No Brasil, cada voto vale um. Quem soma mais votos no país inteiro, ganha. Nos Estados Unidos, a conta é outra: quem decide é a soma dos estados.
Eu apliquei a regra americana ao primeiro turno de 2026, estado por estado, com os números finais do TSE. O resultado: Flávio Bolsonaro teria 359 votos e Lula, 208. Flávio já estaria eleito, sem segundo turno.
Depois fiz a mesma conta para 2022. O resultado também muda de lado.
Simulação da Revista De Castro com os resultados oficiais do TSE por estado.
Como funciona nos Estados Unidos
O americano vota no candidato, como aqui. A diferença está no que acontece depois.
Cada estado vale um número de votos. Esse número é a quantidade de deputados federais que o estado tem, mais 2, que são os senadores. Estado com mais gente tem mais deputados e vale mais. No total são 538 votos. Ganha quem chega a 270.
A regra que muda tudo é esta: quem ganha no estado leva todos os votos dele. Pode ganhar por um voto de diferença. Leva tudo. O voto de quem perdeu naquele estado não soma em lugar nenhum.
Só dois estados fazem diferente, Maine e Nebraska, que dividem os votos por distrito.

Lado a lado
| Estados Unidos | Brasil | |
|---|---|---|
| Quem decide | A soma dos estados | A soma dos eleitores |
| Para ganhar | 270 de 538 votos | Mais da metade dos votos válidos |
| Quem ganha num estado | Leva todos os votos dele | Leva só os votos que teve |
| Segundo turno | Não tem | Tem |
| O menos votado pode ganhar? | Pode | Não |
Como eu adaptei a regra para o Brasil
Usei a mesma fórmula dos americanos: o número de deputados federais de cada estado, mais 2.
São Paulo tem 70 deputados e valeria 72 votos. Minas Gerais valeria 55, o Rio de Janeiro, 48, e a Bahia, 41. Os estados menores, que têm 8 deputados, valeriam 10 cada um. O Distrito Federal também.
Somando tudo, são 567 votos. Ganha quem fizer 284.

2026: Flávio, 359. Lula, 208.
Nas urnas, Flávio teve 47,03% dos votos válidos e Lula, 45,16%. Como ninguém passou da metade, a eleição vai para o segundo turno, em 25 de outubro.
Pela regra americana, não haveria segundo turno. Flávio venceu em 14 estados e no Distrito Federal, e levaria os votos de todos eles: 359, ou 63% do total. Lula venceu em 12 estados e ficaria com 208.

O motivo é simples. Flávio ganhou em São Paulo, Minas e Rio. Sozinhos, os três valem 175 votos. Lula levou os nove estados do Nordeste, o Pará, o Amazonas e o Amapá.
O Amapá mostra como essa regra é dura. Lula venceu lá por 225 votos de diferença: 45,71% contra 45,67%. Pela regra americana, levaria os 10 votos do estado inteiros.
2022: Bolsonaro, 304. Lula, 263.
No segundo turno de 2022, Lula teve 50,9% dos votos válidos e Bolsonaro, 49,1%. A diferença foi de pouco mais de 2,1 milhões de votos. Lula foi eleito.
Pela regra americana, o presidente seria outro. Lula ganhou em 13 estados e Bolsonaro, em 13 e no Distrito Federal. Só que os de Bolsonaro valiam mais: São Paulo e Rio somam 120 votos. Bolsonaro teria 304 e Lula, 263.

A única mudança grande no mapa entre 2022 e 2026 foi Minas Gerais, que valeria 55 votos. Em 2022, Lula venceu lá. Em 2026, venceu Flávio. Tocantins também passou para Flávio, e o Amapá passou para Lula.
A conta, estado por estado
| Estado | Votos | Venceu em 2026 | Venceu em 2022 |
|---|---|---|---|
| São Paulo | 72 | Flávio (51,93%) | Bolsonaro |
| Minas Gerais | 55 | Flávio (48,24%) | Lula |
| Rio de Janeiro | 48 | Flávio (53,01%) | Bolsonaro |
| Bahia | 41 | Lula (66,17%) | Lula |
| Rio Grande do Sul | 33 | Flávio (55,64%) | Bolsonaro |
| Paraná | 32 | Flávio (59,91%) | Bolsonaro |
| Pernambuco | 27 | Lula (63,45%) | Lula |
| Ceará | 24 | Lula (63,29%) | Lula |
| Maranhão | 20 | Lula (63,99%) | Lula |
| Goiás | 19 | Flávio (53,60%) | Bolsonaro |
| Pará | 19 | Lula (49,91%) | Lula |
| Santa Catarina | 18 | Flávio (66,65%) | Bolsonaro |
| Paraíba | 14 | Lula (61,31%) | Lula |
| Espírito Santo | 12 | Flávio (54,78%) | Bolsonaro |
| Piauí | 12 | Lula (70,99%) | Lula |
| Alagoas | 11 | Lula (54,73%) | Lula |
| Acre | 10 | Flávio (64,56%) | Bolsonaro |
| Amapá | 10 | Lula (45,71%) | Bolsonaro |
| Amazonas | 10 | Lula (48,23%) | Lula |
| Distrito Federal | 10 | Flávio (51,31%) | Bolsonaro |
| Mato Grosso | 10 | Flávio (65,15%) | Bolsonaro |
| Mato Grosso do Sul | 10 | Flávio (58,60%) | Bolsonaro |
| Rio Grande do Norte | 10 | Lula (59,75%) | Lula |
| Rondônia | 10 | Flávio (67,45%) | Bolsonaro |
| Roraima | 10 | Flávio (71,06%) | Bolsonaro |
| Sergipe | 10 | Lula (62,75%) | Lula |
| Tocantins | 10 | Flávio (50,44%) | Lula |
O que joga contra, e entra
Quem teve menos voto pode ganhar. É a maior crítica ao modelo. Nos Estados Unidos aconteceu em 2000, quando George W. Bush foi eleito com menos votos que Al Gore, e em 2016, quando Donald Trump foi eleito com quase 3 milhões de votos a menos que Hillary Clinton. Na simulação de 2022, aconteceria aqui.
O voto de quem perde no estado some. Um eleitor de Lula em São Paulo e um eleitor de Flávio na Bahia não mudariam nada no resultado.
A conta é uma simulação. Se a regra fosse essa, as campanhas seriam outras. Os candidatos iriam atrás dos estados apertados, como Minas, Pará, Amazonas e Amapá, e o eleitor votaria sabendo disso.
Usei 2 senadores, como nos Estados Unidos. O Brasil tem 3 por estado. Com 3, o total sobe para 594 votos e o resultado não muda de lado: Flávio teria 374 contra 220 em 2026, e Bolsonaro teria 318 contra 276 em 2022.
No primeiro turno havia mais de dois candidatos. Contei como vencedor de cada estado quem teve mais votos ali, como fazem os americanos.
O que joga a favor
O candidato é obrigado a vencer em muitos estados. Não basta ter uma votação enorme em poucos lugares. É o argumento dos americanos, que elegem presidente assim há mais de 200 anos.
O que eu penso
Daqui para a frente é opinião minha.
Eu fico com o voto direto. É mais simples, e cada pessoa vale um, more onde morar.
Mas a conta mostra uma coisa que o placar nacional esconde. Flávio venceu em 15 das 27 unidades do país, e entre elas estão os três maiores colégios eleitorais. A direita ganhou no mapa com folga, e ganhou nas urnas por menos de dois pontos. O segundo turno se decide no voto de cada um, e por isso ninguém deveria tratar o dia 25 como resolvido.
Perguntas que chegam nos comentários
O que é o Colégio Eleitoral dos Estados Unidos?
É o sistema em que cada estado vale um número de votos, igual ao número de deputados mais 2 senadores. Quem ganha no estado leva todos os votos dele. São 538 votos e vence quem chega a 270.
Como ficaria o primeiro turno de 2026 com essa regra?
Flávio Bolsonaro teria 359 votos e Lula, 208, de um total de 567. Flávio estaria eleito sem segundo turno.
E a eleição de 2022?
Bolsonaro teria 304 votos e Lula, 263. Nas urnas, Lula venceu com 50,9% dos votos válidos.
Como foi calculado o peso de cada estado?
Pelo número de deputados federais do estado, mais 2. São Paulo valeria 72 votos, Minas 55, Rio 48 e Bahia 41.
O Brasil pode adotar esse sistema?
Só com mudança na Constituição, que prevê eleição direta e segundo turno.







