.
O sertanejo já passou por isso duas vezes
A pergunta que o fã faz agora foi feita em 1997 e em 1998. E teve resposta nas duas vezes.
João Paulo e Daniel. Na madrugada de 12 de setembro de 1997, João Paulo morreu num acidente de carro na Rodovia dos Bandeirantes. A dupla acabou ali. Daniel, nascido José Daniel Camillo, em Brotas (SP), pensou em parar de cantar em vários momentos, segundo a Wikipédia. Em 3 de agosto de 1998, menos de 11 meses depois, lançou o primeiro disco solo, chamado apenas "Daniel". O verbete registra certificado de diamante.
Leandro e Leonardo. Em 23 de junho de 1998, Leandro morreu de falência múltipla de órgãos, depois de um câncer raro no pulmão, o tumor de Askin. A dupla tinha vendido 35 milhões de discos em 15 anos. Leonardo, nascido Emival Eterno da Costa, lançou em 1999 o primeiro disco solo, "Tempo".
As duas mortes aconteceram com nove meses de distância. No mesmo 1998 em que Leandro morreu, Rick e Renner viviam o auge com "Ela É Demais", que ficou cinco meses seguidos nas paradas.
A cronologia
| Ano | O que aconteceu |
|---|---|
| 1986 | Rick conhece Renner em Brasília e a dupla se forma |
| 1995 | Lançamento de "O Show Não Pode Parar" |
| 1997 | João Paulo morre em 12 de setembro |
| 1998 | Leandro morre em 23 de junho; Daniel lança o disco solo em 3 de agosto; "Ela É Demais" estoura |
| 1999 | Leonardo lança "Tempo" |
| 2011 | Primeira separação de Rick e Renner, depois de 22 anos; último show em 1º de janeiro |
| 2012 | A dupla volta em setembro |
| 2015 | Segunda separação, anunciada por Rick no Instagram em janeiro |
| 2018 | Volta oficial, anunciada no Domingão do Faustão em agosto |
| 2026 | Rick morre em 21 de setembro; Renner grava o vídeo em 24 de setembro |
Fonte da cronologia de Rick e Renner: verbete da dupla na Wikipédia em inglês.
O que o Renner tem que os outros não tinham
Daniel e Leonardo encararam o palco sozinhos pela primeira vez depois de um enterro.
Renner já tinha feito isso. Entre 2011 e 2012, e de novo entre 2015 e 2018, ele seguiu carreira sem o Rick. Foram cerca de cinco anos somados sem o parceiro ao lado. A diferença, e ela é enorme, é que nas duas vezes o Rick estava vivo, e a porta de volta estava aberta. A revista já contou as duas separações e as duas voltas.
Agora a porta fechou. A família do Rick disse, depois do enterro, que o corpo foi sepultado, mas o Rick "não pode ser sepultado", porque segue vivo na voz e nas músicas (Metrópoles). É com esse repertório que o Renner vai subir ao palco, se subir.
Os números
| Dupla | Discos vendidos juntos | Primeiro disco solo do sobrevivente |
|---|---|---|
| Leandro e Leonardo | 35 milhões | "Tempo", 1999 |
| João Paulo e Daniel | não informado nas fontes abertas | "Daniel", 3 de agosto de 1998 |
| Rick e Renner | mais de 10 milhões | ainda não existe |
Leonardo vendeu depois mais 10 milhões de discos solo, segundo o verbete de Leandro e Leonardo. O verbete do próprio Leonardo fala em mais de 15 milhões até 2022. Deixo as duas cifras à vista.
O que joga contra, e entra
"Comparar a morte do Rick com a de outros é desrespeito." A comparação aqui é de trajetória, não de dor. Ela responde à pergunta prática que o fã está fazendo: o que acontece com a música quando metade da dupla vai embora.
"O Renner vai seguir carreira solo." Ele não disse isso. Disse "a gente vai continuar cantando". O "a gente" pode ser ele e a banda, ele e os fãs, ou outra coisa. Qualquer anúncio de formato é NÃO CONFIRMADO até ele falar.
"A dupla acabou." Também não foi dito. A turnê tinha datas até dezembro e ninguém da equipe anunciou cancelamento nas reportagens que eu li.
"Aquilo foi nos anos 1990. O mercado mudou." Mudou. Em 1998 o sucesso passava pela loja de discos e pelo rádio. Hoje a obra da dupla está no streaming, onde só as cinco faixas mais ouvidas somam quase 280 milhões de reproduções no Spotify. O repertório continua tocando com ou sem show novo. O que a história de 1998 mostra é que o público acompanhou o sobrevivente. Não garante que vai acompanhar de novo.
A resposta
O show não pode parar? No sertanejo, em 1998, não parou. Daniel levou 11 meses para voltar ao estúdio. Leonardo, menos de um ano.
O Renner disse a frase em 24 de setembro, com o luto de três dias. Ele é o único dos três que já sabe como é o palco sem o parceiro. Só não sabe, ainda, como é o palco sem volta.








