Um Embraer Legacy 650, prefixo PP-NLR. Em 19 de janeiro de 2025, ele decolou de Fort Lauderdale, na Flórida, e pousou em Brasília com Flávio Bolsonaro a bordo.
Em 22 de agosto do mesmo ano, o mesmo avião desembarcou Alexandre de Moraes no Santos Dumont, no Rio.
Uma das três cotas da aeronave pertencia, naquele período, a uma empresa de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, hoje preso.
Eu fui atrás de quem são os donos, de quem pagou a conta e dos números que os dois lados estão usando na campanha.
O voo de janeiro
A revista Piauí revelou a viagem. A CNN e outros veículos confirmaram.
Estavam a bordo Flávio Bolsonaro, a mulher Fernanda, duas filhas do casal e o advogado Willer Tomaz.
O dono formal da aeronave é a Fraction 024 Administração de Bem Próprio S.A., empresa criada para dividir o avião em três partes iguais, de 33,33% cada. A operadora é a Prime Aviation Táxi Aéreo e Serviços.
Os três donos
| Cota | Titular | Como |
|---|---|---|
| 33,33% | Willer Tomaz, advogado | Alcazar Holdings, sediada na Ilha da Madeira |
| 33,33% | Laércio Cosentino, fundador da Totvs | direto |
| 33,33% | Prime You | empresa da qual Daniel Vorcaro era sócio |
Cada terço estava avaliado em US$ 5,5 milhões em maio de 2025. O avião foi comprado por US$ 14 milhões, o equivalente a R$ 74,2 milhões em 2023.
O Legacy 650 leva até 13 passageiros mais três tripulantes, voa 6,8 mil quilômetros sem reabastecer e tem velocidade de cruzeiro de 850 km/h. É a aeronave que permite fazer Flórida-Brasília direto.
A cota da Prime You foi adquirida no fim de 2024, segundo a CNN. Vorcaro figurou como sócio da empresa de 2021 até setembro de 2025.
Quem pagou
Willer Tomaz afirma que bancou o voo inteiro, debitando o custo das horas da própria cota.
A nota dele, reproduzida pela CNN:
"Vorcaro não pagou, não cedeu, não autorizou e não participou daquele voo, nem direta, nem indiretamente."
Tomaz diz ainda que não conhece Vorcaro, que só descobriu em abril de 2026 que ele tinha uma cota do avião, e que depois disso rompeu o contrato e entrou em litígio com a operadora. Sobre a carona, afirma que costuma oferecer lugares disponíveis a amigos "sem qualquer custo, contrapartida ou benefício".
Não existe documento público que confirme ou desminta quem pagou o combustível. O que existe é a palavra do advogado. Registro assim.
Flávio Bolsonaro não respondeu aos questionamentos da reportagem original antes da publicação.
A resposta que ele deu depois
Em 24 de setembro, no X:
"Ainda bem que na época o avião era de Willer. Imagina se fosse agora, eu teria viajado no avião de Alexandre de Moraes."
Ele não negou o voo. Devolveu.
Por que a piada funciona
Quatro dias antes, em 20 de setembro, o Metrópoles publicou imagens de 22 de agosto de 2025. Nelas, Alexandre de Moraes e a mulher, a advogada Viviane Barci de Moraes, desembarcam do mesmo PP-NLR no Santos Dumont.
Em abril de 2026, o gabinete do ministro tinha declarado que ele "jamais viajou em nenhum avião de Daniel Vorcaro ou em sua companhia e de Fabiano Zettel, a quem nem conhece".
O vídeo contraria a nota. E o voo aconteceu três meses depois da assinatura de um contrato de R$ 50 milhões entre o escritório de Viviane Barci e uma empresa de Vorcaro, segundo o mesmo veículo.
Moraes e a defesa dele sustentam que esse segundo contrato "jamais existiu ou chegou a ser assinado". Mensagens obtidas pela Polícia Federal, ainda segundo o Metrópoles, indicam que o uso de aviões e helicópteros "já estava liberado e em andamento".
O comício de Maceió
No mesmo 24 de setembro, em Maceió, ao lado de Renan Filho e Renan Calheiros, a primeira-dama Rosângela Lula da Silva, a Janja, fez o trocadilho:
"Diante das urnas, vamos escolher entre Flávio Vorcaro… opa, peraí."
E emendou:
"Eles podem tentar esconder. Eles podem dizer: 'Não, eu não andei em jatinho'. Mas sabemos que votar em Bolsonaro é votar em Vorcaro."
E:
"Em breve, vamos escolher entre quem até agora não explicou nada sobre os R$ 139 milhões que recebeu do Vorcaro."
O número que não fecha
Fui conferir os R$ 139 milhões. Não achei sustentação para a cifra na forma em que ela foi usada.
| O que as reportagens documentam | Valor |
|---|---|
| Orçamento total do filme Dark Horse | R$ 134 milhões |
| Já pago até maio de 2026, segundo a Agência Pública | US$ 10,6 milhões, cerca de R$ 61 milhões |
| Total ligado a Vorcaro no fundo da produção, segundo O Brasilianista | US$ 12,3 milhões, cerca de R$ 63,7 milhões |
| Total que Vorcaro negociava aportar | US$ 24 milhões, cerca de R$ 124 milhões |
Nenhum desses números é R$ 139 milhões. E há uma distinção que a frase de campanha apaga: o dinheiro foi para a produtora do filme, não para a conta pessoal do senador. O papel dele, segundo as reportagens, foi o de captar e cobrar agilidade na liberação.
Isso não torna o caso menor. Torna o número errado.
O filme
Dark Horse é uma cinebiografia de Jair Bolsonaro, com Jim Caviezel no elenco.
A cronologia apurada pela Agência Pública e pelo O Brasilianista: no dia 19 de janeiro de 2025, o mesmo do voo, havia um aporte de US$ 2 milhões previsto para o dia seguinte. Depois de pousar em Brasília, Flávio procurou um intermediário pedindo agilidade. A transferência só saiu em 13 de fevereiro.
Em 13 de maio de 2026, o Intercept Brasil publicou áudios e mensagens entre o senador e o banqueiro.
Flávio primeiro negou qualquer contato com Vorcaro. Depois, diante das provas, confirmou a negociação. A defesa dele sustenta que era captação privada, sem vantagem oferecida em troca.
Até 25 de setembro de 2026, não há denúncia formal do Ministério Público contra Flávio Bolsonaro por esses fatos.
O outro lado da balança
Nem tudo o que circulou contra ele sobreviveu na Justiça.
Em fevereiro de 2026, a Justiça do Distrito Federal mandou o Facebook remover post que ligava Flávio ao escândalo do Master. O juiz escreveu que não há relação entre "rachadinha" e a fraude bancária, e que a postagem visava "macular a honra" do senador.
Em 22 de setembro de 2026, Kassio Nunes Marques, presidente do TSE, mandou o Instagram remover em 24 horas um vídeo do perfil @lulapelaverdade que associava Flávio ao Banco Master e ao filme. Escreveu que o conteúdo "ultrapassava os limites da crítica política ao relacionar o senador a fatos criminosos sem elementos concretos".
No mesmo dia, o mesmo ministro negou pedido para tirar do ar um vídeo de Flávio dizendo que "os bandidos comemoraram a vitória do seu candidato". Decisão provisória, ainda sujeita ao plenário do TSE.
O que joga contra, e entra
"Pegar carona em avião é crime." Não é. O voo foi em janeiro de 2025, fora do período eleitoral. A questão é quem pagou, e a única versão pública é a do advogado.
"Flávio embolsou R$ 139 milhões." O número não se sustenta. O orçamento do filme é de R$ 134 milhões, o valor pago até maio de 2026 era de cerca de R$ 61 milhões, e o destino foi a produtora.
"Moraes está limpo nessa." O gabinete dele negou em abril de 2026 que ele tivesse voado em avião de Vorcaro. Existe vídeo de 22 de agosto de 2025 mostrando o desembarque do PP-NLR. A contradição está documentada.
"O avião era de Vorcaro." Era de uma empresa com três cotas iguais. Vorcaro controlava uma delas por meio de outra empresa. A diferença importa para saber quem pagou o quê.
"É perseguição eleitoral." Parte do que circulou foi derrubado na Justiça, inclusive pelo presidente do TSE. E parte está em registro de voo, contrato societário e áudio publicado.
A resposta
De quem era o avião? De três donos. E um deles, durante aquele período, era uma empresa de Daniel Vorcaro.
O que está documentado: o voo, a data, o prefixo, os cotistas e a contradição entre a nota do gabinete de Moraes e o vídeo de agosto.
O que está na palavra de alguém: quem pagou o combustível.
O que não está em lugar nenhum: os R$ 139 milhões na conta do senador.
Faltam nove dias para o voto. Nesse prazo, número redondo vale mais que documento. Por isso eu conferi os dois.







