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Notícias / 13 de outubro de 2026

Eu fui checar

Quando o normal virou extrema direita? Nove pesquisas mostram que a maioria pensa assim

Acreditar em Deus, defender a família, querer bandido preso, achar o imposto caro, ser contra aborto e droga. Hoje tudo isso ganha o rótulo de extrema direita. Eu fui ver quantos brasileiros pensam assim, item por item, com o número de cada instituto. Quase sempre são 7 ou 8 em cada 10. No fim da página, o kit em PDF com os nove números para mandar no grupo da família.

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13 de outubro de 2026
Atualizado
13 de outubro de 2026
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Marcha para Jesus, São Paulo, 20/6/2019. Foto: Governo do Estado de São Paulo, CC BY 2.0
Marcha para Jesus, São Paulo, 20/6/2019. Foto: Governo do Estado de São Paulo, CC BY 2.0

Hoje basta repetir o que a sua avó dizia para ganhar um rótulo. Acreditar em Deus, defender a família, querer bandido preso, achar o imposto caro, ser contra o aborto e contra a droga: tudo isso virou "coisa de extrema direita". Eu fui ver quantos brasileiros pensam assim, item por item, com o número de cada instituto de pesquisa. A resposta cabe numa linha: a maioria. Quase sempre, 7 ou 8 em cada 10.

Esta é a Revista De Castro, que tem lado e diz qual é: a direita. Os números vêm com instituto, data e fonte. Onde entra a opinião da revista, ela está marcada como opinião.

89%Acreditam em Deusou em um poder maior (Ipsos, 2023)
75%São contra legalizar o abortoIpsos-Ipec, julho de 2025
79%Querem reduzir a maioridade penalDatafolha, junho de 2026
149 diasDe trabalho só para pagar impostoIBPT, 2025

Fontes: Datafolha, Ipsos, Ipsos-Ipec e IBPT.

A régua do Datafolha

O Datafolha mede de que lado o brasileiro está com 16 perguntas. Dez são sobre comportamento: armas, pobreza, criminalidade, homossexualidade, religião, sindicatos e punição de adolescente que comete crime. Seis são sobre economia, como imposto e lei trabalhista. O instituto não pergunta "você é de direita?". Ele calcula pela resposta.

Uma das frases é "acreditar em Deus torna as pessoas melhores". Quem concorda ganha ponto para a direita. Na pesquisa de 25 e 26 de maio de 2022, com 2.556 entrevistas, 79% dos brasileiros concordaram. Entre os evangélicos, 88%.

Ou seja: pela régua do instituto mais citado do país, acreditar em Deus já é um sinal de direita. E quase oito em cada dez brasileiros acreditam.

Fiéis numa missa na igreja do Carmo da Lapa, Rio de Janeiro, 2019. Foto: A Voz dos Carmelitas, domínio público

1. Acreditar em Deus

Na pesquisa Global Religion 2023, da Ipsos, 89% dos brasileiros disseram acreditar em Deus ou em um poder maior. Em agosto de 2026, uma pesquisa do LePar, laboratório da Universidade Federal Fluminense, mostrou que 81% acham fundamental que o candidato também acredite em Deus, e 82% apoiam que a escola ensine a criança a acreditar.

Entre quem ganha até um salário mínimo, os que querem candidato que acredite em Deus chegam a 89%. Acreditar em Deus é a regra no Brasil, principalmente no Brasil mais pobre.

2. Defender a família

"Deus, pátria e família" é frase que milhões de brasileiros aprenderam em casa, na igreja e na escola. Na imprensa, ela aparece quase sempre ligada ao integralismo, o movimento de Plínio Salgado dos anos 1930, "com forte influência dos partidos fascistas italiano e alemão", como escreveu A Gazeta. Basta usar o lema para ser comparado a camisa-verde.

Família na cerimônia de troca da Bandeira, Praça dos Três Poderes, Brasília, 2022. Foto: Marinha do Brasil, CC BY-SA 2.0

Opinião da revista. Defender a própria família é o que pai e mãe fazem desde sempre. O trio Deus, pátria e família é mais velho que qualquer partido e não pertence a nenhum movimento de 90 anos atrás.

3. Não gostar de bandido

Em 17 e 18 de junho de 2026, o Datafolha ouviu 2 mil pessoas: 79% querem reduzir a maioridade penal, e só 17% são contra. O dado que mais surpreende está no recorte por voto. Entre quem votou no Lula em 2022, 70% querem a redução. Entre quem votou no Bolsonaro, 90%.

É o menor índice da série, que começou em 2003 com 84% e teve o pico em 2015, com 87%. Mesmo no ponto mais baixo, quase oito em cada dez brasileiros querem que o adolescente que mata responda como adulto.

4. Não gostar de imposto

O Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT) calcula todo ano quantos dias o brasileiro trabalha só para pagar tributo. Em 2025, foram 149 dias: de 1º de janeiro até 29 de maio. A carga média ficou em 40,82% do rendimento.

E não foi só a sensação. Pela estimativa do Tesouro Nacional, a carga tributária de 2025 chegou a 32,4% do PIB, a maior desde 2010, quando a série começou. A alta veio do imposto de renda retido na fonte, do IOF e da contribuição previdenciária. Achar isso caro é fazer conta.

5. Raspar o suvaco

Em janeiro de 2019, uma estudante inglesa lançou o "Januhairy", o Janeiro Peludo: uma campanha que chamava as mulheres a não se depilar durante o mês e postar fotos com a hashtag. A ideia correu o mundo e chegou ao Brasil pela imprensa.

Opinião da revista. Depilar ou não é escolha de cada mulher, e a revista não tem nada contra quem não depila. O estranho é o caminho inverso: a mulher que raspa o suvaco, como a imensa maioria faz, passar a ser tratada como quem se rende a um "padrão". Ninguém precisa pedir desculpa por se cuidar do jeito que gosta.

6. Não se dizer feminista

Na pesquisa do Dia Internacional da Mulher de 2024, a Ipsos perguntou às brasileiras se elas se consideram feministas. 44% disseram que sim. Menos da metade.

A maioria das brasileiras não usa o rótulo. Opinião da revista: o feminismo de hoje deixou de falar pela mulher comum.

7. Ser contra o aborto

Em julho de 2025, o Ipsos-Ipec ouviu 2 mil pessoas: 75% são contra legalizar o aborto e só 16% são a favor. Em 2023, eram 73% contra e 18% a favor. A rejeição subiu.

No Datafolha de março de 2024, só 6% dos brasileiros querem o aborto liberado em qualquer situação. Outros 35% querem proibir em todos os casos, e a maior parte quer manter a lei como está: aborto permitido só em caso de estupro, risco de vida da mãe e anencefalia.

O que o Lula disse

Em 5 de abril de 2022, num debate das fundações Perseu Abramo e Friedrich Ebert, em São Paulo, Lula disse que o aborto deveria "ser transformado numa questão de saúde pública e todo mundo ter direito". A fala pegou mal até entre aliados. Dois dias depois, à rádio Jangadeiro, de Fortaleza, ele corrigiu: "A única coisa que eu deixei de dizer na fala que eu fiz é que eu sou contra o aborto."

Lula em São Paulo, 28/4/2022, três semanas depois da fala sobre o aborto. Foto: Lula Oficial, CC BY-SA 4.0

Quem precisou se explicar em dois dias foi o candidato. Os 75% continuaram pensando a mesma coisa.

8. Ser contra a droga

Em 19 e 20 de março de 2024, o Datafolha perguntou sobre a descriminalização do porte de maconha, que estava em julgamento no STF. 67% disseram ser contra. Seis meses antes, eram 61%. Até entre os jovens de 16 a 24 anos, 55% eram contra. Em setembro de 2023, 72% eram contra liberar a maconha para uso recreativo.

Três meses depois da pesquisa, em 25 e 26 de junho de 2024, o STF decidiu que portar até 40 gramas de maconha, ou seis plantas, para uso pessoal deixa de ser crime. A decisão vale até o Congresso fazer uma lei.

Supremo Tribunal Federal, Brasília. Foto: Agência Senado, CC BY-SA 4.0

Opinião da revista. Quem é contra a droga, quase sempre, já viu de perto o estrago numa família. A Cracolândia, no centro de São Paulo, está aí desde os anos 1990 para quem quiser ver.

9. Banheiro feminino separado por sexo

Uma pesquisa do instituto IRG, encomendada pela Associação Mátria e divulgada em março de 2025, ouviu 1.100 pessoas: 81,4% são contra usar a autodeclaração de gênero para entrar no banheiro feminino. Em presídio feminino, 81%. No esporte feminino, 78,5%. A Mátria defende uma posição no tema, e a metodologia completa não foi publicada.

No Senado, o projeto de lei 1.838/2023 separa banheiros e vestiários de escolas públicas e privadas pelo sexo de nascimento. Ele foi aprovado na Comissão de Direitos Humanos em fevereiro de 2024. No STF, o caso de um shopping de Florianópolis não teve o mérito julgado: em 6 de junho de 2024, por 8 a 3, os ministros decidiram que ele não tinha questão constitucional. O tema volta ao Supremo em outras ações, ainda sem data.

Foto: mrhayata, CC BY-SA 2.0

Opinião da revista. Pai que quer a filha segura no banheiro da escola não é extremista. É pai. A revista defende respeito a todas as pessoas, e a pesquisa mostra que a maioria quer o banheiro feminino separado por sexo.

A virada de 2026

Na pesquisa de 17 e 18 de junho de 2026, com 2.004 eleitores, a régua do Datafolha colocou 44% dos brasileiros na direita ou na centro-direita. Na esquerda ou na centro-esquerda, 39%. No centro, 17%. Em 2022, era o contrário: 34% de um lado e 49% do outro. É a primeira vez desde 2014 que a direita aparece à frente.

Na mesma pesquisa, 24% dos eleitores do Lula aparecem com perfil de direita ou de centro-direita. O normal está dos dois lados da urna.

Baixe o kit: o Brasil normal em 9 números

Eu transformei as nove pesquisas num kit para mandar no grupo da família, da igreja e do trabalho. O kit em PDF tem uma página para cada item, com o número, o instituto, a data e uma resposta pronta em duas linhas para quando alguém te chamar de extremista. É grátis. Baixa, salva e manda.

A capa do kit O Brasil normal em 9 números

Então, o que é ser de direita?

Opinião da revista. O brasileiro continua acreditando nas mesmas coisas que os avós acreditavam. Quem mudou foi quem distribui o rótulo. Ele se afastou tanto do povo que o normal passou a parecer extremo. Ser de direita, para a maioria, é acreditar em Deus, cuidar da família, trabalhar e ficar com o que ganhou, e querer bandido preso. Isso tem nome nas pesquisas: maioria.

E para você, o que é ser de direita? Deixa a sua resposta nos comentários do post na @revistadecastro.

Perguntas que chegam nos comentários

O Datafolha diz que a maioria do Brasil é de direita?

Na pesquisa de junho de 2026, sim: 44% na direita ou na centro-direita, contra 39% na esquerda ou na centro-esquerda. A classificação não é a pessoa dizendo de que lado está. O instituto calcula a partir de 16 perguntas sobre valores e economia.

Acreditar em Deus conta como direita na pesquisa?

Conta. A frase "acreditar em Deus torna as pessoas melhores" faz parte da escala do Datafolha, e concordar puxa para a direita. Em maio de 2022, 79% concordaram.

Quantos brasileiros são contra o aborto?

75% são contra legalizar, segundo o Ipsos-Ipec de julho de 2025. Só 16% são a favor.

O STF liberou a maconha?

O STF decidiu, em junho de 2024, que portar até 40 gramas para uso pessoal deixa de ser crime. Continua proibido, mas vira infração administrativa. Vender continua sendo tráfico.

O STF já decidiu sobre banheiros?

Não. Em junho de 2024 o Supremo decidiu não julgar o mérito do caso de Florianópolis. O assunto volta em outras ações, sem data.

Onde baixo o kit?

Na seção "Baixe o kit: o Brasil normal em 9 números", nesta página. É um PDF grátis, com uma página por pesquisa.

Fontes desta materia

  1. BNews, Datafolha de 25 e 26 de maio de 2022: 79% concordam que acreditar em Deus torna as pessoas melhores
  2. Itatiaia, julho de 2026: Datafolha mostra direita com 44% e esquerda com 39%
  3. Correio Braziliense, julho de 2026: Datafolha, 24% dos eleitores de Lula têm perfil ideológico de direita
  4. Ipsos, Global Religion 2023: 89% dos brasileiros acreditam em Deus ou em um poder maior
  5. Acessa, agosto de 2026: para 81% dos brasileiros, é fundamental que candidato acredite em Deus (pesquisa LePar/UFF)
  6. A Gazeta, 7 de março de 2020: Inspirado no fascismo, integralismo já teve mais de 20 mil membros no ES
  7. SBT News, junho de 2026: Datafolha, apoio à redução da maioridade penal fica em 79%
  8. Jovem Pan, maio de 2025: brasileiro trabalhará 149 dias para pagar impostos em 2025, calcula o IBPT
  9. Times Brasil, 2026: Brasil registra maior carga tributária da série em 2025, 32,4% do PIB
  10. Catraca Livre, janeiro de 2019: garotas do mundo promovem o Janeiro Peludo
  11. MundoRH, março de 2024: pesquisa Ipsos do Dia Internacional da Mulher, 44% das brasileiras se consideram feministas
  12. O Hoje, 30 de julho de 2025: Ipsos-Ipec, 75% dos brasileiros são contra legalizar o aborto
  13. Jornal Opção, março de 2024: Pesquisa Datafolha mostra que Brasil continua conservador
  14. Poder360, 5 de abril de 2022: Lula diz que aborto é questão de saúde pública e não vergonha
  15. Poder360, 7 de abril de 2022: Sou contra o aborto, diz Lula após ter fala criticada
  16. Exame, março de 2024: Datafolha, 67% dos brasileiros são contra descriminalização da maconha
  17. Correio Braziliense, setembro de 2023: maioria dos brasileiros é contra a legalização da maconha
  18. Diario de Pernambuco, junho de 2024: porte de maconha, entenda a decisão do STF
  19. Portal de Prefeitura, 2025: pesquisa IRG para a Associação Mátria sobre espaços femininos
  20. Agência Pública, fevereiro de 2024: Comissão de Direitos Humanos do Senado aprova o PL 1.838/2023 sobre banheiros em escolas
  21. Lex, junho de 2024: por razões processuais, STF rejeita exame de recurso sobre uso de banheiro