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"Não é bomba": o dossiê da fala de Lula no SBT, documento por documento

Na sabatina do SBT, Lula disse que o orçamento "não é bomba que vai estourar", que pegou um país quebrado e que foi o único presidente do G20 a fazer superávit todos os anos. Abrimos a nota do Banco Central, o relatório de 2009, os dados do FMI e o relatório da IFI do Senado. O que cada papel diz.

Publicado
20 de outubro de 2026
Atualizado
20 de outubro de 2026
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Lula na sabatina do SBT, 19 de outubro de 2026. Reprodução/SBT
Lula na sabatina do SBT, 19 de outubro de 2026. Reprodução/SBT

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Na segunda-feira, 19 de outubro, na sabatina do SBT, a jornalista perguntou a Lula se a dívida do governo é "uma bomba que vai estourar no ano que vem". Ele respondeu: "Não é bomba que vai estourar". Na mesma entrevista, disse que pegou "um país quebrado, com déficit de 2,8%", que nos primeiros oito anos fez "superávit primário em todos os anos" e que foi "o único presidente do G20" a fazer isso.

A gente abriu os documentos. Cada frase abaixo tem o papel de onde saiu.

▶ Dossiê "Não é bomba?" · O vídeo da Revista De Castro com os documentos e os trechos da sabatina.

Ficha 1: a herança

O primeiro papel é uma nota do Banco Central de 30 de janeiro de 2023, um mês depois da posse. Ela traz o resultado das contas públicas de 2022, o último ano de Bolsonaro.

Nota do Banco Central de 30/01/2023, com o trecho grifado: em 2022, superávit primário de R$ 126,0 bilhões, 1,28% do PIB

O setor público fechou 2022 com superávit primário de R$ 126,0 bilhões, 1,28% do PIB. Em 2021, já tinha sido superávit, de R$ 64,7 bilhões. Foram dois anos seguidos no azul. O número de 2,8% de déficit que Lula citou não aparece no resultado primário de 2022.

E o "único presidente do G20"? Os dados do FMI mostram superávit primário todos os anos na Coreia do Sul de 1999 a 2014, na Rússia de 2000 a 2008 e na Argentina dos Kirchner de 2003 a 2007. Os três países são do G20.

Ficha 2: os oito anos

É verdade que o setor público fez superávit primário de 2003 a 2010. O que a frase de Lula não conta está nos dois últimos anos.

3,7%superávit de 2005, o maior do período2003 a 2008 ficaram acima de 3%
1,9%superávit de 2009a meta tinha sido cortada
2,6%superávit de 2010com a ajuda da Petrobras

Fonte: Banco Central, série 5793 (resultado primário do setor público consolidado, % do PIB).

Relatório Anual do Banco Central de 2009, com os trechos grifados: a meta de 3,80% do PIB e a redução para 2,50% do PIB

  • 2009. O Relatório Anual do Banco Central registra que a meta de superávit, de 3,80% do PIB, foi reduzida para 2,50% por lei em outubro daquele ano. E que a meta ainda podia ser cumprida com o desconto dos investimentos do PAC, da ordem de 0,57% do PIB.
  • 2010. Na capitalização da Petrobras, o governo recebeu R$ 74,8 bilhões pela cessão onerosa do pré-sal e pagou R$ 42,9 bilhões em ações. A diferença, R$ 31,9 bilhões, entrou como receita no resultado do ano (Relatório Anual do Banco Central de 2010).

Relatório Anual do Banco Central de 2009, com o trecho grifado: os investimentos do PAC, da ordem de 0,57% do PIB, passíveis de abatimento

Ficha 3: a sucessora

Todo fundo de investimento é obrigado pela CVM a avisar que "a rentabilidade obtida no passado não representa garantia de resultados futuros". Depois dos oito anos veio Dilma Rousseff, a sucessora que Lula escolheu.

−0,6%resultado primário de 2014fim da sequência de superávits
−1,9% e −2,5%déficits de 2015 e 2016três anos seguidos no vermelho
−3,5% e −3,3%PIB de 2015 e 2016a pior recessão da história recente
61 a 20votação do impeachment no Senado, 31/08/2016crime de responsabilidade: pedaladas fiscais

Fontes: Banco Central (série 5793), IBGE e Senado Federal.

Ficha 4: agora

Na sabatina, Lula disse: "Não tem nada, veja, nós estamos entregando um orçamento com superávit primário". O superávit é a promessa para 2027. O que saiu de verdade, no governo dele, foi déficit todos os anos.

R$ 249,1 bidéficit primário de 20232,3% do PIB
R$ 47,6 bidéficit primário de 20240,4% do PIB
R$ 55,0 bidéficit primário de 20250,4% do PIB
R$ 80,9 bidéficit previsto pelo próprio governo para 2026estimativa de setembro

Fontes: Banco Central (notas de estatísticas fiscais) e CNN Brasil (previsão do governo para 2026).

A dívida bruta do governo era de 71,7% do PIB em dezembro de 2022, na série revisada do Banco Central (a nota da época dizia 73,5%). Em agosto de 2026, chegou a 82,9% do PIB, R$ 11,1 trilhões.

E a Instituição Fiscal Independente, órgão do próprio Senado, escreveu no relatório de junho que, mesmo com a trajetória um pouco melhor que a projetada em dezembro, o crescimento do endividamento "caracteriza uma situação que pode se tornar insustentável no médio prazo".

Relatório de Acompanhamento Fiscal nº 113 da IFI, junho de 2026, com o trecho grifado: pode se tornar insustentável no médio prazo

No seu bolso

84 milhõesde brasileiros com o nome sujoSerasa, agosto de 2026, recorde
28,9%da renda das famílias vai para dívidasBanco Central, junho de 2026, recorde
2.466empresas em recuperação judicial em 2025Serasa, recorde da série
20%apontam a violência como o maior problema do paísDatafolha, 13 e 14 de outubro

Fontes: Serasa Experian, Banco Central, Poder360 e Datafolha.

Então, recapitulando

  • Herdou superávit: R$ 126 bilhões em 2022, pela nota do Banco Central.
  • Fechou os oito anos com maquiagem: meta cortada e PAC descontado em 2009, Petrobras como receita em 2010.
  • A sucessora entregou déficit e recessão: três anos no vermelho e o impeachment.
  • Agora entrega déficit e diz que não é bomba: déficit em 2023, 2024 e 2025, dívida de 82,9% do PIB e o alerta da IFI.

Opinião da Revista De Castro. É bomba, sim. Quem herda R$ 126 bilhões no azul e entrega três anos de déficit não pode dizer que pegou um país quebrado. E tudo começa naquele papel do Banco Central, de janeiro de 2023.

▶ Sabatina de Lula no SBT, 19/10/2026 · A íntegra da entrevista. O trecho sobre a dívida começa perto de 10 minutos.

Perguntas que chegam nos comentários

Lula fez superávit nos oito anos de governo?

Fez, de 2003 a 2010, pelos dados do Banco Central. Em 2009 a meta foi cortada de 3,8% para 2,5% do PIB e o PAC foi descontado; em 2010, a capitalização da Petrobras somou R$ 31,9 bilhões ao resultado.

O Brasil estava quebrado em 2022?

O setor público fechou 2022 com superávit primário de R$ 126,0 bilhões, 1,28% do PIB, segundo o Banco Central.

Quanto é a dívida hoje?

82,9% do PIB em agosto de 2026, R$ 11,1 trilhões, segundo o Banco Central.

Onde baixo a Cartilha 22?

No botão do começo desta página ou comentando BOMBA22 no post da @revistadecastro.

Fontes desta materia

  1. SBT News, sabatina com Lula, 19 de outubro de 2026
  2. CNN Brasil, 19 de outubro de 2026: Orçamento "não é bomba que vai estourar", diz Lula
  3. Poder360, 19 de outubro de 2026: Lula nega "bomba fiscal" e critica a autonomia do BC
  4. Banco Central, Estatísticas Fiscais, nota de 30 de janeiro de 2023 (resultado de 2022)
  5. Banco Central, série 5793: resultado primário do setor público consolidado em % do PIB
  6. FMI, Public Finances in Modern History e Fiscal Monitor: saldo primário do governo geral (Coreia do Sul, Rússia, Argentina)
  7. FMI, Fiscal Monitor (outubro de 2026): resultado primário
  8. Banco Central, Relatório Anual 2009, capítulo 4 (Finanças Públicas)
  9. Banco Central, Relatório Anual 2010, capítulo 4 (Finanças Públicas)
  10. CVM, Resolução 175, artigo 59
  11. IBGE, 9 de novembro de 2018: revisão do PIB de 2016 mostra queda de 3,3%
  12. Senado Notícias, 31 de agosto de 2016: por 61 votos a 20, Senado aprova o impeachment de Dilma Rousseff
  13. Banco Central, Estatísticas Fiscais de 2023, 2024 e 2025
  14. CNN Brasil, 24 de setembro de 2026: governo vê resultado fiscal pior para 2026 e eleva estimativa de rombo
  15. Banco Central, Estatísticas Fiscais, nota de 30 de setembro de 2026 (dívida bruta de 82,9% do PIB)
  16. IFI do Senado, Relatório de Acompanhamento Fiscal nº 113, 25 de junho de 2026
  17. Serasa Experian, Indicadores Econômicos (inadimplência de agosto de 2026)
  18. Banco Central, Estatísticas Monetárias e de Crédito, 28 de agosto de 2026 (comprometimento de renda)
  19. Poder360, 7 de abril de 2026: recuperações judiciais crescem 13% em 2025 e batem recorde
  20. Folha de S.Paulo, 15 de outubro de 2026: Datafolha, 20% dizem que violência é principal problema do país