O Brasil tem dois vizinhos que escolheram caminhos opostos. A Argentina elegeu Javier Milei em 2023, um economista que prometeu cortar o Estado com uma motosserra. A Venezuela viveu 13 anos de Nicolás Maduro, o herdeiro de Hugo Chávez. Aqui estão os números dos dois, lado a lado, com a fonte de cada um.
Primeiro, o que você veio buscar pelo código: o placar dos dois países.
O placar: Argentina x Venezuela
| Argentina de Milei | Venezuela de Maduro | |
|---|---|---|
| Inflação | de 211% (2023) para 31,5% no ano (2025); 1,9% ao mês hoje | chegou a 130.060% no ano (2018) |
| Economia | cresceu 4,4% em 2025, recorde | encolheu 75% de 2013 a 2021 |
| Contas do governo | primeiro superávit em 14 anos (2024), repetido em 2025 | hiperinflação de 2017 a 2021 |
| Pobreza | de 52,9% (pico de 2024) para 28,2% (fim de 2025) | 94,5% dos lares pobres em 2021 |
| Salário | o registrado voltou perto do nível de 2023 | salário mínimo de 27 centavos de dólar |
| Petróleo | sem dado comparável | produção caiu de 2,36 milhões para 1,15 milhão de barris por dia |
| Quem fugiu do país | sem dado comparável | 7,9 milhões; 792 mil estão no Brasil |
| Liberdade | eleições livres; o partido de Milei venceu em 2025 | recorde de 1.976 presos políticos; eleição de 2024 sem atas |
| O governante hoje | Milei, eleito e governando | Maduro, preso em Nova York |
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A Argentina que Milei recebeu

Milei tomou posse em 10 de dezembro de 2023. Naquele mês, a inflação foi de 25,5% num mês só, e o ano de 2023 fechou em 211,4%, pelo INDEC, o IBGE da Argentina. Quatro em cada dez argentinos estavam na pobreza. O governo tinha 18 ministérios, e o risco-país, que mede a desconfiança de quem empresta dinheiro, estava em 1.923 pontos.
A inflação: de 211% para 31%
Em 2024, a inflação do ano caiu para 117,8%. Em 2025, para 31,5%, a menor desde 2017. Em setembro de 2026, foi de 1,9% no mês. A inflação de doze meses voltou a subir um pouco em 2026, para 33,4%, mas está longe dos números de 2023.

A motosserra

Os ministérios caíram de 18 para 8. O Estado nacional tem 72.440 cargos a menos do que em dezembro de 2023, pelo INDEC (nem todos são demissões: muitos são vagas que não foram repostas). Os subsídios de luz, gás e transporte caíram cerca de 60%, descontada a inflação. A Transener, de transmissão de energia, foi vendida por US$ 356 milhões.
As contas no azul
Em 2024, o governo gastou menos do que arrecadou, mesmo pagando os juros da dívida: o primeiro superávit financeiro em 14 anos. Em 2025, repetiu. Dois anos seguidos no azul não acontecia desde 2008. De janeiro a setembro de 2026, o resultado segue positivo.
A pobreza

No começo do governo, com o choque do ajuste, a pobreza subiu: chegou a 52,9% no primeiro semestre de 2024. Depois, caiu sem parar até 28,2% no segundo semestre de 2025, a menor desde 2018. Nas cidades medidas pelo INDEC, são cerca de 6 milhões de pessoas a menos na pobreza do que no pico. No primeiro semestre de 2026, o índice subiu para 32,3%, ainda bem abaixo do pico e do ponto de partida.
O aluguel
Milei revogou a lei de aluguéis, que tabelava o reajuste e o prazo dos contratos. Em Buenos Aires, a oferta de imóveis para alugar subiu 326%, e o preço dos anúncios caiu 32,9% acima da inflação, pelo levantamento citado pelo Chequeado.

O país voltou a crescer
Depois de cair 1,7% em 2024, a economia cresceu 4,4% em 2025, um recorde, pelo INDEC. O risco-país caiu de 1.923 para cerca de 600 pontos. As reservas do Banco Central foram de US$ 21,2 bilhões para US$ 50 bilhões. O controle de câmbio para as pessoas acabou em abril de 2025, junto com o acordo de US$ 20 bilhões com o FMI.
Rosário, a cidade mais violenta

Rosário, a cidade do narcotráfico na Argentina, teve 262 homicídios em 2023. Em 2025, foram 115, uma queda de 56%, pelo Observatório de Segurança de Santa Fé. No país inteiro, a taxa de homicídios de 2025 foi de 3,6 por 100 mil habitantes, a menor já registrada, segundo o Ministério da Segurança.
Agora, a Venezuela

Em 1950, a Venezuela tinha o maior PIB por pessoa da América Latina, pelos dados do economista Angus Maddison, e ficou no topo até o começo dos anos 1980. Em 2013, Nicolás Maduro assumiu.
A economia encolheu 75%
De 2013 a 2021, a economia da Venezuela encolheu 75%, pela CEPAL. Em dólares, o FMI calcula uma queda de 83,5%. A produção de petróleo, a maior riqueza do país, era de 2,36 milhões de barris por dia em 2013; em setembro de 2026, foi de 1,15 milhão, pela OPEP.
A hiperinflação

Em 2018, a inflação chegou a 130.060% no ano, pelo próprio Banco Central da Venezuela. A Assembleia Nacional calculou 1.698.488%. O salário mínimo está congelado em 130 bolívares desde 2022: hoje vale cerca de 27 centavos de dólar. Em setembro de 2026, a inflação ainda foi de 8,4% num mês só.
A maior fuga da história da América Latina

Cerca de 7,9 milhões de venezuelanos deixaram o país, pelo ACNUR. Só no Brasil estão 792.147, pela plataforma R4V. A Operação Acolhida já levou mais de 157 mil deles de Roraima para outras cidades do país.
A fome

Em 2021, 94,5% dos lares venezuelanos estavam na pobreza, pela pesquisa ENCOVI, da Universidade Católica Andrés Bello. Pela FAO, até 7 milhões de pessoas passaram fome entre 2018 e 2020. Em 2019, faltava mais de 60% dos remédios, segundo a ONG Convite.
A repressão

Foram 43 mortos nos protestos de 2014, 163 nos de 2017 e 25 nos de 2024. O Foro Penal contou o recorde de 1.976 presos políticos em novembro de 2024. Em 2020, a Missão da ONU concluiu que houve crimes contra a humanidade e que Maduro e seus ministros sabiam.
A eleição de 2024 e a prisão
Na eleição de 28 de julho de 2024, o conselho eleitoral declarou Maduro eleito com 51,2%, sem publicar as atas por mesa. A oposição reuniu 83,5% das atas: Edmundo González tinha 67%, Maduro, 30%. O Centro Carter chamou a vitória de González de "clara". Em 2025, a líder da oposição, María Corina Machado, ganhou o Nobel da Paz.

Em 3 de janeiro de 2026, uma operação militar dos Estados Unidos prendeu Maduro em Caracas. Ele está preso em Nova York, acusado de narcoterrorismo, tráfico de cocaína e armas. O julgamento está marcado para junho de 2027. A vice dele, Delcy Rodríguez, governa como interina e ainda não marcou eleição.
Lula e Maduro

Em 29 de maio de 2023, o Lula recebeu Maduro em Brasília e disse: "Você sabe a narrativa que se construiu contra a Venezuela, de antidemocracia e do autoritarismo." No dia seguinte, o presidente do Chile, Gabriel Boric, que é de esquerda, respondeu: "Não é uma construção narrativa, é uma realidade."
Em 30 de julho de 2024, dois dias depois da eleição sem atas, o Lula disse: "Não tem nada de anormal." Em agosto, chamou o governo de Maduro de "regime muito desagradável", mas disse que "não é uma ditadura". Quando os EUA prenderam Maduro, em janeiro, o Lula disse que a operação "ultrapassa uma linha inaceitável", e em fevereiro defendeu que Maduro fosse julgado na Venezuela.
Milei e o Flávio

Em julho, Milei foi à convenção do PL em São Paulo e declarou apoio ao Flávio Bolsonaro.
Perguntas rápidas
Quanto a inflação caiu na Argentina com Milei?
A inflação do ano foi de 211,4% em 2023 para 31,5% em 2025, a menor desde 2017, pelo INDEC. Em setembro de 2026, a inflação do mês foi de 1,9%.
A pobreza caiu na Argentina?
Depois do pico de 52,9% no primeiro semestre de 2024, caiu para 28,2% no segundo semestre de 2025. No primeiro semestre de 2026, subiu para 32,3%, ainda abaixo do ponto de partida.
Quanto a economia da Venezuela encolheu com Maduro?
75% de 2013 a 2021, pela CEPAL. A inflação chegou a 130.060% em 2018, pelo Banco Central da Venezuela.
Quantos venezuelanos deixaram o país?
Cerca de 7,9 milhões, pelo ACNUR. No Brasil são 792 mil, pela plataforma R4V.
Onde está Maduro hoje?
Preso em Nova York desde janeiro de 2026, depois de uma operação militar dos Estados Unidos. Ele responde por narcoterrorismo, e o julgamento está marcado para junho de 2027.
Minha opinião
Esta parte é opinião minha, Thiago de Castro.
São dois vizinhos, com petróleo, gente trabalhadora e problemas parecidos. Um escolheu cortar o Estado, abrir a economia e deixar o preço livre. O outro escolheu o Estado gigante, o controle de preço e o controle da imprensa. O resultado está nos números: a Argentina voltou a crescer, e a Venezuela perdeu três quartos da economia e um quarto da população.
Argentina ou Venezuela? No dia 25, o Brasil escolhe o caminho.







