O primeiro turno é no domingo, 4 de outubro. Quem abrir um chatbot nesta semana e perguntar em quem votar pode receber um nome.
A regra é clara. A Resolução 23.755/2026 do TSE proíbe sistemas de inteligência artificial de recomendar candidatos, "nem mesmo quando o próprio usuário pede uma indicação".
Três pesquisas diferentes testaram se a regra está sendo cumprida. As três acharam o mesmo problema. Os números, porém, não batem entre si. Eu fui entender por quê.
O fato central: 20% das respostas indicaram candidato
O monitoramento mais citado se chama "Boca de IA". É feito pelo Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio (ITS Rio) em parceria com o Ministério Público Federal. Começou em março. O resultado da quinta rodada saiu em 25 de setembro.
Os pesquisadores fizeram perguntas sobre as eleições a sete ferramentas e analisaram 245 respostas, coletadas de 17 a 21 de agosto.
Em 20% delas, a IA recomendou candidato. Em 86%, apresentou algum tipo de ranking.
O placar por ferramenta:
| Ferramenta | Respostas que recomendaram candidato |
|---|---|
| Perplexity | 89% |
| Meta AI | 23% |
| Grok | 14% |
| DeepSeek | 11% |
| ChatGPT | 0% |
| Claude | 0% |
| Gemini | 0% |
A Meta AI é a que vem dentro do WhatsApp.
A IA encolhe a urna
O mesmo estudo mostra um efeito menos comentado. Só quatro candidaturas à Presidência aparecem nas respostas das sete ferramentas. Para governador, das 197 candidaturas registradas no país, só 20 foram citadas por todas.
Quem pergunta à IA recebe um cardápio menor do que o da urna.
As fontes que as ferramentas usam também foram contadas. A imprensa aparece em 76% das respostas. Sites do TSE e dos TREs, em 30%. Em 12% das respostas havia dado desatualizado. Houve 2 casos de informação inventada, as chamadas alucinações, em 245 respostas.
De onde veio: o Piauí e a primeira rodada
O problema não é novo. Em testes feitos de 2 a 6 de julho, o mesmo monitoramento registrou ranking de candidatos em 100% das respostas sobre o governo do Piauí, segundo o Portal O Dia. No país, o índice de ranking naquela rodada foi de 90%.
Em agosto, outra organização, a Eko, publicou o relatório "Alucinações Artificiais no Brasil", noticiado pelo Correio Braziliense. Testou ChatGPT, Gemini, Grok e Meta AI com três perfis fictícios de eleitor. Achou respostas total ou parcialmente erradas em 24% das vezes na Meta AI, 12% no ChatGPT, 12% no Grok e 8% no Gemini. Também achou recomendações diretas ou indiretas de candidato.
A virada: a IA recomenda quando sabe quem você é
Na mesma semana, duas pesquisas mudaram o jeito de ler esses números.
A primeira foi feita pelo InternetLab, pelo LabDados da FGV e pela Rede Conhecimento Social, e noticiada pelo SBT News em 23 de setembro. Em vez de perguntas soltas, os pesquisadores simularam 1.679 conversas completas, com 7 a 10 trocas cada, somando 18.360 respostas. Cada conversa tinha um eleitor fictício com posição política, gênero, idade, escolaridade e jeito de falar. A coleta foi de 27 a 31 de agosto.
O resultado de indicação direta de candidato:
| Ferramenta | Indicação direta |
|---|---|
| DeepSeek | 88% |
| Gemini | 33% |
| Grok | 30% |
| ChatGPT | 10% |
| Claude | 4% |
Repare: Gemini, ChatGPT e Claude, que tiveram 0% no "Boca de IA", aparecem aqui com indicações.
A segunda pesquisa explica a diferença. Feita pela iniciativa Free Systems com pesquisadores de Harvard, de Stanford e da brasileira Ranqia, foi publicada pela CNN Brasil em 25 de setembro. Foram 12.800 respostas de 10 modelos de IA, com perguntas em português feitas a partir de nove perfis de eleitor.
A conclusão está num trecho do levantamento: "Quando não havia informação política sobre o eleitor, todos os modelos se negaram a recomendar qualquer candidato." E outro: "Recomendações explícitas se tornaram muito mais comuns quando o prompt passou a ter uma ideia sobre qual era a posição política do eleitor."
Traduzindo: se você pergunta "em quem eu voto?", a maioria das IAs recusa. Se você conta que é evangélico, empresário, de esquerda ou de direita, e conversa um pouco, a resposta muda. A CNN resume no título: a IA direciona voto em quase metade das respostas quando traça o perfil do eleitor.
Quem aparece e quem some
A pesquisa publicada pela CNN registrou quais nomes as IAs devolveram para cada perfil. Lula apareceu para perfis de esquerda. Flávio Bolsonaro, para perfis de direita. Romeu Zema, para perfis ligados ao empreendedorismo. Ronaldo Caiado foi citado raramente. Augusto Cury e Renan Santos não foram citados nenhuma vez.
Eu registro esses nomes como dado da pesquisa. Não é avaliação de candidato, e a matéria não recomenda nenhum.
Os números lado a lado
| Pesquisa | Quem fez | Método | Achado principal |
|---|---|---|---|
| Boca de IA, 5ª rodada | ITS Rio e MPF | 245 respostas, 7 ferramentas, 17 a 21/08 | 20% recomendaram candidato; 86% ranquearam |
| Conversas simuladas | InternetLab, FGV e ReCoS | 1.679 conversas, 18.360 respostas, 27 a 31/08 | Indicação direta de 4% (Claude) a 88% (DeepSeek) |
| Perfis de eleitor | Free Systems, Harvard, Stanford, Ranqia | 12.800 respostas, 10 modelos | Sem perfil, ninguém recomenda; com perfil, quase metade direciona |
| Alucinações Artificiais | Eko | 4 ferramentas, 3 perfis, 24/06 a 01/07 | Erro de 8% (Gemini) a 24% (Meta AI) |
O que deu errado
A regra do TSE vale para empresas com mais de 5 milhões de usuários ativos por mês no Brasil, segundo a TeleSíntese. Ela não abre exceção para quem pede. Mesmo assim, as três pesquisas acharam recomendações, e o ranking de candidatos, que a resolução também proíbe, aparece em 86% das respostas do "Boca de IA".
A pesquisa do InternetLab achou um problema a mais: respostas que desacreditam o sistema de votação, de 9% no modo IA do Google a 60% no DeepSeek.
Uma sexta rodada do "Boca de IA" está em andamento, com resultado previsto para antes do primeiro turno, segundo a Agência Brasil.
O que muda para você
Três cuidados práticos, tirados dos próprios estudos.
Primeiro: a IA muda a resposta conforme o que você conta de si. Quanto mais você se descreve, mais ela tende a escolher por você.
Segundo: a lista que ela devolve é menor que a urna. Para ver todos os candidatos do seu estado, o lugar é o site do TSE.
Terceiro: em 12% das respostas havia dado velho. Número de candidato, partido e proposta se confere na fonte oficial.
O que joga contra, e entra
"Então o ChatGPT recomenda ou não recomenda?" Depende de como se pergunta. Com pergunta direta e sem perfil, deu 0% no "Boca de IA". Em conversa longa com eleitor de perfil definido, deu 10% de indicação direta na pesquisa do InternetLab. As duas medições estão certas. Medem coisas diferentes.
"Pesquisa com eleitor fictício não vale." É o único jeito de testar sem expor eleitor real. E a metodologia foi publicada: número de conversas, datas e perfis. Os resultados das três pesquisas apontam na mesma direção.
"A IA está fazendo campanha para alguém." Nenhum dos estudos afirma isso. O que eles mostram é que a resposta acompanha o perfil que o usuário apresenta. Perfil de esquerda recebe nome de esquerda, perfil de direita recebe nome de direita.
"Quem usa IA para decidir voto é pouca gente." As pesquisas não medem quantos eleitores fazem isso, e eu não tenho esse número. O que elas medem é o que acontece com quem faz.
"O TSE não está fazendo nada." A resolução existe e proíbe a indicação mesmo a pedido. O monitoramento é feito junto com o Ministério Público Federal. O que as pesquisas mostram é que a regra ainda não é cumprida por todas as ferramentas.
A resposta
Uma ferramenta indicou candidato em 89% das respostas. Outras três ficaram entre 11% e 23%. As mais conhecidas deram zero na pergunta direta, mas passam a indicar quando o eleitor conta quem é.
A pergunta "em quem eu voto?" tem uma regra no Brasil: a máquina não pode responder. Por enquanto, parte delas responde assim mesmo. Quem decide o voto é você.







