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Na segunda-feira, 19 de outubro, na sabatina do SBT, a jornalista perguntou a Lula se a dívida do governo é "uma bomba que vai estourar no ano que vem". Ele respondeu: "Não é bomba que vai estourar". Na mesma entrevista, disse que pegou "um país quebrado, com déficit de 2,8%", que nos primeiros oito anos fez "superávit primário em todos os anos" e que foi "o único presidente do G20" a fazer isso.
A gente abriu os documentos. Cada frase abaixo tem o papel de onde saiu.
Ficha 1: a herança
O primeiro papel é uma nota do Banco Central de 30 de janeiro de 2023, um mês depois da posse. Ela traz o resultado das contas públicas de 2022, o último ano de Bolsonaro.

O setor público fechou 2022 com superávit primário de R$ 126,0 bilhões, 1,28% do PIB. Em 2021, já tinha sido superávit, de R$ 64,7 bilhões. Foram dois anos seguidos no azul. O número de 2,8% de déficit que Lula citou não aparece no resultado primário de 2022.
E o "único presidente do G20"? Os dados do FMI mostram superávit primário todos os anos na Coreia do Sul de 1999 a 2014, na Rússia de 2000 a 2008 e na Argentina dos Kirchner de 2003 a 2007. Os três países são do G20.
Ficha 2: os oito anos
É verdade que o setor público fez superávit primário de 2003 a 2010. O que a frase de Lula não conta está nos dois últimos anos.
Fonte: Banco Central, série 5793 (resultado primário do setor público consolidado, % do PIB).

- 2009. O Relatório Anual do Banco Central registra que a meta de superávit, de 3,80% do PIB, foi reduzida para 2,50% por lei em outubro daquele ano. E que a meta ainda podia ser cumprida com o desconto dos investimentos do PAC, da ordem de 0,57% do PIB.
- 2010. Na capitalização da Petrobras, o governo recebeu R$ 74,8 bilhões pela cessão onerosa do pré-sal e pagou R$ 42,9 bilhões em ações. A diferença, R$ 31,9 bilhões, entrou como receita no resultado do ano (Relatório Anual do Banco Central de 2010).

Ficha 3: a sucessora
Todo fundo de investimento é obrigado pela CVM a avisar que "a rentabilidade obtida no passado não representa garantia de resultados futuros". Depois dos oito anos veio Dilma Rousseff, a sucessora que Lula escolheu.
Fontes: Banco Central (série 5793), IBGE e Senado Federal.
Ficha 4: agora
Na sabatina, Lula disse: "Não tem nada, veja, nós estamos entregando um orçamento com superávit primário". O superávit é a promessa para 2027. O que saiu de verdade, no governo dele, foi déficit todos os anos.
Fontes: Banco Central (notas de estatísticas fiscais) e CNN Brasil (previsão do governo para 2026).
A dívida bruta do governo era de 71,7% do PIB em dezembro de 2022, na série revisada do Banco Central (a nota da época dizia 73,5%). Em agosto de 2026, chegou a 82,9% do PIB, R$ 11,1 trilhões.
E a Instituição Fiscal Independente, órgão do próprio Senado, escreveu no relatório de junho que, mesmo com a trajetória um pouco melhor que a projetada em dezembro, o crescimento do endividamento "caracteriza uma situação que pode se tornar insustentável no médio prazo".

No seu bolso
Fontes: Serasa Experian, Banco Central, Poder360 e Datafolha.
Então, recapitulando
- Herdou superávit: R$ 126 bilhões em 2022, pela nota do Banco Central.
- Fechou os oito anos com maquiagem: meta cortada e PAC descontado em 2009, Petrobras como receita em 2010.
- A sucessora entregou déficit e recessão: três anos no vermelho e o impeachment.
- Agora entrega déficit e diz que não é bomba: déficit em 2023, 2024 e 2025, dívida de 82,9% do PIB e o alerta da IFI.
Opinião da Revista De Castro. É bomba, sim. Quem herda R$ 126 bilhões no azul e entrega três anos de déficit não pode dizer que pegou um país quebrado. E tudo começa naquele papel do Banco Central, de janeiro de 2023.
Perguntas que chegam nos comentários
Lula fez superávit nos oito anos de governo?
Fez, de 2003 a 2010, pelos dados do Banco Central. Em 2009 a meta foi cortada de 3,8% para 2,5% do PIB e o PAC foi descontado; em 2010, a capitalização da Petrobras somou R$ 31,9 bilhões ao resultado.
O Brasil estava quebrado em 2022?
O setor público fechou 2022 com superávit primário de R$ 126,0 bilhões, 1,28% do PIB, segundo o Banco Central.
Quanto é a dívida hoje?
82,9% do PIB em agosto de 2026, R$ 11,1 trilhões, segundo o Banco Central.
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