No domingo, 20 de setembro, Thiago Reis Dias treinou de manhã como em qualquer outro dia. Depois do almoço, reclamou de dor de cabeça e foi deitar no alojamento do clube.
Quatro dias depois, estava morto.
Ele tinha 18 anos. Era goleiro do sub-20 do Trindade Atlético Clube, o TAC, da região metropolitana de Goiânia. E carregava uma história que quase nenhuma notícia contou: o pai dele morreu de AVC cerca de cinco anos antes, segundo o Portal 6 e o jornal Correio.
O que aconteceu, dia a dia
Domingo, 20/09. Treino normal pela manhã. À tarde, dor de cabeça no alojamento. Segundo o Correio Braziliense, ele se deitou no quarto com o ar-condicionado ligado e o colega de quarto deu a ele um remédio. Quando o colega voltou, encontrou Thiago mal.
O presidente do TAC, Adilson Filho, descreveu a piora ao Jornal do Vale: "o jogador começou a sentir dor de cabeça no alojamento e, pouco depois, perdeu a capacidade de se comunicar".
Funcionários do clube levaram o goleiro ao hospital de Trindade (ND+). Ali, segundo o Jornal do Vale, ele recebeu trombólise, o remédio que tenta dissolver o coágulo que entope a artéria do cérebro.
Depois foi transferido para o Hugol, o Hospital Estadual de Urgências Governador Otávio Lage de Siqueira, em Goiânia.
Quinta, 24/09. Morreu no Hugol. O diagnóstico divulgado foi AVC isquêmico, o tipo causado por obstrução de uma artéria.
Quem era Thiago
Nasceu em Imperatriz, no Maranhão. Chegou a Goiás no fim de julho de 2026 para tentar a carreira no TAC.
Aos 18 anos, já tinha passado por cinco clubes em quatro estados, segundo o levantamento do Portal 6 e do Jornal do Vale:
| Clube | Estado |
|---|---|
| União Esporte Clube (Rondonópolis) | MT |
| Real Noroeste | ES |
| Cristianópolis | GO |
| Jataiense | GO |
| Trindade Atlético Clube | GO |
Pelo TAC, não chegou a jogar nenhuma partida oficial (Correio e Portal 6).
O presidente do clube o descreveu ao Correio Braziliense como "um menino extraordinário. Humilde, da igreja, muito apegado à mãe e a um cachorro".
É a rotina da base do futebol brasileiro. O menino sai de casa cedo, divide quarto em alojamento e troca de clube a cada temporada atrás de uma chance. A família fica em outro estado.
A reação
O TAC decretou luto e suspendeu as atividades das categorias de base (Jornal do Vale). Em nota, o clube escreveu: "Neste momento de dor, o Trindade se coloca à disposição da família, oferecendo todo o suporte necessário" (Correio Braziliense e ND+).
Pelo menos seis clubes goianos publicaram homenagens, entre eles Grêmio Anápolis, Vila Nova, Cerrado, Guanabara City e Itaberaí (Portal 6). Uma torcedora resumiu nas redes: "Hoje o futebol perde um jovem talento, mas o céu ganha uma estrela".
Os números do AVC
A imagem mais simples é a de um cano. No AVC isquêmico, um coágulo entope o cano que leva sangue ao cérebro. No hemorrágico, o cano estoura.
Segundo o Ministério da Saúde, o isquêmico responde por 85% dos casos e o hemorrágico por 15%.
A World Stroke Organization, entidade internacional dedicada ao tema, estima:
| Dado | Número |
|---|---|
| Pessoas que terão o primeiro AVC neste ano, no mundo | mais de 12 milhões |
| Mortes por ano | 6,5 milhões |
| AVCs em pessoas com menos de 50 anos | 16% |
| Adultos acima de 25 anos que terão um AVC na vida | 1 em cada 4 |
Na lista de fatores de risco do Ministério da Saúde estão pressão alta, diabetes, colesterol, cigarro, álcool, sedentarismo e histórico familiar. Por isso a morte do pai de Thiago importa. É o tipo de informação que uma avaliação médica de admissão pode levantar.
Os sinais que pedem socorro imediato, segundo o Ministério, incluem fraqueza, alteração na visão e confusão mental. A orientação é ligar para o SAMU, no 192.
O que ninguém respondeu
Eu procurei nas reportagens publicadas até sexta, 25, a resposta para três perguntas. Não achei nenhuma.
- O TAC fez exame médico de admissão quando o goleiro chegou, em julho? Qual?
- O clube sabia que o pai dele tinha morrido de AVC?
- Qual remédio o colega de quarto deu, e quanto tempo passou entre a dor de cabeça e a chegada ao hospital?
O ND+ registrou que tentou ouvir o clube e a agência do atleta por e-mail e não recebeu resposta.
Nenhuma dessas perguntas é acusação. São o mínimo que uma família, e qualquer pai que tem filho em alojamento de clube, tem direito de saber.
O que joga contra, e entra
"Foi coisa de família, era genético." A morte do pai por AVC foi confirmada por dois veículos. A ligação entre as duas mortes, não. Nenhum médico falou publicamente sobre o caso de Thiago, e AVC em jovens tem várias causas possíveis. O histórico familiar é fator de risco, segundo o Ministério da Saúde, e fator de risco não é causa.
"O clube foi negligente." Não há prova disso. O que se sabe é que funcionários levaram o atleta ao hospital e que ele recebeu trombólise ainda em Trindade, segundo o Jornal do Vale. Se houve demora, ninguém mediu. Se houve exame de admissão, ninguém informou.
"AVC é doença de velho." Os números desmentem. Uma em cada seis vítimas no mundo tem menos de 50 anos, segundo a World Stroke Organization.
"Ele tomou remédio e piorou." Nenhuma fonte diz qual foi o remédio nem liga o medicamento à piora. Especular sobre isso é injusto com o colega de quarto, que foi quem percebeu que Thiago estava mal.
A resposta
Thiago Reis Dias morreu da mesma doença que matou o pai. Isso é fato, confirmado por duas fontes. Se uma morte explica a outra, ninguém sabe, e ninguém com autoridade médica disse.
O que dá para afirmar é o que ficou sem resposta: um menino de 18 anos, com histórico familiar de AVC, morava em alojamento, longe da mãe, no Maranhão, e ninguém contou, até agora, que exame ele fez ao chegar. É essa a pergunta que o futebol de base deve à mãe dele.







