O Lula disputou 9 eleições, de 1982 a 2026. Ganhou quatro e perdeu quatro. A nona ainda não acabou: o 2º turno é em 25 de outubro. No 1º turno de 2026, ele teve 3,4 milhões de votos a menos que em 2022, mesmo com mais gente votando.
Eu abri os resultados do TSE de todas elas, voto por voto. A história tem começo bonito. O Lula de 2002 fez coisas boas de verdade, e os números estão aqui. Depois veio a virada. E o povo começou a ir embora.
As 9 eleições do Lula numa tabela só
Votos válidos quer dizer: conta só quem escolheu um candidato. Branco e nulo ficam de fora.
| Ano | Disputa | Votos do Lula | % | Resultado |
|---|---|---|---|---|
| 1982 | Governador de SP | 1.144.648 | 10,8% | Perdeu. Ficou em 4º |
| 1986 | Deputado federal por SP | 651.763 | 7,1% de SP | Ganhou. O mais votado do Brasil |
| 1989 | Presidente, 2º turno | 31.076.364 | 47,0% | Perdeu para Collor |
| 1994 | Presidente, turno único | 17.122.127 | 27,0% | Perdeu para FHC |
| 1998 | Presidente, turno único | 21.475.211 | 31,7% | Perdeu para FHC |
| 2002 | Presidente, 2º turno | 52.793.364 | 61,3% | Ganhou de Serra |
| 2006 | Presidente, 2º turno | 58.295.042 | 60,8% | Ganhou de Alckmin |
| 2022 | Presidente, 2º turno | 60.345.999 | 50,9% | Ganhou de Bolsonaro |
| 2026 | Presidente, 1º turno | 53.879.538 | 45,2% | 2º lugar. Vai ao 2º turno contra o Flávio |
Fonte: TSE (Repositório de Dados Eleitorais, SIG Eleição e resultado oficial de 2026). Em 1982, a conta é sobre os votos dados a candidatos. Em 1994 e 1998, o FHC ganhou já no 1º turno.
Votos do Lula no 1º turno de cada eleição para presidente
Fonte: TSE
De 1989 a 2022, o número só subiu. Em 2026, pela primeira vez, ele caiu. Como o Lula chegou ao topo? E por que o povo está indo embora?
O mundo comum: o metalúrgico de São Bernardo

O Lula se formou torneiro mecânico pelo Senai em 1963. Em 1964, perdeu o dedo mínimo da mão esquerda num acidente de trabalho. Em 1975, virou presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema. Em 1979, comandou a grande greve do ABC. Em 10 de fevereiro de 1980, ajudou a fundar o PT.
A primeira eleição veio em 1982, para governador de São Paulo. Ele teve 1.144.648 votos, 10,8% dos votos dados a candidatos. Ficou em 4º lugar entre cinco. Quem ganhou foi Franco Montoro, do PMDB, com 49%.
Foi a primeira derrota. Não foi a última.
As provas: um recorde e três derrotas
Em 1986, o Lula se elegeu deputado federal por São Paulo com 651.763 votos. Foi o deputado mais votado do Brasil. Teve mais que o dobro da soma dos outros 7 petistas eleitos pelo estado (266.811).
Em 1989 veio a primeira eleição direta para presidente desde 1960. No 1º turno, o Lula teve 11,6 milhões de votos (17,2% dos válidos) e passou o Brizola por 454.445 votos. No 2º turno, perdeu para o Collor: 47% a 53%.
O mapa de 1989 era o contrário do de hoje. O Nordeste deu só 44% ao Lula. O Sul deu 52%.
O eleitor também era outro. Na pesquisa da véspera, quem tinha faculdade preferia o Lula (58% a 32%). Quem ganhava até 2 salários mínimos preferia o Collor (55% a 42%).
Em 1994, o Lula liderava. No fim de maio, o Datafolha dava 40% a 17% sobre o FHC. Aí veio o Real, o dinheiro novo que segurou os preços. Entre trabalhadores sem carteira e de renda baixa, o Lula tinha 47% contra 13% em maio. Em meados de setembro, esse mesmo grupo dava 45% ao FHC e 20% ao Lula. O FHC ganhou no 1º turno: 54,3% a 27%.
Em 1998, perdeu de novo, também no 1º turno: 31,7% a 53,1%. Nem o Nordeste era dele. Em 1994, o FHC venceu nos 9 estados nordestinos.
Três derrotas seguidas para presidente. E ele tentou a quarta.
A vitória: 2002, na quarta tentativa

Na quarta vez, ele ganhou. No 2º turno de 2002, foram 52.793.364 votos, 61,3% contra 38,7% do José Serra. O Lula venceu em 26 dos 27 estados. Só perdeu em Alagoas.
E venceu de rico e de pobre quase igual. Segundo o Datafolha de quatro dias antes do 2º turno, ele tinha 66% entre quem ganhava até 5 salários mínimos, 68% de 5 a 10 e 65% acima de 10.
Quem votou no Lula em 2002 votou num homem que tinha saído da fábrica. E ele chegou lá.
O auge: o que deu certo de verdade
Aqui a revista mostra o que foi bom, com o número de cada coisa. Quem não mostra isso não entende por que tanta gente gostou dele.
Fontes: IBGE, DIEESE, Singer (2009) e Datafolha.
Em palavras de casa:
- O país cresceu. PIB é tudo o que o Brasil produz num ano. Com o Lula, ele cresceu em média 4,1% por ano. Em 2010, cresceu 7,5%.
- Sobrou emprego. Em seis grandes regiões metropolitanas (São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife e Salvador), o desemprego caiu de 12,4% em 2003 para 6,7% em 2010, o menor da pesquisa até então.
- O salário mínimo comprou mais. Ele foi de R$ 200 em 2002 para R$ 510 em 2010. Em São Paulo, um salário comprava 1,4 cesta básica em 2002. Em janeiro de 2010, comprava 2,2. Segundo o DIEESE, foi a maior marca desde 1979.
- O Bolsa Família cresceu. Segundo o cientista político André Singer, as famílias atendidas foram de 3,6 milhões para cerca de 11,4 milhões perto da eleição de 2006.
Em 2006, ele foi reeleito com 58.295.042 votos (60,8%). Mas o mapa virou. O Nordeste deu 77% ao Lula, e o Sul só 46%. De 2002 para 2006, só o Nordeste deu 6,2 milhões de votos a mais. Somando o resto do país e o exterior, ele teve 654 mil votos a menos.
O voto passou a depender do bolso. Na véspera do 2º turno de 2006, segundo o Datafolha, ele tinha 69% entre quem ganhava até 2 salários mínimos e 44% acima de 10. Em 1989 tinha sido o contrário.
No fim de 2010, 83% achavam o governo ótimo ou bom. Foi a maior marca de um presidente na série do Datafolha. 84% diziam que ele entregava um país melhor do que recebeu.
Esse foi o topo. O que aconteceu depois?
A virada: o mensalão, a Petrobras e a recessão
A primeira rachadura veio em 2005, no meio do primeiro mandato. Foi o mensalão: dinheiro repassado a partidos aliados para votarem com o governo no Congresso. Em dezembro de 2005, só 28% achavam o governo ótimo ou bom. Era a pior marca do Lula até então.
Em 9 de outubro de 2012, o Supremo Tribunal Federal condenou nomes da cúpula do governo e do PT do primeiro mandato por corrupção ativa, ou seja, por pagar para ter o apoio. Entre os condenados estavam José Dirceu, ex-ministro da Casa Civil do Lula, José Genoino, ex-presidente do PT, e Delúbio Soares, ex-tesoureiro do PT. A ressalva completa: em 2014, o STF tirou deles o crime de formação de quadrilha, por 6 a 5. A condenação por corrupção ativa ficou. O Lula não foi réu no mensalão.
Depois veio a Petrobras. No balanço de 2014, divulgado em abril de 2015, a própria Petrobras lançou uma perda de R$ 6,194 bilhões por corrupção. Era o dinheiro pago a mais em contratos de 2004 a 2012, descoberto pela Lava Jato.
O próprio Lula falou disso no Jornal Nacional, em 25 de agosto de 2022:
"Você não pode dizer que não houve corrupção se as pessoas confessaram."
E veio a economia. A Dilma, que o Lula escolheu para o lugar dele, ganhou em 2010. No segundo mandato dela, o país encolheu dois anos seguidos: o PIB caiu 3,5% em 2015 e 3,3% em 2016. A inflação de 2015 foi de 10,67%, a maior desde 2002. O desemprego mais que dobrou: de cerca de 6,5% no fim de 2014 para quase 14% no começo de 2017. Esse pico já veio no governo Temer, porque a Dilma sofreu impeachment em 31 de agosto de 2016, por 61 votos a 20 no Senado.
O emprego que tinha sobrado sumiu. E a pessoa que mais sentiu foi a mesma que tinha votado nele.
A provação: a prisão em 2018 e a anulação em 2021
Em 7 de abril de 2018, o Lula foi preso na Polícia Federal de Curitiba, condenado no caso do triplex do Guarujá. A condenação tinha sido confirmada pela segunda instância. Naquele ano, o TSE barrou a candidatura dele pela Lei da Ficha Limpa, por 6 votos a 1. Ele ficou 580 dias preso e saiu em 8 de novembro de 2019.
Em 2021, o STF anulou as condenações. Anular é cancelar. O plenário confirmou por 8 a 3, em 15 de abril, que o processo não podia ter corrido em Curitiba. Em 23 de junho, por 7 a 4, declarou que o juiz Sergio Moro foi parcial.
As duas coisas são verdade ao mesmo tempo: ele foi preso, e as condenações foram anuladas. Ninguém julgou de novo se ele era culpado ou inocente. O próprio Ministério Público Federal pediu o arquivamento do caso do triplex em dezembro de 2021, porque o prazo tinha acabado.
A volta: 2022, recorde e por um fio
Em 2022, o Lula voltou e ganhou. No 2º turno, teve 60.345.999 votos, a maior votação de um candidato a presidente no Brasil. Ganhou do Bolsonaro por 2.139.645 votos, a menor diferença de um 2º turno até hoje.
O mapa de 1989 tinha virado de vez. Em 2022, o Nordeste deu 69% ao Lula e o Sul, 38%.
Ele voltou com o recorde. Mas por um fio. E o fio começou a afinar.
O povo indo embora: 2026
O 1º turno de 2026 foi em 4 de outubro. Segundo o TSE, o Flávio Bolsonaro teve 56.104.503 votos (47,03%) e o Lula, 53.879.538 (45,16%).
Em 2022, no 1º turno, o Lula tinha tido 57.259.504. Foram 3.379.966 votos a menos. No mesmo tempo, o país teve 1.071.069 votos válidos a mais. O bolo cresceu e a fatia dele diminuiu.
Onde ele perdeu, pelo TSE (1º turno de 2022 contra 1º turno de 2026):
| Região | Lula em 2022 | Lula em 2026 | Diferença | Quanto caiu |
|---|---|---|---|---|
| Sudeste | 21.037.094 | 19.237.398 | -1.799.696 | 8,6% |
| Sul | 6.449.380 | 5.476.524 | -972.856 | 15,1% |
| Centro-Oeste | 3.326.328 | 2.963.043 | -363.285 | 10,9% |
| Nordeste | 21.753.139 | 21.494.584 | -258.555 | 1,2% |
| Norte | 4.554.630 | 4.550.602 | -4.028 | 0,1% |
| Brasil | 57.259.504 | 53.879.538 | -3.379.966 | 5,9% |
De cada 100 votos que o Lula teve em 2022, quantos sumiram em 2026
Fonte: TSE, 1º turno de 2022 e de 2026
O Nordeste e o Norte ficaram. O Sul, o Sudeste e o Centro-Oeste foram embora. Só em São Paulo, Minas, Rio Grande do Sul e Paraná, foram 2,4 milhões de votos a menos. Minas, que deu vitória ao Lula nos dois turnos de 2022, deu 48,2% ao Flávio e 43,3% ao Lula.
E quem foi embora? A pesquisa ajuda a ver. Comparei a mesma pesquisa, do mesmo instituto, no mesmo momento: a véspera do 1º turno de 2022 e a de 2026. Os números são de votos válidos, segundo o Datafolha.
| Grupo | Lula em 2022 | Lula em 2026 |
|---|---|---|
| Homens | 50% | 41% |
| Quem fez ensino médio | 48% | 39% |
| Moradores do Sul | 42% | 33% |
| Quem ganha até 2 salários mínimos | 61% | 54% |
| Mulheres | 51% | 50% (estável) |
| Quem fez faculdade | 41% | 40% (estável) |
Ele ainda ganha do pobre. Mas cada vez menos. Diferença de 1 ponto fica dentro do erro da pesquisa, por isso está escrito "estável".
Ficha das duas pesquisas (Res. TSE 23.600, art. 10):
- Datafolha 2022: contratantes Folha de S.Paulo e TV Globo; campo em 30/09 e 01/10/2022; 12.800 entrevistas; margem de erro de 2 pontos; 95% de confiança; registro no TSE BR-00245/2022.
- Datafolha 2026: contratantes Folha de S.Paulo e TV Globo; campo em 2 e 3/10/2026; 4.006 entrevistas; margem de erro de 2 pontos; 95% de confiança; registro no TSE BR-01708/2026.
A aprovação seguiu o mesmo caminho. Os 83% de 2010 viraram 24% em fevereiro de 2025, a pior marca dos três mandatos. Em outubro de 2026, 35% acham o governo ótimo ou bom e 41% acham ruim ou péssimo.
Quantos achavam o governo Lula ótimo ou bom
Fonte: Datafolha (fichas abaixo)
O que joga contra, e entra
Tem gente que vai dizer que o Lula de hoje também tem número bom. E tem. A revista mostra:
- O desemprego está no menor nível da série. Foi de 5,1% no fim de 2025, segundo o IBGE (a pesquisa começou em 2012). Mesmo assim, o voto caiu.
- O país voltou a crescer, só que menos. O PIB cresceu em média 3% por ano de 2023 a 2025, contra 4,1% nos dois primeiros mandatos.
- Ele ainda lidera entre os mais pobres e no Nordeste. No 1º turno de 2026, teve 63,8% dos válidos no Nordeste, pelo TSE.
- Ele não tem condenação. As condenações foram anuladas pelo STF e o mérito nunca foi julgado de novo.
Nada disso muda a conta do TSE: com mais gente votando, ele teve 3,4 milhões de votos a menos.
A resposta
Na opinião da revista: quem votou no Lula em 2002 não estava errado. Aquele Lula saiu da fábrica, ganhou na quarta tentativa e entregou emprego e salário mínimo maior. Os números estão nesta matéria.
O Lula de 2002 é que não existe mais. Depois dele vieram o mensalão, a Petrobras, a recessão da Dilma e a prisão. O povo que o levou ao topo está indo embora devagar. A urna de 2026 mostrou isso.
E você, votou no Lula em algum ano? Conta aqui embaixo: SIM ou NÃO.
As fichas das pesquisas citadas
A lei eleitoral (Res. TSE 23.600, art. 10) manda informar a ficha de toda pesquisa divulgada. Onde o instituto não informou um dado, está escrito.
- Ibope, 13 a 16/12/1989: 3.650 entrevistas; margem e confiança não informadas pelo instituto; contratante não informado; sem registro (não existia na época). Dados do CESOP/Unicamp.
- Datafolha, 23 e 24/05/1994 e 13 a 15/09/1994: cerca de 2.500 entrevistas por rodada; margem de 2 pontos; confiança e registro não informados (Mendes e Venturi, Opinião Pública, 1994).
- Datafolha, 23/10/2002: 10.402 entrevistas em 351 municípios; margem de 2 pontos; confiança e registro não informados no relatório.
- Datafolha, 27 e 28/10/2006: 12.561 entrevistas em 356 municípios; margem de 2 pontos; registro no TSE 23522/2006; confiança não informada no relatório.
- Datafolha, avaliação de governo, 17 a 19/11/2010 (relatório de dezembro de 2010): 11.281 entrevistas em 421 municípios; margem de 2 pontos; confiança e registro não informados no relatório.
- Datafolha, 30/09 e 01/10/2022 (Folha e TV Globo): 12.800 entrevistas; margem de 2 pontos; 95% de confiança; registro BR-00245/2022.
- Datafolha, 10 e 11/02/2025: 2.007 entrevistas; margem de 2 pontos; avaliação de governo, sem registro por não ser ano de eleição.
- Datafolha, 2 e 3/10/2026 (Folha e TV Globo): 4.006 entrevistas; margem de 2 pontos; 95% de confiança; registro BR-01708/2026.
- Datafolha, 13 e 14/10/2026 (Folha): 2.520 entrevistas; margem de 2 pontos; 95% de confiança; registro BR-00466/2026.
Perguntas frequentes
Em quantas eleições o Lula concorreu?
Em 9: governador de São Paulo em 1982, deputado federal em 1986 e presidente em 1989, 1994, 1998, 2002, 2006, 2022 e 2026. Ganhou quatro (1986, 2002, 2006 e 2022) e perdeu quatro. A de 2026 ainda tem o 2º turno, em 25 de outubro.
Quantos votos o Lula perdeu de 2022 para 2026?
No 1º turno, foram 3.379.966 votos a menos, segundo o TSE: 57.259.504 em 2022 e 53.879.538 em 2026. A maior perda foi no Sudeste e a maior queda, no Sul (15,1%).
Qual foi a aprovação do Lula no fim do segundo mandato?
83% de ótimo ou bom no Datafolha de novembro de 2010, a maior marca de um presidente na série do instituto.
O Lula foi condenado no mensalão?
Não. O Lula não foi réu no mensalão. Em 2012, o STF condenou por corrupção ativa nomes da cúpula do governo e do PT, como José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares.
As condenações do Lula na Lava Jato valem?
Não. O STF anulou as condenações em 2021, por erro de foro e por suspeição do juiz. O mérito não foi julgado de novo: ele não foi absolvido nem condenado.







