Em agosto, o Lula registrou no TSE o plano para o próximo governo: 84 páginas. Eu li. E li o de 2022, de 21 páginas e 121 itens. Muita promessa é a mesma nos dois, porque não foi feita. Abaixo está cada uma, com a página do plano ou a data da fala, e o que aconteceu.
Fontes: planos de governo de 2022 e 2026, INSS e CNN Brasil.
O que ele prometeu e não cumpriu
| A promessa | O que aconteceu |
|---|---|
| "Serei um presidente de um mandato só" (25/10/2022) | "Eu vou disputar um quarto mandato" (23/10/2025). É candidato |
| "Em um decreto só, eu vou apagar todos os seus sigilos" (2022) | Visitas ao Alvorada em segredo até o fim do mandato (2023) |
| "Nós vamos criar o Ministério da Segurança Pública" (25/10/2022) | Não existe. Ele diz que depende de uma PEC |
| Revogar os "marcos regressivos" da lei trabalhista (plano 2022, item 13) | Nenhum revogado. O plano de 2026 admite |
| Acabar com a fila do INSS "em tempo recorde" (3/1/2023) | 3 milhões de pedidos em dezembro de 2025, recorde |
| Derrotar "a bancada do orçamento secreto" (4/6/2022) | O dinheiro foi para as emendas de comissão: de R$ 285 milhões para R$ 9,2 bilhões |
| "Opomo-nos à privatização da Eletrobras" (plano 2022, item 78) | Continua privada. A frase sumiu do plano de 2026 |
| Contra "uma política de juros altos" (plano 2022, item 56) | Os juros chegaram a 15%. Hoje estão nos mesmos 13,75% da posse |
| Tarifa de luz justa (plano 2022, item 78) | A luz subiu 12% em 2025 |

Um mandato só
No dia 25 de outubro de 2022, cinco dias antes do segundo turno, o Lula escreveu nas redes e disse numa entrevista de rádio: "Eu se eleito serei um presidente de um mandato só." Em 23 de outubro de 2025, em Jacarta, na Indonésia, anunciou: "Eu vou disputar um quarto mandato no Brasil." O PT oficializou a candidatura em 2 de agosto de 2026.
Os sigilos
Em 2022, no debate, o Lula disse ao Bolsonaro: "Em um decreto só, eu vou apagar todos os seus sigilos." À Rádio Metrópole, prometeu "um revogaço no meu primeiro dia de governo". No dia 1º de janeiro de 2023 saiu só um despacho pedindo que a CGU reavaliasse os casos.
Depois vieram os sigilos do próprio governo. Em março de 2023, o Gabinete de Segurança Institucional classificou as visitas ao Palácio da Alvorada como reservadas até o fim do mandato. Em 2023, 1.339 pedidos foram negados com a regra do sigilo de 100 anos, entre eles os pedidos sobre a agenda da Janja, segundo o Estadão. E 99,5% dos gastos do cartão corporativo têm algum sigilo, segundo o TCU. Em julho de 2026, o Lula disse que mudar a lei "não é simples".

O Ministério da Segurança Pública
"Nós vamos criar o Ministério da Segurança Pública", disse o Lula em 25 de outubro de 2022. Quatro anos depois, o ministério não existe. Na sabatina da TV Globo, em 27 de agosto de 2026, ele prometeu de novo: "A hora que se aprovar a PEC da Segurança Pública, eu crio o Ministério da Segurança Pública." Detalhe: o Temer criou o ministério em 2018, pela Medida Provisória 821, sem PEC.
A lei trabalhista
O item 13 do plano de 2022 prometia "revogando os marcos regressivos da atual legislação trabalhista". Nenhum foi revogado. O plano de 2026, na página 75, fala em "alterar regras que induzem a precarização" e admite que os marcos regressivos continuam na lei.
A fila do INSS
Na posse, em 3 de janeiro de 2023, o ministro da Previdência, Carlos Lupi, disse: "Quero acabar com essa fila em tempo recorde." Em setembro de 2023, ele mesmo admitiu: "Zerar a fila é impossível." Em dezembro de 2025, o boletim do INSS registrou 3.038.956 pedidos na fila, o maior número da série.

O orçamento secreto
Em junho de 2022, o Lula falou em derrotar "a bancada do orçamento secreto". O orçamento secreto foi derrubado pelo STF em dezembro de 2022. O dinheiro mudou de nome: as emendas de comissão pagas foram de R$ 285 milhões em 2023 para R$ 9,24 bilhões em 2025. No total, o governo pagou R$ 31,5 bilhões em emendas em 2025, o maior valor da história, e R$ 33,9 bilhões até julho de 2026.
A Eletrobras e os Correios
O plano de 2022 dizia, no item 78: "Opomo-nos à privatização da Eletrobras". E no item 79: "Opomo-nos à privatização dos Correios". A Eletrobras continua privada: o acordo homologado pelo STF em dezembro de 2025 deu à União 3 das 10 cadeiras do conselho. As duas frases sumiram do plano de 2026.
Os juros e a conta de luz
O plano de 2022 criticava "uma política de juros altos". O Lula pegou os juros em 13,75%. Com o Banco Central comandado por Gabriel Galípolo, indicado por ele, os juros chegaram a 15% em junho de 2025, o maior nível em quase 20 anos. Hoje estão em 13,75% de novo. E o plano de 2026 promete, na página 49, "criar as condições para uma redução sustentada das taxas de juros".
Em 2025, a energia elétrica residencial subiu 12,3%, quase três vezes a inflação. O plano de 2026 diz, na página 65, que "um debate importante a ser promovido no próximo período refere-se ao barateamento da energia elétrica".
A picanha
Em agosto de 2022, no Jornal Nacional: "O povo tem que voltar a comer um churrasquinho, a comer uma picanha e tomar uma cervejinha." De janeiro de 2023 a agosto de 2026, a cerveja subiu 19,5% e o café, 44%. Em fevereiro de 2025, o próprio Lula admitiu, a rádios de Minas Gerais, que a carne estava "muito cara".
Até o MST reclama
Sobre a reforma agrária, prometida nos itens 15 e 65 do plano de 2022, o líder do MST João Paulo Rodrigues disse em julho de 2026: "o pior desempenho dos três mandatos do presidente Lula". A meta do programa Terra da Gente era 295 mil famílias até 2026. Em 2024, só 4,3 mil famílias receberam lote novo.
As promessas que voltam em 2026
Além das que já estão acima, outras promessas de 2022 aparecem de novo no plano de 2026:
- Petrobras nos postos: em 2022, investir em "distribuição". Em 2026, página 67: "A Petrobras deverá retornar ao segmento de distribuição de combustíveis".
- Creches: em 2022, retomar as metas do Plano Nacional de Educação, que pedia 50% das crianças de até 3 anos em creche até 2024. Em 2025, eram 43,3%.
- Internet nas escolas: em 2022, universalizar. Em 2026, página 32: "Vamos universalizar este serviço no próximo mandato".
- Reforma política: em 2026, página 15, "é inadiável".
A culpa é dos outros
O plano de 2026 culpa o "golpe contra a presidenta Dilma Rousseff" (página 8), uma "verdadeira herança maldita" (página 8), as guerras e "três ondas de tarifaços pelo Governo Trump" (página 12). Na página 45, diz que obras do Minha Casa, Minha Vida estavam paradas, "algumas desde 2014, por falta de apoio do governo anterior". Em 2014, quem governava era a Dilma.

Minha opinião
Na página 6 do plano de 2026 está escrito: "Todos os compromissos aqui assumidos são factíveis." Em 2022 também eram. O plano do Lula é a lista do que ele não cumpriu. Em 2026, ele só trocou a data. Você vai acreditar de novo?
Perguntas que chegam nos comentários
O Lula prometeu mesmo ser presidente de um mandato só?
Sim. Em 25 de outubro de 2022, ele disse: "Eu se eleito serei um presidente de um mandato só." Em outubro de 2025, anunciou que disputaria o quarto mandato.
O Lula acabou com os sigilos de 100 anos?
Não por decreto, como prometeu. Em 2023, o governo dele pôs as visitas ao Alvorada em segredo até o fim do mandato e negou pedidos sobre a agenda da Janja com a regra dos 100 anos.
O Ministério da Segurança Pública foi criado?
Não. O Lula diz que depende da PEC da Segurança. O Temer criou o ministério em 2018 por medida provisória.
A fila do INSS acabou?
O ministro prometeu acabar com ela em 2023. Em dezembro de 2025, eram 3 milhões de pedidos, recorde.
Onde estão os planos de governo?
Os dois foram registrados no TSE. Os links estão nas fontes desta matéria.







