Revista De Castro

Esportes / 26 de setembro de 2026

Eu fui checar

O goleiro de 18 anos que perdeu o pai para um AVC e morreu da mesma forma

Thiago Reis Dias treinou normalmente no domingo, sentiu dor de cabeça depois do almoço e morreu quatro dias depois, em Goiânia. Tinha 18 anos, cinco clubes em quatro estados e nenhum jogo oficial pelo time atual. O pai dele morreu de AVC cinco anos antes. Eu fui checar o que se sabe e o que ninguém respondeu.

Publicado
26 de setembro de 2026
Atualizado
26 de setembro de 2026
Editoria
Esportes
Leitura
5 min
Fontes
8 citadas
Imagem ilustrativa: Santeri Viinamäki / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0
Imagem ilustrativa: Santeri Viinamäki / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

No domingo, 20 de setembro, Thiago Reis Dias treinou de manhã como em qualquer outro dia. Depois do almoço, reclamou de dor de cabeça e foi deitar no alojamento do clube.

Quatro dias depois, estava morto.

Ele tinha 18 anos. Era goleiro do sub-20 do Trindade Atlético Clube, o TAC, da região metropolitana de Goiânia. E carregava uma história que quase nenhuma notícia contou: o pai dele morreu de AVC cerca de cinco anos antes, segundo o Portal 6 e o jornal Correio.

O que aconteceu, dia a dia

Domingo, 20/09. Treino normal pela manhã. À tarde, dor de cabeça no alojamento. Segundo o Correio Braziliense, ele se deitou no quarto com o ar-condicionado ligado e o colega de quarto deu a ele um remédio. Quando o colega voltou, encontrou Thiago mal.

O presidente do TAC, Adilson Filho, descreveu a piora ao Jornal do Vale: "o jogador começou a sentir dor de cabeça no alojamento e, pouco depois, perdeu a capacidade de se comunicar".

Funcionários do clube levaram o goleiro ao hospital de Trindade (ND+). Ali, segundo o Jornal do Vale, ele recebeu trombólise, o remédio que tenta dissolver o coágulo que entope a artéria do cérebro.

Depois foi transferido para o Hugol, o Hospital Estadual de Urgências Governador Otávio Lage de Siqueira, em Goiânia.

Quinta, 24/09. Morreu no Hugol. O diagnóstico divulgado foi AVC isquêmico, o tipo causado por obstrução de uma artéria.

Quem era Thiago

Nasceu em Imperatriz, no Maranhão. Chegou a Goiás no fim de julho de 2026 para tentar a carreira no TAC.

Aos 18 anos, já tinha passado por cinco clubes em quatro estados, segundo o levantamento do Portal 6 e do Jornal do Vale:

ClubeEstado
União Esporte Clube (Rondonópolis)MT
Real NoroesteES
CristianópolisGO
JataienseGO
Trindade Atlético ClubeGO

Pelo TAC, não chegou a jogar nenhuma partida oficial (Correio e Portal 6).

O presidente do clube o descreveu ao Correio Braziliense como "um menino extraordinário. Humilde, da igreja, muito apegado à mãe e a um cachorro".

É a rotina da base do futebol brasileiro. O menino sai de casa cedo, divide quarto em alojamento e troca de clube a cada temporada atrás de uma chance. A família fica em outro estado.

A reação

O TAC decretou luto e suspendeu as atividades das categorias de base (Jornal do Vale). Em nota, o clube escreveu: "Neste momento de dor, o Trindade se coloca à disposição da família, oferecendo todo o suporte necessário" (Correio Braziliense e ND+).

Pelo menos seis clubes goianos publicaram homenagens, entre eles Grêmio Anápolis, Vila Nova, Cerrado, Guanabara City e Itaberaí (Portal 6). Uma torcedora resumiu nas redes: "Hoje o futebol perde um jovem talento, mas o céu ganha uma estrela".

Os números do AVC

A imagem mais simples é a de um cano. No AVC isquêmico, um coágulo entope o cano que leva sangue ao cérebro. No hemorrágico, o cano estoura.

Segundo o Ministério da Saúde, o isquêmico responde por 85% dos casos e o hemorrágico por 15%.

A World Stroke Organization, entidade internacional dedicada ao tema, estima:

DadoNúmero
Pessoas que terão o primeiro AVC neste ano, no mundomais de 12 milhões
Mortes por ano6,5 milhões
AVCs em pessoas com menos de 50 anos16%
Adultos acima de 25 anos que terão um AVC na vida1 em cada 4

Na lista de fatores de risco do Ministério da Saúde estão pressão alta, diabetes, colesterol, cigarro, álcool, sedentarismo e histórico familiar. Por isso a morte do pai de Thiago importa. É o tipo de informação que uma avaliação médica de admissão pode levantar.

Os sinais que pedem socorro imediato, segundo o Ministério, incluem fraqueza, alteração na visão e confusão mental. A orientação é ligar para o SAMU, no 192.

O que ninguém respondeu

Eu procurei nas reportagens publicadas até sexta, 25, a resposta para três perguntas. Não achei nenhuma.

  1. O TAC fez exame médico de admissão quando o goleiro chegou, em julho? Qual?
  2. O clube sabia que o pai dele tinha morrido de AVC?
  3. Qual remédio o colega de quarto deu, e quanto tempo passou entre a dor de cabeça e a chegada ao hospital?

O ND+ registrou que tentou ouvir o clube e a agência do atleta por e-mail e não recebeu resposta.

Nenhuma dessas perguntas é acusação. São o mínimo que uma família, e qualquer pai que tem filho em alojamento de clube, tem direito de saber.

O que joga contra, e entra

"Foi coisa de família, era genético." A morte do pai por AVC foi confirmada por dois veículos. A ligação entre as duas mortes, não. Nenhum médico falou publicamente sobre o caso de Thiago, e AVC em jovens tem várias causas possíveis. O histórico familiar é fator de risco, segundo o Ministério da Saúde, e fator de risco não é causa.

"O clube foi negligente." Não há prova disso. O que se sabe é que funcionários levaram o atleta ao hospital e que ele recebeu trombólise ainda em Trindade, segundo o Jornal do Vale. Se houve demora, ninguém mediu. Se houve exame de admissão, ninguém informou.

"AVC é doença de velho." Os números desmentem. Uma em cada seis vítimas no mundo tem menos de 50 anos, segundo a World Stroke Organization.

"Ele tomou remédio e piorou." Nenhuma fonte diz qual foi o remédio nem liga o medicamento à piora. Especular sobre isso é injusto com o colega de quarto, que foi quem percebeu que Thiago estava mal.

A resposta

Thiago Reis Dias morreu da mesma doença que matou o pai. Isso é fato, confirmado por duas fontes. Se uma morte explica a outra, ninguém sabe, e ninguém com autoridade médica disse.

O que dá para afirmar é o que ficou sem resposta: um menino de 18 anos, com histórico familiar de AVC, morava em alojamento, longe da mãe, no Maranhão, e ninguém contou, até agora, que exame ele fez ao chegar. É essa a pergunta que o futebol de base deve à mãe dele.

Fontes desta materia

  1. Correio Braziliense, Goleiro de 18 anos morre quatro dias após sofrer AVC em Goiânia
  2. Metrópoles, Jogador de futebol morre aos 18 anos vítima de AVC, em Goiás
  3. Portal 6, Morte de jogador de apenas 18 anos gera comoção em Goiás
  4. Correio, Saiba quem era o jogador de futebol que morreu aos 18 anos após sofrer um AVC
  5. ND+, Goleiro de 18 anos morre após sofrer AVC; atleta estava internado desde domingo em Goiás
  6. Jornal do Vale, Goleiro do sub-20 do Trindade morre aos 18 anos após sofrer AVC
  7. Ministério da Saúde, AVC: o que é, sintomas e fatores de risco
  8. World Stroke Organization, Impact of stroke