Hoje basta repetir o que a sua avó dizia para ganhar um rótulo. Acreditar em Deus, defender a família, querer bandido preso, achar o imposto caro, ser contra o aborto e contra a droga: tudo isso virou "coisa de extrema direita". Eu fui ver quantos brasileiros pensam assim, item por item, com o número de cada instituto de pesquisa. A resposta cabe numa linha: a maioria. Quase sempre, 7 ou 8 em cada 10.
Esta é a Revista De Castro, que tem lado e diz qual é: a direita. Os números vêm com instituto, data e fonte. Onde entra a opinião da revista, ela está marcada como opinião.
Fontes: Datafolha, Ipsos, Ipsos-Ipec e IBPT.
A régua do Datafolha
O Datafolha mede de que lado o brasileiro está com 16 perguntas. Dez são sobre comportamento: armas, pobreza, criminalidade, homossexualidade, religião, sindicatos e punição de adolescente que comete crime. Seis são sobre economia, como imposto e lei trabalhista. O instituto não pergunta "você é de direita?". Ele calcula pela resposta.
Uma das frases é "acreditar em Deus torna as pessoas melhores". Quem concorda ganha ponto para a direita. Na pesquisa de 25 e 26 de maio de 2022, com 2.556 entrevistas, 79% dos brasileiros concordaram. Entre os evangélicos, 88%.
Ou seja: pela régua do instituto mais citado do país, acreditar em Deus já é um sinal de direita. E quase oito em cada dez brasileiros acreditam.

1. Acreditar em Deus
Na pesquisa Global Religion 2023, da Ipsos, 89% dos brasileiros disseram acreditar em Deus ou em um poder maior. Em agosto de 2026, uma pesquisa do LePar, laboratório da Universidade Federal Fluminense, mostrou que 81% acham fundamental que o candidato também acredite em Deus, e 82% apoiam que a escola ensine a criança a acreditar.
Entre quem ganha até um salário mínimo, os que querem candidato que acredite em Deus chegam a 89%. Acreditar em Deus é a regra no Brasil, principalmente no Brasil mais pobre.
2. Defender a família
"Deus, pátria e família" é frase que milhões de brasileiros aprenderam em casa, na igreja e na escola. Na imprensa, ela aparece quase sempre ligada ao integralismo, o movimento de Plínio Salgado dos anos 1930, "com forte influência dos partidos fascistas italiano e alemão", como escreveu A Gazeta. Basta usar o lema para ser comparado a camisa-verde.

Opinião da revista. Defender a própria família é o que pai e mãe fazem desde sempre. O trio Deus, pátria e família é mais velho que qualquer partido e não pertence a nenhum movimento de 90 anos atrás.
3. Não gostar de bandido
Em 17 e 18 de junho de 2026, o Datafolha ouviu 2 mil pessoas: 79% querem reduzir a maioridade penal, e só 17% são contra. O dado que mais surpreende está no recorte por voto. Entre quem votou no Lula em 2022, 70% querem a redução. Entre quem votou no Bolsonaro, 90%.
É o menor índice da série, que começou em 2003 com 84% e teve o pico em 2015, com 87%. Mesmo no ponto mais baixo, quase oito em cada dez brasileiros querem que o adolescente que mata responda como adulto.
4. Não gostar de imposto
O Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT) calcula todo ano quantos dias o brasileiro trabalha só para pagar tributo. Em 2025, foram 149 dias: de 1º de janeiro até 29 de maio. A carga média ficou em 40,82% do rendimento.
E não foi só a sensação. Pela estimativa do Tesouro Nacional, a carga tributária de 2025 chegou a 32,4% do PIB, a maior desde 2010, quando a série começou. A alta veio do imposto de renda retido na fonte, do IOF e da contribuição previdenciária. Achar isso caro é fazer conta.
5. Raspar o suvaco
Em janeiro de 2019, uma estudante inglesa lançou o "Januhairy", o Janeiro Peludo: uma campanha que chamava as mulheres a não se depilar durante o mês e postar fotos com a hashtag. A ideia correu o mundo e chegou ao Brasil pela imprensa.
Opinião da revista. Depilar ou não é escolha de cada mulher, e a revista não tem nada contra quem não depila. O estranho é o caminho inverso: a mulher que raspa o suvaco, como a imensa maioria faz, passar a ser tratada como quem se rende a um "padrão". Ninguém precisa pedir desculpa por se cuidar do jeito que gosta.
6. Não se dizer feminista
Na pesquisa do Dia Internacional da Mulher de 2024, a Ipsos perguntou às brasileiras se elas se consideram feministas. 44% disseram que sim. Menos da metade.
A maioria das brasileiras não usa o rótulo. Opinião da revista: o feminismo de hoje deixou de falar pela mulher comum.
7. Ser contra o aborto
Em julho de 2025, o Ipsos-Ipec ouviu 2 mil pessoas: 75% são contra legalizar o aborto e só 16% são a favor. Em 2023, eram 73% contra e 18% a favor. A rejeição subiu.
No Datafolha de março de 2024, só 6% dos brasileiros querem o aborto liberado em qualquer situação. Outros 35% querem proibir em todos os casos, e a maior parte quer manter a lei como está: aborto permitido só em caso de estupro, risco de vida da mãe e anencefalia.
O que o Lula disse
Em 5 de abril de 2022, num debate das fundações Perseu Abramo e Friedrich Ebert, em São Paulo, Lula disse que o aborto deveria "ser transformado numa questão de saúde pública e todo mundo ter direito". A fala pegou mal até entre aliados. Dois dias depois, à rádio Jangadeiro, de Fortaleza, ele corrigiu: "A única coisa que eu deixei de dizer na fala que eu fiz é que eu sou contra o aborto."

Quem precisou se explicar em dois dias foi o candidato. Os 75% continuaram pensando a mesma coisa.
8. Ser contra a droga
Em 19 e 20 de março de 2024, o Datafolha perguntou sobre a descriminalização do porte de maconha, que estava em julgamento no STF. 67% disseram ser contra. Seis meses antes, eram 61%. Até entre os jovens de 16 a 24 anos, 55% eram contra. Em setembro de 2023, 72% eram contra liberar a maconha para uso recreativo.
Três meses depois da pesquisa, em 25 e 26 de junho de 2024, o STF decidiu que portar até 40 gramas de maconha, ou seis plantas, para uso pessoal deixa de ser crime. A decisão vale até o Congresso fazer uma lei.

Opinião da revista. Quem é contra a droga, quase sempre, já viu de perto o estrago numa família. A Cracolândia, no centro de São Paulo, está aí desde os anos 1990 para quem quiser ver.
9. Banheiro feminino separado por sexo
Uma pesquisa do instituto IRG, encomendada pela Associação Mátria e divulgada em março de 2025, ouviu 1.100 pessoas: 81,4% são contra usar a autodeclaração de gênero para entrar no banheiro feminino. Em presídio feminino, 81%. No esporte feminino, 78,5%. A Mátria defende uma posição no tema, e a metodologia completa não foi publicada.
No Senado, o projeto de lei 1.838/2023 separa banheiros e vestiários de escolas públicas e privadas pelo sexo de nascimento. Ele foi aprovado na Comissão de Direitos Humanos em fevereiro de 2024. No STF, o caso de um shopping de Florianópolis não teve o mérito julgado: em 6 de junho de 2024, por 8 a 3, os ministros decidiram que ele não tinha questão constitucional. O tema volta ao Supremo em outras ações, ainda sem data.

Opinião da revista. Pai que quer a filha segura no banheiro da escola não é extremista. É pai. A revista defende respeito a todas as pessoas, e a pesquisa mostra que a maioria quer o banheiro feminino separado por sexo.
A virada de 2026
Na pesquisa de 17 e 18 de junho de 2026, com 2.004 eleitores, a régua do Datafolha colocou 44% dos brasileiros na direita ou na centro-direita. Na esquerda ou na centro-esquerda, 39%. No centro, 17%. Em 2022, era o contrário: 34% de um lado e 49% do outro. É a primeira vez desde 2014 que a direita aparece à frente.
Na mesma pesquisa, 24% dos eleitores do Lula aparecem com perfil de direita ou de centro-direita. O normal está dos dois lados da urna.
Baixe o kit: o Brasil normal em 9 números
Eu transformei as nove pesquisas num kit para mandar no grupo da família, da igreja e do trabalho. O kit em PDF tem uma página para cada item, com o número, o instituto, a data e uma resposta pronta em duas linhas para quando alguém te chamar de extremista. É grátis. Baixa, salva e manda.

Então, o que é ser de direita?
Opinião da revista. O brasileiro continua acreditando nas mesmas coisas que os avós acreditavam. Quem mudou foi quem distribui o rótulo. Ele se afastou tanto do povo que o normal passou a parecer extremo. Ser de direita, para a maioria, é acreditar em Deus, cuidar da família, trabalhar e ficar com o que ganhou, e querer bandido preso. Isso tem nome nas pesquisas: maioria.
E para você, o que é ser de direita? Deixa a sua resposta nos comentários do post na @revistadecastro.
Perguntas que chegam nos comentários
O Datafolha diz que a maioria do Brasil é de direita?
Na pesquisa de junho de 2026, sim: 44% na direita ou na centro-direita, contra 39% na esquerda ou na centro-esquerda. A classificação não é a pessoa dizendo de que lado está. O instituto calcula a partir de 16 perguntas sobre valores e economia.
Acreditar em Deus conta como direita na pesquisa?
Conta. A frase "acreditar em Deus torna as pessoas melhores" faz parte da escala do Datafolha, e concordar puxa para a direita. Em maio de 2022, 79% concordaram.
Quantos brasileiros são contra o aborto?
75% são contra legalizar, segundo o Ipsos-Ipec de julho de 2025. Só 16% são a favor.
O STF liberou a maconha?
O STF decidiu, em junho de 2024, que portar até 40 gramas para uso pessoal deixa de ser crime. Continua proibido, mas vira infração administrativa. Vender continua sendo tráfico.
O STF já decidiu sobre banheiros?
Não. Em junho de 2024 o Supremo decidiu não julgar o mérito do caso de Florianópolis. O assunto volta em outras ações, sem data.
Onde baixo o kit?
Na seção "Baixe o kit: o Brasil normal em 9 números", nesta página. É um PDF grátis, com uma página por pesquisa.







