Revista De Castro

Tecnologia / 25 de setembro de 2026

Eu fui checar

A Meta desligou os anúncios da campanha de Lula. E não disse por quê.

A dez dias do primeiro turno, a conta de anúncios do presidente parou de veicular. A notificação tinha uma frase genérica e nenhuma regra citada. Eu fui atrás de qual norma a Meta usa para desligar um anunciante, do que o TSE pode e não pode fazer, e dos R$ 167,3 milhões que as campanhas já entregaram à empresa. A lição serve para qualquer negócio que vive de tráfego pago.

Publicado
25 de setembro de 2026
Atualizado
25 de setembro de 2026
Editoria
Tecnologia
Leitura
8 min
Fontes
18 citadas
Ricardo Stuckert / PR / Wikimedia Commons, CC BY 2.0
Ricardo Stuckert / PR / Wikimedia Commons, CC BY 2.0

Quarta-feira, 23 de setembro. Faltavam dez dias para o primeiro turno. Quem operava a mídia paga da campanha do presidente abriu o gerenciador e encontrou um aviso de duas linhas.

A conta de anúncios chamada "Eleições 2026 Luiz Inácio Lula da Silva Presidente" tinha parado de veicular.

A frase que a Meta mandou

O texto da notificação, reproduzido pelo O Antagonista, foi este:

"Restringimos sua conta de anúncios porque parece que algumas das suas atividades não seguem nossas regras. Isso significa que você não pode veicular anúncios."

Leia de novo. Nenhuma regra citada, nenhum anúncio apontado, nenhum prazo. A palavra "parece" carrega o peso da decisão inteira.

Se você já perdeu uma conta no Meta Ads, reconheceu o texto. É o mesmo aviso que chega ao dono da pizzaria e ao infoprodutor. A campanha do presidente da República recebeu a mesma frase padrão.

O que a campanha respondeu

Na quinta-feira, 24, o PT e a coligação Brasil Pronto pra Mais protocolaram um recurso na plataforma com prazo de seis horas para reativar a conta.

O documento classifica a decisão como tomada "de forma unilateral, imotivada e desamparada de qualquer justificativa objetiva", com "grave risco à paridade de armas do candidato no pleito eleitoral", e diz que "qualquer período impossibilitado de veicular anúncios representa um dano irreparável ao candidato".

Éden Valadares, secretário nacional de Comunicação do PT, disse no mesmo dia que estuda levar o caso ao TSE para obrigar a empresa a explicar três coisas: por que desligou, por quanto tempo, e qual o dano.

A contradição que ficou de pé

Aqui entra o detalhe que quase toda cobertura embolou.

A Meta informou à Folha de S.Paulo que a página voltou a funcionar ainda na quarta-feira, sem dizer o motivo da suspensão. Só que o recurso protocolado na quinta fala da conta de anúncios.

São dois objetos diferentes dentro da Meta. A Página é o perfil público, onde o post aparece. A conta de anúncios é a estrutura que paga e distribui. Uma pode estar no ar com a outra desligada.

Não localizei confirmação independente de que a conta de anúncios tenha sido reativada. Registro como não confirmado.

Qual regra a Meta invoca

Fui ler a política. A Meta pode restringir ou desativar uma conta de anúncios quando entende que houve descumprimento dos Padrões de Publicidade ou dos Termos de Serviço. A central de ajuda para empresas lista as causas mais comuns: anúncios reprovados de forma reiterada, atividade considerada atípica na conta, falha no pagamento e ausência de autorização para anúncios de questões sociais, eleições ou política.

Nenhuma dessas hipóteses foi citada na notificação enviada à campanha.

E a empresa tem escala para errar. Em relatório divulgado no fim de 2025 e analisado pela Fortune, a Meta informou ter detectado e desativado mais de 99% das contas de anúncios ligadas a revendedores que violavam suas políticas de fraude num período de 18 meses, e ter removido ou rejeitado mais de 46 milhões de anúncios. Uma máquina que derruba nessa velocidade derruba inocente junto.

O que o TSE pode, e o que não pode

A legislação eleitoral brasileira é detalhista sobre o anúncio que aparece.

O artigo 57-C da Lei 9.504 de 1997 diz que impulsionamento pago de propaganda eleitoral só pode ser contratado por candidato, partido ou coligação, direto com a plataforma. A peça precisa de identificação clara com a expressão "Propaganda Eleitoral" e o CNPJ do responsável. O parágrafo 3º proíbe impulsionar propaganda negativa contra adversário. A multa vai de R$ 5 mil a R$ 30 mil, ou o dobro do valor gasto quando a conta der mais alto.

A Resolução 23.755, aprovada em 2 de março de 2026, apertou o lado das plataformas: repositório público com os valores investidos, campo obrigatório de declaração de uso de inteligência artificial e planos de conformidade entregues à Justiça Eleitoral.

Repare no que falta nessa lista. Nenhuma norma obriga a plataforma a manter uma conta de anúncios aberta, e nenhuma obriga a dizer qual regra foi violada quando a conta cai. A regulação brasileira cobra transparência sobre o que é publicado. Sobre o que é desligado, ela é muda.

O TSE já mandou desligar campanha, e isso tem endereço: em 31 de agosto deste ano suspendeu a de Renan Santos por perfis não declarados, determinou que as plataformas informassem em 24 horas qualquer publicação do período, sob multa diária de até R$ 50 mil, e liberou no dia seguinte. Foi decisão escrita, com motivo, prazo e recurso. O oposto do aviso de duas linhas.

Quanto dinheiro está nessa conta

ItemValor
Total que as campanhas destinaram à Meta até 20/09/2026R$ 167,3 milhões
Mesmo item na eleição de 2022, corrigido pela inflaçãoR$ 155,4 milhões
Mesmo item na eleição de 2024R$ 207,6 milhões
Crescimento desde 2018316%
Lula, impulsionamento na Meta até 20/09R$ 4,7 milhões
Tarcísio de FreitasR$ 1,9 milhão
Flávio BolsonaroR$ 702 mil
Ronaldo CaiadoR$ 192,6 mil

Os dados vêm da Biblioteca de Anúncios da Meta e da prestação de contas do TSE, em levantamento do UOL reproduzido pelo Olhar Digital, na janela de 22 de agosto a 20 de setembro.

No primeiro mês de campanha, Lula aparece com R$ 2,6 milhões em 21 publicações impulsionadas e Fernando Haddad com R$ 1,3 milhão em 17. A Meta recebeu mais de R$ 144 milhões em 30 dias, contra R$ 57,5 milhões da segunda colocada, a Dlocal. Em toda a campanha de 2022, a empresa faturou R$ 129,7 milhões.

Ou seja: a Meta faturou em um mês de 2026 mais do que na eleição inteira de 2022.

A empresa já desligou um continente

Em 25 de julho de 2025 a Meta avisou que pararia de vender anúncios políticos, eleitorais e de questões sociais em toda a União Europeia. A proibição entrou em vigor em 6 de outubro de 2025. O motivo alegado foi a regulação europeia de transparência em publicidade política, que na avaliação da empresa criava um nível impossível de complexidade e incerteza jurídica.

Vinte e sete países ficaram sem anúncio político no Facebook e no Instagram por decisão de uma empresa privada, com aviso prévio de pouco mais de dois meses.

A lição para quem não é candidato

Tire o Lula da história e o problema continua igual. Se o seu faturamento depende de uma conta de anúncios, você tem um fornecedor que pode interromper o serviço sem aviso prévio, sem motivo declarado e sem prazo de resposta. O suporte é um formulário, e a decisão é de um sistema automatizado.

Três coisas que dá para fazer hoje:

  1. Segunda conta de anúncios e segundo BM já verificados, com meio de pagamento próprio, parados e prontos. Criar depois da queda é tarde.
  2. Lista de e-mail e WhatsApp com base própria. Quem tem público alugado perde o público junto com a conta. Quem tem base perde só a mídia.
  3. Backup do criativo e do público fora da plataforma. Os vídeos, os textos e a documentação de quem converte precisam existir no seu HD, não só no gerenciador.

A campanha do presidente tinha advogado, assessoria e prazo de seis horas. Ainda assim ficou na fila do recurso como qualquer um. Seu negócio não vai ter tratamento melhor.

E a peça do Bad Bunny

No mesmo 23 de setembro, a campanha publicou no Instagram um vídeo com versão em português de "Lo Que Le Pasó a Hawaii", faixa do álbum "DeBÍ TiRAR MáS FOToS", de 2025. Wagner Moura narra a abertura, explicando que "selva" em latim é "silva". A letra adaptada diz "Querem tomar o rio e também a praia. Querem as terras raras, querem que a gente saia".

Uma ressalva de apuração: Correio Braziliense e Metro 1 afirmam que o artista autorizou o uso. O Brasil de Fato registrou que Bad Bunny não se manifestou publicamente. Não encontrei declaração do cantor nem do selo. A autorização, até aqui, é versão da campanha.

O que joga contra, e entra

"Foi censura política da big tech." Não existe prova disso. Também não existe prova do contrário, porque a empresa não explicou nada. A ausência de explicação é o fato apurável, e é grave por si só.

"Foi erro de sistema, acontece com todo mundo." Acontece mesmo, e esse é o ponto. O que muda aqui é a janela de dez dias antes de uma eleição presidencial, quando cada hora de anúncio parado vira voto que não foi alcançado.

"Lula gasta demais em anúncio, mereceu." Gasto declarado e dentro do teto legal não é infração eleitoral. E a régua interna da Meta não é a régua do TSE.

"O TSE devia ter mandado religar na hora." O tribunal regula o conteúdo que sobe. Nenhuma resolução dá a ele o poder de obrigar uma plataforma a manter conta de anúncios aberta.

"Isso é assunto de político." Se a empresa faz isso com quem tem banca de advogados, faz com a sua loja numa terça-feira qualquer.

A resposta

A Meta desligou os anúncios da campanha de Lula em 23 de setembro e não disse por quê. Até o fechamento desta matéria, continuava sem dizer.

O que fica é o desenho do poder: a plataforma que recebeu R$ 167,3 milhões desta eleição pode interromper o serviço de qualquer cliente com uma frase que começa por "parece". O TSE pode multar quem anuncia errado. Não pode obrigar ninguém a explicar por que apagou a luz.

Enquanto essa assimetria continuar de pé, a regra vale para você também. Se o seu negócio depende de uma conta de anúncios, você não tem um canal. Você tem uma permissão que pode ser revogada.

Matéria completa · euthiagodecastro.com.br

Fontes desta materia

  1. Metrópoles, Meta restringe anúncios de Lula a 10 dias do 1º turno, campanha recorre
  2. CartaCapital, Campanha de Lula questiona Meta por suspensão de página de anúncios
  3. O Antagonista, Campanha de Lula dá seis horas à Meta para reativar conta de anúncios
  4. Poder360, Campanha de Lula recorre contra bloqueio de anúncios na Meta
  5. Blog Viiish, Meta restabelece página de Lula após restrição a anúncios no Facebook
  6. Olhar Digital, Campanhas eleitorais já destinaram R$ 167 milhões para impulsionar posts nas plataformas da Meta
  7. Jornal de Brasília, Lula e Haddad lideram conteúdos impulsionados na Meta com R$ 3,9 milhões em um mês
  8. InfoMoney, Lula e Haddad lideram conteúdos impulsionados na Meta
  9. TSE, Temas Selecionados, propaganda eleitoral na internet
  10. TSE, Resolução 23.755 de 2 de março de 2026
  11. Desinformante, Eleições 2026, entenda as resoluções do TSE
  12. Meta, Ending Political, Electoral and Social Issue Advertising in the EU
  13. PPC Land, Meta blocks political ads in EU as TTPA regulation takes effect
  14. Meta, Central de Ajuda para Empresas, solucionar problemas de uma conta de anúncios desativada
  15. Fortune, Former Meta integrity chief says new report reveals ad fraud epidemic at the social-media giant
  16. Correio Braziliense, Bad Bunny autoriza versão de hit em propaganda eleitoral de Lula
  17. Brasil de Fato, Lula usa música de Bad Bunny sobre Porto Rico e EUA em peça de campanha sobre soberania
  18. Tribuna de Jundiaí, TSE suspende campanha de Renan Santos, entenda o caso